Por que ninguém lê direito no Brasil


O país nunca se sai bem na mais importante avaliação internacional de leitura. O que fazer para mudar essa realidade - em 40 anos.

Revista Veja - por Camila Guimarães

A cada três anos, o Programa Inter­nacional de Avaliação de Alunos (Pisa, na sigla em inglês) compa­ra o desempenho de alunos de 15 anos de diversos países em três áreas do conhe­cimento: leitura, ciências e matemática. Na próxima semana, a Organização para Cooperação e Desenvolvimento Econô­mico (OCDE) vai divulgar como andam as habilidades de leitura dos jovens e até que ponto eles conseguem compreender um texto, localizar e associar informações, fazer um raciocínio lógico sobre elas e ti­rar conclusões. A prova foi realizada no ano passado por cerca de 50 mil alunos sorteados em 990 escolas públicas e par­ticulares do país. A chance de o Brasil ficar bem colocado nesse ranking é diminuta. Em 2000, nossos alunos ficaram em últi­mo lugar. O país passou para a 37ª posição em 2003, entre 41 nações. Em 2006, ficou em 48º entre 56 participantes, com uma nota pior que a anterior. Não há motivos para esperar que no Pisa 2009 o Brasil consiga uma posição melhor.

Não é que não tenhamos feito alguns avanços - o maior deles foi a universaliza­ção do ensino fundamental. Mas estamos longe de uma educação de qualidade, que inclui inculcar nas pessoas o hábito da leitura e desenvolver nelas a capacidade de compreender textos complexos. Para atingir essa meta, a escola precisa avançar muito. Não só ela, a sociedade também. Em alguns dos países líderes do ranking, como Finlândia e Canadá, o hábito de leitura vem de casa. Os pais influenciam, incentivam progressos nessa área, dão exemplo para seus filhos ao gastar tempo e ener­gia com atividades culturais. A estrutura no país também é precária. O Brasil tem uma biblioteca pública para cada 33 mil habitantes (quase 70% das escolas públi­cas nem sequer têm uma). O brasileiro lê, em média, 4,7 livros por ano. Nos Estados Unidos e na França são dez. Na Fin­lândia, o país que mais ganhou o Pisa, 21.

Isso leva a crer que não devemos espe­rar grandes melhoras na leitura de um Pisa para o outro, e sim de uma geração para a outra. Como fez a Coreia do Sul. Há 60 anos, o país tinha altos índices de analfabetismo e quase metade das crian­ças e jovens fora da escola. Eles instau­raram uma reforma educacional há 40 anos, apostando na leitura como base. Bibliotecas exclusivas para crianças, fi­nanciadas por empresas e fundações, to­maram conta de Seul. Uma das maiores redes, a Crianças e Bibliotecas, surgiu da iniciativa de um grupo de mães, preocu­padas com o futuro dos filhos. Em 2006, a Coreia tomou da Finlândia o primeiro lugar em leitura no Pisa.

O ponto inicial desse processo é a esco­la. Nossos colégios não estão preparados para formar leitores - sejam eles de clás­sicos da literatura, gibis, jornais ou blogs na internet. Dentro das salas, o desafio começa pelos professores. Sem formação adequada, eles têm de ensinar o que não sabem. "Para que o aluno aprenda a ler o professor precisa dominar a técnica da leitura", afirma Mary Elizabeth Cerutt Rizzatti, do Núcleo de Estudos em Linguís­tica Aplicada e professora da Universidade Federal de Santa Catarina. "Mas poucos tiveram a oportunidade de desenvolver a habilidade de ler um contrato das Casas Bahía ou um poema de Drummond."

Quando os educadores não são eles pró­prios hábeis na interpretação de textos, pi­pocam projetos de leitura pouco eficien­tes. As rodas de leitura de livros literários, tão comuns em classes de qualquer idade, por exemplo. É claro que essa atividade é importante, especialmente para crian­ças, mas só ela não garante que o aluno entenda a questão de uma prova de ma­temática ou ciências, ou que se torne um bom leitor. Uma das maiores dificuldades é garantir que um leitor de conto de fadas se transforme em leitor de um texto de revista ou científico. Mas poucas escolas têm projetos de leitura para textos dife­rentes. "Uma criança que se dá bem lendo narrativas ou contos pode ser um desas­tre na hora de ler um texto informativo", afirma Débora Vaz, diretora do Colégio Castanheiras, de São Paulo. Lá, a leitura em sala de aula é feita com a mediação do professor e com prioridade para ensinar gêneros diferentes. "O aluno mais fraco tem problemas em identificar o tipo de texto que lê, qual é a mensagem que ele passa e para quem", diz Luís Junqueira, professor de português do 6º ano.

A importância de ter habilidade de ler textos diferentes foi uma das principais razões de a Universidade de Campinas (Unicamp) mudar o formato da redação de seu vestibular. Neste ano, os candida­tos a uma vaga na universidade tiveram de escrever três tipos de texto, de gêneros diferentes. "Errar o formato dos textos é mais grave que errar gramática", diz Re­nato Pedrosa, coordenador do vestibular. "Infelizmente, a maioria não domina a leitura. E só quem tem essa habilidade vai se dar bem na universidade."

