Percepção Súbita


Psicólogos definem insigt como a compreensão repentina de alguma coisa. Esse conhecimento espontâneo nos ilumina com mais rapidez quanto maior for nossa capacidade de encarar problemas de um ângulo bem diferente do habitual.

Revista Scientific American - por Günther Knoblich e Michael Öllinger

"Senhor Einsten, como foi que fez isso?", perguntou Max Wertheimer ao inventor da teoria da relatividade em 1916. O psicólogo gestaltista queria descobrir como pensava alguém cujos lampejos geniais haviam revolucionado a mecânica clássica. Einstein sabia mais que os outros? Pensava de forma mais lógica? Ou tudo não tinha passado de simples acaso?

O físico contou ao psicólogo que, quando refletia sobre espaço, tempo e velocidade, costumava imaginar-se cavalgando um raio de luz ou correndo a seu lado, para então perguntar-se se a luz pararia, caso corrêssemos ao lado dela na velocidade da luz.

Um tanto estranho, talvez - mas possivelmente o verdadeiro segredo do sucesso de Einstein. Nascido na cidade alemã de Ulm, o físico matutou durante anos sem chegar a parte alguma. Sua intuição lhe dizia que havia algo errado no modo como a física concebia o mundo. Mas, o que era? Então, de repente, acertou em cheio com uma espécie de experimento mental: se dois raios atingem uma linha férrea ao mesmo tempo, mas a certa distância um do outro - perguntou-se -, nós percebemos esses dois eventos como simultâneos?

A resposta é positiva se nossa localização for a uma mesma distância dos dois pontos atingidos. Mas, caso seja num trem em movimento, viajando entre os dois ráios, veremos um deles um átimo antes do outro, mesmo estando exatamente no meio dos dois pontos fulminados.

  • Lampejo nos trilhos

    A observação, portanto, não depende apenas de nossa posição no espaço, mas também de estarmos ou não em movimento. Portanto só podemos falar em "simultaneidade" levando em conta nosso movimento em relação ao evento observado. O conceito de simultaneidade perde, assim seu sentido absoluto. Foi graças a esse lampejo que Einstein revolucionou nossas concepções de tempo e espaço, elaborando a teoria da relatividade.

    E, de quebra, estimulou a pesquisa da psicologia gestáltica acerca do insight - ou seja daquela percepção súbita que precede tantas descobertas científicas. Wertheimer sabia que o insight de Einstein estava, sem dúvida, vinculado a seu conhecimento da física e à faculdade do pensamento lógico. Decisiva, porém, havia sido a capacidade de contemplar problemas físicos de modo diverso do habitual libertando-se de pressupostos tidos até então por irrefutáveis.

    Em resumo: Einstein era um mestre na reestruturação de problemas.

    Na primeira metade do século XX, Max Wertheimer, Wolfgang Kühler, Karl Duncker e Kurt Koffka aplicaram o conceito de reestruturação não apenas no estudo das idéias geniais e das invenções revolucionárias. Na verdade, estavam convencidos de que se tratava de um processo fundamental do pensamento capaz de levar todo e qualquer ser humano a ter percepções súbitas e originais. Insights rearranjam de forma correta e fulminante as peças do quebra-cabeça, de modo a ensejar uma "boa configuração" - ou gestalt. E eis aí o conceito que deu nome a toda uma escola da psicologia.

    Contudo, a partir da década de 50 - quando os psicólogos gestaltistas já estavam cobertos da poeira dos "clássicos"-, os estudiosos do pensamento voltaram sua atenção para outros fenômenos. Estavam fascinados com os processos cognitivos que, como num computador, avançam passo a passo, e não aos saltos e de maneira imprevisível, como ocorre quando se experimenta uma súbita descoberta. Foi somente a partir da década de 80 que a psicologia cognitiva retomou a pesquisa do insight - de resto, produzindo ela própria, de lá para cá, numerosos insights a respeito do tema.

    Todos sabemos por experiência própria que, às vezes, a solução de um problema nos vêm à mente de forma absolutamente repentina. De súbito, o nó se desfaz, cai a ficha, surge uma luz e a solução parece tão óbvia que nos espantamos de não ter chegado a ela muito antes. Mas, no estudo desse fenômeno, os pesquisadores deparam já de saída com uma dificuldade metodológica: como produzir tais lampejos de maneira sistemática, de modo a investigá-los em experimentos psicológicos?

