Precisamos ter desejo pelo conhecimento


Fevereiro marca o início do ano letivo, momento de recomeçar a partir das reflexões propostas no período de planejamento pedagógico. Por isso, "Escola Particular" escolheu uma entrevista com o filósofo Mário Sérgio Cortella e o ator e educador Alexandre Saul, realizada durante o Saber 2011, após a palestra tea­tral "Educação, amorosidade e partilha: a excelência inspirada em Paulo Freire", que abordou temas como a necessidade de mudança, o diálogo como forma de partilha e a amorosidade como base sólida para um projeto de excelência. A palestra foi entremeada com excertos da peça "Sobre Sonhos e Esperança", encenada em escolas pelo grupo "Arte Tangível", do qual Saul faz parte e traz para os professores uma reflexão sobre sua prática na sala de aula.

Revista Escola Particular - por Paula Hernandes

Escola Particular - Se no contexto atual temos alunos do século XXI, professores do sécu­lo XX que utilizam uma metodolo­gia do século XIX, quais os desafios que precisam ser superados?

Mário Ségio Cortella - Hoje, temos um choque de séculos, de tempos, dentro da sala de aula e isso faz com que o trabalho pedagógico seja, por vezes, anacrônico. A noção de anacronismo não é a mesma de tradi­cional. Muita gente usa o termo "Escola Tradicional" de maneira equivocada. Uma escola tradicional é uma escola boa, porque tradição é uma coisa a ser protegida, guardada e cuidada. Quando uma escola é ultrapassada, deve-se dizer que ela é anacrônica, fora do tempo dela. Nesse sentido, a escola tradicional procura a excelência, ao passo que a escola anacrônica tem o olhar voltado ao passado, já ultrapassado. Por isso que, quando se imagina essa condição, esse choque intersecular expressa uma não realiza­ção dos objetivos sociais, individuais e éticos que a escola precisa fazer. Há aí uma profunda quebra de tempo que é bastante negativa. É interessante que o Alexandre traz com o grupo uma peça que fala de Paulo Freire, cuja parte de sua obra vai completar 50 anos, mas
não está fora do tempo. Nem tudo o que é do século XX ou do século XIX é fora do tempo. O que é fora do tempo são elementos do passado que já não têm mais vitalidade no século XXI. Não há problema no fato de que os alunos sejam do século XXI, nós se­jamos do século XX e alguns métodos do século XIX, se uma parte disso não fosse anacrônica. Porque uma parte é.

Escola Particular - Atualmente, fala-se muito em "Era da informação", ou na "Era da Co­laboração". Dentro desse contexto, como se dá a relação entre informa­ção e conhecimento?

Mário Ségio Cortella - Informação é básica ao conhecimento. É fato, dado, análise. Conhecimento é aquilo que você se apropria e, por­tanto, ele é vivenciado na ação. A informação, de maneira geral, é abstrata e o conhecimento não. Hoje temos mecanismos, bases digitais altamente exuberantes em re­lação à difusão da in­formação, mas não necessariamente ela conduz à consolida­ção do conhecimen­to. Comer bem não é comer muito. É comer de forma selecionada. De nada adianta entrar num lugar onde há uma oferta profusiva de alimento se eu não sei fazer a seleção.

O máximo que vou conseguir é me empanturrar. E, de maneira geral, a informação hoje soterra as pessoas no cotidiano. Ela sepulta, porque existe um nível de inutilidade muito grande com relação a essas informações, à medida que se supõe alguém bem in­formado como uma pessoa inteligente. O inteligente é o bem informado que transforma aquilo em vivência, em interpretação. Ele se apropria, pois, do contrário, tem mera informação e isso o computador tem.

Escola Particular - Durante a palestra, o senhor afir­mou que a flexibilização em Paulo Freire não significa uma frouxidão metodológica. Gostaria que expli­casse esse conceito.

Mário Ségio Cortella - É fazer com que haja autonomia no trabalho e, portanto, flexibilidade. Ser flexível é diferente de ser volúvel. A pessoa flexível é aquela capaz de observar as outras perspectivas e de ir buscá-Ias. Uma pessoa volúvel é aquela que muda de postura a qual­quer movimento.

Um professor que tem um plane jamento rigoroso daquilo que fará, não é um professor antidemocrático. An­tidemocrático é aquele que, primeiro tem uma postura autoritária ou aquele que não planeja, porque, como o não planejamento acaba redundando numa má execução, isso é autoritário, especialmente quando alguém tem uma posição de mando sobre o outro.

