Por que Somos Cegos?


Embora muitos acreditem que os olhos funcionam como câmeras, estudos mostram que nossa capacidade de apreender informações visuais é bastante limitada.

Revista Scientific American - por Vilayanur S. Rachandran e Diane Rogers Ramachandran

Imagine que você faz parte de uma plateia que assiste a pessoas driblando e pas­sando entre si uma bola de basquete. Sua tarefa é contar durante 60 segundos o número de vezes que cada jogador faz um passe. Você descobre que precisa se concentrar, porque a bola se movimenta muito rapidamente.

Veja o vídeo e depois prossiga a leitura: http://www.youtube.com/watch?v=2pK0BQ9CUHk

Então, alguém com fantasia de gorila atravessa o lugar, caminha entre os jogadores, vira o rosto para os espectadores, bate no peito e vai embora. Surpreendentemente, de acordo com um estudo realizado pelos pesquisadores Daniel J. Simons, da Uni­versidade de Illinois, e Christopher F. Chabris, da Universidade Harvard, 50% dos voluntários que participaram desse estudo não notaram o gorila. Muitos acreditam que nossos olhos funcionam como câmeras que produzem um registro impecável do mundo ao redor, mas essa pesquisa demonstra que são poucas as informações que realmente apreendemos em um relance.

O resultado desse experimento é o ponto culminante de uma série de estudos sobre atenção e visão iniciados há mais de três décadas por alguns pesquisadores como Ulric Neisser, da Universidade Comell, Ronald A. Rensink, da Universida­de da Colúmbia Britânica, Anne Treisman, da Universidade de Princeton, Harold Pashler, da Universidade da Calilórnia, e Donald M. MacKay, da Universidade de Keele, na Inglaterra.

Os estudiosos se referem ao "efeito gorila" como uma "cegueira por desatenção" ou "cegueira para mudanças". Nosso cérebro tenta, constantemente, construir narrativas
significativas daquilo que vemos. As coisas que não se encaixam muito bem no roteiro ou têm pouca rele­vância são eliminadas da consciência. Se as informações suprimidas são, apesar de tudo, processadas incons­cientemente, ainda não sabemos. Outro exemplo é o jogo infantil dos erros, de "identificar as diferen­ças". Duas imagens são similares o bastante para que o cérebro pressu­ponha que podem ser idênticas; são necessários minutos de atenção para localizar as disparidades.

O valor de uma narrativa cerebral se torna evidente quando considera­mos estímulos sensoriais que podem ser confusos. Ao inspecionarmos uma sala ao nosso redor, as imagens que vemos pulam rapidamente à medida que várias partes da cena excitam diferentes partes da retina. Ainda assim, o mundo parece estável. Há algum tempo, pesquisadores acredi­tavam que a experiência de ter uma visão intacta era criada pelo cérebro e que ele era responsável por enviar para os centros visuais uma cópia dos sinais de comando do movimento ocular originários dos lobos frontais. Acreditava-se também que as áreas visuais recebiam antecipadamente "informações privilegiadas" de que a imagem saltitante sobre a retina era causada pelo movimento dos olhos e não pelo mundo em movimento.

Mas um efeito que qualquer um pode realizar em casa mostra não ser tal movimento o único motivo. O diretor de ópera Jonathan Miller e um de nós observamos, separada­mente, o mesmo efeito no início dos anos 90. Você pode tentar: vire uma televisão de ponta-cabeça ou use um prisma para alterar opticamente a imagem. Alternadamente, desligue o som do aparelho e fique ao lado, olhando para a tela com sua visão periférica. Sintonize qualquer canal e observe o que acontece. Você verá súbitas mudanças enervantes e per­ceberá "solavancos visuais". A seguir, fixe o olhar na tela do aparelho na posição normal, olhando-o de frente, com volume normal. Agora, os cortes e os movimentos da câmera fluem homogeneamente e sem desconti­nuidades de uma imagem à outra - na verdade, você nem sequer percebe esse movimento. Mesmo quando a cena muda, você não vê uma cabeça se transformando, ou uma fusão de uma na outra caso sua atenção se al­terne entre dois interlocutores numa cena. Você apenas sente o ponto de vista mudar.

O que esse experimento mostra? A resposta é que quando a televisão está posicionada corretamente e você ouve o som, o cérebro é capaz de construir uma narrativa sensata. Os cortes, os movimentos e outras al­terações são simplesmente ignorados por serem considerados irrelevantes, por mais marcantes que possam ser naquele contexto. Em contraste, quando a cena está de ponta-cabeça ou é notada com a visão periférica e o som está desligado, o cérebro tem dificuldade em criar um sentido expressivo com os elementos que os centros visuais percebem. E aí come­çamos a notar as grandes mudanças na imagem física. Esse efeito não é verdadeiro apenas para as cenas visuais, mas também para as outras experiências de vida; a coerência da consciência é uma ficção cômoda, gerada internamente. A cena não precisa sequer ser com­plexa para que ocorra essa cegueira para mudanças. Em 1992, realizamos com o neurobiólogo britânico Colin Blakemore um experimento com pessoas que assistiam a um seminário que ministramos no Instituto Salk de Estudos Biológicos, na Califórnia. Ini­cialmente, mostramos por dois segun­dos um slide que continha três formas coloridas: um quadrado vermelho, um triângulo amarelo e um círculo azul. Logo após nós as substituímos pelas mesmas três formas posicionadas de maneira diferente. O público observou que todas pareciam levemente distorcidas ou brilhantes. A grande surpresa veio quando trocamos uma das três figuras (o círculo) por ou­tra: um quadrado. A maioria simplesmente nã ;o percebeu a troca, exceto alguns que estavam concentrando sua atenção naquele objeto em particular. Mesmo com figuras geométricas, constatamos a sobrecarga sensorial e a cegueira para mudanças.

Finalmente, imagine que você esteja olhando fixamente para um pequeno "X" vermelho ligeiramente deslocado à esquerda. Por um breve momento, mostramos a você uma cruz. Tudo o que você precisa nos dizer é qual é mais comprida - a linha vertical ou horizontal da cruz. As pessoas cumprem essa tarefa sem esforço. Agora, introduzimos sorra­teiramente uma palavra direto sobre a cruz durante o segundo em que você está analisando o tamanho das linhas: Arien Mack, da Universidade New School, e Irvin Rock, da Universidade Rutgers, descobriram que as pessoas não identificavam a palavra. Talvez você esteja lendo este arti­go em um restaurante lotado. Notou algum gorila passando por você? Dada a demonstração de Simons, como você pode ter tanta certeza de que não passou nenhum? Supomos que isso depende de quanto você gostou do que leu.

Para saber mais

Sintonia neuronal. Andreas K. Engel, Stefan Debener e Cornelia Kranczioch. Mente&Cérebro nº 157, págs. 26-33, fevereiro de 2006.
Inattentional blindness. Arien Mack e Irvin Rock. Mil Press, 2000.
Gorillas in our midst: sustained inattentional blindness for dynamic events. Daniel J. Simons e Christopher F. Chabris, em Perception, vol. 28, págs. 1059-1074, 1999.

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