Que venham os desafios


Por que algumas pessoas enfrentam enormes dificuldades e conseguem superá-las, enquanto outras simplesmente sucumbem emocional e até fisicamente diante de perdas e frustações, às vezes aparentemente até menos graves? Pesquisadores tem buscado evidências científicas que ajudam a entender o que favorece a resistência psíquica.

Revista scientific American - por Steven M. Southwick e Dennis S. Charney.

Em abril de 1984, quando era aluno da Universidade Brown, Jerry White decidiu passar um ano estudando em Israel. Em um dia ensolarado durante o feriado de Páscoa, o rapaz e dois amigos foram acampar nas Colinas de Golã. Ele se lembra do momento exato que mudou sua vida: "Eu andava à frente de meus colegas enquanto tentava me recordar de uma canção". Então, de repente, uma explosão: White havia pisado em uma mina terrestre. Ao ver o sangue escorrendo por suas pernas, se deu conta: havia perdido o pé direito. Os amigos o cobriram com uma camisa, amarraram um torniquete improvisado em torno da perna ferida e carregaram o jovem pelo campo que, até então, não sabiam que estava minado. O rapaz passou os quatro meses seguintes em dois hospitais israelenses. Na maior parte do tempo sentia-se impotente, triste e solitário. "Conheci pessoas que passavam por sofrimento semelhante; algumas haviam perdido os braços, as pernas, os olhos, ou eram vítimas de queimadura. É aterrorizante", diz. Ao voltar para os Estados Unidos, terminou a faculdade e começou a trabalhar como professor substituto antes de se tornar um ativista pela causa de vítimas que haviam passado por situações parecidas. Em 1995, White, juntamente com seu amigo e colega de trabalho Ken Rutherford, que perdeu ambas as pernas em uma mina terrestre na Somália, fundaram a Rede de Sobreviventes de Minas Terrestres (posteriormente rebatizada de Corpos Sobreviventes). O grupo tomou frente na Campanha Internacional de Proibição de Minas Terrestres, agraciada com o Prêmio Nobel da Paz em 1997.

  A transformação de White, que passou de vítima assustada a sobrevivente e ativista, demonstra resiliência, o "processo de boa adaptação em face de adversidades, traumas, tragédias, ameaças ou motivos significativos de estresse", segundo a Associação Americana de Psicologia (APA, na sigla em inglês). Uma pessoa resiliente pode até "dobrar", mas não "quebra" quando confrontada com situações adversas - essa maneira de lidar com os problemas facilita a recuperação de forma relativamente rápida. Biologicamente, a resiliência é a capacidade de aproveitar de forma construtiva a resposta ao estresse, uma habilidade essencial para a saúde física e mental. Quando não tratado, o estresse crônico pode comprometer o sistema imune e contribuir para o aparecimento de diversas doenças, como depressão, úlceras gástricas, asma, diabetes e cardiopatias. O proIblema também pode favorecer comportamentos prejudiciais à saúde, por exemplo, tabagismo e uso excessivo de álcool. O sucesso também parece depender, em grande parte, da capacidade de resiliência. De fato, dificuldades fazem parte de qualquer empreendimento, mas aqueles que reagem de forma mais flexível costumam ter mais êxito. Recentemente, em um artigo da Harvard Business Review, o psicólogo Dean M. Becker; um pesquisador dessa capacidade, apontou que "a resiliência influi mais na vida de uma pessoa que educação, experiência ou instrução. Isso vale para saúde, competições esportivas, até mesmo as Olimpíadas, e para a vida profissional".

Manter a determinação (às vezes mudando o foco e revendo objetivos) ou desistir facilmente (e se dar por vencido) diante das dificuldades depende de diversos fatores. A capacidade de resiliência é influenciada tanto por características inatas como por elementos ambientais que afetam o modo de adaptação ao estresse. Embora  algumas influências externas, como a pobreza,  sejam difíceis de ser revertidas, a pessoa pode  aprimorar sua capacidade de resiliência por meio do cultivo de atitudes que favoreçam a elaboração  de situações difíceis e até de traumas.

• ESTRATÉGIAS EFICAZES

Acostumamo-nos a pensar que o estresse é ruim mas isso nem sempre é verdade. Na verdade, algumas vezes, ele pode até ser bom. Sem passarmos por situações desgastantes, teríamos pouquíssima resistência a frustrações. Sermos obrigados a lidar com dificuldades ajuda a desenvolver maturidade, autoestima, aprimoramento pessoal e resiliência. A pessoa com essas características,
portanto, não é alguém que evita o estresse, mas aprende a dominá-Io e usá-Io a seu favor.