Então, a famosa não diretivi­dade, tão debatida na educação, se ela for entendida apenas como uma flexibilização do planejamento e como a não direção, se torna ainda mais au­toritária do que a direção con­creta. Porque a direção concreta é aquela que, por oferecer um caminho, permite que se discorde dele. Quando a sugestão é caminho nenhum, isso gera um descompasso e um descontrole e, portanto, ser flexível não é ser volúvel.

Escola Particular -  De que maneira o professor pode ser mais flexível, quando se tem um programa certo a cumprir?

Mário Ségio Cortella - Nenhum programa é certo a cumprir a ponto de não permitir fl lexibilidade, porque se assim o for, não é um programa. A palavra programa em si já contém a possibilidade de indicar antes, de programar, de registrar antes. O programa é raiz e não âncora. Não é algo feito para imobilizar. Se imobiliza, é então um péssimo programa. Ele é como um mapa de navegação, que in­dica caminhos, mas não te obriga a não sair do lugar se for necessário fazê-lo.

Alexandre Saul - É exatamente essa ideia do roteiro que a gente preparou. A gente não viria para a palestra sem uma preparação, sem um roteiro, sem uma combinação mas, ao mesmo tempo, tinha uma flexibilidade para que houvesse uma leitura da realidade, para que houvesse escuta entre as par­tes para que pudéssemos trabalhar o
tema de forma aprofundada.

Mário Ségio Cortella - Senão ficaria engessado. Uma coisa que a escola precisa aban­donar de vez que é a ideia de entender a grade curricular como sendo de ferro.

Escola Particular -  Nesse sentido, a grade se confunde com o programa e o programa acaba sendo "de ferro".

Mário Ségio Cortella -  Claro. O programa é uma sugestão de caminho. Uma escola precisa ter um programa, uma rede de ensino precisa ter, mas é preciso mobilidade para não se configurar em algo que amarre.

Alexandre Saul - Leitura da realidade, como diria Paulo Freire.

Escola Particular - Quais os ganhos que o professor tem ao focar nas "pre-ocupações" dos alunos?

Alexandre Saul - O ganho é justamente poder tor­nar os conhecimentos significativos, que são aqueles que ajudam os alunos por meio de uma problernatização, de uma leitura mais apurada e mais crítica da realidade a terem uma vida melhor, mais decente, com mais justiça, enfim, uma vida mais plena.

Acredito que essas sejam as vantagens, além de trabalhar um conhecimento que não seja simples­mente informação, mas que realmente sirva para promover a vida, a frater­nidade e um horizonte melhor para construirmos como sociedade.

Mário Ségio Cortella -  Ao mesmo tempo, a ideia de "pre-ocupação" é um respeito ao universo vivencial do aluno, de ma­neira a estabelecer pontes. Há um princípio básico na política e no amor que é o de não se queimar pontes. Até porque se você queimar, pode ser que um dia você tenha que voltar e não há como fazê-Ia. Então, nesta lógica, as "pre-ocupações"; ou seja, as ocu­pações anteriores que os alunos têm, são um terreno de imensa fertilidade para um trabalho pedagógico que se deseja fazer.

Escola Particular - Para isso o professor precisa estar sempre aberto para o que o aluno tem para mostrar.

Mário Ségio Cortella -  Claro. A frase mais tola que um professor pode dizer é: "Os alunos de hoje não são mais os mesmos", porque isso é uma demonstração de uma obviedade inacreditável. Até ai é sanidade mental. Agora, constatar que não são os mesmos e continuar dando aula do mesmo jeito que dava há dez ou vinte anos, aí é sinal de demência pedagógica.

Alexandre Saul - Isso que o professor falou é muito importante porque explicita a dimensão política que tem essa proposta de educação Freireana, que é o reconhecimento do outro como sujeito capaz de liberdade, de construção de conhecimento e de crítica.

Escola Particular - Como trabalhar o "apetite" e não a "fome" por aprender?

Mário Ségio Cortella -  Paulo Freire chamava isso de curiosidade epistemológica. A curiosidade é a expressão do apetite no campo do saber, no campo do conhecimento. É aquilo que faz com que a gente se incline na direção de algo. E nessa hora, o apetite pelo saber é algo que se move a partir das coisas que a gente já gosta, para que possamos chegar às coisas que não sabemos. Alguns falam em "fome" de conhecimento, mas isso é muito estranho, porque a fome é indicação de carência, enquanto que o apetite é indicação de desejo e acho que pelo conhecimento a gente tem que ter desejo e não supressão de carência. O conhecimento não é uma necessidade. Ele é também uma fruição, um aproveitamento, mais desejo do que carência.

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