Recordações indesejadas


Pesquisadores investigam uma forma incomum de associação de lembranças, similar à descrita por Marcel Proust.  Fenômeno pode favorecer a criatividade e a resolução de problemas.

Revista Scientific American por Ferris Jabr

Na vida cotidiana as pessoas geralmente buscam informações específicas na memória: "Onde deixei as chaves do carro?", "Será que desliguei o forno?". Outras vezes, se recordam claramente do passado: "Jantei num restaurante incrível na semana passada". Mas nem toda lembrança é uma escolha - algumas formas de memória são involuntárias. Talvez o exemplo mais famoso seja da obra Em busca do tempo perdido, do romancista francês Mareei Proust. Quando o narrador toma chá e come um bolinho conhecido como madeleine, o sabor da guloseima evoca a lembrança de comer o mesmo doce na casa de uma tia, quando ele era jovem.

Pesquisadores estão começando a estudar uma forma relacionada de memória denominada mind pops - fragmentos de informações, palavras e, mais raramente, imagens e melodias que surgem inesperadamente na consciência. Ao contrário do exemplo proustiano, os mind pops, termo cunhado por George Mandler, professor emérito da Universidade da Califórnia em San Diego, parecem completamente irrelevantes para os momentos nos quais surgem e aparentemente pouco acrescentam aos pensamentos que invadem. Em geral, as palavras ou frases surgem em meio a uma atividade habitual que não exige muita concentração. (Você está, por exemplo, lavando louça quando a palavra "orangotango" lhe ocorre sem razão aparente.) Como os mind pops parecem surgir do nada, é difícil identificar pensamentos anteriores ou algo no ambiente que os dispare.

Esses fragmentos, porém, não são realmente aleatórios: estão ligados a nossas experiências e conhecimento do mundo, apesar de seus mecanismos serem ocultos. A pesquisa sobre esses processos ainda é preliminar, mas até o momento estudos sugerem que o fenômeno é comum para a maioria das pessoas. Alguns percebem seus mind pops mais frequentemente que outros. O fenômeno frequente pode acelerar a resolução de problemas e aumentar a criatividade. Na mente de algumas pessoas - como esquizofrênicos, no entanto - podem evoluir de fenômeno benigno para alucinações perturbadoras.

A psicóloga Lia Kvavilashvili, pesquisadora da Universidade de Hertfordshire, na Inglaterra, propõe que os mind pops são frequentemente explicados por um tipo de priming de longo prazo. Priming descreve uma das formas de a memória se comportar: "Cada novo "pedaço" de informação que encontramos diariamente ativa certas representações na mente", explica Lia. "Se você passar por uma loja de chocolates, não apenas o conceito de chocolate pode ser ativado, mas também várias outras experiências relacionadas a esse tipo de alimento, e esses conteúdos ou resquícios deles podem permanecer ativas por certo período - horas ou dias", esclarece. Posteriormente, é possível que outras situações disparem esses conceitos já ativos, o que oferece a sensação de virem "do nada". Segundo Lia, o fenômeno é capaz de aumentar a criatividade porque se muitos conceitos diferentes permanecerem ativos em nossa mente poderemos fazer conexões com mais eficácia que se a ativação desaparecesse instantaneamente.

Recentemente, Lia e seus colegas publicaram um estudo verificando um possível lado negro dos mind pops. Os pesquisadores se perguntaram quanto são semelhantes as lembranças diárias involuntárias de pensamentos intrusivos e alucinações observadas em transtornos mentais como depressão, estresse pós-traumático (TEPT) e transtornos obsessivos compulsivos. Os resultados, publicados no periódico científico Psychiatry Research, sugerem que mind pops são mais comuns em pessoas com doenças mentais que em saudáveis, mas ainda é cedo demais para ligar definitivamente memórias súbitas a alucinações.

Atualmente, Lia vem aprofundando as pesquisas sobre o fenômeno, em particular mind pops musicais e sua relação com letras e melodias que se repetem continuamente na cabeça das pessoas. "O estudo desses fenômenos ainda está em sua infância", observa a psicóloga. "Fiquei curiosa porque eles pareciam aleatórios, mas esses "estalos" são fragmentos genuínos de conhecimento sobre o mundo. Isso nos mostra que há instâncias psíquicas que frequentemente conhecem o significado de uma experiência, mesmo se conscientemente não soubermos disso." 

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