Perigosos preconceitos


Perigosos preconceitos.

Revista Mente & Cérebro por Arnd Florack e Martin Scarabis.

Amplamente disseminados, os pensamentos preconcebidos em relação a pessoas e culturas causam imensos danos sociais; uma postura crítica, entretanto, ajuda a aguçar nossa inteligência, rever opiniões e afastar o medo daquilo que incomoda apenas porque é diferente de nós.

Na calçada, uma jovem pergunta qual o caminho até a rodoviária. A maioria dos passantes lhe dá a informação, somente uns poucos mal-educados ou apressados seguem adiante, ignorando-a. Um pouco mais tarde, ela retorna ao local para fazer a mesma pergunta. Com uma diferença: a jovem agora veste roupas orientais e um véu lhe recobre a cabeça. O teste foi concebido pelos psicólogos sociais Andreas Klink e Ulrich Wagner para verificar se ela será tratada de forma diferente.

Infelizmente, o resultado dessa pesquisa de campo dos professores das universidades Jena e Marburg, na Alemanha, comprova com todas as letras: o número de pessoas que agora ignoram a suposta estrangeira mais que duplica. Em outros experimentos, os dois psicólogos solicitaram a pessoas com nomes estrangeiros que respondessem a anúncios imobiliários e de emprego. A proposta era observar se haveria comportamento de repulsa por parte do funcionários que recebiam as respostas. A causa, evidente, é uma só: preconceito.

A psicologia caracteriza o preconceito como a presença, profundamente arraigada na memória, de associações negativas vinculadas a pessoas de culturas estrangeiras. Estudos realizados em muitos países evidenciam que todo ser humano nutre várias reservas e age em consonância com elas. Nesse contexto, a violência praticada contra estrangeiros, que em muitos casos culmina com assassinatos, é apenas a ponta do iceberg. Como mostra o teste de Klink e Wagner, o comportamento discriminatório se manifesta sobretudo em situações cotidianas. Os estereótipos, entretanto, não dificultam a vida apenas dos grupos estigmatizados.

Com razão, os psicólogos sociais americanos Robert A. Baron e Donn Byrne observam que pessoas com atitudes preconceituosas vivem em ambiente social carregado de conflitos e medos desnecessários. Sentem constante temor, por exemplo, de ser atacadas ou molestadas por pessoas supostamente hostis, de classe social ou cor de pele diferente da sua. Ou seja, essa postura redunda em considerável queda da qualidade de vida — argumento suficiente para atuar no combate a hábitos socialmente nocivos do cérebro. Mas como fazer isso? Começando a debater o tema? Reeducando pessoas preconceituosas, ou seja, todos nós? Infelizmente, não é tão fácil assim. Se abordado de forma equivocada, o combate aos estereótipos pode, na melhor das hipóteses, ser inócuo. Na pior, levar a uma rejeição ainda maior. Quem deseja de fato acabar com os preconceitos deve compreender que papel eles desempenham em nosso pensamento.

O pesquisador John Dovidio e colegas da Universidade Colgate, nos Estados Unidos, estudam a interação de grupos sociais. Em um de seus experimentos constataram que os preconceitos atuam no plano inconsciente. A associação entre grupos de pessoas e características negativas é estabelecida numa esfera sobre a qual não temos controle.

Como descobrimos juntamente com Herbert Bless, esse fenômeno não se restringe à questão de brancos e negros nos Estados Unidos. Em experiências semelhantes, estudantes alemães também revelaram associações negativas vinculadas a grupos estrangeiros — nesse caso, voltando sua desconfiança contra turcos e poloneses.

Todos os estudos relevantes indicam que o poder dos preconceitos se assenta primordialmente no modo como nossa memória funciona. Tão logo deparamos com um representante de um grupo étnico estranho, a memória põe de imediato à nossa disposição valorações e convicções estereotípicas. A elas podemos recorrer com reduzido esforço cognitivo, e sua influência se faz sentir em nosso juízo e comportamento. Não obstante, processos inconscientes não servem como explicação ou, menos ainda, como desculpa para o comportamento hostil em relação a pessoas de outros grupos étnicos, sociais, religiosos etc. Afinal, para que uma postura automatizada se transforme em opinião expressa ou até mesmo em ação direcionada, é necessário que os preconceitos passem pelo crivo da consciência. É o que se verifica com frequência quando questionamos universitários sobre sua opinião em relação ao tema. Em geral, eles manifestam postura neutra ou positiva. A razão é evidente: nessas circunstâncias, eles têm controle consciente sobre uma eventual opinião negativa.

