Quase por acaso


Ao longo da vida adquirimos capacidades e conteúdos cognitivos bastante úteis, sem nos darmos conta, seguir regras ou dedicarmos atenção consciente a esse processo. Quem se lembra, por exemplo, quando subiu uma escada pela primeira vez?

Revista Scientific American - por Ralph Schumacher e Elberth Stern*

Conceitos-chave

- No dia-a-dia adquirimos muitos conhecimentos de forma inconsciente. Isso quase sempre acontece sem que haja intenção de fazê-lo e sem atenção direcionada a esse objetivo.

- Capacidades específicas, como estratégias de solução de problemas, tambem podem ser aprendidas dessa forma. Experimentos psicologicos têm buscado esclarecer como a habilidade humana do aprendizado inconsciente pode ser utilizada para favorecer a aquisição do conhecimentos e desempenho escolar.

- Pesquisas mostram que pessoas com disposição para aprender, que buscam seguir regras e orientações conscientemente se saem bem melhor que aquelas que não têm a mesma intenção. Regras e exigências excessivamente complexas dificultam o aprendizado.

"Sua ligação é muito importante para nós." Quem ouve esse chavão ao ser atendido por algum serviço de telemarketing, intuitivamente, sabe que vai esperar muito; mesmo sendo amparado pela nova lei de proteção ao consumidor, que proíbe esse tipo de abuso. Mas o motivo pelo qual essa afirmação soa falsa, não é fácil de ser explicado. Há inúmeros casos em que se constrói uma sentença gramaticalmente correta, mas isso não garante que a mensagem seja compreendida com precisão. Isso ocorre porque a apreensão consciente de qualquer língua, incluindo a materna, é permeada por conhecimentos inconscientes: um saber que, muitas vezes, nem sequer nos damos conta que temos.

Esse aprendizado inconsciente é um fenômeno diário. Capacidades motoras, como andar ereto, ou competências como falar, por exemplo, são habilidades chamadas acessórias, que adquirimos sem perceber.

Estudos psicológicos, realizados nas últimas duas décadas, apontam uma série de indicadores sobre até onde vão os conhecimentos que podemos assimilar sem o auxílio da consciência. Algumas aptidões cognitivas se concentram no aprendizado de estruturas gramaticais, no reconhecimento de regras de soletração ou de seqüências numéricas, e na compreensão de conexões de sistemas dinâmicos complexos.

O chamado aprender implícito pode ser caracterizado, primeiramente, pela via acidental ou paralela, isto é, que se dá sem execução específica das etapas do aprendizado. É assim que apreendemos, por exemplo, o idioma materno - sem decidirmos fazê-lo. Como a aquisição é "informal", são poucas as pessoas capazes de descrever as regras gramaticais de seu idioma - ainda que possam aplicá-las corretamente.

Processos conscientes ou inconscientes ocorrem em diferenntes áreas do conhecimento. Mas, obviamente, nem tudo se aprende inconscientemente. Algumas habilidades, como o processo de fazer contas de porcentagem ou dar o nó em uma gravata, só podem ser adquiridas passo a passo, por meio de instruções. Ficam algumas perguntas. Onde estarão as fronteiras do aprendizado inconsciente, e por que, afinal, ele existe? Estará na complexidade do conteúdo? Ou a aquisição de determinadas competências, como a compreensão de formas de resolver problemas matemáticos só poderá se dar por meio do aprendizado consciente? A resposta a essas perguntas é de grande importância didática e pedagógica. Em última instância, para a estruturação do ensino escolar, seria extremamente útil saber quais conteúdos podem ser transmitidos inconsciente e conscientemente - e em qual caso é necessária a instrução orientada.

  • Por acidente

Para conhecer melhor o processo que subjaz o aprendizado implícito, pesquisadores propõe tarefas a voluntários, com o objetivo de descobrir, por exemplo, se os indivíduos submetidos ao teste dispõem de estratégias para resolver determinados problemas matemáticos. Após a resolução, as pessoas são convocadas a descrever as técnicas usadas para chegar à resposta. Se com isso for possível perceber que estão em condições de solucionar tarefas, ainda que sejam incapazes de descrever suas regras, aí se tem um primeiro indicador de um aprendizado implícito.