    Observemos o problema já empregado por Wertheimer. Ele nos apresenta um paralelogramo sobreposto a um quadrado. As medidas dos lados A e B são dadas. O problema consiste em obter a soma das duas áreas. Primeiro, tente resolvê-lo sozinho - pode ser a sua chance de experimentar um súbito lampejo.

    E aí? Conseguiu? Se sim, de que forrma procedeu? Em primeiro lugar, você provavelmente empregou as fórmulas já conhecidas para calcular as áreas. Ou seja, deve ter chegado com muita rapidez à área do quadrado (A x A). Mais chatinho, porém, é descobrir a do paralelogramo. O que quer que a gente faça, fica sempre faltando um dado. Nada dá certo, e a solução parece impossível.

  • Veja de outro jeito

    Até aqui, parece um beco sem saída: você está patinando sempre no mesmo lugar. O que falta é a idéia brilhante. E ela é a seguinte: não se trata de calcular as áreas isoladas do quadrado e do paralelogramo, e sim de ver o problema de outro modo, literalmente: ou seja, enxergar nele dois triângulos isósceles que, com um pequeno deslocamento, formam um retângulo. A resposta, portanto, &ea acute; A x B.

    Não é pela via do pensamento lógico que se chega à necessária reestruturação, à nova visão das coisas, Ela aparece, em grande medida, de forma inconsciente. De um momento para outro, a percepção dos elementos que compõem o problema vira de cabeça para baixo: um quadrado e um paralelogramo transformam-se em dois triângulos isósceles que, juntos, formam um retângulo.

    É notável a experiência particular e subjetiva que vivemos num momento de percepção súbita. Se a reestruturação é bem-sucedida, nós próprios, ao solucionar o problema, nos surpreendemos com nosso pensamento. Isso com use traduz numa intensa sensação de descoberta. Diz-se que Arquimedes pôs-se a correr nu pelas ruas de Siracusa, gritando eureca!, quando descobriu o conceito de densidade, o que lhe permitiu provar que a nova coroa de seu rei, Hieron II, não era feita de ouro: a imitação barata apresentou densidade menor que uma barra de ouro de mesmo peso.

    Lampejos dessa natureza nada têm a ver, portanto, com a resolução passo a passo de problemas, à maneira dos computadores. O conhecimento nos chega de forma abrupta, involuntária. É, pois, muito diferente do que ocorre quando fazemos uma operação aritmética, multiplicando, por exemplo, números compostos de vários dígitos. Nesse caso, quase sempre saberemos dizer que passos precisamos dar até o resultado. A cada dígito multiplicado, podemos estimar a que distância estamos da meta final. Mas nos problemas que demandam insight, isso não é possível: eles são de outra natureza.

    É o que comprovam também os estudos da pesquisadora canadense Janet Metcalfe, da Universidade Columbia, Nova York. Ela propôs a voluntários que se debruçassem sobre problemas cuja resolução exigia algum tipo de insight e solicitou-lhes que indicassem, por intermédio das palavras "quente" ou "frio", a que distância se sentiam de encontrar a solução. O resultado foi que, a poucos instantes de experimentar a súbita descoberta, os voluntários se sentiam tão perdidos quanto no começo da empreitada - característica usual nesse tipo de problema.

    "No momento em que temos o insight, intenção e ação se dissociam completamente", escreve com muita propriedade Daniel M. Wegner, psicólogo da Universidade Harvard. A "ação" seria aí o surgimento da idéia, e nosso grito de eureca! indicaria que nosso insight não foi planejado, explica o psicólogo. Não temos a impressão de ter produzido a idéia genial, ainda que decerto a consideremos conhecimento próprio.

    Mas por que é que os insights nos parecem involuntários? Se a idéia que conduz à solução do problema não resulta do empenho voluntário do pensamento, o que, afinal, nos conduz a ela? Por que problemas dessa natureza nos parecem, a princípio, insolúveis, se, na verdade, dispomos do saber necessário para resolvê-los?

    Stellan Ohlsson, pesquisador do fenômeno do insight na Universidade de Illinois, Chicago, desenvolveu uma teoria que fornece respostas a essas perguntas. De acordo com ela, ao contemplar um problema, a primeira coisa que fazemos é construir uma representação mental - ou seja, uma espécie de imagem interior - na qual só entram determinados aspectos. É como um mapa do metrô, que nos dá a sequência das estações e os eventuais pontos de baldeação, mas não reproduz em escala fiel as distâncias entre as paradas: ressalta, pois, apenas aqueles aspectos da realidade importantes para a utilização do serviço. Para nos orientar pelas ruas da cidade, o mapa com certeza é de pouca valia.

