Quando o estresse nos faz envelhecer


Tensão e cansaço prolongados prejudicam as defesas do organismo. Além disso, pessoas otimistas costumam ser mais resistentes. Por quê? A resposta parece estar na intersecção dos sistemas nervoso e imunológicos.

Revista Scienteific American - por Anna von Hopffgarten

Uma fina camada de pó já se acumulava sobre o folheto com fotos coloridas de belíssimas praias no Nordeste. Havia semanas, Vera sempre voltava a olhar as imagens, ansiando por dias ensolarados e longos passeios pela orla. O que tinha naquele momento, porém, era uma cansativa jornada até que terminasse as provas finais da faculdade e concluísse um projeto de trabalho. "Depois, finalmente, virão chegar as férias", pensava. Semanas mais tarde, porém, quando a moça finalmente chegou à charmosa pousada à beira-mar, percebeu que iria adoecer. Mal ajeitou as malas, notou que a garganta começava a arranhar, os membros a doer e a cabeça a latejar - clássicos sintomas de gripe. E assim, na primeira semana de sua ansiada viagem, ela não viu nada além da estampa xadrez dos lençóis de sua cama.

Situações desse tipo são bastante frequen­tes: a pessoa parece consumir suas energias até o limite e, no momento em que pode descansar, surgem os sintomas físicos. Esses fenômenos - aliás, bastante frequentes nas férias ou até nos fins de semana prolongados após um intenso período de estresse - são informalmente chamados de "doença do ócio"
(feisure sickness, em inglês). E, assim como Vera, as vítimas são pessoas em geral resisten­tes. O que, então, acontece com seu sistema imunológico nessas ocasiões?

• Poupar energia 

Desde os anos 30, a medicina psicossomática representa um ramo independente de pesquisa. Mais tarde, surgiram áreas médicas como a psicodermatologia, que investiga a interação entre psiquismo e pele. E psiconeuroimunolo­gia, voltada ao estudo da associação entre os sistemas nervoso e imunológico.

Esse é o campo de atuação do médico e psicólogo Christian Schubert, da Universidade de Medicina de Innsbruck, na Áustria. "Sob estresse durante um curto período o sistema imunológico inicialmente se torna ativo para proteger o organismo. No entanto, se as tur­bulências se prolongam por muito tempo isso nos deixa mais suscetíveis a doenças", afirma. "De alguma forma o corpo sempre sinaliza que exageramos; quando o herpes labial começa a dar sinais, por exemplo, muitos de nós já sabem que passamos da conta."

Ou seja: o estresse duradouro pode prejudicar massivamente as defesas do organismo. Inúmeros estudos comprovam a influência da tensão permanente sobre a coagulação do san­gue, as inflamações e o efeito de vacinas. Em 2008, pesquisadores coordenados por Philippe Gouin, da Universidade Estadual de Ohio, em Columbus, nos Estados Unidos, fizeram uma constatação importante: ferimentos cicatrizam de maneira mais lenta em períodos de grande cansaço e pressão emocional. Para chegarem a essa conclusão, os cientistas fizeram pequenas bolhas de queimadura no antebraço de 98 vo­luntários. Nos oito dias seguintes, Gouin e seus colegas registraram detalhadamente o processo de cicatrização. Resultado: em pessoas facilmen­te irritáveis, que não controlavam sua raiva, a crosta formou-se muito mais lentamente do que em pessoas mais equilibradas.

Isso acontece por conta da estreita relação entre o cérebro e o sistema imunológico. De um lado, os órgãos e as inúmeras células de defesa espalhadas pelos tecidos estão direta­mente ligados a determinados feixes nervosos. Essa associação se dá por meio das substâncias mensageiras. As células do sistema imune tam­bém dispõem de receptores para hormônios e neurotransmissores - é como se "falassem a língua dos neurônios".

• Defesa em dosi níveis

 O corpo reage ao estresse agudo com um complicado mecanismo de adaptação. Os sinais do hipotálamo chegam às glândulas adrenais através de fibras nervosas simpáticas. Estas últimas, então, liberam adrenalina e noradrenalina. Os hormônios do estresse elevam a frequência cardíaca e a pressão sanguínea e ativam o sistema imunológico. Pouco mais tarde, o eixo HPA é ativado. O hipotálamo libera o hormônio Iiberador de corticotrofina (CRH), fazendo com que a hipófise produza o hormônio adrenocorticotrófico (ACTH). Através da circulação sanguínea, ele chega às glândulas adrenais, onde é produzido o cortisol, que volta a normalizar a resposta imune intensificada ao longo do tempo.