Um dos tipos de leitura mais negligen­ciados pelos professores é justamente o mais cobrado em bons vestibulares ou pelo próprio Pisa: os enunciados infor­mativos das questões. Por isso algumas escolas estão tirando a exclusividade do ensino da leitura dos professores de por­tuguês - e dividindo a responsabilidade com o resto do corpo docente. Como fez  uma escola pública de ensino médio americana, a Brockton, do Estado de Massachusetts. Seus alunos, oriundos de comu unidades carentes, tinham um péssi­mo desempenho nas avaliações estaduais e altas taxas de evasão (problemas pareci­dos com os do ensino médio brasileiro). Há dez anos, um grupo de professores começou uma campanha para estimular a leitura e a escrita em todas as disciplinas. Nos últimos dois anos, a escola ficou en­tre as 10% melhores de seu Estado.

Pela falta de estímulos em casa, no Brasil as escolas ainda assumem a tare­fa extra de tornar a leitura interessante, principalmente para os adolescentes. E de novo se mostram inábeis: limitam a oferta de leituras a obras clássicas, difíceis de digerir, e obrigatórias. "A escola subes­tima a capacidade de leitura do jovem e não enxerga que tipo de leitor ele é", diz Simone André, coordenadora da área de Educação Complementar e Juventude do Instituto Ayrton Senna, que trabalha com projetos de leitura em 200 escolas públi­cas de São Paulo. Na Finlândia não existe leitura obrigatória. Os alunos decidem com os professores quais livros vão ler e em quanto tempo.

Celso Renato Teixeira, diretor da escola estadual Luis Gonzaga Travassos, na peri­feria de São Paulo, descobriu em 2005 que seus alunos de 5ª a 8ª série gostavam de ler. Mas não o que a escola mandava. Um ano antes, quando chegou à escola, Teixeira deparou com um alto índice de analfabe­tismo funcional nas séries finais do ensino fundamental. Teve de dar prioridade a isso. Em seguida, pensou no projeto de leitura. Os alunos foram convidados a es­colher na biblioteca da escola os livros de
que mais gostavam. Na mesma época, a garotada visitou a Bienal do Livro em São Paulo e de novo os gostos pessoais ficaram perceptíveis. "A maioria escolheu livros que falavam sobre adolescência, namoro, relação com os pais", diz Teixeira.

Esses temas viraram iscas para os alu­nos. Aos poucos, a escola incentivou a passagem para outros tipos de leitura. Hoje, a biblioteca é abastecida com li­vros que os próprios alunos escolhem. Segundo Teixeira, alunos que antes não sabiam ler frases simples agora fazem re­senhas dos livros - e os classificam com estrelas para recomendá-Ias aos colegas, em uma feira organizada toda semana. "Só entram os de quatro e cinco estre­las", afirma Teixeira. Em cinco anos, os empréstimos na biblioteca aumentaram 79% e o rendimento da Travassos au­mentou 33% na avaliação estadual.

O esforço dentro das escolas não bas­ta. É mais difícil seduzir os alunos se eles não encontram fora do colégio (em casa, entre os amigos, na biblioteca do bairro) o mesmo ambiente de estímulo ao conhe­cimento. Eles acabam vendo o livro como uma "coisa de escola". E, como a escola é uma obrigação, ler passa a ser considera­do chato. Por isso, muitas escolas adotam projetos que envolvem os pais dos alu­nos. Há seis anos, a escola estadual Astor Vasques Lopes, em Itapetininga, interior de São Paulo, incluiu em seu projeto de leitura uma lição de casa para os pais. Os alunos do 1º ao 5º ano levam o livro para casa para ler junto com alguém da família. Pode ser o pai, a mãe, a avó. O importante é que quem leia faça um relatório sobre o livro, com suas impressões, e o mande para a professora. Com o filho matricu­lado na escola há pouco mais de um ano e meio, Roseli de Fátima Moreira diz que lê muito mais agora, depois de escrever relatórios e participar das rodas de lei­tura na escola. Ela diz ter comprado - e lido - por conta própria os dois primeiros livros da série Crepúsculo. "Eu me sinto mais estimulada."

Os três casos citados nesta reportagem mostram avanços. Mas são progressos pon­tuais. Não há garantia de continuidade, seja pela falta de recursos ou por uma possível troca no grupo de professores. Mesmo co­légios de elite, particulares, sofrem com a ausência de uma cultura da sociedade que estimule as crianças e os jovens a ler. Por isso, o resultado do Pisa 2009 deve ser simi­lar ao de 2006. Se fizermos tudo certo (in­vestir nas escolas, valorizar os professores, aumentar a carga horária, fornecer livros e material...), poderemos melhorar essa nota nos próximos anos. E só assim daremos condições para que a próxima geração dê salto de que o país precisa para entrar na sociedade do conhecimento.

    Leitura Dinâmica e Memorização

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