Por que é tão difícil aprender?


Começar a freqüentar a escola é um marco aguardado pela maioria das crianças com alegre expectativa. Entre os motivos que transformam essa alegria em pesadelo podem estar os distúrbios de aprendizagem, um grupo de fatores das mais variadas naturezas que prejudicam o rendimento escolar. Lidar adequadamente com o problema requer, antes de mais nada, saber identificar sua origem, uma tarefa nem sempre fácil

Revista Viver - por Rose Campos

No auge de seu sucesso no filme "Ases Indomáveis", a notícia mais surpreendente sobre o ator Tom Cruise, que o protagonizava, era sua dislexia. Profissional dos mais bem pagos de Hollywood, que para ganhar a vida tem que decorar e ler textos, tem dificuldade em reconhecer os fonemas através de sua grafia. A dislexia é apenas um dos obstáculos impostos ao processo normal de aprendizagem. Com vários outros, formam os chamados distúrbios de aprendizagem.

Aprender não é verbo que se conjuga só em sala de aula. A ação começa muito cedo, quando ainda somos bebês. Parece óbvio, mas muita gente não se apercebe disso. E as dificuldades desse processo só costumam se tomar mais evidentes a partir do ensino formal, na idade escolar ou mesmo pré-escolar. E não é raro que haja embaraços no esforço em identificar sua origem.

Como explica o médico psiquiatra Francisco Baptista Assumpção Jr., professor livre docente do Departamento de Psiquiatria da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo e diretor do Serviço de Psiquiatria Infantil (SEPIA) do Instituto de Psiquiatria do Hospital das Clínicas, um certo descompasso na performance escolar é apenas o sintoma mais evidente de que há um problema com criança. A raiz da questão tanto pode estar nela própria quanto em seu ambiente. Asssumpção Jr. adverte que antes de se preocupar com exames e diagnósticos é preciso analisar os fatores externos. Afinal, podem estar contribuindo para os tropeços no desempenho escolar os problemas da família (separação dos pais, casos de morte, problemas de relacionamento etc.), na escola (método pedagógico ruim, muitas faltas dos professores, escassez de material didático, má adaptação da criança ao modelo pedagógico adotado etc.), situações de stress constante ou casos de reação aguda ao stress, entre outros fatores.

Quando a origem das dificuldades recai na criança, os motivos também são variados. Oscilam desde uma gama de doenças tidas como grandes patologias até o que se convencionou chamar de distúrbios específicos de aprendizagem. Enquadrados no primeiro caso, o retardo mental, o autismo, a depressão e a esquizofrenia são quadros mais graves e temidos. Mas a hiperatividade e o déficit de atenção também costumam incomodar e preocupar bastante os pais e os educadores. E, com freqüência crescente, tem levado muitos deles a buscar ou recomendar a busca de ajuda profissional.

  • Causas vão do genético ao socialAs causas dessas e de outras patologias podem ser genéticas, desconhecidas, congênitas (decorrentes de doenças como a rubéola ocorrida durante a gravidez) ou problemas ocasionados no parto mal assistido, que podem provocar disfunção cerebral mínima, borderlines, fronteiriços. Nesses casos, quando não se encontra uma causa biológica, ou esta causa existe mas não se consegue detectar, ela costuma ser atribuída à família ou à instituição. "Como toda doença psicossocial é tida como multicausal, na minha opinião, sempre há uma disfunção biológica", conclui o neurocientista Cláudio L. N. Guimarães dos Santos, que coordena este mês um curso sobre distúrbios de aprendizagem na Unidade de Reabilitação Neuropsicológica, em São Paulo.

    A desnutrição (materna e infantil) é outra causa importante desse tipo de distúrbio. Ao mesmo tempo, observa-se que uma grande parte da nossa população tem problemas familiares, sociais ou ambos. Mesmo em países de Primeiro Mundo, essa situação aflige alguma parcela da população. Depressão e ansiedade têm prevalência significativa no Japão, onde são altas as taxa de suicídio adulto e infantil, neste caso, a maior do mundo. Stress e ansiedade também tem sido gerados pelo excesso de atividades impingido aos filhos das classes média e alta. Por atuar num ambiente extremamente exigente e competitivo, a criança é passível de sofrer dos mesmos males que os adultos submetidos a pressão proporcionalmente equivalente.