    Do mesmo modo, a representação inicial de um problema seleciona deterrminados aspectos dele. Isso acontece de forma automática: não é possível controlar a "coloração" resultante. Na verdade, contemplamos novos problemas sempre pela lente do saber prévio, acumulado ao longo do tempo. Esse saber, no entanto, não ajuda muito na resolução dos problemas que demandam insight. Ao contrário: ele bloqueia a percepção. Impede que vejamos a questão de outra maneira.

    Quando, então, caímos no beco sem saída, reagimos com frustração e desânimo. Os pensamentos divagam, dedicamos cada vez menos tempo a tentativas sistemáticas de resolução ou, então, desperdiçamos nossa capacidade de reflexão em abordagens que já se mostraram infrutíferas. Nada mais nos ocorre.

    Esse insucesso persistente é, segundo Ohlsson, precisamente a força motriz da reestruturação. Têm início, então, diversos processos inconscientes que modificam nossa representação interior do problema. De repente, novas possibilidades se abrem, e, de forma inteiramente inesperada, a solução nos vem à mente - solução que, depois, muitas vezes nos parecerá da mais absoluta banalidade.

    Não será, porém, um tanto "forçada" a suposição de Ohlsson de que o saber prévio impede a solução de problemas? Por certo, essa hipótese não se traduz num conselho para que acumulemos o mínimo possível de conhecimentos. Tal estratégia não teria ajudado Einstein. Claro que o saber é indispensável, sobretudo quando se trata de abordar de forma eficaz e rotineira problemas já conhecidos. Influências prejudiciais só se manifestam quando a experiência passada se solidifica de tal forma que acaba bloqueando as novas idéias.

  • Como surge a luz

    Numa série de estudos bastante engenhosos, o gestaltista Karl Duncker demonstrou, já nos anos 20, que o emprego habitual de um objeto restringe seus possíveis usos alternativos. O psicólogo solicitou a voluntários que instalassem finas velas em posição vertical na parede de seu laboratório. Para tanto, tinham vários objetos à disposição: caixas de fósforos e tachinhas, entre outros.

    Aos voluntários cabia ter a idéia de fixar as caixas de fósforos na parede com o auxilio das tachinhas, de modo que servissem de base para as velas. Nesse caso, a necessária reestruturação consistia em empregar as caixas não em sua função habitual de recipiente.

    Uma constatação interessante foi, então, a de que a tarefa era solucionada com mais frequência quando caixas de fósforos (vazias) e tachinhas estavam dispostas lado a lado sobre uma mesa; e com menor frequê ; nos anos 20, que o emprego habitual de um objeto restringe seus possíveis usos alternativos. O psicólogo solicitou a voluntários que instalassem finas velas em posição vertical na parede de seu laboratório. Para tanto, tinham vários objetos à disposição: caixas de fósforos e tachinhas, entre outros.

    Aos voluntários cabia ter a idéia de fixar as caixas de fósforos na parede com o auxilio das tachinhas, de modo que servissem de base para as velas. Nesse caso, a necessária reestruturação consistia em empregar as caixas não em sua função habitual de recipiente.

    Uma constatação interessante foi, então, a de que a tarefa era solucionada com mais frequência quando caixas de fósforos (vazias) e tachinhas estavam dispostas lado a lado sobre uma mesa; e com menor frequência quando as tachinhas estavam dentro das caixas. Tachinhas dentro das caixas decerto ressaltam o uso habitual das últimas como recipientes, o que dificulta seu emprego de maneira diversa. Esse fenômeno da "vinculação funcional" foi a primeira demonstração de que o saber preexistente pode comprovadamente limitar a flexibilidade do pensamento.

    Um discípulo de Wertheimer, Abraham Luchins, mostrou, então, como o emprego repetido dos mesmos passos na resolução de um problema conduz à exclusão de outras estratégias, talvez mais simples. Depois de terem solucionado diversas vezes tarefas semelhantes, seus  voluntários atinham-se sempre ao mesmo procedimento, empregando-o seguidamente, mesmo quando dispunham de solução mais simples. Luchins atribuiu o fenômeno a um "problema de predisposição"; a predisposição a determinado método nos faz cegos para procedimentos mais eficazes.