Porém, nem todos os pesquisadores de cognição concordam que esse procedimento seja adequado para uma comprovação inequívoca. É possível listar vários motivos para que as pessoas saibam dominar determinadas tarefas sem precisar dar informações a respeito de sua execução. E como esse aprendizado é inconsciente, é possível que os voluntários não o valorizem, por pura falta de confiança. Isso se deve ao fato de esse tipo de conhecimento não ser percebido automaticamente, a ponto de, em muitos casos, desaparecer da memória. Especialistas acreditam que a falta de lembrança seja a principal causa de as pessoas não utilizarem no cotidiano tudo o que sabem.

 Um ponto importante da aprendizagem implícita é que ela ocorre quase que por acidente, independentemente da vontade da pessoa. Assim, as crianças adquirem a habilidade de subir escadas sem se decidirem racionalmente a fazer isso. Em razão da independência das perspectivas da aquisição inconsciente de conhecimentos, o aprender implícito também é visto como método automático, que obedece a um sistema cognitivo próprio.

  • O desafio de ensinar
  • Não basta entender como se aprende, é preciso descobrir a melhor forma de ensinar. Há décadas, a psicologia, amparada pela neurologia, difunde que quando um aluno que se sente afetivamente protegido é desafiado a aprender, ocorrem mudanças físicas e químicas nas sinapses, o que facilita o acolhimento e a reconstrução das informações adquiridas. E graças às neurociências já não é novidade que a alfabetização influencia a organização funcional dos sistemas cerebrais, favorecendo também a memorização.

    A pedagogia neurocientífica, como denominam alguns pesquisadores, pode ser compreendida como o estudo da estrutura, do desenvolvimennto, da evolução e do funcionamento do sistema nervoso com enfoque plural: biológico, neurológico, psicológico, matemático, físico, filosófico e computacional. Nessa equação complexa, processos químicos e interações ambientais se aproximam e se complementam, propiciando aquisição de informações, resolução de problemas e mudanças de comportamento. Na prática, a aproximação entre as neurociências e a pedagogia pode reverter em melhoria de qualidade de ensino para milhares de estudantes.

    Os benefícios são bem-vindos, mas principalmente necessários. Afinal, a realidade é preocupante. Levantamento do Ministério da Educação revela que 20% dos brasileiros entre 15 e 19 anos são analfabetos, o que representa 12% da população brasileira. Segundo relatório da Organização das Nações Unidas para Educação, Ciência e Cultura (Unesco), o Brasil tem o sétimo maior contingente de analfabetos do planeta. Mais que mapear o cérebro, desvendar meandros de seu funcionamento, compreender fluxos e refluxos de neurotransmissores, acompanhar dinâmicas complexas e transformar passos da resolução de um problema em modelos matemáticos, observar e diagnosticar, pesquisadores de diferentes segmentos estão interessados nas implicações sociais da aquisição de conhecimentos que possibilitem a inclusão de milhares de crianças, adolescentes e adultos - e não apenas no que diz respeito à quantidade de pessoas com acesso à escola, mas também levando em conta a qualidade da educação oferecida.

    • Bases para entender o mundo

    A capacidade de andar ereto e o domínio da língua materna são resultados de uma "aprendizagem privilegiada", que ocorre segundo programas biológicos relativamente fixos em fases do desenvolvimennto. Por outro lado, no caso da aquisição de conhecimentos escolares, o chamado aprendizado não privilegiado (ao qual é necessário dedicar algum esforço) está em primeiro plano: neste caso, são os fatores sociais e culturais que definem em primeira instância quando os processos de aprendizagem devem ser iniciados e como devem ocorrer.

    O cérebro humano, porém, não possui nenhum módulo automático que permita o domínio de práticas como a leitura, a escrita ou o cálculo. O que se sabe com certeza é que aprender requer conhecimentos preexistentes. Para que as crianças se apropriem do conceito físico de densidade, por exemplo, precisam, antes, saber lidar com idéias abstratas como peso e volume. Para aprender que as baleias não são peixes, mas mamíferos, primeiro devem compreender que os animais não são classificados de acordo com a sua aparência nem seu hábitat, mas de acordo com a forma de reprodução.

