Questão de Autoestima


A forma como nos vemos se reflete nos relacionamentos afetivos e sociais. Pesquisadores acreditam que mais importante que ter uma boa autoimagem é mantê-Ia estável.

Revista Scientifc American - por Christophe André

Já me detestei e já me adorei; além disso, envelhecemos juntos." A frase do filósofo e Paul Valéry (1871-1945) exprime bem a relação que as pessoas mantêm consigo mesmas - uma "convi­vência" muitas vezes difícil. Nos últimos 30 anos, pesquisadores de diversos países têm se esforçado para compreender aspectos da autoestima. O conceito diz respeito ao que se pensa de si, os sentimentos que essas opiniões deflagram e seus reflexos nos relacionamentos afetivos, sociais e profissionais. Trata-se não só do olhar que lançamos sobre nós mesmos, mas das implicações desse juízo sobre a vida cotidiana.

Psicólogos e psiquiatras constataram que pessoas com autoimagem positiva podem ter mais facilidade para fazer boas escolhas. Além disso, se abatem me­nos com eventuais fracassos ou julgamentos alheios. Já as que nutrem baixa autoestima são mais críticas e tendem a se desvalorizar; inseguras, hesitam em tomar decisões, temendo a opinião dos outros caso seus supostos pontos fracos sejam descobertos.

A forma como enfrentamos circunstâncias cons­trangedoras, reagimos às críticas, ao esquecimento ou à rejeição oferece indícios a respeito de nossa autoestima. O apreço exagerado por si mesmo, porém, pode denunciar o desejo inconsciente de encobrir a própria falta de confiança. Especialistas observam que muitos profissionais e estudantes se consideram superiores à média no exercício de suas funções e acreditam possuir qualidades que os tornam alguém especialmente bom. Numa escala de avaliação as pes­soas tendem a se situar acima dos outros sem razões objetivas para isso - é o que psicólogos costumam chamar de sobreestima, Mas em situações difíceis (de rejeição social ou problemas profissionais, por exem­plo), em geral, fica claro que essa supervalorização pessoal não passa de mera fachada.

Segundo psiquiatras, muitas pessoas que - apenas aparentemente - têm autoimagem elevada fazem, na verdade, avaliações instáveis de si mesmas, atribuem a responsabilidade pelos próprios fracassos aos outros ou às circunstâncias e não suportam críticas. Já aqueles com autoestima sólida mantêm mais facilmente a estabilidade emocional ao enfrentar adversidades.

Várias pesquisas no campo da psicologia cognitiva se voltam justamente para a contraposição entre a imagem frágil e defensiva de si e a alta autoestima autêntica. Em uma experiência sobre o tema, voluntários deveriam indicar rapi­damente, na tela de um computa­dor, se diversos adjetivos positivos (simpático, inteligente, generoso) ou negativos (indiferente, hipó­crita, colérico) correspondiam a eles ou não. Não interessava aos pesquisadores o número exato de soluções apresentadas pelos participantes e sim a rapidez com que respondiam - o que traduzia sua sinceridade, ou seja, se de fato a opinião declarada correspondia às convicções íntimas. Pessoas
com autoimagem sólida eram mais assertivas e respondiam em menor tempo.

Um conceito instável a res­peito de si revela a necessidade de reconhecimento e a incerteza quanto ao próprio valor. Sentindo­-se em muitas ocasiões como se vivesse uma fraude nos diferentes papéis que desempenha (de espo­sa, amiga, mãe e profissional, por exemplo), a pessoa tenta conven­cer aos outros e a si mesma de suas qualidades. Estudiosos do com­portamento humano concordam que a "boa" autoestima não precisa parecer elevada o tempo todo, o importante é que se mantenha estável diante de eventos adver­sos. A equação é sutil: a pessoa pode se reconhecer forte, inteli­gente, interessante ou integrada socialmente e, ao mesmo tempo, admitir que comete erros, deparar com inseguranças, temores - e incomodar-se com isso. As falhas, porém, não ameaçam o equilíbrio nem são motivo de vergonha, mas um mote para questionamentos e aprendizado. O insucesso numa área específica da vida não leva o indivíduo com boa autoestima a se depreciar integralmente.

• Sistema imunológico

Para compreender a relação que uma pessoa estabelece com sua imagem é importante saber qual aspecto é destacado com mais intensidade. Dependendo da história de cada um e das influên­cias familiares, sociais e culturais alguns superestimam a aparência física, outros enfatizam êxito pro­fissional ou escolar, há também os que valorizam o próprio poder de sedução ou as aptidões esportivas. O executivo que trabalha muitas horas por dia, reservando pou­co tempo para relacionamentos afetivos e atividades de lazer, por exemplo, pode se desestruturar emocionalmente ao ser demitido ou aposentar-se.

