Por que você se preocupa tanto?


A obsessão por resolver problemas - mesmo que a solução muitas vezes não dependa de nós - se origina da compulsão por controle; porém, quanto maior a aflição, menos somos capazes de encontrar saídas.

Revitas Scientific American - por Victoria Stern

A garota queria se livrar problema: Contou ao médico que se preocupava demais e que se sentia dominada por pensamentos que a incomodavam. Uma lembrança que descreveu foi especialmente esdarecedora. Sua avó compartilhava com ela a tristeza pela morte recente de uma amiga de juventude. Enquanto a jovem ouvia, sua mente desviou-se para pensamentos sobre a morte da avó; o que logo se transformou em apreensão em relação a sua própria morte. Ficou tão perturbada que, correu para casa e fechou-se em seu quarto.

Os psicólogos acreditam que a preocupação cornpreendida como um conjunto de pensamentos de antecipação negativa de acontecimentos futuros, evoluiu do mesmo modo que o processo mental empregado para solução de problemas. Contudo, a aflição excessiva - como no caso da garota - faz mais do que bern. Os preocupados crônicos agem sob a percepção enganosa de que; quanto mais pensarem sobre a questão que os incomoda e tentarem controlar cada situação, melhor será a solução dos problemas e o planejamento
do futuro. Mas, em vez disso, esse padrão de pensamento dificulta a assimilação cognitiva e provoca a superestimulação das áreas cerebrais de processamento do medo e da emoção. A consequência, que é o excesso de vigilância, pode levar a problemas cardiovasculares, tor­nando o organismo incapaz de lidar adequada­mente com o estresse.

• Transtorno de ansiedade

A tendência humana a se "pré-ocupar" com algo que não pode ser resol­vido naquele momento chamou a atenção dos pesquisadores há quase 30 anos, quando co­meçaram a apurar sua abrangência no espectro de patologias relaciona­ das à ansiedade.

No início da déca­da de 80, o psicólogo Thomas Borkovec, da Universidade Estadual da Pensilvânia, pionei­ro nesse campo de es­tudo, interessou-se por esse traço enquanto in­vestigava os distúrbios do sono e descobriu que a atividade cogni­tiva intrusiva na hora de dormir é um fator causador de insônia.

No início da década de 90, Borkovec e seus colegas desenvolveram o Penn State Worry Questionnaire (Questionário do estado da Pensilvânia sobre a preocupação), um teste para diagnóstico que ajudou os pesquisado­res a mostrar que a aflição excessiva é uma característica do transtorno de ansiedade generalizada (TAG). Os psicólogos revisaram as orientações psiquiátricas oficiais (na épo­ca, a terceira versão do Manual diagnóstico e estatístico dos distúrbios mentais) e apontaram a preocupação como a característica essencial do TAG, sua manifestação crônica podendo ser considerada um problema de saúde mental.

Borkovec definiu três componentes principais das preocupações comuns das quais a maioria das pessoas não está livre: o excesso de pensa­mentos, a tentativa de evitar resultados negativos e a inibição de emoções. Douglas Mennin, diretor do Yale Anxiety and Mood Services da Universidade Yale, explica que a preocupação está associada à tendência inata dos seres humanos de pensar sobre o futuro: "Temos compulsão por controle; os preocupados crônicos veem o mundo como um lugar inseguro e tentam lutar contra a sensação de desconforto". Os excessi­vamente preocupados nutrem a crença de que a aflição Ihes propicia esse controle e tendem a evitar situações sobre as quais não detenham ne­nhum poder. Em um es­tudo de 1995, Borkovec fez uma descoberta curiosa: essas pessoas se martirizavam por questões que raramente ocorriam. No entanto, com frequência os par­ticipantes do estudo reportavam acreditar que o pensamento exa­gerado sobre um pos­sível acontecimento negativo evitava sua ocorrência - ainda que não houvesse nenhuma lógica nesse raciocínio.

Não é de surpreen­der que os preocupa­dos exibam atividade aumentada em áreas do cérebro associadas às funções executivas como planejamento, raciocínio e controle do impulso. Recentemente, o psicólogo Stefan Hoffmann, da Universidade de Boston, usou um eletroencefalograma para medir a ativi­dade no córtex pré-frontal de 27 universitários antes e após ter-lhes sido dito que deveriam fazer um discurso em público. Ele confirmou evidências anteriores de aumento de atividade no córtex frontal esquerdo em pessoas que se preocupam em comparação com as que não têm a reação, o que sugere que o córtex frontal esquerdo desempenha papel preponderante nesse comportamento.