• Celular e humoral

Inversamente, moléculas mensageiras do siste­ma imunológico também podem ativar células nervosas. "Dessa forma, o organismo fica "sabendo" rapidamente quando está infectado e pode se adaptar imediatamente à situação", explica Christian Schubert. Se, ao nos resfriar­mos, por exemplo, perdemos repentinamente o apetite e temos vontade de nos enfiar embaixo das cobertas num quarto escuro, temos aí um sinal de que nosso psiquismo "compreendeu" o alerta do sistema imunológico. Trata-se de um comportamento protetor (sickness behavior), com o objetivo de poupar as reservas de energia para se defender contra a doença.

Agora, se nos encontramos em uma situação aparentemente ameaçadora, na qual temos à frente um cão rosnando, nosso corpo rapida­mente coloca em ação um exército de reaç&ot tilde;es de defesa. O hipotálamo, estrutura localizada nas profundezas do cérebro, envia uma espécie de chamado de emergência decisivo. O sinal chega através de fibras do sistema nervoso simpático à medula adrenal, a qual em seguida libera os hormônios do estresse adrenalina e noradrena­lina. Isso prepara o corpo para a batalha ou para a fuga: a pressão sanguínea e a frequência cardíaca se elevam a fim de fornecer mais nutrientes aos músculos, a respiração se torna mais rápida para que o cérebro receba mais oxigênio e são liberadas na corrente sanguínea substâncias que reduzem a sensação de dor (ainda que não haja dor).

Mas isso não é tudo. Há quase uma déca­da uma equipe de cientistas coordenada pelo médico Peter Nawrot, da Clínica Universitária de Heidelberg, percebeu que essa rápida reação ao estresse também desencadeia processos inflamatórios. Os pesquisadores submeteram voluntários a um teste de estresse no qual os participantes tiveram, por exemplo, de fazer uma palestra em público ou solucionar equações matemáticas difíceis. Antes e depois de cada atividade todos passavam por um exame de sangue. Foi constado que depois dos testes as pessoas apresentavam no núcleo de determinadas células sanguíneas grande quantidade da proteína N F-kB -que surge quan­do há infecção. Se o cão do exemplo, portanto, realmente nos morder, o sistema imunológico já estará preparado!

A tropa de ataque que se forma em torno da adrenalina e da noradrenalina é complementada por um segundo sistema de defesa que se inicia depois: o eixo hipotalâmico-pituitário-adrenocortical (eixo HPA). Aqui, o hipotálamo produz o hormônio liberador de corticotropina. Assim que ele chega à hipófise - glândula hormonal do tamanho de uma amêndoa na base do crânio -, ela libera outra substância mensageira, o hormônio adrenocorticotrófico (ACTH). Através da circulação, as moléculas se deslocam até o córtex adrenal, que, por fim, libera o cortisol, o hormônio do estresse.

Essa substância, presente em várias pomadas anti-inflamatórias, leva o sistema imunológico de volta ao seu estado normal após algum tempo. O cortisol faz com que a infecção desencadeada pela reação do sistema nervoso simpático não cause danos ao organismo. Se a tensão mental logo se reduz - o nervosismo depois que a pa­lestra acaba, por exemplo -, o corpo também "se acalma". Mas no caso de estresse crônico é dife­rente: se o organismo está em estado de agitação constante, essa rede sensível se desequilibra.

É exatamente isso que acontece com muita gente que adoece durante as férias. Por meses, as pessoas se torturam diariamente com as demandas do cotidiano, e em geral a sobrecar­ga de demandas é acompanhada pelo excesso emocional. Muitos são perseguidos pelas obrigações até em sonhos. Com isso, o corpo é permanentemente inundado por cortisol, o que acarreta graves consequências, pois a longo prazo o hormônio do estresse reduz a defesa imunológica e atrasa o equilíbrio natural.

Dependendo do tipo de doença que ataca o organismo é ativada de forma mais intensa a defesa imunológica celular ou a humoral. A primeira combate de forma mais específica vírus e formações can­cerígenas, sendo apoiada principalmente pelas células auxiliares T do tipo 1 (T H 1). Se os vírus pe­netram nas células da mucosa do nariz, as células T H 1 alertam, entre outras, as células assassinas naturais, que atacam e matam os invasores e as células infectadas. Mas se bactérias entram no corpo, por exemplo através de uma ferida, são as células auxiliares T do tipo 2 (T H2) que provi­denciam para que sejam produzidos anticorpos contra os micro-organismos - um processo que faz parte da resposta imune humoral.