Valorizar conquistas em di­ferentes setores e diversificar interesses, olhando para si como alguém capaz de desempenhar vários papéis e obter sucessos mais ou menos significativos nesses diferentes campos, portanto, é fundamental para manter auto­estima saudável. A autonomia também é importante. Quando a pessoa privilegia o reconheci­mento social em detrimento da obtenção de objetivos íntimos - como relacionar-se com mais serenidade e de forma generosa - pode tornar-se excessivamente dependente de opiniões alheias e, portanto, mais vulnerável.

Estudos da psicóloga Jennifer Crocker, da Universidade de Michigan, Estados Unidos, con­firmam que a autoestima sofre me­nos oscilações quando se baseia, prioritariamente, em diferentes domínios de competência. A es­tabilidade, por sua vez, favorece a resistência à a adversidade, razão pela qual a autoestima funciona como uma espécie de "sistema imunológico da consciência": fa­vorece a capacidade de adaptação ao meio e o bem-estar emocional. Trata-se, sobretudo, de uma facul­dade de recuperação: experiências realizadas pela pesquisadora com estudantes universitários mostra­ram que a autoestima estável não protege contra as repercussões psicológicas de uma situação crítica capaz de desencadear sen­timentos de auto desvalorização, tristeza e depressão, mas permite recuperação mais rápida e com poucas sequelas emocionais. O caráter polivalente da autoima­gem esclarece por que ela está envolvida em aspectos essenciais da condição humana: poder, amor, relação com os outros, status social e medo da morte.

O ser humano é um animal social por necessidade. Como primatas, somos mal equipados para enfrentar os predadores, condenados a viver em grupo e particularmente sensíveis a toda forma de rejeição social - nos pri­mórdios da evolução, ficar afas­tado do grupo significava perigo concreto à sobrevivência. Assim, a autoestima seria uma espécie de barômetro social, capaz de refletir sentimentos de popularidade e de aceitação. Experiências recentes confirmam essa ideia.

• Como um barômetro

Considere o seguinte exemplo: uma pessoa aceitou participar de experiência psicológica no laboratório de uma universidade. Após passar pelo teste de perso­nalidade, o psicólogo responsável pelo estudo lhe dá o seguinte pa­recer: "Você tem o perfil dos que terminam a vida na solidão, pois é incapaz de manter relaciona­mentos duradouros satisfatórios". Em seguida, a pessoa é conduzida a uma sala onde há duas cadeiras: uma em frente a um espelho e outra de costas para ele. Diante da previsão sombria que acabaram de ouvir, 90% dos voluntários preferiram se sentar de costas para o próprio reflexo.

Já pessoas sorteadas para participar de estudo similar, no qual Ihes era dito que tinham condições de manter relaciona­mentos afetivos felizes e dura­douros, escolheram acomodar-se de forma indiferente: alguns de frente, outros de costas para o es­pelho. A experiência, coordenada pelo psicólogo americano Jean Twenge, da Universidade de San Diego, Califórnia, revelou que a simples menção de uma perspecti­va de vida solitária tem por con­sequência a recusa de se defrontar com a própria imagem.

De forma exacerbada, tais ati­tudes podem deflagrar transtornos de comportamento, como mostra a experiência realizada em 2005 pelo pesquisador Roy Baumeister, da Universidade Princeton, Es­tados Unidos. Foram formados grupos de seis componentes do mesmo sexo e Ihes foi proposto que procurassem se conhecer durante 20 minutos. Em seguida, todos foram conduzidos para ou­tra sala, onde deveriam escolher duas pessoas que tinham acabado de conhecer para trabalhar em grupo. O pesquisador anunciou para metade das pessoas que elas não foram escolhidas por ninguém (na realidade, tratava-se de uma escolha ao acaso, mas isso só foi revelado depois). A outra metade re­cebeu mensagem diferente: "Você foi escolhido por várias pessoas". A fase seguinte consistia em avaliar, conforme questionário bastante objetivo, o sabor e a textura de 35 doces - todos idênticos.

Participantes que acredita­vam ter sido rejeitados avaliaram, em média, nove doces antes de responder às questões, ao passo que aqueles que se julgavam acei­tos formaram opinião depois de, no máximo, cinco degustações. Os pesquisadores constataram que, diante de uma situação de exclusão, as pessoas tendem a se tornar inseguras a respeito dos próprios julgamentos. A desvalorização social interfere nos mecanismos de autocontrole que permitem enfrentar desafios novos de forma equilibrada.

