Por onde andam seus pensamentos?


A ressonância magnética ajuda a mapear os focos de concentração e a entender como o cérebro trabalha quando divagamos ou estamos voltados para algo específico; equipamentos já nos permitem literalmente ver a atividade neurológica.

Revista Scientific American por Ingrid Wickelgren

Quantas vezes você já foi a um cômodo de sua casa porque sabia que tinha ido até lá buscar um objeto, mas não lembrava o que havia ido pegar? Ou talvez tenha ficado em uma reunião ou sala de aula sonhando acordado, sem registrar o que as pessoas diziam? Ninguém está imune a esse tipo de situação e frequentemente passamos boa parte de nossos dias imersos em viagens mentais, pensando sobre algo do passado ou do futuro - o que nos deixa alheios ao que está acontecendo no presente. O problema é que, ao divagar, perdemos muito da vida. Na prática, esses períodos de "distanciamento" nos tornam mais propensos a acidentes e prejudicam a realização de tarefas ou mesmo o aprendizado. O estado mental oposto, a atenção plena (mindfulness, em inglês), se caracteriza por um estado de consciência calmo e concentrado - associado ao bem-estar físico e mental. O problema é que a maioria das pessoas não está acostumada a se manter assim.

Felizmente é possível aprender - e habituar-se - a direcionar a própria atenção de forma saudável. Mas para isso é preciso treinar a capacidade de concentração. Conforme desenvolvemos mecanismos para nos voltar para o "aqui-agora", também passamos a direcionar nosso foco de atenção de maneira mais geral. Em última instância, a habilidade de dirigir a mente de forma consciente se traduz na possibilidade de controlar aquilo em que pensamos. Não é de surpreender que o domínio dessa habilidade nos torne mais autônomos e, consequentemente, mais felizes com a própria vida. E como essa atitude contribui para a melhoria do desempenho, estudantes e profissionais que devem manter foco preciso sobre o que estão fazendo como cirurgiões, atletas e motoristas - costumam ser bastante beneficiados pela prática.

A longo prazo                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                         Concentrar-se no agora, porém, nem sempre é apropriado quando você tem de fazer uma escolha entre um desejo imediato e um resultado futuro. Na verdade, uma das principais falibilidades humanas é a tendência de valorizar muito mais aquilo que podemos ter imediatamente do que recompensas futuras ainda maiores. Para o cérebro, um beneficio tardio parece muito mais distante do que realmente é, o que o torna menos tentador.

Esse funcionamento, que cientistas chamam de "desconto temporal", leva à alimentação excessiva, gastos desnecessários, abuso de drogas e outros problemas associados à impulsividade e à falta de autocontrole. Mas nós não precisaríamos de autocontrole se nosso cérebro não fizesse constantemente esse triste erro de cálculo. Felizmente existem truques para lidar com esse problema. Um deles é atrasar a recompensa mais imediata. Se você esperar cinco minutos antes de comer uma barra de chocolate, acender um cigarro, comprar um sapato caro ou tomar qualquer outra decisão da qual sabe que depois vai se arrepender, seu desejo de fazer essas coisas será reduzido pela metade em relação a cinco minutos atrás. Essa providência simples ajuda a equilibrar o jogo, dando mais chances aos benefícios financeiros ou à saúde. Outras dicas para uma boa tomada de decisão incluem o detalhamento das consequências de uma recaída - em sua dieta, por exemplo, ou na decisão de manter-se sóbrio. Escrever fatos específicos que aconteceram no passado, ou que poderiam ocorrer, pode aumentar a importância desses cenários futuros. E se o que está por vir tiver peso maior, você estará mais inclinado a tomar uma decisão sábia no presente.

Há uma maneira high-tech de lutar pelo controle de sua própria mente e cérebro. Em alguns experimentos no qual é utilizada ressonância m magnética funcional (fMRI) o participante do estudo visualiza sua própria atividade cerebral. A ideia é que, com essa informação, possa treinar técnicas que a aumentam ou diminuem, alterando assim sua experiência consciente. Para tanto, a pessoa deve entrar em um equipamento de scanner cerebral enquanto, computadores coletam e analisam a atividade de seu cérebro, que em seguida é mostrada a ela. Os computadores representam essa atividade na forma, digamos, de uma chama às vezes mais, às vezes menos intensa e o voluntário tenta descobrir que pensamentos alteram essa atividade. Quando encontrar um que "funciona", procura se fixar nele. Quanto mais o exercício é feito, mais hábeis nessa prática as pessoas se tornam. Estudos mostram que esse processo influi sobre a maneira como a pessoa se sente. A técnica pode ser utilizada, entre outras coisas, para diminuir a dor crônica persistente, que não responde à medicação e para combater os sintomas de Parkinson quando a concentração se volta para o aumento da atividade em áreas cerebrais envolvidas no controle motor.