    Num estudo de 1998, ]ennifer Wiley, da Universidade de Pittsburgh, Pensilvânia, examinou em que medida a especialização caminha lado a lado com a incapacidade de enxergar as próprias deficiências. Seus voluntários deveriam encontrar uma palavra que, combinada a cada uma de três outras, resultasse sempre num composto significativo. Por exemplo: que palavra se pode combinar com "estar", "jantar" e "espera"? A palavra "sala"; sala de estar, sala de jantar, sala de espera.

  • O Dilema dos especialistas

    Metade dos voluntários de Wiley era composta de fãs de beisebol, a outra desconhecia o esporte. Todos eles foram apresentados a dois conjuntos de palavras. O primeiro começava com a palavra "plate", ensejando fácil combinação no âmbito do beisebol; as duas outras eram "broken" e "rest". "Home" era a palavra alvo, a que permitia as três combinações. "Home plate" é a última base que o jogador precisa tocar para fazer o chamado "home run" - a jogada máxima de ataque no beisebol. "Broken home" (lar desfeito) e "rest home" (descansar em casa) são também combinações significativas.

    No segundo conjunto, a terceira palavra foi trocada: "plate", "broken" e "shot" (tiro). A palavra-alvo passou a ser "glass": "plate glass" (vidro laminado), "broken glass" (vidro quebrado) e "shot glass" (copinho com uma dose de uísque).

    O que se verificou foi que a metade dos voluntários especializada em beisebol teve mais problemas com o segundo conjunto que a não especializada. Os fãs do esporte têm mente direcionada de tal maneira para o âmbito do beisebol pela palavra "plate" que sua dificuldade é muito maior em combiná-la com "glass". Em suma: o saber prévio inibe a percepção.

    Outra questão intimamente ligada a essa é em que medida o saber prévio impede a identificação do ponto crucial para a resolução de um problema - isto é, em que medida ele nos impede de decidir onde, afinal, esse ponto crucial poderia estar. Indentificá-lo é, decerto, tão importante quanto dirigir a atenção para os aspectos críticos do problema a solucionar.

    Com o intuito de investigar essa questão, desenvolvemos, para nossos próprios estudos, diversos problemas aritméticos com palitos de fósforo, propostos a nossos voluntários. A tarefa consiste em mover - mas não remover - um único palito, a fim de produzir a correta igualdade aritmética. A solução só pode conter algarismos romanos e os sinais de mais, menos e igual.

    Nossos voluntários acharam fácil a primeira tarefa: quase todos obtiveram êxito em menos de dois minutos. A segunda tarefa, ao contrário, revelou-se bem mais difícil: só um terço conseguiu resolvê-la em dois minutos. E, passados cinco minutos, um quarto deles ainda se torturava em busca da solução. Como explicar essa diferença?

  • Igual, não: menos

    É provável que atue aí inconscientemente o nosso saber prévio. Todos aprendemos na escola que, na resolução de problemas aritméticos, mexemos sobretudo com valores. Em consonância com esse aprendizado, os voluntários começam a mover, antes de mais nada, apenas os palitos que lhes possibilitem alterar valores.

    Na primeira tarefa, isso funciona muito bem. Percebe-se rapidamente a possibilidade de transformar IV em VI, e está resolvido: VI = III + III. Na segunda, porém, essa estratégia fracassa. A restrição introduzida pela noção de que os sinais de mais, menos e igual são inalteráveis conduz a um beco sem saída.

    É somente quando ampliamos a noção do que seria o ponto crucial que novas possibilidades de solução se apresentam. Mover um palito do sinal de igual, à esquerda, para junto do sinal de menos, à direita, resulta na expressão correta: IV - III = I.

    Assim como ocorre na percepção do problema do quadrado e do paralelogramo, a noção do ponto crucial não se deixa ampliar de forma consciente - na tentativa de resolução do problema, não sabemos que possibilidades estamos deixando de considerar. Isso nós percebemos só no momento mesmo em que chegamos à solução.

    Em nossos experimentos, medimos os movimentos do olhar efetuados pelos voluntários na resolução dos problemas. No caso da aritmética dos palitos de fósforo, notamos que, de início, as pessoas fixam o olhar por muito mais tempo e com maior frequência nos valores da equação tendendo a desconsiderar os operadores (mais, menos e igual).

    Se

    • Leitura Dinâmica e Memorização

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