Porém, a tentativa exagerada de estar no comando de determinada situação ou de seus próprios pensamentos pode ser um tiro pela culatra quando, em vez de atingirem seu objetivo, as pessoas são dominadas por aflições repetitivas. A pesquisa mostra que, quanto mais cultivamos pensamentos nega­tivos, mais as ameaças nos parecem reais e mais se repetirão em nossa cabeça, às vezes de forma incontrolável.

O psicólogo Daniel M. Wegner, da Uni­versidade Harvard, descobriu que quando as pessoas recebiam ordens para não pensar em um urso-branco, demonstravam a ten­dência de mencioná-Io com frequência. No experimento, Wegner deixou um voluntário em uma sala com um microfone e um sino e pediu a ele que discorresse livremente sobre qualquer assunto. Em determinado momento, o pesquisador interrompia o monólogo e dizia ao participante que continuasse a falar - mas, nesse ponto, avisava que não pensasse no urso-branco, em hipótese alguma. Se a pessoa pensasse no animal, deveria tocar o sino. Na média, os voluntários tocaram o sino mais de seis vezes nos cinco minutos seguintes e chegaram a dizer alto "urso­ branco" várias vezes.

"Ao tentarmos nos livrar de uma preocupação ou de um pensamento recorrente, a situação parece piorar. O mesmo ocorre quando uma música se fixa na sua cabeça; você quer esquecê-Ia, mas ela continua ressoando na sua mente cada vez mais sempre que tenta "afastá-Ia", diz Wegner. Segundo ele, nesse caso dois processos mentais podem estar em pauta. Inicialmente, ao tentar procurar conscientemente por distrações para o urso­ branco (ou qualquer outra preocupação insis­tente), de alguma forma a pessoa permanece consciente do pensamento indesejável. O segundo motivo para que a supressão não funcione é que frequentemente fazemos um esforço inconsciente para evitar pensar no que é proibido - e, por fim, acabamos sen­sibilizando nosso cérebro para o problema.

Duas outras áreas do cérebro responsá­veis pelo processamento de emoções estão relacionadas à preocupação: a ínsula anterior e a amígdala. Um estudo de 2008, publicado pela Psychological Science, no qual foi usada a ressonância magnética funcional, revelou que, quando os participantes antecipavam a perda significativa de dinheiro em um futuro próximo, ocorria aumento de atividade na insula anterior. Essa área não apenas se torna mais ativa em resposta à preocupação, como a inclinação à inquietação é reforçada. No entarito, os pesquisadores concluíram que, às vezes, quando o assunto é tomar decisões financeiras ousadas, o excesso de racio­nalizações pode ser positivo.

Em 2009, Jack Nitschke, psicólogo clínico da Escola Madison de Medicina e Saú­de Pública da Universidade de Wisconsin, relatou ter usado ressonância magnética funcional para medir a atividade na amígdala enquanto os pa­cientes com TAG e pessoas saudáveis que também participaram do estu­do viam imagens com conotação negativa (por exemplo, corpos mutilados) ou neutra (como um hidrante). Poucos segundos antes de vê-Ias, os voluntários eram informados se receberiam uma fotografia neutra ou negativa. Embora as pessoas com TAG e as saudáveis não apresentassem diferenças de atividade na amígdala diante de qualquer tipo de ilustração, aquelas com transtorno de ansiedade generali­zada mostraram níveis incomuns de atividade, tanto em relação às dicas negativas quanto às neutras - sugerindo que a mera antecipação da possibilidade desagradável requer um circuito neural específico.

A preocupação nos coloca diante de um impasse psíquico que envolve aspectos de nosso circuito emocional, mas os ansiosos crônicos procuram controlar suas emoções e, com isso, seu tormento tende a entorpecer as respostas emocionais. Atualmente está bem fundamentado pela ciência o conhecimento de que o dano no lobo frontal está associado ao
embotamento das emoções. Recentemente um estudo da Universidade de Boston demonstrou que essa área é mais ativa em pessoas que pensam no futuro.

• Lutar ou fugir 

Vários estudos confirmaram que a aflição ex­cessiva reduz a atividade no sistema nervoso simpático em resposta à percepção de uma ameaça. Esse segmento do sistema nervoso normalmente permite que o organismo reaja rapidamente a perigos momentâneos, acele­rando a respiração e aumentando a frequência cardíaca a fim de oxigenar os músculos para lutar ou fugir.

