Quem não chora não mama


Políticos de várias partes do mundo agora derramam lágrimas em público. A emoção é uma nova e arriscada arma na busca pelo apoio do povo.

Revista Época - por Felipe Pontes

O homem de gelo derreteu. Eleito pela terceira vez para a Presi­dência da Rússia, Vladimir Pu­tin deixou que lágrimas corressem soltas sobre seu rosto ao discursar no último diâ 4. Diante de 100 mil pessoas na Pra­ça Vermelha, em Moscou, ele agradecia pela conquista. Denúncias de mani­pulação eleitoral vieram da oposição e do exterior. Nada foi capaz de conter a emoção explícita de um líder que, em outros tempos, mal sabia sorrir. Putin talvez tenha se inspirado em sua colega de mundo emergente, Dilma Rousseff. Já faz mais de um ano que Dilma venceu sua eleição presidencial, mas o exercício cotidiano do poder pode pregar peças no coração daqueles que, digamos, gover­nam com amor. Durante um discurso no dia 2, a presidente soltou as lágrimas ao falar do petista Luiz Sérgio, que ela mes­ma demitira do comando do Ministério da Pesca para dar lugar ao evangélico Marcelo Crivella (PRB-RJ). Não im­porta onde, se no frio de Moscou ou no calor tropical brasiliense, líderes de várias nacionalidades resolveram escancarar suas emoções em público. Da Oceania às Américas, é uma cho­radeira que não acaba mais.

"Se bem usado, o choro é uma arma retórica e política", afirma Tom Lutz, autor do livro Crying: the natural and cultural history of tears (Chorar: a his­tória natural e cultural das lágrimas), em que mostra a evolução do choro nos últimos séculos. ""Atualmente, esse é um recurso quase obrigatório para os políticos." Diante da nova onda, os líderes que ainda não derramaram uma lágrima sequer em público devem estar discutindo com seus assessores o mo­mento ideal para fazê-Io - de preferência, antes da próxima eleição. Os planos serão jogados fora, logicamente, se o país enfrentar uma catástrofe de pro­porções bíblicas, seja um bombardeio inimigo ou um castigo da natureza. Foi o que fez o então primeiro-ministro australiano, Kevin Rudd, em 2009, diante dos incêndios que devastaram vizinhanças inteiras e mataram 173 pessoas. Sua sucessora, Julia Gillard, mostrou seu lado sensível no Parlamen­to dois anos depois, quando o inimigo era a água. Ao falar sobre a morte de um menino de 13 anos nas enchentes de Queensland, lá vieram as lágrimas da premiê - ou seriam de crocodilo? Gillard foi acusada de ter encenado a emoção, algo pior que ser chamado de insensível. "O choro aumentou entre os políticos", "diz Martin J. Medhurst, professor de retórica e comunicação da Universidade Baylor, no Texas, Estados Unidos. "Eles querem mostrar autenti­cidade e sinceridade. É a melhor manei­ra de persuadir e ganhar votos."

A tendência não é exatamente iné­dita. "Era natural chorar em público, para políticos ou não, desde a Grécia e Roma antigas", diz Tom Lutz. O recur­so foi documentado em 1858 nos Esta­ dos Unidos, ano em que os senadores Abraham Lincoln - que três anos de­pois se tornaria presidente - e Stephen Douglas debateram sete vezes. "Lincoln chorava quando apropriado, e Douglas devolvia o choro logo em seguida", afir­ma Lutz. A aceitação ao choro começou a mudar ainda no século XIX, com a segunda Revolução Industrial no Reino Unido. "As pessoas aprenderam a ficar quietas e a trabalhar nas fábricas como engrenagens de uma máquina. Não ha­via espaço para emoções. Isso ressoou na sociedade e na política."

Ainda nas décadas de 1960 e 1970, não pegava bem para um político chorar em público. Era puro sinal de fraqueza, quase um suicídio político. As coisas mudaram nos anos 1990, quando o fim da Guerra Fria deixou os líderes mais descontraídos. Mas é bom não exagerar. O choro pode ser benéfico ou prejudicial ao político de­ pendendo do momento, do motivo e da intensidade (leia o quadro abaixo). O republicano Iohn Boehner, eleito em 2010 para o comando da Câmara ame­ricana, quase se afogou num mar de lágrimas. Virou piada, mas não apren­deu: chorou de novo numa entrevista na TV. As mulheres correm o risco de ser consideradas frágeis, mas vale ar­riscar. Hillary Clinton chorou depois de perder uma prévia democrata para Barack Obama, em 2008 - e subiu nas pesquisas seguintes.

Muitos zombaram do choro derra­mado por Putin. O senador america­no John McCain escreveu no Twitter: "Querido Vlad. O povo russo também está chorando". O blogueiro Aleksei Navalny disse a um canal de televisão privado que o presidente eleito deve ter começado a chorar quando pensou: "Deus, o que fiz com este país?": A asses­soria do Kremlin negou que Putin tenha chorado. Disse que ele apenas "lacrime­jou devido ao forte vento": É mesmo? O que nunca faltou na Rússia foi vento frio. Se Putin chorou, é porque, além de .muito esperto, parece estar por dentro da moda na política mundial.

• A etiqueta do choro

O que um político pode ou não fazer ao derramar lágrimas em público:

Não Pode

Pode

Chorar até soluçar - A falta de limites o transforma num político sem nenhum controle da situaç& ão. É um ingrediente perfeito para os comediantes.

Chorar comedidamente - O controle emotivo, com uma ou outra lágrima derramada, passa maturidade. O político ganha em empatia e continua sendo considerado forte.

Fingir o choro - Não se comoveu? Fique como está. Lágrimas de crocodilo são difíceis de esconder. Poucos políticos são realmente bons atores.

Chorar sinceramente - Sinceridade é sinônimo de autenticidade. É uma bela arma para cativar votos, desde que usada no momento certo.

Chorar por um problema pessoal, como um divórcio - . Como alguém que não consegue lidar com as dificuldades da própria vida pode governar uma nação?

Chorar pela perda de amigo ou parente próximo - É bom para se humanizar. Barack Oaba ma chorou pela morte da avó em 2008. Todo mundo gostou.

Chorar num discurso de derrota - É sinal de fraqueza. Perder uma eleição serve de aprendizado para uma próxima campanha.

Chorar num discurso de vitória - Um campeão tem o direito de se emocionar. As lágrimas são um prêmio a seus seguidores.

Chorar diante de uma pequena tragédia local - Se cinco pessoas morreram num acidente rodoviário deixe que apenas parentes e amigos chorem.

Chorar diante de uma grande tragédia nacional - O país sofre com atentados, uma guerra ou inundações históricas? Chore - e abrace um sobrevivente.

Repetir o choro pelo mesmo motivo - A tragédia foi grande? Pode chorar, mas só uma vez. A recorrência tira a força das primeiras lágrimas.

Chorar ao se lembrar da tragédia que o fez chorar - Anos após a catástrofe, num evento de homenagem aos mortos, talvez as lágrimas voltem. Tudo bem.

    Oratória

    Preencha aqui seus dados

© Copyright 2020 - Todos os direitos reservados à Methodus