Multiplicando as situações apresentadas, a mesma pesqui­sa forneceu outros resultados: o indivíduo rejeitado não se empenha nem se controla tanto quanto os que foram escolhidos por seus pares, abandona mais cedo tarefas difíceis e aceita correr mais riscos. As pessoas cuja autoestima foi atingida por uma experiência de rejeição perdem a vontade de se esforçar.

O medo de ser rejeitado, que nasce muitas vezes da convicção de que os outros estão atentos aos nossos defeitos, provoca o mesmo efeito. Como a pessoa duvida de si e de sua aceitação social, vigia-se o tempo todo, convencida de que os que estão ao seu redor fazem o mesmo. Quando a autoestima vacila, temos a desagradável - e,
em geral, equivocada - impressão de que somos o centro das aten­ções. Os tímidos frequentemente sofrem com esse autoengano.

• Vergonha da camiseta

Uma experiência feita nos Estados Unidos mediu a distância entre a impressão de ser observado pelos outros e o que de fato acontece. Na primeira fase, pessoas que
vestiam uma camiseta com es­tampa do cantor Bany Manilow, há vários anos afastado da mídia, sentavam-se em uma sala com ou­ tros voluntários, sem saber o que ocorreria. Solicitaram-Ihes prever quantas pessoas observariam a camiseta que vestiam, por fim, perguntaram às outras pessoas se elas se recordavam do rosto na camiseta dos voluntários que entraram depois. Os que usaram a roupa previram que pelo menos metade dos demais participantes notariam, mas apenas um quarto deles se lembrou - um número duas vezes menor que o previsto. Essa proporção não ultrapassaria 10 % se a imagem na camiseta não fosse a de um cantor esquecido, mas de alguém bem conhecido, como Martin Luther King ou Bob Marley, por exemplo. Se em geral tendemos a superestimar o número de pessoas que nos oservam, quando a auto estima está debilitada, a distorção é ainda maior; pois estamos convencidos de que os outros perceberão todos os nossos defeitos.

Nas terapias de autoestima de orientação cognitivo-compor­.amental, pacientes aprendem a enfrentar o olhar e o julgamento dos outros por meio de pequenos exercícios, nos quais devem cha­mar a atenção (vestindo roupas extravagantes ou apresentando-se no caixa de uma grande loja e fingindo ter esquecido a carteira, por exemplo). Quando percebem que tais situações embaraçosas, que parecem impossíveis de enfrentar, não têm consequências graves, muitos desses pacientes se livram, pouco a pouco, do receio do julga­mento alheio e da rejeição social. Porém, se causas mais profundas da baixa autoestima, em geral vinculadas a experiências vividas na infância, não forem detectadas e tratadas, o problema poderá voltar algum tempo depois.

Para alguns teóricos, valor tilde;o todos os nossos defeitos.

Nas terapias de autoestima de orientação cognitivo-compor­.amental, pacientes aprendem a enfrentar o olhar e o julgamento dos outros por meio de pequenos exercícios, nos quais devem cha­mar a atenção (vestindo roupas extravagantes ou apresentando-se no caixa de uma grande loja e fingindo ter esquecido a carteira, por exemplo). Quando percebem que tais situações embaraçosas, que parecem impossíveis de enfrentar, não têm consequências graves, muitos desses pacientes se livram, pouco a pouco, do receio do julga­mento alheio e da rejeição social. Porém, se causas mais profundas da baixa autoestima, em geral vinculadas a experiências vividas na infância, não forem detectadas e tratadas, o problema poderá voltar algum tempo depois.

Para alguns teóricos, valorizar as próprias qualidades pode ser um meio de afastar-se da angústia provocada pela certeza de que vamos morrer. Ao anunciar a voluntários que eles obtiveram resultados brilhantes em um tes­te de personalidade, o psicólogo ameri­cano J. Greenberg, da Universidade do Arizona, diminuiu o alto nível de ansie­dade dessas pessoas - suscitado pouco antes pela exibição de imagens de morte ou violência.

O pesquisador Eddie Harmond, da Universidade do Texas, argumenta que a elevação da autoestima dissipa ideias de fini­tude. Segundo ele, o mecanismo opera em dois sentidos: quando se provoca nos voluntários au­mento da consciência da própria mortalidade, por exemplo, pe­dindo que redijam um pequeno texto sobre o tema, cresce a ne­cessidade de autoestima, como se esta servisse para protegê-Ias da ameaça de extinção.