    Quanto mais bem organizada for a base de conhecimentos prévios, mais fácil será o aprendizado não privilegiado. Portanto, para melhorar suas aulas, os pedagogos devem saber quais conhecimentos anteriores os alunos devem ter para que os objetivos didáticos sejam atingidos. Também é necessário considerar quais informações as crianças usam para solucionar novos problemas: por exemplo, de que conceitos intuitivos dispõem para lidar com quantidades e números e como eles podem ser utilizados? Tais questões não podem ser descritas neurofisiologicamente. Os métodos e conceitos da psicologia são aqui insubstituíveis, bem como a contribuição dos pesquisadores do cérebro para os estudos do ensino e do aprendizado não se compara à dos físicos para a engenharia. A neurobiologia, porém, fornece elementos para diagnóstico e explicação de distúrbios cognitivos e correta identificação de habilidades inatas - conntanto que ela trabalhe também com análises comportamentais baseadas em conceitos psicológicos. "É possível que todos aprendam, o problema é que ainda não sabemos como ensinar a todos", diz a educadora Elvira Souza Lima, pesquisadora e professora de história da escrita do Museu Metropolitano, de Nova York, ex-professora do Instituto de Psicologia da Universidade de São Paulo (USP).

    • Quem procura acha

    Cientistas concordam que a perspectiva de aprender algo influencia os resultados dos experimentos psicológicos. Um exemplo disso se dá quando pesquisadores pedem a voluntários que soletrem ou contem números seguindo regras. Já um grupo de controle recebe apenas instruções neutras, para executar a mesma tarefa. Os estudos revelam que pessoas com disposição para aprender, que buscam conscientemente seguir regras e orientações se saem bem melhor que as que não recebem instruções. Essa vantagem, porém, logo se desfaz quando as normas oferecidas são complexas demais.

    Essa conclusão foi atestada por meio de estudos do aprendizado implícito de estruturas gramaticais, bem como de experimentos em que as pessoas deviam comandar, pelo computador, sistemas dinâmicos complexos - por exemplo, uma fábrica de açúcar. Os voluntários estavam propensos a fornecer esclarecimentos sobre a conexão de preceitos dinâmicos. Mas com relação à capacidade de controle desses sistemas, ambos os grupos tiveram o mesmo êxito. Em todo o caso, esse tema merece mais investigações, pois ainda não está esclarecido o papel das perspectivas de aprendizado consciente na apreensão de formas de resolver problemas complexos, como de matemática e física.

    A suposição de que tanto o aprender inconsciente quanto o consciente estejam ancorados em processos cognitivos é amparada por pesquisas sobre o papel da atenção. Se a apreensão implícita de conteúdos acontece por meio de processos automáticos e se encontra em um sistema cognitivo independente, ele não deveria ser influenciaado por atividades conscientes, que demandam atençã . Os voluntários estavam propensos a fornecer esclarecimentos sobre a conexão de preceitos dinâmicos. Mas com relação à capacidade de controle desses sistemas, ambos os grupos tiveram o mesmo êxito. Em todo o caso, esse tema merece mais investigações, pois ainda não está esclarecido o papel das perspectivas de aprendizado consciente na apreensão de formas de resolver problemas complexos, como de matemática e física.

    A suposição de que tanto o aprender inconsciente quanto o consciente estejam ancorados em processos cognitivos é amparada por pesquisas sobre o papel da atenção. Se a apreensão implícita de conteúdos acontece por meio de processos automáticos e se encontra em um sistema cognitivo independente, ele não deveria ser influenciaado por atividades conscientes, que demandam atenção.

