Rastros Perigosos


Características de personalidade e experiências vividas na infância podem tornar as pessoas propensas a adoecer em decorrência das pressões sofridas no ambiente profissional.

Revista Mente & Cérebro - por Diane Krumm.

Nos primeiros anos do século XX, stress, saúde e segurança dos trabalhadores ainda não eram temas de interesse da psicologia. Na época da administração científica, as pessoas eram consideradas extensões das máquinas que operavam. O clássico estudo Hawthorne Western Electric, desenvolvido nos anos 20, nos Estados Unidos, foi a primeira iniciativa apoiada em métodos científicos usada para aumentar a eficiência dos trabalhadores. A pesquisa levava em conta atitudes, hábitos e relações interpessoais — e impulsionou o desenvolvimento de uma das mais importantes abordagens da psicologia organizacional: a dinâmica das relações humanas.

Com isso, necessidades emocionais, sociais e físicas dos trabalhadores passaram a ser, gradativamente, mais consideradas pelos empregadores — se não por razões humanitárias, certamente com vistas à produtividade. Afinal, efeitos relacionados ao stress no trabalho são muito dispendiosos para as organizações, o que justifica o interesse no investimento em programas que melhorem a qualidade de vida de seus profissionais.

No Japão, por exemplo, empresas podem ser obrigadas a indenizar as famílias de funcionários que morrem por problemas de saúde em decorrência da sobrecarga de trabalho. Estimativas americanas mostram que os custos decorrentes de stress no trabalho — como redução da produtividade, faltas, atrasos, rotatividade de empregados, gastos com acidentes e despesas médicas e de seguros — variam de US$ 200 bilhões a US$ 300 bilhões por ano.

Há algum tempo, quando a qualidade de vida dos trabalhadores se tornou uma preocupação, algumas empresas buscaram criar ambientes profissionais menos estressores. Isso, porém, além de irreal é indesejável. Sem stress, pode não haver empenho, já que se trata de uma reação física e mental às exigências internas e externas — mas ele deixa rastros. Mesmo depois de sua causa temporária ter sido eliminada, muitos de seus efeitos permanecem.

E possível fazer uma analogia com um violino. Se uma das cordas for esticada demais, ela se partirá, e teremos somente guinchos saídos do instrumento. Se ficar demasiadamente frouxa, o som será distorcido. Somente quando a corda está esticada corretamente é produzido o tom adequado. Mesmo que se aprontar para trabalhar em poucos minutos, enfrentar trânsito e excesso de atribuições sejam coisas estressantes para muitas pessoas, permanecer na cama o dia inteiro em geral impossibilita a produtividade — e causa stress. O grande desafio é encontrar o equilíbrio.

Embora a maior parte das profissões não envolva situações de extrema emergência, típicas das tarefas ligadas à saúde e segurança (como as de bombeiros e policiais), o stress psicológico e emocional que se acumula no cotidiano também pode trazer consequências graves à saúde física e mental.

Sob vários aspectos, tarefas de paramédicos, por exemplo, costumam ser menos estressantes que as de um professor porque, no primeiro caso, existe a consciência da necessidade de lidar com as pressões diárias. Uma funcionária de creche cuja função parece ser apenas brincar com crianças durante o dia inteiro pode, na verdade, apresentar níveis de stress até mais altos do que os de um policial, à medida que mais e mais agentes estressores são acrescentados à sua vida.

• Como a gripe

Ainda que de forma indireta, muitas das faltas ao trabalho estão relacionadas ao stress. É  inegável a maior vulnerabilidade do corpo a infecções virais ou a problemas estomacais e enxaquecas relacionados ao aumento do stress. Adoecer pode ser resultado da constatação inconsciente de que se chegou a um ponto em que é preciso uma parada para preservar a saúde mental. No Brasil, algumas organizações já preveem a inclusão dessas ausências nos planos de benefícios dos seus empregados, o que permite que o funcionário diga que não vai trabalhar naquele dia e não seja obrigado declarar o motivo. O fato é que a recuperação do stress excessivo é tão importante quanto cuidar-se durante uma gripe.

Atrasos também podem ser formas de adiar o retorno para uma situação desagradável. O empregado que não consegue chegar na hora certa pode estar evitando os níveis elevados de stress, o que configura uma reação de evitação. Ainda assim, muitos profissionais se mantêm por anos a fio em cargos que lhes trazem aborrecimentos e problemas de saúde. Além das pressões sociais, do compromisso com a empresa ou com a profissão, características de personalidade e até a história familiar influenciam na permanência dessas pessoas em empregos desgastantes.

Em 1971 os psicólogos Holmes e Rabe desenvolveram uma escala de atribuição de valores às modificações ocorridas na vida das pessoas. Alguns fatos eram positivos (como ganhar na loteria, tirar férias) e outros eram claramente desagradáveis (receber uma multa de trânsito, perder o emprego), mas todos provocavam stress. Essa escala tem sido atualizada, mas a pressuposição básica é a mesma: quanto maior o valor conferido aos acontecimentos, mais provável é que a pessoa experimente efei itos de stress relacionados à saúde. Ou seja: as mais flexíveis e abertas a mudanças tendem a reagir de maneira mais saudável.