Na maioria das vezes, podemos decidir a que informação dar peso maior, se às associações evocadas de forma automática ou aos fatos reais — como, por exemplo, quando um travesti nos devolve a carteira que tínhamos perdido. Mas há uma limitação: se somos pressionados pelo tempo curto, se estamos cansados ou se por alguma outra razão, nosso julgamento não resulta de reflexão, em geral os preconceitos se impõem. Ao que tudo indica, a categorização automática atua como uma espécie de mecanismo poupador de energia com o auxilio do qual nosso cérebro processa informações com maior eficiência.

E o que demonstra um experimento do psicólogo Galen von Bodenhausen, da Universidade Noroeste, de Chicago. O pesquisador, que investiga as bases cognitivas dos estereótipos, pediu a alunos que avaliassem casos fictícios de colegas que teriam supostamente cometido um ato ilícito, isto é, colado na prova final, traficado drogas ou agredido alguém fisicamente. Os participantes deveriam indicar a probabilidade de cada colega ter cometido um desses atos. As infrações em questão foram escolhidas com base no estereótipo vinculado a certos grupos étnicos. A venda de drogas associava-se à imagem do negro americano; a trapaça no exame, ao tipo esportivo, associad do ao baixo desempenho acadêmico, e a agressividade, aos latinos.

Singular nesse experimento foi o fato de que os estudantes foram chamados a participar em horários específicos: às 9 da manhã, às 3 da tarde e às 8 da noite. Paralelamente, Von Bodenhausen depreendeu, por meio de um questionário, o ritmo diário de cada participante, identificando tanto os madrugadores quanto os de péssimo humor matinal. O resultado foi claro: alunos com dificuldade para acordar cedo deixaram-se levar por seus preconceitos sobretudo de manhã. Nesse horário, mostraram o maior grau de certeza de que seus “suspeitos” haviam de fato cometido o ato ilícito. Mais tarde, ao longo do dia, revelaram juízo mais claro, baseando-se predominantemente nos fatos descritos. O oposto se verificou em relação aos madrugadores, que, em especial no período da noite, tatearam rumo à armadilha das próprias ideias preconcebidas.

A isso se soma o fato irônico de que, com o tempo, o preconceito reprimido pressiona cada vez mais por expressão. Você já tentou conter uma observação desagradável em relação a seu parceiro ou parceira? E não aconteceu de, no fim, o comentário escapar assim mesmo, talvez no instante menos apropriado? Esses “acidentes cognitivos” ocorrem em breves momentos de desmotivação ou quando estamos menos alertas. A esse respeito, Neil Macrae, do Dartmouth College, em Hanover, Estados Unidos, e colegas conduziram uma pesquisa para investigar a influência exercida por estereótipos sobre o pensamento — e, em particular, de que maneira inibimos racíocinios impróprios.

 Câmera desligada

Em seu experimento, os participantes foram convocados a julgar uma pessoa. A fim de motivá-los a reprimir seus preconceitos, os voluntários foram acomodados diante de uma câmera de vídeo e podiam contemplar a própria imagem numa tela de televisão. De fato, esse truque induziu ao menos alguns deles a encobrir seus preconceitos, até o momento em que a câmera foi desligada. Então, sob a alegação de que um defeito técnico havia ocorrido, a experiência foi repetida com
equipamento desligado. Pessoas que antes haviam conseguido controlar seus preconceitos passaram a dar vazão entusiasmada a estereótipos. O contragolpe da repetição as pegou desprevenidas.

Mas de onde vem essa nossa estranha predileção por padrões de pensamento inexatos e, amiúde, até mesmo danosos? Uma das vantagens é que os estereótipos nos poupam do esforço da reflexão, por simplificar o processamento da informação. Em certas situações, servem também de escudo para a preservação da autoestima. E estudos sociopsicológicos já revelaram indícios de que pessoas com postura positiva em relação a si mesmas externam menos preconceitos.

Convém, no entanto, evitar conclusões precipitadas. Os meios de comunicação têm por prática demasiado frequente partir do pressuposto de que frustrações pessoais conduziriam à discriminação de minorias: "Quanto maior o desemprego, tanto maior a hostilidade aos estrangeiros”. Essa tese, no entanto, é refutada por estudos conduzidos pela psicóloga Jennifer Crocker, da Universidade de Michigan. Segundo ela, a elevação da autoestima pela via do preconceito funciona, paradoxalmente, apenas para as pessoas que já têm autoimagem positiva. As que se têm em baixa conta pouco lançam mão desse recurso. Para elas, desemprego ou insucesso costumam redundar em depressão ou autoagressão.