Em um estudo clássico de 1990, Borkovec demonstrou, observando a frequência cardíaca de voluntários, como a preocupação pode entorpecer as reações emocionais. Descobriu que as pessoas ansiosas por terem de falar em público não exibem variações nos batimentos cardíacos quando relaxadas, permanecendo neutras (ou seja, nem se preocupando, nem relaxando), nem se afligem antes de ver imagens aterrorizantes. No entanto, após verem as cenas, os voluntários do grupo dos preo­cupados demonstraram significativamente menor variação quando comparados aos que estavam em condição neutra ou relaxada, apesar de terem relatado sentir mais medo.

Ao mesmo tempo, ao ampliar a ativida­ de do sistema nervoso parassimpático, é possível perceber que a preocupação oculta uma reação física diante de uma ameaça. Em funcionamento normal, essa parte do cérebro apazigua o organismo quando ele se recupera de uma experiência estressante. Testei pessoalmente esse sistema em opera­ção ao participar de um estudo no laboratório de Mennin, em Yale. A cena era um braço solitário suspenso no ar. Uma mão com uma navalha começava a cortá-lo. O sangue vertia do ferimento enquanto a navalha era enfiada cada vez mais profundamente, exibindo uma massa de músculo e de cartilagem. O que eu mais queria era afastar o olhar.

A pesquisadora Amelia Aldao, que condu­zia a experiência, queria medir minha reação fisiológica a vários segmentos do filme, com a intenção de explicitar emoções distintas (por exemplo: repugnância no caso do braço mutilado). Com a eletrocardiografia, ela iden­tificou como lidei com os diversos estados emocionais (este estudo de Yale foi o primeiro a investigar outros sentimentos além do medo), retirou os eletrodos do meu corpo e me conduziu a uma sala ao lado. Fez cálculos rápidos no computador e logo saíram alguns números. Boas notícias. A minha variação, cardíaca estava alta, com aproximadamente 58 batimentos por minuto. Esses valores in­dicavam que o meu coração conseguia lidar bem com as emoções intensas.

Em contraste, quando os preocupados tentam estar conscientemente preparados para o pior estão, na verdade, compro­metendo a capacidade de seu organismo de reagir a um acontecimento realmente traumatizante. Em 2006, um grupo de pesquisadores da Universidade Colúrnbia, do National Institute on Aging e da Univer­sidade de Leiden, na Holanda, revisaram mais de 20 estudos e descobriram que o ex­cesso de inquietação pode sobrecarregar o or­ganismo e causar problemas car entimentos além do medo), retirou os eletrodos do meu corpo e me conduziu a uma sala ao lado. Fez cálculos rápidos no computador e logo saíram alguns números. Boas notícias. A minha variação, cardíaca estava alta, com aproximadamente 58 batimentos por minuto. Esses valores in­dicavam que o meu coração conseguia lidar bem com as emoções intensas.

Em contraste, quando os preocupados tentam estar conscientemente preparados para o pior estão, na verdade, compro­metendo a capacidade de seu organismo de reagir a um acontecimento realmente traumatizante. Em 2006, um grupo de pesquisadores da Universidade Colúrnbia, do National Institute on Aging e da Univer­sidade de Leiden, na Holanda, revisaram mais de 20 estudos e descobriram que o ex­cesso de inquietação pode sobrecarregar o or­ganismo e causar problemas cardiovasculares.

Em geral, a preocupação excessiva estava associada a frequência cardíaca elevada em repouso e a baixa variabilidade dos batimen­tos. Pessoas muito preocupadas e pacientes com TAG experimentaram menor variação cardíaca durante os períodos de inquietação. Em outras palavras: o coração deles retornava à frequência de repouso mais lentamente que odos "preocupados saudáveis".

• Em busca da solução

Períodos prolongados de estresse também enfraqueceram as funções endócrinas e imunológicas dos participantes do estudo. Mas algumas pesquisas mostraram ainda que a inquietação excessiva está ligada aos níveis elevados de cortisol, o hormônio do estresse que diminui as respostas imunes e pode tornar os preocupados crônicos mais suscetíveis a doenças.

O fato é que todos se afligem em um mo­mento ou outro, mas caso isso se torne uma patologia é possível obter ajuda profissional. Tratamentos modernos de primeira linha para os transtornos de ansiedade generalizada incluem medicamentos e psicoterapia.

