Porque tantos falham na hora H?


O torcedor não se conforma. A ciência explica por que mesmo atletas experientes desabam emocionalmente e não conseguem repetir, na olimpíadas, suas melhores marcas.

Revista Veja - por Luíza Karan

No sábado 4, quando Fabiana Murer interrompeu pela segun­da vez a corrida que a manteria na disputa por uma medalha no salto com vara, espectadores tiveram dificul­dade em acreditar que era o fim. Por que ela desistiria do salto, duas vezes segui­das, no tempo escasso que tinha para cumprir a prova? Parecia o desperdício de anos de preparação e treinos exaus­tivos. "Ainda estou anestesiada", disse ao deixar a pista. Ela chegou a culpar o vento por ter abortado duas tentativas. Depois reconheceu que saltara mal logo na primeira vez. A atual campeã mundial do salto com vara, título conquistado na Coreia do Sul no ano passado, não conse­guiu superar a barreira dos 4,55 metros­ pouco, para quem já saltara 4,85 metros. Seu comportamento surpreendeu outras competidoras. "Percebi que alguma coisa tinha saído errado", disse a russa Yelena Isinbayeva, medalha de bronze. "Talvez alguma contusão ou algum problema psicológico. Uma atleta do nível dela não desiste."

A tristeza estam­pada no rosto de Fabiana após a pro­va não faz distinção entre nacionalidades ou especialidades esportivas. Em Londres, ela podia ser vista em toda parte, a cada partida ou prova eliminatória. É resultado de uma ameaça com a qual os atletas convivem: o fracasso. Todos temem não ser capa­zes de repetir sua melhor marca ou de executar um movimento repetido à exaustão durante os treinos. Quando esse medo paralisa o atleta, ou induza a erros grotescos, ganha vários nomes. Uns chamam de amarelar. Outros de pipocar. A expressão da língua inglesa é a que chega mais perto de revelar os meandros dramáticos do insucesso: choke under pressure. O verbo choke sig­nifica asfixiar, sufocar. Um atleta é sufo­cado pela pressão. Anos de sacrifício são destruídos em segundos por um inimi­go interno, invisível. O desabafo da cor­redora americana Lolo Jones, depois de ficar num decepcionante quarto lugar na prova de 100 metros com barreiras, disputada na terça-feira, denuncia o tamanho da frustração: "Trabalhei seis dias da semana, por quatro anos, para uma prova de 12 segundos".

Lolo e Fabiana não estão sozinhas. A equipe australiana de natação, com­parada em seu país natal a "armas de destruição em massa" - por causa de talentos como James "Míssil" Magnus­ sen e James "Foguete" Roberts -, passou a ser chamada nas redes sociais de "ar­mas de decepção em massa". Favorita ao ouro, terminou apenas em quarto lugar na prova do revezamento livre 4 x 100 metros. Magnussen, o míssil, nadou os primeiros 100 metros em 48,03 segun­dos. Três dias depois, ele levou ouro nos 100 metros com a marca de 47,53 se­gundos. "Não sei o que me aconteceu", disse. A saltadora brasileira Maurren Maggi também não conseguiu repetir sua melhor marca. O mais longe que conseguiu saltar em Londres foi 6,37 metros. Na Olimpíada de Pequim, em 2008, quando ga­nhou a medalha de ouro, saltou 7,04 metros. "Não vou botar a culpa em outra coisa", disse Maurren, que so­freu uma lesão em abril. "Não era meu dia. Infelizmente, não consegui." A se­leção espanhola de futebol, principal candidata a repetir em Londres a vitória que conquistara na Copa do Mundo e na Copa da Europa, foi desclassifica da ainda na primeira fase, sem marcar um único gol. O judoca brasileiro Leandro Guilheiro, favorito ao ouro na categoria até 81 quilos por ser líder do ranking mundial, não chegou nem à disputa pelo bronze. Foi eliminado nas quartas de final e perdeu na repescagem. Assim como a vitória causa euforia coletiva, a derrota provoca desaponta­mento em série. É provável que cada um de nós projete naquele atleta humilhado os fantasmas de suas próprias derrotas. Ninguém entende por que isso acontece, e todos reagem muito mal. Os cientis­tas do esporte são os que chegam mais perto de apontar causas compreensí­veis para o colapso emocional de atletas e equipes muito bem preparadas. Eles sabem que um atleta não repetirá em todas as competições seu melhor resul­tado apenas porque conseguiu o feito em determinado momento. Seria uma extrapolação grosseira. Ninguém repete seus movimentos exatamente da mesma maneira toda vez que os executa. Esses pesquisadores sabem que existe algo além de uma combinação aleatória de fatores quando um ginasta como o bra­sileiro Diego Hypólito cai de barriga no chão, como fez nesta Olimpíada, ou sen­tando, como fez na Olimpíada anterior. Eram os momentos mais importantes de sua vida profissional, e ele sucumbiu. "Lembro a outra Olimpíada como algo muito ruim, o que não aconteceu agora", disse Hypólito a ÉPOCA. "Minha perna já vinha amolecendo no treino, como aconteceu na hora. Não fui para lá es­perando medalha."