Por outro lado, é inconteste o fato de que a integração a um grupo pode fortalecer a autoestima. Como deixam claro numerosos estudos, nos definimos acima de tudo com base nessas unidades sociais, destacadas positivamente de outras. Isso por vezes leva o indivíduo a dar preferência a pessoas de seu próprio meio e a desvalorizar as demais.

Mas fica uma questão: o que leva seres humanos a praticar crueldades incompreensíveis contra semelhantes — como a opressão brutal imposta às minorias? Os pesquisadores americanos Sheldon Solomon, Jeff Greenberg e Tom Pyszczynski propõem uma explicação com sua Terror Management Theory (teoria do gerenciamento do terror).

O cerne dessa teoria é o medo que os humanos têm da própria morte. A fim de se proteger disso, o homem esboça um sistema de regras de comportamento e de escalas de valores. Viver em conformidade com essas normas lhe dá segurança e o faz sentir-se valoroso. Além disso, muitas culturas prometem aos obedientes a existência após a morte. Assim, se estranhos questionarem a veracidade desse sistema de crenças, como propõem os três pesquisadores, isso mexerá com o medo arcaico da própria finitude. Para estabilizar seu mundo, o homem, agora inseguro, reagirá com preconceitos e comportamento discriminatório. Ainda que soe algo mística à primeira vista, essa teoria tem sido confirmada por numerosas pesquisas.

• Amostra distorcida

Se examinados à luz de critérios objetivos, os preconceitos logo se reduzem àquilo que de fato são: conclusões atabalhoadas e simplificadoras. Ainda assim, somos ao menos capazes de refreá-los mediante o controle e a análise crítica de nossos posicionamentos. Sabemos, porém, que isso com frequência resulta numa luta árdua, que não exclui a possibilidade de reveses ou contragolpes, O melhor é acabar com padrões de pensamento como esse de uma vez por todas, mas isso é mais fácil falar que fazer. Psicólogos sociais, entretanto, identificaram uma série de mecanismos responsáveis pelo preconceito: para justificá-lo, recorremos a uma amostra distorcida; contemplamos o grupo a que pertencemos como diferenciado; os demais, como massa homogênea; o que contraria o estereótipo é visto como exceção; buscamos informações que corroborem nosso juízo e desconsideramos aquelas que o questionam; uma mesma ação é interpretada de maneiras diferentes, dependendo de quem a pratica; tanto os preconceituosos quanto as vítimas de preconceitos comportam-se de modo a confirmar os estereótipos.

Examinemos esses pontos um a um. Em primeiro lugar, é preciso considerar o fato de que os seres humanos em geral são péssimos estatísticos. Um exempIo simples. Num pequeno país vivem dois grupos de pessoas. Um deles, de mil habitantes, compõe a maioria da população, ao passo que o outro é constituído de apenas cem pessoas. Supondo que cem membros da maioria e dez da minoria sejam condenados por delitos, você decerto dirá que a criminalidade é idêntica nos dois grupos — afinal, o número de criminosos perfaz 10% em ambos os casos. No dia a dia, porém, não dispomos de cifras tão elucidativas, Em vez disso, percebemos esses acontecimentos isoladamente, seja pelo jornal, seja pelo que ouvimos dizer &mda , dependendo de quem a pratica; tanto os preconceituosos quanto as vítimas de preconceitos comportam-se de modo a confirmar os estereótipos.

Examinemos esses pontos um a um. Em primeiro lugar, é preciso considerar o fato de que os seres humanos em geral são péssimos estatísticos. Um exempIo simples. Num pequeno país vivem dois grupos de pessoas. Um deles, de mil habitantes, compõe a maioria da população, ao passo que o outro é constituído de apenas cem pessoas. Supondo que cem membros da maioria e dez da minoria sejam condenados por delitos, você decerto dirá que a criminalidade é idêntica nos dois grupos — afinal, o número de criminosos perfaz 10% em ambos os casos. No dia a dia, porém, não dispomos de cifras tão elucidativas, Em vez disso, percebemos esses acontecimentos isoladamente, seja pelo jornal, seja pelo que ouvimos dizer — e aí falha nossa lógica: como demonstram inúmeros estudos, mesmo em casos bastante simples, geralmente não somos capazes de, com base em dados isolados, inferir a frequência real e atribuímos à minoria uma taxa de criminalidade maior. Caso ela de fato infrinja a lei com maior assiduidade, esse dado costuma ser superestimado. Psicólogos sociais denominam essa distorção perceptiva de correlação ilusória.Tanto as minorias como os delitos atraem sobremaneira nossa atenção. Armazenamos melhor na memória fatos assim, o que significa evocá-los com maior facilidade — terreno ideal para que o preconceito viceje.