    Mesmo o termo distúrbios especificos de aprendizagem parece ser também bastante abrangente. Afastados a hipótese de rebaixamento da inteligência e os casos de deficiências auditivas, motoras, visuais ou outras que atrapalhem o processo de aprendizado, resta descobrir sua causa e especificidade. A dificuldade pode ser global, afetar diversas áreas ou ser específica (como no caso das descalculias, por exemplo, em que o que fica comprometido é o raciocínio matemático, da dislexia, relacionada à dificuldade de leitura, grafia e soletração, da pouca habilidade em desenhar e reconhecer formas etc.). "Quanto mais global, mais complexo o tratamento e as causas do distúrbio", afirma Cláudio.

  • Números brasileirosA maior parte dos professores não está preparada para detectar o problema e encaminhar para a triagem neuropsicológica e psiquiátrica. E as escolas têm sua parcela de culpa na medida em que oferecem uma má qualidade de ensino ou um acompanhamento deficitário dos alunos. Esta é a avaliação do neurocientista, compartilhada pela maioria dos profissionais que atuam nessa área.

    A falta de informação dos pais e educadores faz com que muitos casos só sejam diagnosticados quando a pessoa já é adulta. Aí, ou já é tarde demais ou estará dificultado o tratamento. Sabe-se que quanto o mais precoce o diagnóstico, melhor o prognóstico de tratamento.

    No Brasil ainda não existem números confiáveis para mapear a situação mas, segundo a Associação Brasileira de Dislexia, pesquisas internacionais dão conta de que os distúrbios de aprendizagem atingem cerca de 10% a 16% da população. Só para se ter uma idéia, déficit de atenção atingiria 4% da população infantil e a depressão 1,9%, chegando a 4% entre os adolescentes. Na opinião do psiquiatra Assumpção Jr., pior do que isso é o fato de não existir ainda em nosso país nenhum setor preocupado especificamente com a saúde mental da criança. "Não devem chegar a 400 os médicos especializados dedicados a cuidar da saúde mental da criança."

  • Brasil na contramãoO resultado disso é que os pais geralmente não sabem nem a que tipo de profissional recorrer e os professores muitas vezes não sabem a que tipo de instituição encaminhar.

    Psicólogo e fonoaudiólogo são os primeiros profissionais a serem lembrados. O pedagogo, o psicopedagogo, o neurologista também costumam ser acionados. O psiquiatra geralmente é a última opção. Mas o que falta muitas vezes é o conhecimento específico já apontado por Assumpção Jr. O ideal seria o atendimento multidisciplinar, mas aí a carência é de lugares que centralizem o atendimento e reunam as especialidades.

    Nos Estados Unidos uma das soluções encontradas foi a criação de escolas específicas para disléxicos. Aqui no Brasil a tendência vai na contramão com a popularização cada vez maior do modelo de inclusão. Ou seja, a idéia é de que alunos especiais de qualquer tipo (deficientes físicos ou mentais, com distúrbio de aprendizagem ou outros) devam estar presentes em turmas normais nas escolas.

    A psicopedagoga Zuleica Pimenta de Felice afirma que às vezes a própria escola promove o fracasso escolar. "Os pais preocupam-se com o nome da escola onde estão colocando seus filhos sem considerar se aquela a mais adequada para eles." Também costuma acontecer muito a comparação com outros filhos, sem levar em conta suas diferentes características e habilidades. Cria-se um padrão de aluno e de filho ideal e, a partir daí, busca-se a satisfação dessa expectativa.

    Para ela o que enriquece é o diferente. Cada pessoa tem sua modalidade de aprendizagem. Mas há muita resistência em se aceitar diferenças. Zuleica já ajudou muitas crianças a lidar com suas diferenças e otimizar seu potencial mas um dos exemplos mais significativos ela tem dentro de casa. Seu filho Rodrigo, hoje adolescente, fez notar que tinha um déficit auditivo quando ainda era pequeno. Inicialmente usou aparelho. Depois, mesmo com a perda auditiva de 50% e 30% em cada ouvido, decidiu abolir seu uso. Para compensar, ele sabe que precisa prestar duas vezes mais atenção ao que é dito em aula e, muitas vezes, refazer leituras. Mas aprendeu a conviver com isso e obteve bastante ajuda de um coleguinha de classe que era capaz de demonstrar mais paciência que a maioria do grupo e fazer coisas simples como falar mais alto e mais próximo dele. Também o pai desse seu colega pôde contribuir de alguma forma estabelecendo um método associativo de palavras para fazê-lo pronunciar corretamente certos fonemas.

