Quer ser mais feliz? Entre em flow


A experiência de flow faz com que você perca a noção de tempo. Além disso, desenvolve aquilo que de melhor você tem a oferecer.

Revista Ciência&Vida - Psiquê - por Lilian Graziano

Você pode não saber o que é flow. Mas não é nem um pouco difícil que já tenha experimentado esse estado. Sabe aquelas vezes em que nos envolemos em uma atividade a tal ponto que nem percebemos o tempo passar? Pois é, se isso aconteceu com você, é bem possível que você tenha tido um momento de flow. Digo "bem possível" porque a perda da noção de tempo é apenas uma das características do flow, conforrme veremos mais adiante. Mas, antes de discutirmos melhor esse conceito que é tão importante para a psicologia Positiva, gostaria de desculpar-me com os mais "nacionalistas" por manter o termo flow em inglês, o qual julgo mais adequado (e elegante) que seu equivalente "fluxo" em português. Há palavras que devem ser mantidas em sua língua original, a exemplo dos tão atuais "sites" da "internet".

Isto posto, voltemos à questão do flow. O conceito de flow foi desenvolvido na década de 1960 pelo psicólogo Mihaly Csikszentmihalyi, que, a partir do estudo do processo criativo, interessou-se pelo fenômeno da motivação intrínseca, ou pelo que chamamos de atividade autotélica. Denominamos autotélico um tipo de atividade recompensadora por si mesma, independentemente de seu produto final ou de qualquer bem extrínseco que dela possa resultar. Nesse sentido, a leitura de um livro poderá ser considerada uma atividade autotélica para aquele indivíduo que saboreia a leitura e o faz pela leitura em si e não porque precisa, por exemplo, estudar para uma prova.

Mas que tipo de ligação teria o flow com a felicidade? Para respondermos a essa questão, é necessário compreender que, em linhas gerais, a Psicologia Positiva postula que, do ponto de vista do indivíduo, a felicidade seria o resultado do cultivo de emoções positivas em relação ao passado, presente e futuro. Assim, Seligman afirma haver duas maneiras de experimentarmos a felicidade no momento presente: pelo prazer e pela gratificação. Sabemos que os prazeres são definidos como satisfações com claros componentes sênsoriais e fortemente emocionais, que se caracterizam por serem passageiras e exigirem pouco, ou mesmo nenhum, raciocínio. Definimos, então, como prazer: o êxtase, o entusiasmo, o orgasmo, o deleite, o gozo, o conforto etc. Embora seja um componente da felicidade, o prazer, por si só, é incapaz de alcançá-la, ao contrário do que a cultura ocidental (e os apelos da sociedade de consumo) leva-nos a crer. Isso ocorre em razão de seu caráter efêmero e à sua incapacidade de trazer complexidade ao Self.

Já a gratificação, por sua vez, não é acompanhada, necessariamente, por qualquer sensação natural e origina-se das atividades que gostamos muito de praticar e que nos envollvem, de tal forma, que perdemos a noção da realidade. Durante tais atividades, sentimos que nossas habilidades atendem ao desafio do que estamos fazendo e entramos em contato com nossas forças pessoais. Ao nos engajar nessas atividades, entramos no chamado esstado de flow, que, de acordo com Csikszentmihalyi, reúne as seguintes características: concentração intensa e focada, fusão entre ação e consciência, perda da autoconsciência reflexiva, sensação de controle sobre as próprias ações, distorção da experiência temporal e experiência de que a atividade é intrinsecamente recompensadora.

Mas talvez seja, na sua relação com a complexidade do Self, que reside a característica mais importante do flow, na medida em que, ao tornar-se progressivamente mais complexo, o Self cresce. Tal complexidade é resultado de dois processos psicológicos descritos por Csikszentmihalyi: a diferenciação e a integração.

A diferenciação corresponde a um movimento em direção à individualidade, ou seja, da capacidade de diferenciar o si mesmo das outras pessoas. A integração, por sua vez, trata-se do oposto, correspondendo à união do Self com outras pessoas, idéias e seres exteriores a ele. Para Csikszentmihalyi, o flow ajuda também a integrar o Self na medida em que o estado de profunda concentração indica que a consciência está extraordinariamente organizada.

