Perfil profissional: os jovens dos sonhos


Um número recorde de brasileiros com menos de 30 anos sonha em empreender. É possível atraí-Ios para as grandes empresas. Mas, para isso, é preciso repensar os processos de seleção.

Revista Exame - por Ana Luiza Leal

O estudante Thomas da Luz de 23 anos, que cursa o último ano de administração de em­presas na Fundação Ge­tulio Vargas, em São Paulo, é inquieto por natureza. Na adolescência, fez in­tercâmbio na África do Sul e na Repú­blica Tcheca. Na faculdade, conciliou os estudos com a diretoria de uma em­presa júnior, a monitoria de uma tur­ma e a elaboração de um plano de ne­gócios para uma cooperativa de cata­dores de lixo. Em meio a tudo isso, sonhava em criar um negócio para aproveitar os investimentos na Copa do Mundo e na Olimpíada. Ter um em­prego tradicional nunca esteve nos pla­nos. Até que, em junho de 2012, ele foi abordado na saída da aula por um jo­vem de sua idade. Quando perguntado sobre o que o faria trabalhar para uma grande empresa, disse que gostaria de empreender lá dentro, criando produ­tos e serviços. Após 1 hora de conversa, o pesquisador revelou que, na verdade, era recrutador da fabricante de refri­gerantes e salgadinhos Pepsico. "Quer estagiar lá? A vaga é para fazer o que você deseja." Ele topou.

Luz e outros jovens recrutados pela Pepsico em 2012 fazem parte de uma geração que anda desencantada com as grandes empresas. Até pouco tempo atrás, trabalhar em um grande grupo, com um plano de carreira estável, era o sonho de dez entre dez jovens brasi­leiros. Mas um time cada vez maior começa a romper com essa lógica. Uma pesquisa inédita da Endeavor, organi­zação global de apoio ao empreende­dorismo, mostra que seis em cada dez jovens brasileiros querem ter seu pró­prio negócio. É um dos índices mais altos do mundo. As universidades brasileiras também oferecem mais cursos de empreende­dorismo do que a média mundial. A edição 2012 da pesquisa Empresa dos Sonhos dos Jovens, feita pela consul­toria de recursos humanos Cia de Ta­lentos, revela que, logo abaixo de Pe­trobras, Google e Vale, a empresa con­siderada como dos sonhos foi "a minha própria empresa". "Essa geração cresceu em um ambiente econômico mais estável. Eles não têm medo de arriscar, e veem muitas oportunidades pela frente", diz Clara Linhares, professora de gestão de pessoas da escola de ne­gócios Fundação Dom Cabral. São jo­vens como o administrador Marcio Furtado, de 28 anos. Em 2008, ele saiu do banco de investimento Itaú BBA frustrado pela falta de oportunidades. No mesmo ano, abriu a empresa de serviços financeiros Cash Monitor, que atende 40 clientes, como Avianca e Azul Trip. Atualmente, Furtado anali­sa propostas de 12 fundos de investi­mento. "Sempre quis ter meu negócio para aproveitar as oportunidades no mercado financeiro", diz.

Esse desejo de empreender é uma ótima noticia para o país, mas represen­ta um desafio para as grandes empresas. Os jovens que sonham em ter seu negó­cio podem até nunca tirar os planos do papel. Mas eles relutam em aceitar ofer­tas de emprego tradicionais. "Os jovens empreendedores querem ganhar di­nheiro, claro. Mas, para eles, autonomia é mais importante. Poucas empresas brasileiras perceberam isso e estão pre­paradas para atraí-Ios", diz Amisha Mil­ler, autora do estudo da Endeavor. Um dos sinais dessa mudança de mentali­dade é a perda de força dos programas de estágio e trainee tradicionais. Um estudo da Cia de Talentos revela que o número de inscritos nos cerca de 300 programas de trainee no Brasil caiu 30% em 2012. Para reverter o quadro, o alto escalão das empresas passou a con­versar com os candidatos. João Castro Neves, presidente da fabricante de be­bidas Ambev, participa de fóruns na internet e liga para convencer alguns jovens a virar trainee.

