Para Onde Foi Para o Tempo? Ele Fugiu da Mente


Jornal Folha de São Paulo - por Benedict Carrey

tempo pode passar marchan­do, ou se esvaindo, ou avançando sorrateiramente. Mas às vezes parece ter fugido às pressas como um convidado irritado, deixando conversas ina­cabadas, relacio­namentos sem resolver, metas inalcançadas.

"Se pensamos sobre nossas me­tas e se elas pouco avançaram [rumo à concretização], de repen­te nos parece que foi ontem que nós as definimos", disse Gal Zauberman, professor associado de marketing na Escola Wharton de Administração, na Pensilvânia.

Mas a sensação da passagem do tempo pode ser diferente, disse, "dependendo do que você pensa: sobre o quê pensa, e como".

Na verdade, não se sabe ao cer­to como o cérebro marca o tempo. Segundo uma teoria, o cérebro teria um grupo de células especia­lizadas em contar intervalos de tempo. Outra reza que uma larga gama de processos neurais atua como relógio interno.

De uma forma ou outra, cons­tatam estudos, esse cronômetro biológico não faz um trabalho muito exato quando se trata de intervalos mais longos. O tempo parece demorar muito mais a passar em uma tarde ociosa e a passar correndo quando o cére­bro está ocupado com um traba­lho complexo.

E eventos emocionais - um rompimento, uma viagem transformadora - tendem a ser sentidos como mais recentes do que realmente foram. Em suma, dizem alguns psicólogos, as des­cobertas substanciam a observa­ção do filósofo Martin Heidegger de que o tempo "persiste mera­mente como consequência dos eventos que nele ocorrem".

Agora, pesquisadores estão descobrindo que o inverso tam­bém pode ser verdade: se muito poucos eventos vêm à mente, percepção do tempo não persiste o cérebro comprime o intervalo que se passou.

Em estudo publicado no periódico "Psychological Science" Zauberman liderou uma equipe que testou as memórias de estudantes universitários sobre uma série de fatos que foram notícia incluindo a nomeação de Ben Bernanke para presidente do Fed (o Banco Central dos EUA) ocorrida 33 meses antes do estudo, e a decisão da cantora Britney Spears de raspar sua cabeça, ocorrida 20 meses antes. O estudo constatou que os estudantes subestimaram o tempo passado em uma média de três meses.

A descoberta não surpreendeu por completo. Em um experimento clássico, o explorador francês Michael Siffre passou dois meses em uma caverna, sem contato com os ritmos do dia e da noite ou com relógios. Ele emergiu convencido de que passara só 25 dias isolado. Por conta própria, o cérebro tende a condensar o tempo.

Mas, descobriu o novo estudo, a maneira como o cé­rebro fixa o "timing" relativo dos fatos depende da memória.

À medida que os participantes do estudo se recordavam dos fatos relacionados ao acon­tecimento original - a vida de Britney Spe­ars, por exemplo, ou as intervenções de Bernanke na economia -, o acontecimento lhes parecia ter ocorrido havia mais tempo.

Os pesquisadores testaram memórias pessoais e memórias de clipes de filmes vistos em la­boratório. O padrão se manteve: quanto mais fatos as pessoas se recordassem que tivessem ocorrido entre os acontecimentos originais e o momento presente, mais tempo atrás parecia ter pas­sado o evento original.

Mas a pesquisa indica que o cé­rebro tem mais controle sobre sua própria percepção do tempo do que as pessoas talvez saibam. É precisamente porque elas agiram dentro de um plano ou com uma meta que lhes pareceu que o tem­po tinha passado voando.

Contrastando com isso, novas pesquisas sugerem que focar, em lugar disso, em metas e desafios que foram de fato resolvidos du­rante o ano proporciona ao cére­bro a oportunidade de preencher o ano que se passou com memórias e com tempo apreendido.

    Administração do Tempo

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