Antidepressivos como o Zoloft e o Prozac podem ajudar a aumentar os níveis de seroto­nina, substância química que faz melhorar o humor, o apetite sexual, a memória e o apren­dizado. E, como o Valiume o Xanax, podem ajudar a controlar a ansiedade. Eles inibem um neurotransmissor denominado GABA, capaz de reprimir sensações de ansiedade.

Os medicamentos podem ser considerados, em muitos casos, um paliativo para os problemas psicológicos em associação com psicoterapias. Uma delas é a abordagem cognitivo-compor­tamental. A proposta é ensinar os pacientes a detectar sinais precoces de preocupação nociva e a integrar procedimentos ao seu cotidiano para evitar esses padrões de pensamento negativo. A terapia também prevê o uso de técnicas de rela­xamento para aliviar a tensão muscular associada à preocupação excessiva. 

• TOC: a obsessão transformada em doença

Preocupar-se excessivamente com higiene; lavar as mãos a todo momento; checar diversas vezes se portas, janelas ou a torneira do gás estão fechadas antes de se deitar; não usar roupas de determinada cor; não passar em lugares com receio de que algo ruim possa acontecer; guardar coisas inúteis; ficar aflito caso os objetos sobre a mesa não estejam dispostos de determinada maneira; fazer contagens desnecessárias. Esses são alguns exemplos de ações chamadas pelo senso comum de "manias". Quando exageradas, porém, indicam sintomas do transtorno obsessivo-compulsivo, o TOC.

O distúrbio de ansiedade mostrado em filmes como Melhor é impossível, com Jack Nicholson, e no curta brasileiro Janela aberta, dirigido por Philippe Barcinski, ou na bem-humorada série Monk tem manifestações que podem parecer curiosas para quem não as enfrenta. O TOC, porém, é um problema de saúde mental grave e muitas vezes incapacitante. No Brasil, estima-se que atinja quase 4 milhões de pessoas, prejudicando o paciente e influindo diretamente na rotina familiar. A desinformação e a vergonha dos pensamentos, infundados, cuja tônica é a preocupação, assaltam o paciente e podemculminar com ações compulsivas. Há quem padeça por décadas, sem saber que medicação e acompanhamento psicoterápico adequados podem aplacar os sintomas em cerca de 70% dos casos e, em algumas situações, até mesmo eliminá-Ios.

Os medicamentos mais eficazes no combate dos sintomas do TOC são antidepressivos, eficientes para cerca de 50% dos pacientes. Seu uso é recomendado principalmente quando existem outros problemas associados, como depressão e ansiedade - o que é bastante comum. Também é usual essa prescrição se os sintomas são muito graves ou incapacitantes e se o paciente não tem condições de seguir a terapia. Mas há inconvenientes: como alguns efeitos colaterais e a redução apenas parcial dos sintomas.

Uma modalidade terapêutica bastante usada para controlar sintomas do TOC (embora não seja a única) é a terapia cognitivo-comportamental (TCC), da qual foram adaptadas algumas técnicas específicas para tratar o transtorno. Cerca de 70% dos que se submetem à terapia obtêm redução satisfatória ou até a eliminação completados sintomas. Outras abordagens, como as de orientação psicanalítica, buscam não só a eliminação dos sintomas, mas seus significados dentro do contexto da história do paciente. Por isso, costumam levar mais tempo, mas têm a vantagem de aprofundar a experiência psíquica, possibilitando a elaboração de várias questões associadas ao distúrbio.

Estudos recentes demonstram que a redução dos sintomas com a psicoterapia, sobretudo quando predominam compulsões, costuma ser maior do que a diminuição que se obtém com o uso de medicamentos e, aparentemente, as recaídas são menos frequentes. Também tem sido observado que pacientes que não respondem às medicações podem
apresentar boa resposta à TCC. Uma vez que tanto os medicamentos como a terapia têm limitações, recomenda-se associá-Ios, embora não esteja evidente se essa junção é mais vantajosa do que o uso isolado de apenas uma modalidade de tratamento.

Uma das inquietações mais comuns apresentadas em pessoas com TOC se relaciona com a possibilidade de falhar e, em consequência, ocorrer algum desastre ou prejuízo (mortes, incêndio, inundações etc.). Tal preocupação se manifesta sob a forma de intolerância à incerteza - que leva a pessoa a realizar verificações rep

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