O cortisol atrasa o equilíbrio desses sistemas em favor das células T H2. Mas se estamos cons­tantemente estressados, o sistema de defesa inlermediado pelas T H 1 regride e a produção de anticorpos é, ao mesmo tempo, estimulada. Em consequência, tornamo-nos mais suscetíveis a infecções virais, muitas vezes reconhecíveis pelas pequenas bolhas do herpes labial que costumam eclodir em fases de turbulência na vida pessoal ou profissional. Uma resposta imunológica humoral intensa, por sua vez, nos torna mais suscetíveis a reações alérgicas.

Isso foi demonstrado pela médica finlandesa Maritta Kilpelâinen e seus colegas da Univer­sidade de Turku, em um estudo com 10.667 calouros de várias instituições de ensino. Os pesquisadores perguntaram aos participantes do experimento sobre eventos especialmente estressantes na vida deles, como morte de pa­rentes próximos ou conflitos exaustivos. Além disso, eles deviam informar se sofriam de asma ou de rinite alérgica. Segundo os cálculos estatís­ticos, os voluntários que anteriormente haviam passado por grandes dificuldades psíquicas desenvolviam alergia com muita frequência.

Muitos especialistas concordam que, atualmente, temos uma verdadeira epidemia de alergias. "Muitas vezes, a propensão para essa manifestação já é determinada durante a infância ou ainda na vida uterina, pois o estresse na população cresce em escala mundial", observa Christian Schubert. Ele salienta que, com isso, também maior número de futuras mães liberam mais cortisol - o que traz consequências para o feto.

"Os bebês já chegam ao mundo com uma atividade elevada de T H2 e isso é normal, pois toda gravidez implica um pouco de estresse", explica Schubert. "Mas se a gestante está sujeita a estresse psíquico muito grande, o sistema irnu­nológico do feto tende ainda mais intensamente a apresentar respostas intermediadas pelas T H2."

As consequências foram demonstradas em 2011 pelo grupo coordenado por Catarina Almqvist, do Instituto Karolinska, em Estocolmo, em um estudo com quase 1 milhão de crianças. Se as mães haviam vivido o luto pela morte de uma pessoa querida durante a gravidez, o risco de a criança sofrer de asma era muito mais alto.

Em geral, o desequilíbrio do sistema imunológico se normaliza nos primeiros anos de vida. Isso acontece aparentemente muito rápido quando a criança cresce em condições higiênicas sem exageros e sofre uma ou outra infecção. No entanto, se as turbulências familiares não acabam depois do nascimento, ou seja, se o nível de cortisol no corpo se m ujeita a estresse psíquico muito grande, o sistema irnu­nológico do feto tende ainda mais intensamente a apresentar respostas intermediadas pelas T H2."

As consequências foram demonstradas em 2011 pelo grupo coordenado por Catarina Almqvist, do Instituto Karolinska, em Estocolmo, em um estudo com quase 1 milhão de crianças. Se as mães haviam vivido o luto pela morte de uma pessoa querida durante a gravidez, o risco de a criança sofrer de asma era muito mais alto.

Em geral, o desequilíbrio do sistema imunológico se normaliza nos primeiros anos de vida. Isso acontece aparentemente muito rápido quando a criança cresce em condições higiênicas sem exageros e sofre uma ou outra infecção. No entanto, se as turbulências familiares não acabam depois do nascimento, ou seja, se o nível de cortisol no corpo se mantém alto, pode ocorrer um crash (uma quebra) no sistema que regula o estresse. Sobrecarregado, o eixo HPA repentinamente passa a liberar muito pouco cortisol e, com isso, não consegue mais controlar inflamações. "Essa situação se mantém por dé­cadas e se destaca principalmente em situações de estresse", diz o pesquisador de Innsbruck.

Isso provavelmente também esclarece por que pessoas que sofreram traumas no início da vida são especialmente suscetíveis a graves inflamações na velhice. Segundo um estudo sobre experiências adversas vividas na infân­cia realizado em 1998 por uma seguradora de saúde americana, existe aqui até mesmo uma relação direta entre a dose e o efeito: quanto mais intensamente uma pessoa foi traumati­zada nos primeiros anos de vida, maior é seu risco de sofrer de doenças inflamatórias, como reumatismo, anos mais tarde.

