Por uma vida melhor


Iván Izquierdo, professor da Universidade federal do Rio Grande do Sul e um dos maiores especialistas em memória do mundo, mostra aqui a importância do amor, do diálogo e de raízes espirituais para que tenhamos uma boa qualidade de vida.

Revista Planeta - por Fátima Afonso

Planeta - Com os grandes avanços da medicina, o homem, sem dúvida, vive mais hoje do que antigamente. Mas será que podemos dizer que a nossa qualidade de vida melhorou, já que vivemos em um mundo poluído, violento e estressante?

Iván - Esse é justamente o tema de meu último livro, Tempo de Viver (Editora Unisinos). A medicina nos deu 30 anos a mais de expectativa de vida no último século, mas a sociedade que criamos nesse século tirou qualidade de nossa vida. Converteu-nos em gente que corre o tempo todo, sem uma finalidade real, sem poder gozar desse tempo extra para cuidar de nós mesmos e de nosso próximo, constantemente aturdidos por um excesso de informação, quase sempre inútil. Precisamos resgatar esse tempo que nos tiraram e dedicá-lo basicamente a amar, a dialogar, a gozar dos momentos bons, a pensar. Devemos reaprender a dizer não às inúmeras solicitações da chamada vida moderna. Temos de nos concentrar nas coisas realmente importantes para nós.

Planeta - Hoje em dia, desde cedo, as crianças passam a maior parte do tempo em escolas, já que a maioria das mães é obrigada a trabalhar fora. Quando crescem um pouco, acabam acumulando um número exagerado de atividades, como curso de línguas, de piano, de informática, etc. Quais serão as conseqüências disso na vida adulta?

Iván - Nada boas. A infância é justamente a idade em que desenvolvemos nossa imaginação, em que descobrimos o mundo. É a idade de brincar, e a idade em que se aprende brincando, ou então não se aprende. Até línguas, música e informática, nessa fase da vida, se aprendem brincando. Não desprezemos a imaginação, porque é dela que surgem as coisas realmente importantes da vida. A roda, o telefone, a independência da América, a 5ª Sinfonia de Beethoven foram primeiro imaginadas, só depois realizadas. A infância é a idade da liberdade plena, em termos de aprendizado, exercício, prática e imaginação. Se não brincamos, observamos e imaginamos durante a infância, quando é que iremos fazê-lo?

Planeta - Embora hoje em dia uma pessoa de 60 anos não seja considerada velha, por volta dessa idade e às vezes até antes, a maioria é condenada a se retirar do mercado de trabalho. Até que ponto isso prejudica a saúde do idoso? Isso pode, por exemplo, afetar a sua memória?

Iván - Se o idoso estiver com boa saúde física e mental, justamente os 60, 70 ou mais anos são a idade certa para aplicar sua experiência da vida nas atividades do trabalho. Tirá-lo do mercado compulsoriamente, nesse momento, é ruim para o idoso e para a sociedade. Em outros países, há atividades destinadas justamente aos idosos. São aquelas que requerem menos força física e mais discernimento e experiênncia: prestar assessorias, dar aulas ou palestras, atender a recepção dos hotéis à noite (os idosos dormem menos), fazer reservas aéreas, atender nas lojas, etc.

Por outro lado, não devemos esquecer que a terceira idade é uma das etapas mais ricas em termos de desenvolvimento. Os idosos aprendem rapidamente a se adaptar ao convívio com um estado físico mais pobre e a encarar sua vida com economia e eficiência. Giuseppe Verdi, a Rainha Vitória, Deng Xiaoping, Adenauer e Borges realizaram suas maiores obras depois dos 70 ou 80 anos. Os velhos aprendem muito, fazem menos memórias, mas costumam retê-las muito bem, e aprenderam a discriminar quais são importantes e quais não.

Sem dúvida, a brusca retirada dos idosos do mercado de trabalho tem um efeito prejudicial sobre sua saúde mental e muitas vezes física. A memória é a função cerebral mais afetada, porque requer seu uso constante e cotidiano para se manter funcional e até evoluir.

Planeta - E o estresse pode ser mesmo considerado um vilão em casos de deterioração da memória?

Iván - Sim. O estresse prejudica a formação e a evocação das memórias. Parte disso se deve à secreção aumentada de corticóides pela glândula suprarenal, que caracteriza o estresse. Em doses altas e agudas, tem um efeito negativo sobre o processamento da aquisição e a evocação da memória; a esse efeito se devem os famosos "brancos". No estresse persistente, a hipersecreção contínua de corticóides acaba causando lesões nas áreas nobres da memória, com morte celular no hipocampo, a estrutura que faz as memórias no lobo temporal. Tudo isso, sem contar a ansiedade crônica e a depressão, que muitas vezes se seguem ao estresse e têm, por sua vez, efeitos próprios e negativos sobre a memória.

Planeta - Muitas mulheres no período de pré-menopausa reclamam de curtos momentos de esquecimento. Existe alguma pesquisa que explique isso?