Diversos estudos, vários deles com gêmeos idênticos, sugerem que algumas características pessoais capazes de favorecer o desenvolvimento da resiliência - como autoconfiança diante de novas tarefas, sociabilidade, bom humor e aceitação de si mesmo com falhas - que podem ser herdadas, pelo menos em parte. Atualmente, pesquisadores começam a desvendar processos biológicos básicos envolvidos na resiliência, que facilitam respostas mais saudáveis ao estresse.
Além da variável orgânica, aspectos ambientais afetam o desenvolvimento da resistência psíquica, como apoio da família, qualidade do ensino escolar, laços comunitários e segurança. É provável que uma pessoa solitária, sem relacionamentos afetivos consistentes e um trabalho com o qual tenha compr rometimento afetivo, encontre maior dificuldade para lidar com situações de estresse, em comparação a um indivíduo profissionalmente satisfeito, sem grandes problemas financeiros e que pode contar com o apoio de pessoas queridas. Escassez de recursos materiais, falta de uma rede social que ofereça apoio e saúde debilitada também podem prejudicar a possibilidade de encontrar saídas criativas em momentos de adversidade.

Aliados a traços de caráter específicos, alguns desses fatores situacionais podem ser difíceis de mudar. No entanto, é possível aprender a pensar e agir de maneira que favoreça o desenvolvimento da resiliência. Do ponto de vista neurológico, quanto mais ativamos conscientemente áreas específicas do cérebro adotando certas atitudes e práticas, mais conexões neurais são formadas nessas regiões, permitindo que neurônios envolvidos nesses processos transmitam mensagens de forma mais eficiente.

Identificamos estratégias para o aprimoramento da resiliência. Os métodos que reforçam essa capacidade focam aspectos como aprender a regular as emoções, adotando perspectivas ao mesmo tempo positivas e realistas; praticar exercícios físicos; aceitar desafios; manter uma rede social próxima e solidária; e observar e imitar pessoas resilientes.

Não é novidade que a capacidade de regular sentimentos como tristeza, raiva e medo é fundamental para lidar de forma eficaz com situações difíceis, até para que não comprometam nossa capacidade de pensar claramente e tomar decisões racionais nesses momentos. Nesse sentido, métodos de reavaliação cognitiva e a meditação de atenção plena (mindfulness) têm recebido crescente apoio científico nos últimos anos. Por meio da primeira é possível reinterpretar o significado de eventos adversos e enxergá-Ios de forma mais amena. Não se trata, de forma alguma, de negar o sofrimento inerente à vivência dolorosa, mas aceitá-Io e ir além dele. A prática ajuda a reduzir reações fisiológicas e emocionais relacionadas a situações traumáticas.

Estudos realizados pelo psicólogo Kevin Ochsner e seus colegas da Universidade Columbia mostraram que quando reinterpretamos uma experiência, como rejeição em uma entrevista de emprego ou perda de um amigo, por exemplo, de forma intencionalmente mais amena, com maior aceitação do que é inevitável e humildade diante do que não é possível mudar, pelo menos imediatamente, tendemos a experimentar menos emoções desagradáveis. A equipe de Ochsner também descobriu que os ganhos vêm acompanhados de mudanças cerebrais específicas, como aumento da atividade no córtex pré-frontal (área envolvida no planejamento, na direção e na inibição do comportamento) e diminuição da ação da amígdala (região relacionada ao processamento de emoções, como o medo).

Não é de hoje que os cientistas estudam como as pessoas controlam as emoções. Indivíduos que utilizam frequentemente a reavaliação cognitiva como uma maneira de alterar suas reações emocionais ao estresse e ao trauma geralmente relatam maior bem-estar psicológico do que aqueles que não procuram formas neutras ou positivas de interpretar circunstâncias difíceis de lidar. Desenvolvemos uma pesquisa em 2008, em parceria com a psiquiatra Adriana Feder; da Escola de Medicina Monte Sinai, na qual entrevistamos 30 ex-prisioneiros de guerra do Vietnã sobre como avaliavam suas experiências de combate.
Descobrimos que os veteranos (pelo menos a maioria deles), muitos dos quais haviam sido brutalmente torturados, reavaliaram a experiência de aprisionamento e encontraram formas de ressignificá-Ia, o que os tornou mais fortes, maduros e resistentes. Eles também relataram que atualmente se sentiam mais capazes de criar vínculos afetivos, vislumbrar possibilidades futuras e apreciar a vida.