    A fonoaudióloga Claudia Scheuer, que atua no Departamento de Pesquisa e Docência da Faculdade de Medicina da USP lembra um outro fator: a existência de um importante subsídio teórico que talvez esteja sendo desperdiçado pela falta de interação entre a universidade e a comunidade, por não existirem canais suficientemente eficazes para isso. Ela considera que a escola deveria ter conhecimento das linhas atuais em aprendizagem. E rever o certos conceitos, como o que preconiza que ensinar é só explicar. A seu ver existe uma distância entre as neurociências e as escolas que não se utilizam das universidades. Estas não recorrem às suas pesquisas para discutir desenvolvimento infantil. Essa falta de entrosamento é o que acaba criando um hiato entre as instituições.

    "A noção de aprendizagem está mudando muito, e isso vem dos avanços da neuropsicologia", diz Claudia. Ela explica que o cérebro nasce geneticamente mapeado e, a partir de um certo momento, é dada uma espécie de sinal para ele começar a trabalhar. Esse sinal vem do ambiente e ativa determinada área cerebral para uma dada função e é a ativação do processo de seleção e aprendizagem. A ativação cerebral se traduz, então, em algum tipo de informação que é armazenada. Assim, o sujeito passa a "construir memórias". Aprendizado seriam, portanto, funções que se modificam ao longo da vida. Ou seja, a pessoa retira o arquivo do que aconteceu em determinada época e utiliza essa informação em algumas experiências de vida. Esquematicamente, temos então a representação mental, que gera memória, e esta, por sua vez, a aprendizagem, que se dá desde o nascimento até a morte. O que muda são os tipos de necessidades e há uma constante reorganização do conhecimento.

    É preciso saber, então, quais são os processos cognitivos que alteram a aprendizagem. Sabe-se que a dislexia é de origem cognitiva e está bastannte relacionada com o processamento de linguagem. "São crianças que, no histórico de vida, apresentam algumas outras dificuldades, tais como déficit de atenção ou hiperatividade. O problema pode aparecer na escola, mas provavelmente já deu sinais antes dessa fase, que não foram percebidos".

    Para ela, é preciso perguntar como essa criança olha o mundo. O problema pode até estar no ambiente, mas sua manifestação depende do mapa cognitivo da criança. "Se o educador conhece pouco sobre desenvolvimento infantil, então, o que dizer dos métodos pedagógicos? O problema não está só no diagnóstico, mas em saber o que fazer com a criança e, depois, na intervenção e no diálogo com a escola", reflete.

      Problema escolar ou psíquico?

      Pode ser difícil identificar um distúrbio de aprendizagem sobretudo pela amplitude de conceitos que esse termo envolve. A psicopedagoga Zuleica Pimenta de Felice, por exemplo, define que aprendizagem, como um termo amplo e complexo, refere-se à aquisição de uma conduta, domínio de um procedimento, conquista de algo que passa a ser patrimônio de nossa ação e que pressupõe mudança de estrutura. O fracasso escolar ou, mais tarde, no trabalho, pode ser o que denuncia o problema. Ou o problema pode ser apenas o sintoma de perturbações psíquicas.

      O psiquiatra Francisco B. Asssumpção Jr. apon cute;gicos? O problema não está só no diagnóstico, mas em saber o que fazer com a criança e, depois, na intervenção e no diálogo com a escola", reflete.

        Problema escolar ou psíquico?

        Pode ser difícil identificar um distúrbio de aprendizagem sobretudo pela amplitude de conceitos que esse termo envolve. A psicopedagoga Zuleica Pimenta de Felice, por exemplo, define que aprendizagem, como um termo amplo e complexo, refere-se à aquisição de uma conduta, domínio de um procedimento, conquista de algo que passa a ser patrimônio de nossa ação e que pressupõe mudança de estrutura. O fracasso escolar ou, mais tarde, no trabalho, pode ser o que denuncia o problema. Ou o problema pode ser apenas o sintoma de perturbações psíquicas.

        O psiquiatra Francisco B. Asssumpção Jr. aponta que a criança é o ponto mais frágil dentro de uma estrutura familiar e, assim sendo, ser apenas o reflexo do problema existente nesse núcleo. O adulto procura ajuda psicológica ou psiquiátrica porque sofre. A criança costuma ser levada pelos pais a estes serviços porque atrapalha ou por não coresponder às expectativas dos pais. Uma criança hiperativa ou com déficit de atenção, por exemplo, atrapalha os outros, provoca tumulto.

        Dentre outros quadros que poodem afetar a conduta e o rendimento escolar estão a depressão e a esquizofrenia. A depressão, até bem pouco tempo, era um quadro que não se acreditava ocorrer com crianças, mas hoje já se sabe que é possível. O que mais costuma chamar a atenção dos pais nesses casos é a anedonia, ou seja, a falta de prazer com as coisas (por exemplo, uma criança que sempre gostou de jogar de futebol e de repente perde o interesse por um período prolongado), e a disforia, que são as alterações bruscas de humor. Mas também estão associados alterações de sono, de alimentação e sintomas físicos como dor de cabeça, dor de estômago etc.

