Promessas incertas


Livros de auto-ajuda ocupam, cada vez mais espaço nas livrarias e nas listas de obras mais vendidas. Resta saber até que ponto cumprem o que prometem.

Revista Scientific American - por Hal Arkowitz e Scott O. Lilienfeld

Grande parte das pessoas compra livros de auto-ajuda. Em 2003, as editoras americanas colocaram no mercado mais de 3.500 novos títulos do gênero, levantando mais de US$ 650 milhões em vendas. Muitos desses leitores não podem ou não estão dispostos a procurar tratamento psicoterápico. No entanto, segundo pesquisas realizadas por John C. Norcross, da Universidade de Scranton, Estados Unidos, 80% dos psicoterapeutas recomendam essa literatura a seus pacientes. No Brasil, psicólogos são bem mais cautelosos em relação a esse tipo de publicação. Já o público, nem tanto. Mas em que medida os livros de auto-ajuda cumprem seus propósitos?

Os autores do gênero costumam fazer promessas tão exageradas que deveriam suscitar certo ceticismo. Considere o título do best-seller de Anthony Robbins, de 1992: Desperte o gigante interior (Record, 1993). O texto original de contracapa descreve Robbins como um "renomado especialista em psicologia da mudança". Entretanto, ele carece de qualquer credencial formal na área de saúde mental. Robbins já fez afirmações espantosas, como a de que pode curar qualquer problema psicológico em uma sessão, fazer uma pessoa se apaixonar por outra em cinco minutos e até ressuscitar indivíduos com morte cerebral.

Nem mesmo autores com formação em psicologia estão imunes ao exagero. Em Crer para ver: o caminho para a sua transformação pessoal (Nova Era, 1996), o psicólogo Wayne Dyer garante que basta acreditar para que seus sonhos mais impossíveis se tornem realidade e os obstáculos sejam transformados em oportunidades; você se livrará de culpas e tormentos interiores e passará os dias fazendo as coisas de que gosta".

  • Nasce a biblioterapiaDada a quantidade de tempo, dinheiro e esforço que os consumidores dedicam à literatura de auto-ajuda, para não falar das esperanças que ela suscita, é surpreendente que pessoas comuns pouco saibam sobre a eficácia desse material. Além disso, como apontou o psicólogo clínico Gerald M. Rosen, da Universidade de Washington, organizações profissionais de psicólogos não têm orientado o público sobre os pontos fortes e fracos da auto-ajuda. Alguns pesquisadores, porém, realizaram estudos sobre seus efeitos ou do que vem sendo chamado de "biblioterapia".

    Costumam participar dessas pesquisas pessoas que sofrem de distúrbios específicos, como depressão, ataques de pânico ou obesidade. Medições objetivas do problema são feitas antes e depois da biblioterapia e os dados são comparados com os do grupo de "controle", composto por quem não leu tais livros nem recebeu nenhum outro tratamento; a intervenção dura de quatro a 12 semanas. Alguns estudos comparam a terapia "biblioterápica" também com a psicoterapia.

    Os resultados desses estudos demonstram, em geral, que do ponto de vista da saúde mental a terapia com livros de auto-ajuda é melhor que nenhum tratamento e, em alguns casos, proporciona os mesmos benefícios obtidos com a psicoterapia. Mas antes que o leitor acesse a "amazon.com" ou corra à livraria, é preciso apontar as limitações desses estudos:

    Amostragem restrita. Apenas uma pequena porcentagem de livros de auto-ajuda foi avaliada; amostras maiores poderiam levar a resultados diferentes.

    Problemas menores. Muitos estudos se concentraram em pessoas com sintomas relativamente secundários (como o temor de falar em público), mais sensíveis a estratégias de auto-ajuda do que os portadores de distúrbios graves.

    Resultados desiguais. Nem todas as pessoas apresentam melhora, ao passo que em algumas os benefícios são significativos.

    As condições da pesquisa distorcem os resultados. Pessoas que se ofereceram voluntariamente para a pesquisa podem estar mais motivadas que o consumidor casual do mesmo livro. Alguns indivíduos foram encorajados a lê-lo pelo fato de os pesquisadores estarem monitorando sua condição.

    Combinação de tratamentos. Em uma das pesquisas analisadas constatou-se que alguns sujeitos também faziam terapia. Fica difícil, portanto, dissociar os efeitos positivos atribuíveis à psicoterapia dos que se devem à biblioterapia.

    Falsas esperanças. Muitos livros de auto-ajuda não conseguem cumprir as promessas desmedidas que fazem. Como resultado, os leitores podem interpretar a mudança que não experimentaram como um fracasso pessoal e passar a acreditar que são uma causa perdida ("síndrome da falsa esperança"). Quando as expectativas de transformação pessoal são exageradas e não podem ser satisfeitas, o indivíduo se sente frustrado e talvez desista de tentar se transformar.


  • Ainda a psicoterapiaMesmo quando a auto-ajuda funciona, ela tende a não ser tão eficaz quanto a psicoterapia. Marisa Menchola, da Universidade do Arizona, e Brian Burke, do Fort Lewis College, analisaram recentemente tal possibilidade. Diferentemente das tentativas anteriores, dessa vez eles incluíram apenas pesquisas em que o contato com o terapeuta ou com o pesquisador era mínimo e em que os sujeitos sofriam de problemas graves, como depressão maior ou síndrome do pânico.

    Os resultados mostraram que, em geral, as pessoas que passaram pela biblioterapia tiveram mais benefícios que aquelas que não receberam tratamento algum, mas, mesmo assim a psicoterapia ainda se mostrou superior. Certos livros de auto-ajuda podem contribuir para a mudança pessoal. Seja como for, a antiga expressão latina ainda é útil:

    Caveat emptor! ("Comprador, cuidado!").


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