Paternidade, um Bom Negócio para a Carreira


Pesquisa de universidade americana mostra que ser pai valoriza o homem no trabalho, que passa a ser visto como mais dedicado e responsável.

Revista Istoé - por Adriana Prado

Ser pai é ... ganhar valor no mercado de trabalho. Se para a mulher a materni­dade pode ser vista como algo proble­mático - supostamente porque a nova mãe terá que se dedicar muito ao bebê e sobrará menos tempo para a profissão -, o novo pai, ao contrário, é visto de forma positiva nas empresas. É o que sugere a recente pesquisa qualitativa feita pelo Boston College Center for Work and Family,nos Estados Unidos, com 33 pais de primeira via­gem. A maioria acredita ter subido no conceito dos chefes com o nascimento do primeiro filho. É como se a paternidade fosse um passaporte pa­ra o universo de pessoas sérias, responsáveis, con­fiáveis, pois o novo pai vai se dedicar mais para ser promovido e não perder o emprego. O mesmo raciocínio, porém, não vale para as mulheres. Num estudo semelhante feito pela mesma instituição apenas com novas mães, elas relataram que eram questionadas sobre a possibilidade de conciliar a vida pessoal com a profissional.

O sentimento de valorização acontece no Brasil também. O webdesigner Leandro Tinoco, 29 anos, ficou com a impressão de ter subido um degrau na escala de confiabilidade profissio­nal após o nascimento de Gabriel, seu primeiro filho, há dois meses. "Sempre fui muito partici­pativo no trabalho", diz ele. "Mas senti que ago­ra as pessoas esperam que eu me empenhe ain­da mais porque sou pai de família e, consequen­temente, farei o máxi­mo para garantir meu emprego." Segundo especialistas, a dife­rença entre a maneira pela qual paternidade e maternidade são vis­tas pelo mercado de trabalho está ligada à velha divisão social de papéis, na qual ele é o provedor e ela, a cui­dadora. Como seria o responsável pelo sustento da família, o homem se tornaria um profissional ainda mais comprometido.

Mas o que seria uma vantagem masculina pode ser, também, uma dificuldade adicional para os pais com postura mais moderna, de grande envolvimento na criação dos filhos. "O mercado de trabalho ainda opera nessa lógica pa­triarcal. Se a criança fica doente, o compreensível é a mãe sair correndo do trabalho, não o pai", expli­ca o psicólogo Jorge Lyra, coordenador-geral da ONG Instituto Papai e estudioso do tema há 15 anos. Esses pais participativos teriam a desvan­tagem de não poder, no dia seguinte a uma noite maldormida devido a uma febre do filho. contar com o apoio dos colegas da mes­ma forma que uma mãe insone.

Os homens estão engatinhando no aprendizado da dupla jornada, mas se­guem firmes no objetivo. Numa pesquisa do Families and Work Institute, de Nova York, com casais que trabalham fora, 59% dos pais reportaram alguma dificuldade para conciliar a vida pessoal com a pro­fissional, contra 45% das mães. "Os ho­mens querem ser mais atuantes, assumir mais responsabilidades, porém estão es­barrando em valores tradicionais que influenciam o comportamento não só das empresas como das políticas públicas, como é o caso da licença-paternidade, hoje de apenas cinco dias", afirma a socióIoga Arlene Martinez Ricoldi, que faz uma pes­quisa sobre como homens e mulheres articulam trabalho e família. "Os entrevistados em nosso levantamento relataram dificuldades para expli­car à empresa por que eles levariam o filho do­ ente ao médico, e não a mãe", diz ela.

O desenhista Fábio Filgueiras, 31 anos, admi­te que tem chegado atrasado ao trabalho desde que Gael veio ao mundo, cinco meses atrás. "Ninguém reclamou ainda. Mas acho que, se eu fosse mulher, seria ainda mais compreensível", opina. A headhunter Jacqueline Resch diz que cada empresa reage de forma diferente à situação. "Não vejo o assunto sendo muito discutido, ainda", afirma. Entretanto, já há corporações que concedem mais benefícios aos pais por conta própria, apostando justamente que o profissional saberá compensar se dedicando mais ao trabalho e vestindo a camisa para não perder o emprego que garante o sustento da família.

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