O treino de reavaliação cognitiva é útil no controle da ansiedade na medida em que auxilia o paciente a observar seus próprios pensamentos e comportamentos com o intuito de desafiar as avaliações negativas que faz de si mesmo e de situações estressantes, o que abre espaço para substituí-Ias por pontos de vista mais realistas e positivos. Nas abordagens comportamentais, em geral, quando confrontada com um episódio altamente desgastante ou negativo, a pessoa em tratamento é encorajada a se perguntar: "Existe uma maneira menos destrutiva de olhar para essa situação?", "Percebo o impacto negativo de forma exagerada?", "Existe algo que eu possa aprender com essa experiência?", "É possível amadurecer com tudo isso?". Em abordagens com embasamento psicanalítico o enfoque é mais amplo e a escuta das queixas do paciente, mais abrangente - a pessoa lida não apenas com questões que a incomodam momentaneamente, mas também com o que sustenta seu sistema de crenças, abrindo espaço para transformações psíquicas profundas.
A prática de meditação mindfullness ajuda a focar a consciência no aqui e agora e a evitar a ruminação de aspectos do passado ou a preocupação excessiva com o futuro. A mente tende a seguir automaticamente padrões de pensamento familiares condicionados que não raro precipitam angústia e estratégias de enfrentamento que desencadeiam a angústia. Durante a prática de atenção plena o participante se torna um observador que aprende a prestar atenção sem julgar. A técnica tem sido associada à concentração, à flexibilidade do pensamento, ao bem-estar psicológico e à capacidade de lidar com depressão, ansiedade e estresse. Estudos com tomografia cerebral revelam que a psicoterapia aliada à meditação pode aumentar a ativação do córtex pré-frontal esquerdo, um padrão associado ao maior controle emocional.

• UM COPO MEIO CHEIO

Os benefícios de desenvolver resiliência vão além de amenizar emoções desconfortáveis. O empenho direcionado para reforçar sentimentos positivos pode também favorecer a capacidade de se recuperar de dificuldades. A  flexibilidade psíquica está fortemente associada à boa saúde física e mental e, em muitos casos, até mesmo à longevidade. Em um estudo publicado em 2001, a psicóloga Deborah D. Danner, especialista em desenvolvimento, e seus colegas da Universidade de Kentucky examinaram esboços autobiográficos feitos por 180 freiras da Escola Irmãs de Notre Dame, de  Milwaukee, quando ainda eram noviças, pouco antes de fazerem os votos perpétuos. Os pesquisadores descobriram que ute;rtex pré-frontal esquerdo, um padrão associado ao maior controle emocional.

• UM COPO MEIO CHEIO

Os benefícios de desenvolver resiliência vão além de amenizar emoções desconfortáveis. O empenho direcionado para reforçar sentimentos positivos pode também favorecer a capacidade de se recuperar de dificuldades. A  flexibilidade psíquica está fortemente associada à boa saúde física e mental e, em muitos casos, até mesmo à longevidade. Em um estudo publicado em 2001, a psicóloga Deborah D. Danner, especialista em desenvolvimento, e seus colegas da Universidade de Kentucky examinaram esboços autobiográficos feitos por 180 freiras da Escola Irmãs de Notre Dame, de  Milwaukee, quando ainda eram noviças, pouco antes de fazerem os votos perpétuos. Os pesquisadores descobriram que o grau de emoções positivas expressas nos relatos que haviam sido escritos décadas atrás serviu com "preditor de longevidade". Curiosamente, apenas 34% das religiosas que tiveram textos considerados "pouco alegres" estavam vivas com 85 anos, enquanto 90% das que tiveram relatos julgados "felizes" continuavam vivas nessa idade.

Os cientistas acreditam que os benefícios das emoções positivas à saúde resultam da melhor capacidade de regular respostas ao estresse. A psicóloga Barbara L. Frederickson e seus colegas da Universidade da Carolina do Norte em Chapel Hill descobriram que emoções negativas tendem a aumentar a excitação fisiológica, estreitar o foco de atenção e restringir os comportamentos essenciais para a sobrevivência. Já os sentimentos positivos ajudam a reduzir a agitação e a ampliar a concentração, o que favorece respostas mais criativas e flexíveis.