Também é importante considerar que a maioria dos eventos apresentados (morte de pessoas próximas, desemprego, casamento, nascimento de filhos) ocorre com pouca frequência, mas os aborrecimentos do dia a dia podem ser tão estressantes quanto alguns fatos que modificam nossa vida. A perda do emprego geralmente é mais traumatizante do que ficar preso em um congestionamento, mas alguns pesquisadores sugerem que enfrentar dificuldades diárias de relacionamento com colegas, por exemplo, causam “efeito cumulativo”.

• Sem estímulo

Quando um empregado deixa uma organização, existem custos emocionais para ele e financeiros para a empresa. Também há prejuízos para ambas as partes se a pessoa permanece no cargo reagindo ao stress excessivo com um comportamento contraproducente. Altos níveis de stress têm sido associados, por exemplo, a sabotagem por parte dos empregados, tal como descaso com material de trabalho. Um estudo realizado pelos pesquisadõres J. W. Jones e M. W. Boye, publicado em 1994 no American Journal of Health Promotion mostrou que, entre os funcionários que já estavam predispostos a roubar seus empregadores, os níveis elevados de stress aumentaram a probabilidade do furto e o valor roubado.

Algumas das causas organizacionais mais frequentemente citadas pelos funcionários são as incertezas quanto ao cargo e à carreira, a necessidade de constante adaptação a novas tecnologias, exigência permanente de aprendizado de habilidades e de maior rapidez na execução das tarefas, falta de controle sobre o resultado do próprio trabalho, comunicação deficiente entre colegas e superiores hierárquicos.

A expressão "sobrecarga de trabalho” nunca foi tão usada como nos dias de hoje. Indica excesso de demandas de rapidez e habilidade. Se for quantitativa, há tarefas demais a serem realizadas no tempo disponível. A sobrecarga qualitativa significa que a solicitação é muito difícil para o empregado. No decorrer do tempo, a situação pode tomar-se exaustiva e irritante; se essa configuração se prolonga, o resultado é rendimento mais baixo, desestímulo e menor satisfação do funcionário.

Imaginar que simplesmente livrar-se das demandas é caminho certo para uma relação mais saudável com a empresa e com a profissão, entretanto, é um equívoco. Estudo publicado no Journal of Social Psychology, em 1996, pelos pesquisadores G. J. Johnson e W R. Johnson — e confirmado posteriormente por outros psicólogos — mostrou que não aplicar conhecimentos, habilidades e treinamento também é fonte de stress. Nas salas de emergência dos hospitais, profissionais muitas vezes relatam que períodos ociosos são mais cansativos que ocasiões mais movimentadas. E com um agravante: são extremamente tediosos.

Em situações de fusão de empresas em que mais de uma pessoa executa o mesmo trabalho, surgem ambiguidade de papéis e conflito de funções que tornam as pessoas inseguras a respeito das responsabilidades do cargo e são altamente estressores. Da mesma forma, empresas pouco transparentes, que optam por ocultar informações dos empregados e colaboradores, também contribuem para o adoecimento das pessoas. Os psicólogos americanos S. Jackson e R. Schuler publicaram no periódico Organizational Behavior and Human Decision Process resultados de um estudo no qual mostram que ambiguidade e conflito de papéis costumam ser associados a níveis de ansiedade mais elevados, grau mais baixo de comprometimento e maior propensão a deixar a empresa. Ou seja, não há novidade: quando se sentem sem lugar e pouco valorizadas, as pessoas tendem a retirar o investimento afetivo que faziam no espaço profissional.

O conflito de papéis surge quando um empregado se dá conta de que está entre dois grupos concorrentes que querem coisas diferentes. Esse problema com frequência ocorre quando um empregado está subordinado a mais de um supervisor. É difícil saber quais demandas são mais importantes ou urgentes e devem ser atendidas primeiro.

A intimidação diante de novas tecnologias ou a sobrecarga de trabalho causada pelo aparato tecnológico tornam tênue a limitação entre os espaços pessoais e profissionais, o que pode dar a impressão de estar sempre trabalhando (seja ao consultar os e-mails de clientes num domingo de manhã ou ao atender o chamado da empresa no celular, durante as férias). É comum que essas pessoas relatem a sensação de que nunca dispõem de "um tempo só para elas”.

 • Tipo A, Tipo B

Outro fator que invariavelmente prejudica empresas e empregados é o ambiente de trabalho hostil, no qual as pessoas se sentem em permanente tensão, subjugadas ou desrespeitadas. A situação se torna mais evidente em casos de assédio sexual. Embora esse tipo de violência seja considerado um problema que afeta mulheres, as ações judiciais têm mostrado que também os homens podem ser vítimas.

Existe pouca dúvida de que algumas ocupações provocam mais stress do que outras — mas a reação a cada situação costuma variar muito de um indivíduo para outro. A diferença talvez esteja relacionada a aspectos de personalidade, como defenderam os cardiologistas Meyer Freidman e Ray Rosenman na década de 70. Sem desprezar a importância de fatores genéticos, dieta e frequência da prática de exercícios físicos para o aparecimento e a evolução dos sintomas, os pesquisadores descobriram que características pessoais — como agressividade, hostilidade, ansiedade, tendência exagerada à competição e facilidade de somatização — frequentemente predispõem o indivíduo a desenvolver doenças do coração. Essa combinação é denominada personalidade tipo À.