        A esquizofrenia pode ser identificada em crianças a partir dos oito ou nove anos. Em geral trata-se de uma criança normal que passa a ter conduta do tipo bizarra, com gestos amaneirados e idéias falsas de prejuízo ou de perseguição, por exemplo, que com muita freqüência passam a ter alucinações. A esquizofrenia exige obrigatoriamente o tratamento medicamentoso. Tanto a depressão quanto a esquizofrenia são reversíveis com tratamento. A esquizofrenia pode deixar alguma seqüela mas, com intervenção adequada, existe boa remissão da doença.

    1. Ação multidisciplinarSão muitas as variantes a serem consideradas em todas as etapas que vão do diagnóstico ao tratamento. A começar pelo professor, em geral faltam noções de puericultura e de psicologia infantil que o instrumentalizem a fazer um bom encaminhamento. Mas ao contrário do que é apontado na psiquiatria, o neurocientista Cláudio Guimarães lembra que os trabalhos na área de reabilitação neuropsicológica estão mais voltados para a criança que para o adulto, apesar de também ainda serem insuficientes. A seu ver falta também treinamento especializado, no nível de pós-graduação para os profissionais de todas as especialidades que atuam nessa área.

      O tratamento propriamente dito ou ao menos o diagnóstico, antes disso, inclui três atuações: médica, neuropsicológica ou psicoterápica e pedagógica. O médico pode descobrir, por exemplo, desnutrição ou a falta de algum tipo de enzima no organismo e e corrigir o problema através de medicamento. Também é o médico que vai identificar se há outra doença provocando o problema de aprendizagem. Nessa área, o profissional acionado pode ser o pediatra clínico, cirúrgico ou psiquiátrico, dependendo do caso.

      Para avaliar o nível de atenção, percepção, memória, processamento de linguagem, aspectos motivacionais, emocionais e das relações familiares estão disponíveis os neuropsicólogos e os psicólogos. A psicoterapia tem como uma das suas ferramentas importantes a ludoterapia, que tem técnicas específicas para a criança.

      Ao lado desse atendimento não se pode esquecer da atenção pedagógica. A informação vai ter que ser passada para a criança de outra forma e é preciso descobrir qual a mais adequada. Claudia Scheuer explica que algumas crianças retém mais as informações auditivas e outras, as informações visuais. Dessa forma, o conhecimento desse dado pode ser de grande auxílio para o profissional.

      Cláudio Guimarães descreve uma dificuldade que tem se tomado cada vez mais presente entre adolescentes: a dislexia discursiva, que é a dificuldade de entender o texto discusivo. Estudos realizados pela Unidade de Reabilitação Neuropsicológica, que coordena, são inéditos nessa área. "Há vinte anos, tudo era escrito. A importância do código escrito era muito importante. Hoje é tudo visual. A informação não vem mais do jornal, mas do telejornal. No colégio é que o código escrito passa a ser importante, só que não foi adquirido anteriormente. E mesmo na prova escrita é utilizado o código da fala de rua, pois não adquiriu a fala culta. Só que todo o conhecimento, tais como livros de medicina, direito, as leis, está escrito na norma culta. Dominar esse código implica inclusive em cidadania. E o que caracteriza o cidadão é sua flexibilidade lingüística." A dislexia discursiva definiria, então, a incapacidade de ler um texto e extrair dele informação.

    2. Soluções pedagógicasNo âmbito do que pode ser feito pelas instituições escolares e especificamente no que se refere ao ensino público, o neuropsicólogo Cláudio Guimarães considera uma boa iniciativa propostas como a dos CIEPS, idealizada por Darcy Ribeiro e implantada no governo carioca de Leonel Brizola. A vantagem desse sistema é que o suporte oferecido à criança prevê que receba, além das atividades extras que podem complementar as aulas e da assistência multiprofissional que inclui dentista, psicólogo etc., que tenha um espaço onde estudar para sedimentar o que foi aprendido em aula. "Em famílias de baixa renda e que moram muito mal, a criança não dispõe sequer de um espaço apropriado, com mesa, cadeira, boa iluminação e um ambiente tranqüilo para estudar em casa. E isso pode acabar sendo mal interpretado como dificuldade de aprendizagem da criança", ele observa.

      Outro aspecto educacional é que, quando se condena o isolamento e se substitui a classe especial pela "atenção especial em cl

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