As seleções em massa costumam ter pouco efeito com essa turma. Por isso, cada vez mais empresas seguem o ca­minho da Pepsico - vão até as uni­versidades e recrutam os estudantes a dedo. A prática virou até negócio. A empresa de pesquisa paulistana Box 1824, especializada no público jovem, lançou no fim de 2011 um braço de recrutamento que levou até agora 200 jovens para grandes empresas. Hoje, há 50 recrutadores disfarçados de estudantes em faculdades de pon­ta, como o Instituto Tecnológico de Aeronáutica, em São José dos Campos, o Instituto Militar de Engenha­ria, no Rio de Janeiro, e a Escola Po­litécnica da Universidade de São Paulo. A ideia é descobrir, no dia a dia, quem de fato tem perfil empreende­dor, o que não é fácil de perceber em uma conversa de alguns minutos em um processo de seleção tradicional. Pepsico, Ambev, Itaú e Fiat estão en­tre os clientes da Box 1824.

Uma das vantagens de contratar em­preendedores é sua criatividade. São pessoas que, na visão dos recrutadores, têm potencial de criar projetos ou pro­dutos milionários. Uma forma mais segura de captar essas ideias é se associar aos empreendedores que já estão no mercado. A e.Bricks, braço de tec­nologia do grupo de comunicação RBS, comprou fatias em sete startups no fim de 2012. "Olho para o potencial do do­no, que não viria trabalhar aqui de ou­tra forma", afirma Felipe Matsunaga, diretor de aquisições da empresa. Uma das compradas é a Everwrite, que aju­da empresas a identificar a preferência dos internautas. Foi criada pelos mi­neiros Edmar Ferreira, de 26 anos, e Diego Gomes, de 27. Mesmo dentro da e.Bricks, eles têm liberdade para tocar seus projetos. O site comparador de preços Buscapé tem uma estratégia parecida. Há dois anos, lançou o prê­mio Sua Ideia Vale um Milhão, em que
comp pra 30% de uma startup investin­do .reais. A última vencedora foi a Cuponeria, site que emite cupons de desconto para empresas idealizado pela carioca Nara Iachan, que, aos 22 anos, é formada em economia com MBA em gestão.

Depois de recrutar essa turma, O de­safio é criar um ambiente que estimu­le o empreendedorismo. De nada adianta trazer jovens brilhantes e cheios de iniciativa para, no dia seguin­te, colocá-Ios para fechar balanços ou outras tarefas burocráticas. Eles de­mandam autonomia e um contato di­reto com o alto escalão para trocar ideias e pensar em projetos. O banco Santander perguntou no ano passado a um grupo de jovens funcionários promissores o que estava faltando na rotina deles. A resposta foi acesso ao alto escalão. Desde então, foram reali­zados quatro encontros, o último deles com Marcial PorteI a, presidente do banco no Brasil. Os jovens empreen­dedores podem ser cada vez mais nu­merosos, mas não são, obviamente, o único perfil de iniciante buscado por grandes empresas. Jovens interessados em áreas técnicas ou em gestão vão continuar a ser fundamentais para qualquer negócio. "As empresas vão continuar precisando do jovem que sonha em ser executivo", afirma Rony Rodrigues, sócio da Box 1824. "Mas são os empreendedores que trarão novos negócios." E é por isso que eles são os jovens que toda empresa quer ter.

• Um plano para empreendedores

A estratégia de algumas empresas para atrair e motivar jovens que sonham em ter negócio próprio - e não em ser funcionários de um grande grupo.

1 - Recrutar nas universidades

A Pepsico mandou jovens recrutadores disfarçados procurar talentos dentro de universidades. A ideia era conhecer, no dia a dia, aqueles com perfil empreendedor. Dez estagiários foram contratados.

2 - Comprar as boas ideias

Para atrair empreendedores, o grupo de mídia RBS tornou-se sócio de sete empresas de tecnologia em 2012. "Olho para o potencial do dono, que não viria trabalhar aqui de outra forma", diz Felipe Matsunaga, diretor de aquisições

3 - Abrir portas com os figurões

Empreendedores são ambiciosos por natureza. Em 2012, o banco Santander começou um projeto que permite a um grupo de jovens funcionários ter contato direto com os altos executivos. Foram realizados quatro encontros, o último deles com o presidente Marcial Portela.

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