Período sabático e as lições do ócio


Qual é o benefício de afastar-se do trabalho, dos amigos e da família para mergulhar num período sabático? O que se ganha ao trocar os caminhos do dia a dia por uma jornada interior?

Revista Época - por Ivany Turibio

As perguntas acima en­trecortavam os pen­samentos de Rodolfo Viana quando ele de­ cidiu fazer um balanço da vida profissional e pessoal. A resposta para suas inquieta­ções veio na forma de um tempo para si mesmo: um ano sabático, intervalo na carreira para recarregar a bateria mental. Essa prática se tornou uma aspiração en­tre aqueles que trabalham a mil por hora, por anos a fio. E tem ajudado empresá­rios e altos executivos a reavaliar a vida­ muitas vezes, para reconstruí -la em torno de um novo propósito. Hoje com 44 anos, Rodolfo Viana é diretor superintendente da Bienal de São Paulo. O relato que se­gue conta como foi sua jornada interior.

Dois destinos disputavam sua predi­leção: o Himalaia, no Tibete, ou a cidade de Santiago de Compostela, na Espanha. Por questões climáticas, o Himalaia só poderia ser visitado no :fim do ano. Como ele tinha pressa, escolheu a peregrinação pelo caminho celebrizado pelo cineasta espanhol Luís Buñuel e, anos mais tarde, por Paulo Coelho, no livro O diário de um mago. Desde a Idade Média, essa rota leva peregrinos a pé, a cavalo ou de bicicleta até uma pitoresca cidade da Galícia. Segundo a lenda, foi ali, sob uma chuva de estrelas no céu, que apareceram as relíquias do apóstolo São Tiago.

Apesar de 2010 ser considerado um ano santo (é assim sempre que 25 de julho, o Dia de São Tiago, cai num domingo), de Copa do Mundo, e o mês de julho ser alta temporada na Europa, os fatores positivos pesaram mais que as adversidades. O pau­listano Rodolfo acabava de se demitir de uma multinacional e de interromper uma carreira corporativa de 24 anos com estadias em algumas cidades da Alernanha, Barcelo­na, na Espanha, e Rio de Janeiro. Também tinha acabado de fazer um "outplacement" (consultoria para redirecionamento da car­reira} Ele precisava de uma pausa.

"Eu sempre pensei em fazer essa via­gem. De repente, tinha tempo e preparo fisico. Era agora ou nunca", diz. "O que mais me interessou foi o despojamento: estar sozinho com uma mochila de seis quilos para fazer um balanço do que é es­sencial na vida."Também pesou o gosto de caminhar para "colocar as ideias em ordem".

Em 15 dias, a viagem estava armada e a mochila básica pronta, sem laptop ou celular. A ideia era criar um afastamento total, algo que só foi interrompido even­tualmente por skype para falar com os pais e o companheiro em São Paulo. O caminho francês foi a opção. Há também os caminhos aragonês, português e inglês. Saindo de Saint-jean-Pied-de-Port, na França, o programa era entrar na Espanha por Roncesvalles, no sopé dos Pireneus, e de lá seguir até Compostela. Tudo sem compromisso de tempo ou necessidade de andar uma distância por dia. A única preocupação era chegar até o fim. "Cada um faz seu ritmo. Eu fui com o mínimo de planejamento ", conta Viana.

Metódico e disciplinado, o peregrino partia para a estrada às 6h da manhã ou até antes do nascer do sol, para evitar o ca­lor. Afortunado, não pegou um único dia de chuva durante os 750 quilômetros, per­corridos em 30 dias(entre 1° e30 de julho). Sua programação era andar sempre até as 13h. Diariamente, ele percorria entre 20 e 25 quilômetros. A opção pela travessia mais suave foi recompensada. "Não tive uma bolha no pé. E a essa hora da manhã é uma calma total. Caminhando a 5 km/h, todos os seus sentidos estão à flor da pele: a água do rio, as cores do trigueiral, os sons dos pássaros, tudo fica mais intenso", recorda ele.

Nem religioso nem esotérico, motivações mais comuns para se lançar ao ances­tral Caminho de Santiago de Compostela, Rodolfo atribui a escolha ao acaso e à pro­cura por uma essencialidade. Mas admite que a viagem é intensa e meditativa. "Você anda muito sozinho. Mesmo que ao longo do tempo formem-se grupos. Outra coi­sa é o fato de que andar dirninui o ritmo. Depois de alguns quilômetros percorri­dos, você percebe que desacelerou. Pelo
caminho, cruza regiões que são bucólicas, cidades de outros tempos. É uma escala temporal totalmente diferente", explica.

Como diz o escritor americano Joseph Campbell (1904-1987), "tempo e espaço for­mam as vias sensíveis que moldam nossas experiências". Carinhosamente apelidado de "Google translator", por falar inglês, alemão, francês, espanhol, português e italiano, Rodolfo confirmou a habilidade e o prazer de se relacionar com pessoas diferentes. "Lá ninguém tem referências, todos usam a mesma roupa e se hospe­dam nos mesmos lugares. É uma relação essencial que tira da zona de conforto da classificação a que estamos acostumados. Descobri afinidades mais simples, não por convenções."

Ao final, a sensação era de estar "zera­do", com foco e cabeça limpa. "Sabia que queria fazer algo diferente. Não me deses­perei. Voltei aberto a novas possibilidades." E logo elas surgiram, na forma de duas propostas de trabalho. Ele aceitou a que apresentava o maior desafio e que pouco tinha a ver com sua carreira anterior: a di­reção da Bienal de Artes de São Paulo. "Se tenho uma sensação que ficou da viagem foi a de ter baixado a bola. Ter redefinido prioridades. Esse é o maior luxo. Poder fazer o que você mais gosta e quer. Esse balanço foi muito bom", diz Rodolfo.

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