Cientistas acreditam que, no futuro, as pessoas poderão aumentar ou suprimir sua atividade em áreas cerebrais específicas para diminuir a ansiedade ou acelerar a aprendizagem, por exemplo. Levando a ideia de controlar movimentos ao extremo, imagino, também, se ela pode ser usada para melhorar a habilidades nos esportes ou na realização de tarefas que exigem precisão. No momento, esse método de controle mental requer um scanner cerebral grande e caro - o que obviamente não o torna aplicável em situações menos críticas, a menos que sejam desenvolvidos dispositivos menores e mais baratos. A tecnologia, porém, parece muito promissora, o que nos leva a pensar que, em algumas décadas, muito mais pessoas tenham acesso a esse método de autocontrole. Enquanto esse tempo não chega, a prática da meditação pode ser uma forma eficaz, prazerosa e sem custo de aprimorar a concentração e viver melhor. 

Exercícios para manter o foco

É possível pensar que a concentração seja uma forma intensa de atenção. Embora a capacidade de se manter atento a algo varie de pessoa para pessoa, como a absoluta maioria das habilidades também essa pode ser treinada e fortalecida. O importante é incorporar os exercícios ao cotidiano, ainda que sejam dedicados a eles apenas alguns minutos por dia, principalmente no início. Aos poucos, o tempo dedicado à atividade pode ser ampliado. A seguir, algumas sugestões de exercícios simples que ajudam a ampliar a concentração.

1. De olho no horizonte

De pé, em posição ereta, com os braços ao longo do tronco, sinta o peso do seu corpo e olhe para um ponto fixo à sua frente. Desloque o peso do corpo para o pé esquerdo e fiexione o joelho direito elevando-o lentamente enquanto inspira profundamente. Delicadamente, segure o joelho com as duas mãos por alguns segundos e mantenha a coluna naturalmente ereta. Faça cinco respirações profundas. Abaixe a perna enquanto solta o ar. Repita o procedimento levantando a outra perna. Ao terminar, pense que uma linha imaginária passa pela sua coluna e vai até o topo de sua cabeça, mantendo-o equilibrado em todos os seus movimentos.

2. Olhos abertos, olhos fechados

Esse exercício é feito em duas etapas. Primeiro, escolha um objeto qualquer, como um lápis, por exemplo. Coloque-o na sua frente. Olhe firmemente e concentre a sua atenção nele. Deixe que o objeto ocupe todo o espaço mental durante o tempo que for possível. Aumente gradualmente o tempo da duração do exercício. Na segunda fase, feche os olhos e visualize em sua mente o mesmo objeto. Concentre-se nesta imagem virtual, atendo-se a todos os detalhes, pensando apenas nessa tarefa.
Caso se distraia, recomece a imaginar o objeto e aumente progressivamente a duração do exercício. Com a prática, verá que fica cada vez mais fácil manter-se focada.

 

3. Tique-taque

Escolha um ambiente silencioso, sente-se em posição confortável. Pegue um relógio que faça barulho e coloque-o a trabalhar. Concentre sua atenção no ritmo e deixe que o som ocupe todo o seu espaço mental. Se alguns pensamentos passarem por sua mente, não se apegue a eles, deixe-os passar e retome a concentração.

4. Mensagem do bem 

Sente-se de maneira confortável, com a coluna reta e escolha uma palavra ou frase positiva (por exemplo, "eu me sinto bem", "sou grato pelo que tenho em minha vida" ou "sou capaz de aprender". Repita-a várias vezes, primeiro de olhos abertos, depois de olhos fechados. Deixe que o som das palavras ocupe sua mente, até que sinta como se o som não viesse de sua boca, mas tomasse conta de todo o ambiente. Pense nas palavras escritas recobrindo objetos e as paredes ao seu redor, como se você se estivesse ouvindo um disco uma ou mais vezes. De forma progressiva, aumente a duração do exercício.

 

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