Segundo essa classificação, pessoas tranquilas têm personalidade tipo B. De início, Freidman e Rosenman acreditavam que as características da personalidade A catalisavam reações do stress, tornando-as muito mais intensas, o que provocava efeitos físicos desencadeadores de doenças cardíacas. Estudos mais recentes mostram que o vínculo entre o comportamento do tipo A e doenças cardíacas talvez não seja tão direto quanto Freidman e Rosenman acreditavam. Em um artigo publicado no periódico americano Journal of Social Behavior and Personality, ndência exagerada à competição e facilidade de somatização — frequentemente predispõem o indivíduo a desenvolver doenças do coração. Essa combinação é denominada personalidade tipo À.

Segundo essa classificação, pessoas tranquilas têm personalidade tipo B. De início, Freidman e Rosenman acreditavam que as características da personalidade A catalisavam reações do stress, tornando-as muito mais intensas, o que provocava efeitos físicos desencadeadores de doenças cardíacas. Estudos mais recentes mostram que o vínculo entre o comportamento do tipo A e doenças cardíacas talvez não seja tão direto quanto Freidman e Rosenman acreditavam. Em um artigo publicado no periódico americano Journal of Social Behavior and Personality, em 1990, os pesquisadores T W. Smith e M.K. Pope sugeriram que a dificuldade em lidar com a irritação e as frequentes reações inadequadas à hostilidade podem indicar o vínculo sutil entre a personalidade do tipo A e doenças cardíacas.

O pesquisador da Universidade Colúmbia L. Wright, que estudou o tema, sugeriu que o componente mais ativo da associação de doenças cardíacas da personalidade do tipo A é a sensação de urgência frequente e relatada por essas pessoas. Tmpacientes, muitas vezes terminam as frases do interlocutor durante a conversa e se incomodam profundamente com o ritmo mais lento de outras pessoas. Indivíduos com esse perfil são descritos como polifísicos porque frequentemente se empenham em dar conta de várias atividades ao mesmo tempo. Uma consequência da moderna tecnologia é que ela torna possível a realização de muitas tarefas simultaneamente — o que em princípio pode parecer muito prático, mas costuma ser prejudicial à saúde.

Outro componente dessa personalidade é a constante insatisfação, uma espécie de desagrado com todos os setores da vida, como se houvesse sempre uma ameaça à espreita.

Apesar de a personalidade do tipo A muitas vezes ser considerada indesejável, seus maiores níveis de estimulação e maior ansiedade podem resultar em melhor nível de desempenho, conforme atestaram os pesquisadores G. Fekken e l.Jakubowski: as personalidades do tipo A geralmente têm níveis mais elevados de satisfação e sucesso na carreira profissional.

 • Da luta à morte

O endocrinologista Hans Selve (l907-1982), nascido em Viena e naturalizado canadense, foi o primeiro a estudar cientificamente o stress, na década de 30. Ele desenvolveu um modelo de resposta a agentes estressantes, composto por três estágios: alarme, resistência e exaustão. O médico denominou essas três etapas de síndrome geral de adaptação. No estágio de alarme, o agente causador do stress é reconhecido, e começa a ocorrer uma mudança fisiológica.

A reação inicial é denominada resposta de luta ou fuga. Não importa se a pessoa permanece e enfrenta o “agressor” ou foge: desencadeia-se o mesmo padrão inicial de respostas físicas. Essas reações incluem um pico de adrenalina e o aumento dos batimentos cardíacos e da pressão sanguínea, dilatação da pupila e diminuição do processo digestivo, mudanças fisiológicas que as pessoas geralmente associam ao aumento do stress. Se o estressor for eliminado durante esse estágio de alarme, há grande probabilidade de que não haja efeitos negativos duradouros.

Se os estressores não são retirados, a pessoa passa para o estágio de resistência. Nessa fase muitos dos sintomas do estágio de alarme já não são mais aparentes. O pico de adrenalina que acompanhou a resposta inicial de luta ou fuga aparece de maneira contínua. Numa empresa, se há intensificação do ritmo de trabalho, não resta tempo aos profissionais para que superem as crises. Nesses casos, em vez de um ciclo de stress e de recuperação, existe apenas um stress interminável. Embora o pico de adrenalina fosse útil no lidar com o estressor no início, a contínua elevação dos níveis desse hormônio pode reduzir a capacidade do sistema imunológico do organismo.

No último estágio — a exaustão — o corpo já não é capaz de produzir adrenalina suficiente para “lutar”, e os primeiros sintomas da fase de alarme reaparecem e podem levar à morte em decorrência de ataque cardíaco, por exemplo, ou pela incapacidade orgânica de combater uma doença, tal como a pneumonia. Considerando riscos tão elevados, o melhor caminho é eliminar os estressores bem antes que atinjam o estágio de exaustão.

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