Inversamente, a atitude positiva diante da vida e o bom humor podem fortalecer a defesa e nos proteger contra inflamações - de forma prolongada. O grupo de pesquisa coordenado pelo psicólogo Andrew Steptoe, professor do Departamento de Epidemiologia e Saúde Pública da University College de Londres, con­cluiu que sentimentos bons não apenas podem reduzir a pressão, a frequência cardíaca e as inflamações, mas também há casos em que impedem a formação de coágulos sanguíneos.

 • Trauma de ontem, dor de hoje

Vivências especialmente estressantes também podem causar alterações moleculares. Nesse caso, influenciam, por exemplo, apêndices no genótipo que indicam com que frequência determinado gene é "lido" pelo organismo. A equipe coordenada pelo neurobiólogo canadense Michael Meaney, da Universidade McGiII, em Montreal, descobriu que pessoas abusadas na infância formam menos receptores do hormônio do estresse cortisol. Arti­go publicado no periódico científico Nature Neuroscience em 2009 revela que a consequência disso é que a substância mensageira não é capaz de reduzir as reações inflamatórias de forma tão eficiente, o que estimula o surgimento de doenças inflamatórias como o reumatismo.

• Otimismo contra a tifo

A psicóloga Suzanne Segerstrom e sua equipe da Universidade de Kentucky, em Lexington, desco­briram em 2010, pessoas com atitude otimista apresentam defesa imunológica especialmente boa. Consequentemente, vacinas também fun­cionam melhor para pessoas otimistas. E por otimistas, nesse caso, não se entende os eufóri­cos ou excessivamente alegres a ponto de negar os problemas, mas aqueles que acreditam em si mesmos e apostam em suas potencialidades.

Steptoe e colegas expandiram a pesquisa e injetaram em voluntários uma vacina contra tifo e depois mediram variáveis imunológicas presentes no sangue. As pessoas que, segundo um teste realizado anteriormente, se mostra vam positivas diante da vida apresentaram níveis claramente mais altos de anticorpos que os seus colegas pessimistas.

Segundo pesquisadores, não precisamos ser notórios otimistas para termos um forte sistema de defesa. Há casos em que tole­rância consigo mesmo, gestos concretos de gentileza e um pouco de simpatia com os outros são suficientes para nos proteger de um simples resfriado. Foi o psicólogo Sheldon Cohen e seus colegas da Universidade Car­negie Mellon, em Pittsburgh, na Pensilvânia, que comprovaram isso. Eles infectaram 334 pessoas saudáveis com um vírus de resfriado e registraram diariamente, nas três semanas seguintes, o estado de humor e as atitudes dos participantes do estudo. Resultado: independentemente da idade, do sexo e do status dos anticorpos antes do experimento, os impacientes e mal-humorados foram cla­ramente os que mais adoeceram.

Se bom humor e postura generosa fazem tão bem à saúde, parece fundamental cultivá-Ios. Mas isso nem sempre é fácil. Especialistas ressaltam que a "postura positiva" surge principalmente no círculo de amigos ou na relação íntima com o parceiro. "Hoje, cada vez mais pesquisadores admitem que as relações sociais são muito mais importantes para a saúde do que a forma como a pessoa se alimenta", diz Peter Henningsen, diretor da Clínica de Medicina Psicossomática e Psicoterapia da Universidade Técnica de Munique. Beijos e outros tipos de carinho, por exemplo, podem reduzir as consequências físicas do estresse associado ao trabalho. Foi o que descobriu a psicóloga Beate Ditzen, da Universidade de Zurique, em 2008. Quanto mais frequentemente os casais cultivam a intimidade (não necessariamente associada a sexo), menor a concentração de hormônios de estresse em sua saliva. Apesar de a pressão e os contratempos no trabalho normalmente elevarem o nível de cortisol, em casais que trocam carinhos com regularidade ele permanece em nível baixo.

Será que o sistema imunológico desequi­Iibrado de pessoas cronicamente estressadas pode ser estabilizado por meio de pensamento positivo e carinho? Não tão facilmente, já que ninguém se torna disponível para receber tran­qui lamente esse estímulo ao toque de um botão. "É como se você dissesse para alguém: agora seja espontâneo!", comenta Henningsen. Mas por meio da psicoterapia é possível que as pes­soas se conheçam melhor e elaborem formas de se relacionar consigo mesmas e com os outros.

• Algumas lições 

Estudos indicam que pode ser suficiente eli­minar o fator gerador do estresse para que determinadas alterações no sistema imuno­lógico regridam. Um estudo conduzido pela psicóloga Francis Cohen, da Universidade da Califórnia em São Francisco, revelou que in­tensas preocupa&cc

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