Nos últimos 20 anos, vários estudos realizados nos Estados Unidos mostraram que homens e mulheres que pensaram na própria morte foram mais receptivos e sensíveis a elogios e notas posi­tivas em diversos tipos de teste. Em entrevistas ou questionários, muitas dessas pessoas revelaram tendência ao autoritarismo e ao domínio dos outros na tentativa de se sentir valorizadas. Manifestaram, em algumas situações, comporta­mentos excessivos, por exemplo, dirigir em alta velocidade, como se assim quisessem experimentar aumento da própria potência; inclinação a comprar artigos de luxo, que incrementassem seu prestígio social aparente; também
mostraram tendência se concentrar exageradamente no próprio corpo, na tentativa de torná-Io mais belo por meio de exercícios, dietas ou cirurgias plásticas.

Manter a boa autoestima é importante para a saúde psíquica, mas nem sempre é fácil valorizar­ se e respeitar as próprias limita­ções, sem usá-Ias para se torturar, sobretudo quando nos sentimos mais vulneráveis. Situações de crise ou de fracasso são propícias para o desencadeamento de qua­dros patológicos como ansiedade, depressão ou bulimia. Centrado no próprio sofrimento, o indivíduo irrita-se com as próprias dificulda­des, repete incessantemente pen­samentos depreciativos e se concentra em si mesmo, esquecendo o universo ao redor e estabelecendo um círculo vicioso.

Já a relação satisfatória consi­go mesmo parece associada à re­lativa ausência desses monólogos interiores autocentrados. Quando é possível olhar para o mundo e realmente se interessar pelo que está fora de nós fica mais fácil suportar as próprias dificuldades. Alguns psicólogos acreditam mes­mo que a boa autoestima é como um motor que cumpre sua função de maneira silenciosa: facilita o vínculo com o mundo externo e o faz menos assustador. 

• Bem antes de William James

Filósofos da Antiguidade abordaram o tema da autoestima. É o que mostram as reflexões do imperador romano estoico Marco Aurélio em "Pensamentos para mim mesmo": "Minha alma! ( ... ) Quando estarás plenamente satisfeita por teu estado? Quando encontrarás prazer em todas as coisas que te acontecem? Quando te convencerás de que encerras tudo em ti?". Na modernidade, o primeiro autor a empregar o termo foi o psicólogo americano William James, em 1890, em Princípios de psicologia. "Há dois tipos de autoestima: a satisfação e o descontenta­mento consigo mesmo".

Nas últimas décadas, foram feitas centenas de pesquisas so­bre o assunto e publicados mi­lhares de artigos. Por que tanto interesse pelo assunto? Talvez porque manter
autoestima saudável seja mais necessário hoje que no passado: as antigas civilizações eram mais rígidas, e esperava-se que os indivíduos apenas mantivessem sua posição e cumprissem seus papéis - profissionais e familiares. Sociedades modernas, porém, valori­zam a mobilidade social, embora nem sempre a favoreçam. Embora seja inegável que experiências e oportunidades que favoreçam potencialidades contribuam para a imagem que criamos a nosso res­peito, aprendemos que o êxito não é determinado exclusivamente pela classe social em que nascemos, mas prioritariamente pelo empenho e pelas com­petências pessoais. Essa meritocracia explícita, em
que o sucesso é visto como prova do valor de cada um, torna a boa autoestima indispensável.

A comparação de resultados obtidos por meio da aplicação do questionário de autoestima Escala Rosenberg em 16.998 voluntários de 53 países re­velou considerável homogeneidade nas respostas de pessoas de mesma nacionalidade e diferenças nas pessoas oriundas de diferentes paises. Israe­lenses e americanos alcançaram os índices mais elevados (as médias de 33,03 e 32,21 pontos, respectivamente na gradação 10 a 40). Franceses obtiveram pontuação de 29,86 e japoneses ficaram em último, com 25,50. Os resultados de tais estudos transculturais devem ser interpretados com cui­dado, pois são influenciados pelos traços culturais de cada sociedade: a autoestima dos ocidentais, mais individualistas, em geral é considerada mais elevada e fundada na valorização da competência. A autoimagem dos orientais, vinculada à cultura de grupo e à identidade social, é moderada e com menos ênfase nas características de cada um.

A esse respeito, os psicólogos holandeses Die­derik Stapel e Willem Koomen, da Universidade de Groningen, Holanda, investigaram as reações dos voluntários diante de situações competitivas e, para isso, incentivaram as disputas verbais. Os par­ticipantes deveriam formar frases com uma série de dez palavras relacionadas à competição (como vitória, superação, batalha e rivalidade). Pesquisa­dores observaram que o simples uso de vocábulo

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