    • Atenção! Concentração

    Em numerosos estudos que buscam justamente desvendar a aquisição de capacidades práticas - como, por exemplo, jogar xadrez, reconhecer regularidades em soletração ou em seqüências numéricas - pesquisadores demonstram que o aprendizado implícito também se realiza, mesmo com a atenção dos voluntários sendo ao mesmo tempo orientada para outras tarefas, como contar uma sucessão de sons. O aprendizado implícito, portanto, pode se dar paralelo a outras atividades conscientes. Mas isso demonstra que a seqüência de aprendizagem seria, de modo geral, mais ampla se paralelamente à aquisição inconsciente não houvesse nenhuma outra atividade que exigisse a atenção do indivíduo. Precisamos levar em conta, também, que o aprendizado implícito depende de quem está aprendendo e das circunstâncias que envolvem a situação.

    Para compreender melhor de que forma o aprender implícito demanda concentração, alguns psicólogos propõem a distinção de dois tipos de atenção. Um é relativo à capacidade mental. Quando alguém executa uma tarefa que exige foco, recorre a essa capacidade. Experimentos com voluntários que realizavam simultaneamente diferentes atividades, de forma consciente, mostrou que em situações nas quais as pessoas são obrigadas a direcionar suas competências mentais para duas ou mais atividades, o aprender implícito fica comprometido.

    O segundo tipo de atenção se refere a aspectos seletivos da assimilação, àquilo a que "escolhemos" prestar atenção. Quando aprendemos alguma coisa, não é útil direcionar nossa atenção, indiferentemente, a todos os estímulos. Costuma ser mais proveitoso eleger o que de fato interessa - caso contrário, ficamos confusos e sobrecarregados de informações que não seremos capazes de processar. Se for o caso de descobrir, por exemplo, se determinadas seqüências numéricas geram um padrão regular, será necessário nos concentrarmos em determinadas propriedades, como a forma.

    Uma técnica frequentemente usadas em estudos de reconhecimento desses padrões consiste em pedir a voluntários que digam, com antecedência, qual sinal originará o seguinte. Portanto, para descobrir se depende apenas do foco é preciso investigar como as instruções dadas favorecem a consideração de determinadas impressões.

    Pesquisadores acreditam que os sistemas cerebrais responsáveis pelos aprendizados explícito e implícito se encontram em sistemas distintos, que se desenvolvem por meio de processos cognitivos independentes um do outro. O aprendizado inconsciente se baseia em modelos automatizados e não interfere nos métodos da consciência. Já o apreender consciente não se deixa conduzir por hipóteses - se você se concentra em aprender a dar nó em gravata, por exemplo, é necessário que desenvolva representações de cada passo. Por isso, o aprendizado consciente tem como marca registrada a aproximação em relação ao objeto, por método de tentativa e erro, e no decorrer da utilização desse método, diferentes hipóteses são postas à prova.  Algo bem diferente se passa com o aprendizado implícito, no qual as hipóteses não são percebidas conscientemente e os indivíduos tendem a se orientar mais por indícios superficiais que por regras que lhes subjazem. Pesquisas também sugerem que os conhecimentos adquiridos implicitamente numa área não são automaticamente transferidos para novas situações. Já as informações que introjetamos conscientemente tendem a ser mais facilmente transmitidas e adaptadas.

    • Para escolher e organizar informações

    A atenção é uma função de fundamental importância, já que permite a interação do indivíduo com o seu ambiente, além de subsidiar a organização de processos mentais. Por meio dessa habilidade é possível captar estímulos e selecionar qual deles terá seus detalhes apreendidos de forma privilegiada. A forma como "escolhemos" e processamos essas informações contribui para determinar nosso comportamento. Estudos recentes, nos quais são utilizadas técnicas de imageamento cerebral têm possibilitado a investigação dos mecanismos específicos do sistema de atenção. É possível destacar três tipos de atenção: seletiva, sustentada e dividida.

    Para conhecer mais

    Explicit learning and tacit knowledge: an essay on the cognitive inconscious. A. S. Roberg. Oxford University Press, 1993.
    Conscious and unconscious strategie discoveries. R. S. Siegler e E. Stern, em Journal of Experimental Psychology 127(4), 1998, págs. 277-397.  

    Leitura Dinâmica e Memorização

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