É fundamental levar em conta, porém, que pessoas que adotam uma visão extremamente positiva do mundo tendem a subestimar situações desgastantes e arriscadas. Por outro lado, indivíduos confiantes e "positivos" procuram filtrar informações negativas desnecessárias e prestam bastante atenção aos fatos desagradáveis mas relevantes ao lidar com situações adversas. A técnica modificação cognitiva de preconceito, por exemplo, utiliza o treinamento repetitivo para que a pessoa aprenda a não se ater excessivamente a palavras e acontecimentos negativos e desenvolva o hábito de interpretar situações ambíguas de forma mais imparcial.

• MEXER O CORPO

A prática de atividades físicas também pode aumentar a resistência psíquica, protegendo as pessoas - e animais - contra os efeitos negativos do estresse. Durante a última década, o neurocientista Benjamin N. Greenwood e seus colegas da Universidade do Colorado em Boulder publicaram uma série de estudos com ratos que mostraram que seis semanas de atividade na roda de exercício ajudou a amenizar sintomas de ansiedade e depressão nos roedores, além de  reduzir comportamentos como medo exagerado,  exploração social e consumo de morfina - aspectos tipicamente relacionados à exposição ao estresse intenso.

Exercícios aeróbicos provocaram efeitos semelhantes em humanos, principalmente em relação à diminuição dos sintomas de depressão e ansiedade. Além disso, ajudaram a melhorar a capacidade de atenção, planejamento, tomada de decisão e memória - o que ajudou as pessoas a lidar com o estresse. Os cientistas acreditam que a prática regular de atividade física também favorece o desenvolvimento de resiliência por meio de mecanismos neurobiológicos, ao aumentar, por exemplo, os níveis de endorfina e de neurotransmissores, como dopamina e serotonina, que ajudam na regulação do humor e no controle da depressão. E mais: exercitar o corpo ainda suprime a liberação de cortisol, o principal hormônio relacionado ao estresse.

Além disso, pesquisas revelam indícios de que atividades físicas ativam o fator neurotrófico derivado do cérebro (BDNF), uma proteína endógena responsável por regular a sobrevivência neuronal e a plasticidade sináptica do sistema nervoso periférico e do central, que podem ser danificados pelo estresse. Em um estudo publicado em 2011, o psicólogo Arthur F. Kramer e seus colegas da Universidade de IIlinois em Urbana-Champaign descobriram que praticar exercícios aeróbicos três dias por semana durante um ano aumentou em 2% o tamanho do hipocampo, uma região do cérebro envolvida na memória e na regulação do estresse. O crescimento foi associado ao aumento do BDNF e à melhora na memória, o que sugere que exercícios físicos podem ajudar a proteger os neurônios dessa área e auxiliar pessoas a se recuperar de circunstâncias difíceis.

O Departamento de Saúde e Serviços Humanos dos Estados Unidos, por exemplo, recomenda aliar a prática de exercícios aeróbicos - como natação, corrida ou caminhada rápida - dois dias por semana ao treino muscular mínimo de uma hora e 15 minutos por semana. No entanto, antes de começar a praticar exercícios físicos, é fundamental passar por uma consulta médica e desenvolver um cronograma planejado para aumentar gradualmente a intensidade de força e treinamento cardiovascular com a ajuda de um profissional de educação física.
As atividades devem ser desafiadoras, mas suportáveis. Assim, a pessoa pode obter os benefícios biológicos dos exercícios e ajustar cuidadosamente sua exposição ao estresse de maneira que a resiliência seja aprimorada.

Essa estratégia geral, chamada de inoculação do estresse, toma como base a noção de que, se uma pessoa deliberadamente assume cada vez mais desafios complexos, ela vai gradualmente aprender a lidar com níveis mais elevados de esforço. Esse princípio de exposição gradativa pode ser aplicado a diversas atividades destinadas a aumentar a resistência física, emocional e cognitiva. Praticantes de atenção plena, por exemplo, podem aumentar a capacidade de concentração alongando dia a dia os períodos de meditação. Uma pessoa que tem medo de falar em público pode se inscrever em uma oficina para aprender a dar palestras e depois participar de pequenas conversas públicas não ameaçadoras para, aos poucos, sustentar um discurso diante de grandes plateias

Essas experiências devem estar fora da zona de conforto, mas não ser tão intensas a ponto de se tornarem incontroláveis ou potencialmente nocivas. É preciso planejar e aumentar progressivamente a intensidade ou a dificuldade dos objetivos. Para ter maior tolerância ao estresse

    Administração do Tempo

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