Esse efeito é ainda reforçado por nossa tendência acentuada a, em se tratando de outros grupos, tirar conclusões gerais baseadas em observações isoladas. A crença é de que “nós somos diferentes um do outro, mas eles são todos iguais”, É possível que isso se deva ao fato de conhecermos melhor o grupo a que pertencemos e suas diferenças, enquanto o grupo estranho nos parece um bloco monolítico. Paradoxal é que não generalizemos num único caso: quando a experiência que temos vai ao encontro de nossos preconceitos. Vivências positivas são logo interpretadas como exceções — o negro que integra nosso círculo de amizades é “negro de alma branca”, a mulher que estacionou o carro muito bem teve “sorte” e o professor homossexual é “excêntrico”. Esse mecanismo funciona tanto melhor quanto mais os outros nos surpreendem. E, por fim, essa dialética da exceção acaba por preservar todos os nossos preconceitos. E seguimos buscando informações que corroborem sua opinião e supram as experiências que a refutam — ou então as avalia de modo a preservar o estereótipo.

Os psicólogos sociais Baron e Byrne vão direto ao ponto quando dizem que crianças não nascem preconceituosas: esse comportamento é, portanto, aprendido. E por essa razão que ambos os pesquisadores incentivam pais, pedagogos e professores a deixar de transmitir opiniões estereotipadas. Mas há um problema aí: consideramos nossas opiniões corretas e livres de preconceito. Algo semelhante, portanto, funcionará somente se pais e educadores forem sensibilizados para as próprias opiniões preconcebidas.

Muitos psicólogos defendem o ponto de vista de que o contato com os discriminados diminui os preconceitos pouco a pouco, o que em muitos casos se mostra efetivo.

Mas e o próprio indivíduo, o que pode fazer? Uma atitude inteligente é exercitar nossa autocrítica com tenacidade e buscar juízos objetivos. É importante ainda observar como se comporta nosso ambiente social, pois apenas quando os meios de comunicação e a experiência cotidiana nos revelam que nossas ideias preconcebidas não se aplicam, e nós mesmos enfim o percebemos, nos tornamos capazes de modificá-las. E somente assim é possível combater a discriminação.

• A sedução da fofoca

Nos últimos anos, pesquisadores voltaram sua atenção ao estudo da predileção por falar, em geral com certa malícia, sobre pessoas que não estão presentes. Segundo pesquisadores, a fofoca se presta a uma função social útil para criar vínculos entre os indivíduos.

Na pré-história, quando os seres humanos viviam em pequenos bandos, e o encontro com estranhos era ocorrência rara, a fofoca favoreceu a sobrevivência de nossa espécie, coibindo comportamentos que pudessem enfraquecer o grupo. Um de seus papéis era o de identificar “enganadores flagrantes” (que não retribuem atos altruístas) e “enganadores sutis” (que oferecem muito menos do que recebem).

De acordo com as hipóteses evolutivas, as pessoas estão mais interessadas em comentários sobre indivíduos do mesmo sexo e mais ou menos de sua idade. Informações socialmente úteis sempre são de grande interesse: gostamos, por exemplo, de saber dos dramas pessoais de nossos rivais, artistas, pessoas mais ricas e bem-sucedidas que nós, porque essas informações poderiam ser valiosas na competição social. Já as boas notícias (como a súbita elevação do status social) tendem a ser consideradas desinteressantes.

As informações positivas sobre nossos amigos e parentes são bem atraentes, e é provável que sejam usadas de maneira vantajosa sempre que possível. Nosso cérebro “prefere” deter-se em informações a respeito de pessoas que conhecemos. Qualquer um com quem convivemos (ainda que não pessoalmente, mas vemos frequentemente na TV, por exemplo) se torna socialmente importante para nós. Para psicólogos evolutivos, esse funcionamento mental pode ajudar a entender a paixão moderna pelas celebridades.

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