Tão ou mais importante que a forma física é o preparo mental. Ainda que in­conscientemente, os esportistas podem sucumbir às artimanhas de seu próprio cérebro. A ciclista britânica Victoria Pendleton, de 31 anos, ouro e prata em Londres e ouro em Pequim, em 2008, co­nhece de perto o pânico de falhar. Che­gou a pensar em abandonar o ciclismo após os Jogos de Atenas 2004, quando terminou em sexto e nono em suas duas competições. Para vencer, Victoria teve de superar seu próprio medo de errar. Isso não significa que tenha deixado de sentir a pressão. "É uma de minhas maiores falhas: me preocupar com o que as pessoas pensam de mim. Não quero deixar ninguém na mão." A americana
Nicole Miller, que já foi psicóloga da seleção dos EUA de patinação e hoje é pesquisadora da Universidade de Utah, , nos Estados Unidos, diz que poucos atle­tas sabem lidar com a pressão. Ela traz a sensação de que, nas Olimpíadas, tudo será mais difícil e que os atletas deverão ser melhores que nunca. "Isso detona uma mudança mental que tem grandes
chances de acarretar derrota", diz. É a ansiedade de desempenho.

O mecanismo da ansiedade é simples e devastador: para prevenir as falhas, o atleta reforça a concentração. Fixa-se na mecânica do movimento, nos detalhes da execução de cada gesto e provoca um retrocesso mental. Passa a querer con­trolar o próprio cérebro, algo que ele não precisava fazer desde que conseguira dominar a técnica da modalidade. É como dirigir ou tocar um instrumento, uma habilidade que exige grandes do­ses de treinamento, mas que, a partir de certo ponto, é realizada quase automa­ticamente. Pensar em cada movimento antes de executá-lo destrói a naturali­dade e, neurologicamente, produz caos no cérebro. Faz com que ele funcione de maneira imprecisa, como com ini­ciantes. O psicólogo americano Bradley Hatfield, da Universidade de Maryland, constatou essa desorganização ao plugar eletrodos no cérebro de golfistas profissionais e amadores. Nos experts, as on­das cerebrais se repetiam num padrão semelhante ao de momentos de calma. Nos iniciantes, denunciavam agitação.

A lição mais imediata de estudos como esse é surpreendente: concentração de­mais faz mal. Por isso, não adianta cobrar os profissionais do esporte por se distrair antes das competições. É mais provável que, relaxados, eles tenham um desem­penho melhor. O psicólogo britânico RobGray, da Universidade de Birmingham, percebeu a importância da distração num experimento com rebatedores de beise­bol. Gray fez duas rodadas de teste. Na primeira, ao rebater, o jogador deveria atentar para a posição de suas mãos sobre o bastão. Na segunda, relatar a intensidade de um alarme sonoro acionado durante . a jogada. Os rebatedores acertaram mais bolas no segundo teste que no primeiro, quando refletiam sobre seus movimentos. A distração do som os ajudou a manter o cérebro no automático, desempenhando sozinho o que ele sabe fazer melhor.

Aprender a tapear o próprio cérebro exige treinamento, mas ainda são poucas as equipes no país que reconhecem o desafio da preparação psicológica. "No Brasil, somente cinco modalidades contam com um psicólogo. E muitos não são especia­lizados" diz a psicóloga do esporte Katia Rubio, professora da Universidade de São Paulo. Ela coordenou uma equipe multi­disciplinar para cuidar da saúde, inclusive mental, da Confederação Brasileira de Tê­nis de Mesa durante a preparação para a Olimpíada de Londres. A modalidade não trouxe medalhas, mas talvez seja um iní­cio. O Comitê Olímpico Brasileiro (COB) afirma que, das 32 modalidades, apenas 13 tiveram apoio psicológico durante os jogos. A atitude inédita do COB foi levar 16 jovens atletas promissores para ver de perto a Olimpíada de Londres. A ideia é que eles possam se familiarizar com o ambiente para que a pressão durante a Olimpíada do Rio de Janeiro, em 2016, não seja tão assustadora. "Quanto mais você passar por experiências parecidas, mais ferramentas terá para lidar com uma situação especial": diz Soraya Carvalho, ex-ginasta e coordenadora do programa Vivência Olímpica. É a difícil tarefa de aprender a esperar pelo inesperado.

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