Iván - Não conheço estudos definitivos sobre isso. Algumas mulheres no período de pré-menopausa têm episódios de ansiedade e depressão, e o déficit de memória que padecem é atribuído a essas causas. Mas pode haver fatores hormonais em jogo, talvez mais devidos a hipersecreção de corticóides do que a alterações nos hormônios sexuais. A maioria dos estudos demonstram pouco ou nenhum efeito do excesso ou falta de hormônios sexuais na memória, nem m nas mulheres nem nos homens.

Planeta - O que podemos fazer para manter a mente sempre saudável?

Iván - Usá-la o mais possível. A mente e, em particular, a memória são o exemplo típico daquele ditado que diz "a função faz o órgão". Quanto mais usadas, melhor funcionarão. Quanto menos utilizadas, mais rápida e intensamente se irão deteriorando. Isso se aplica a pessoas de todas as idades. Até a doença de Alzheimer se desenvolve mais lentamente, e atinge uma gravidade menor, nas pessoas com mais instrução, com mais uso de memória ao longo de sua vida. Essa, como sabemos, é a principal doença da memória, e consiste em sua perda por morte neuronal nas áreas que fazem e guarrdam memórias. Como as memórias são feitas e carregadas por neurônios, é evidente que quem tem mais memórias levará mais tempo para perdê-las do que quem tem poucas.

Planeta - Em seu livro, o senhor afirma que nunca, em toda a história da humanidade, tivemos tanto tempo para viver. Curiosamente, porém, falta de tempo é uma das reclamações mais freqüentes hoje. Como explicar isso?

Iván - Mencionei isso na resposta à primeira pergunta. A sociedade atual, esse monstro ruidoso e voraz que nós mesmos fomos criando ao longo do último século, preencheu esses 30 anos a mais de vida que a medicina nos deu com poluição e entulho, haja vista a quantidade insuportável de informações que não nos interessam com que somos bombardeados dia a dia. Ideologias políticas e econômicas, fundamentalismos dos mais diversos tipos, relatos da vida alheia, relatos de falsos milagres, promessas inúteis, propaganda de coisas que nem queremos nem podemos comprar, enfim, coisas que pouco têm a ver com nossos interesses vitais. Assim, dedicamos nosso tempo, esse bem tão precioso, a atender solicitações que não trazem nada de benéfico para nós mesmos.

Temos, no córtex frontal anterior, um sistema gerenciador de informações denominado "memória de trabalho". Esse sistema recebe, on line, todas as informações que nos chegam, e decide quais vale a pena guardar, quais rejeitar e quais requerem uma resposta rápida. Desaprendemos a usar esse sistema; a sociedade anestésica em que vivemos nos condicionou a não usá-lo. Já que o temos, e o carregamos conosco a todas as partes, creio que devemos reaprender a usá-lo. Aprender a dizer não. A memória de trabalho permite à mãe distinguir o pranto leve de seu filho do barulho de fundo do trânsito ou até dos bombardeios; há centenas de histórias da Segunda Guerra Mundial relatando isso. Aprendamos com elas para sobreviver e ajudar os outros a sobreviver.

Planeta - Segundo o senhor, quem tem uma vida espiritual vive melhor. Por quê?

Iván - Porque quem tem uma vida espiritual não se sente sozinho, isolado, desvalido; se sente parte de um universo mais rico e mais complexo, que não termina nos limites de nosso próprio corpo ou de nosso pequeno mundo. A solidão é um dos principais motivos da depressão, e a depressão, quando intensa, leva com rapidez à morte por suicídio ou por maior suscetibilidade a doenças muitas vezes graves e mortais, como as infecções e o câncer.

Planeta - Que outros itens o senhor apontaria como fundamentais para termos uma boa qualidade de vida?

Iván - Procuremos tempo para viver, para amar, para pensar, para aprender. Creio que essa procura é a maior função que temos de exercer neste mundo de hoje, se queremos que o presente e o futuro sejam melhores, dignos de ser vividos com intensidade. Há infinitas formas de amar e de pensar. Quando digo amar, me refiro não só ao amor sexual, mas ao amor em todos os seus aspectos: amar a si próprio, amar os amigos, os filhos, os netos, amar o futuro de nosso planeta, amar a natureza como fazia São Francisco. Amar a Deus, se nele acreditamos. Amar e praticar nossa escala de valores. Quando digo pensar, me refiro a tentar entender o que fazemos e por que o fazemos; tentar entender nossas motivações e as dos demais; a pensar no passado, no presente e no futuro, a pensar no que lemos e ouvimos, sem deixar nos distrair pela inércia do excesso de informações com que somos castigados. Amar, pensar e aprender são nossas atividades essenciais; sem elas, a vida em si não tem sentido. Aprender, o cérebro aprende sozinho, se lhe damos oportunidade de fazê-lo. Amar e pensar são por nossa conta; dependem de nossa decisão.

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