Um outro aspecto ligado ao flow é o uso das chamadas forças pessoais. Partindo da idéia de felicidade de Aristóteles (eudemonia), a Psicologia Positiva acredita na felicidade como resultado de uma vida virtuosa. Seguindo esse princípio, os pesquisadores estudaram vários códigos de conduta da humanidade e chegaram a seis virtudes comuns a todos: saber e conhecimento, coragem, amor e humanidade, justiça, temperança e transcendência. O próximo passo surgiu do questionamento: Quais as características que um ser humano deveria ter para conquistar tais virtudes? Os pesquisadores chegaram, assim, a 24 características, as quais chamaram de forças pessoais. Cada um de nós possui um pouco dessas 24 característiicas, porém algumas nos são muito típicas (em geral cinco delas), configurando aquilo que de melhor temos a oferecer.

Nesse sentido, vale dizer que a experiênncia de flow não apenas fornece um conjunto de desafios e oportunidades para a ação, mas também, tipicamente, oferece um sistema de desafios graduais que leva o indivíduo a envolver-se com a atividade, contínua e profundamente, promovendo a gratificação e o aumento de suas habilidades (forças pessoais).

Em síntese, quando uma pessoa engaja-se n numa atividade que exige o emprego de suas forças pessoais, ela muito provavelmente experimentará, durante o exercício dessa ativiidade, os chamados momentos de flow que, ao proporcionarem gratificação, exerceriam um papel fundamental nos níveis de felicidade vivenciados por ela.

Talvez a melhor notícia de todas seja a de que qualquer atividade pode, potencialmente, levar uma pessoa ao flow, desde que dela exija o emprego de suas forças pessoais. Isso significa que o próprio trabalho pode levar ao flow e, possivelmente, essa seja uma das razões pelas quais emmpresas do mundo todo estão tão interessadas na Psicologia Positiva, afinal, estudos comprovam o impacto do flow no desempenho dos funcionários. Além disso, pesquisas apontam que garotos que relataram ter experienciado altos índices de flow chegam à universidade, desenvolvem laços sociais mais profundos e são mais bem-sucedidos do que seus pares com um índice menor desse tipo de experiência.

Vale lembrar, ainda, que uma das conclusões a que chegamos em nossa pesquisa de doutorado é que a experiência do flow pode depender da autoconsciência. Pessoas que conhecem suas forças pessoais podem buscar atividades em que elas são necessárias e, com isso, exercer um papel ativo no aumento de seus níveis de felicidade. Mais uma vez em que o autoconhecimento mostra-se fundamental.

Características do flow

- Concentração intensa e focada: voltada para aquilo que está se fazendo no momento presente.
- Fusão entre ação e consciência: esta fusão provocará uma espécie de bloqueio da consciência, na medida em que a atenção estará focada apenas para a ação. 
- Perda da autoconsciência reflexiva: perda da consciência de si mesmo como ator social. 
- Sensação de controle sobre as próprias ações: sensação de que, em principio, se é capaz de lidar com a situação, por saber exatamente como responder aos acontecimentos.
- Distorção da experiência temporal: normalmente uma sensação de que o tempo passou mais rápido do que o normal. 
- Experiência de que a atividade é intrinsecamente recompensadora: de forma que o objetivo final é apenas uma desculpa para o processo.

REFERÊNCIAS:

GRAZIANO, L. A felicidade revisitada: um estudo sobre bem-estar subjetivo na visão da Psicologia Positiva. Tese (Doutorado em Psicologia). Instituto de Psicologia da Universidade de São Paulo, São Paulo, 2005.
CSIKSZENTMIHALYI, M. Findirig flow: the psychology of engagement with everyday Iife. Nova York: Basic Books, 1997.
NAKAMURA, J.; CSIKSZENTMIHALYI, M. "The concept of flow". In: SNYDER, C. R.; LOPEZ, S, (orgs.). Handbook of positive psychology. Nova York: Oxford, 2002, p, 89-106.

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