Reflexos Distorcidos


Reflexos Distorcidos

Revista Mente & Cérebro por David Dunning, Chip Heath Jerry Suls e Kathia Natalie.

Superestimar capacidades pessoais é uma forma de autoproteção, mas em alguns casos pode comprometer tanto a saúde física quanto a vida profissional.

Um jovem violinista decide matricular-se no conservatório, um oficial apresenta-se como voluntário para uma perigosa missão que sabe estar capacitado para cumprir, uma senhora saudável resolve não tomar a vacina contra a gripe, pois considera que não adoecerá. Para fazer escolhas desse tipo, as pessoas se baseiam na representação de suas capacidades, conhecimentos, personalidade e caráter, ou seja, na imagem que têm de si mesmas. Mas qual o fundamento dessas percepções? Psicólogos consideram que muitas vezes não avaliamos bem nossas capacidades e desempenhos — e tendemos a nos superestimar. Em geral, as pessoas valorizam excessivamente não só suas habilidades atuais, mas também as futuras. Tais descobertas têm importantes consequências no campo da saúde e do trabalho.

Pesquisadores admitem que muitos preferem se dizer "acima da média”, ao participar de pesquisas justamente para evitar a sensação de desvalorização. Mas em que medida os juízos a respeito de si mesmo estão dissociados da realidade? Recentemente, solicitamos a alunos de primeiro ano de um curso universitário que avaliassem seu empenho, mas quando esse autojulgamento foi comparado àquele fomecido pelos professores, as opiniões se mostraram bastante divergentes — os alunos acreditavam ter rendimento superior ao apontado pelos mestres. Nas empresas, a relação entre as metas que os empregados consideram que atingirão e as que efetivamente alcançam é ainda mais discrepante.

 Mais tempo para terminar.

Entre 1976 e 1977 foi realizada uma pesquisa com jovens que cursavam o último ano do ensino médio. Na ocasião, 70% afirmaram dispor de capacidades acima da média para ocupar cargos de chefia, somente 2% conferiram a si mesmos nota inferior à média. Em outro teste, foi investigada a sociabilidade dos mesmos voluntários e, mais uma vez, quase todos se colocaram acima dos demais: 60% afirmaram estar entre os 10% mais hábeis.

Levantamentos indicam que policiais americanos que usam motos regularmente no trabalho acreditam que correm menos riscos de provocar acidentes que motociclistas em geral. Gerentes consideram que a empresa em que trabalham tem maior probabilidade de êxito que as demais do mesmo setor — sem que nenhum dado aponte para isso.

Muitas vezes as pessoas também elaboram avaliações superestimadas sobre a rapidez com que realizarão determinada tarefa, que é uma distorção de planejamento. O professor Roger Buehlei da Universidade Wilfrid Lauriei em Ontário, Canadá, observou em 1994 que alunos do segundo grau levavam três semanas a mais do que haviam planejado na “mais realista” das previsões para concluir o trabalho escolar final — e uma semana além do que supunham no “pior dos casos”. Em 1997, R. Buehler e os também canadenses Dale Griffin, da Universidade da Colúmbia Britânica, e Heather McDonald, da Universidad Simon Frazer, em Burnaby, no Canadá, descobriram que é comum os cidadãos acreditarem que concluirão a declaração de imposto de renda sete dias antes da data em que o fazem efetivamente.

Em geral, as pessoas não dispõem de toda a informação necessária para realizar uma autoavaliação confiável. Há fatores desconhecidos, inacessíveis ou indefinidos que impedem a apreciação isenta do próprio desempenho ou previsões adequadas mesmo que todos os dados estejam disponíveis, a maioria costuma negligenciá-los — até para não entrar em contato com angústia que decorrem da constatação da próprias falhas.

Vários estudos mostram que os menos competentes são os que mais encontram obstáculos para analisar as próprias dificuldades. Observamos que alunos do segundo grau deixavam a sala de exame pensando que tinham se saído melhor que a maioria dos colegas quando a nota obtida os colocava entre os últimos classificados.

A falta de acesso a informações alimenta a superestimação. É comum que as pessoas não tenham consciência clara das soluções que poderiam ter proposto, mas que lhes escaparam, isto é, dos erros que cometeram por omissão. Além disso, em razão da falta de comentários sobre suas ações, o indivíduo corre o risco de superestimar o próprio discernimento e, assim, surpreender-se de forma desagradável. Basta pensar no diretor de empresa que repreende o subordinado pelo péssimo desempenho, no dia seguinte o funcionário trabalha melhor, o que, aparentemente, prova a pertinência da intervenção do chefe. Entretanto, seria possível obter o mesmo desfecho por outros meios, como uma conversa amigável. Talvez essa estratégia tivesse proporcionado resultados até mais duradouros — mas o diretor jamais saberá.

Juízo Comparativo.

Segundo o pesquisador Justin Kruger, da Universidade de Nova York, o indivíduo adota um ponto de vista egocêntrico ao se comparar aos demais, pensando essencialmente em seu próprio comportamento e ignorando o dos outros. Paradoxalmente, tais juízos comparativos envolvem pouco cotejamento efetivo. O egocentrismo leva a escolhas pouco adequadas. Os alunos do segundo grau, por exemplo, preferiam competir com colegas em questões úteis centradas em filmes recentes, tema fácil, em vez de responder a perguntas sobre a pintura do século XX, assunto considerado mais complexo, esquecendo que o que é fácil para eles provavelmente também o será para os adversários.

Previsões errôneas sobre o futuro, em geral excessivamente otimistas, também resultam da ausência de informações necessárias, de muitas das quais realmente não é possível di ispor o que fazemos, por exemplo, quando alguém nos aborda na rua pedindo dinheiro para uma obra de caridade? Nosso comportamento depende de vários fatores. A pessoa que pede é simpática ou agressiva? Temos tempo ou estamos atrasados? Conhecemos a organização que receberá a doação? Cada detalhe pode influenciar a escolha, mas é preciso decidir sem que tenhamos todas as respostas.

Procurar compreender como os outros pensam e o que sentem pode ajudar a ter uma ideia mais clara sobre nós mesmos. Entender o ponto de vista alheio implica priorizar fatos e não apenas elaborações pessoais, muitas vezes contaminadas por nossas inseguranças e preconceitos. Psicólogos comportamentais sugerem que, para prevermos o que faríamos em determinada situação, talvez seja mais eficaz simplesmente rever o que fizemos no passado em circunstâncias semelhantes e levar em conta, igualmente, o que outras pessoas fizeram na mesma situação.

Em uma pesquisa — similar à realizada com alunos do segundo grau — pedimos a universitários que fizessem uma estimativa da data em que entregariam determinado trabalho. Eles previram que terminariam quatro dias antes da data limite (meta cumprida por apenas 30%). Entretanto, indagados sobre o tempo necessário para realizar tarefas semelhantes no passado, admitiram que tinham concluído suas tarefas um dia antes da data de entrega.

Em 2003, estudo realizado por australianos e americanos descreveu o comportamento de universitários que participaram da revisão de programas escolares. Quando os pesquisadores pediram ao grupo uma previsão do tempo que a tarefa levaria, os mais pessimistas falaram em dois anos e meio. Um dos membros do grupo admitiu que sabia, por experiência, que a boa execução de um trabalho desse tipo exigiria pelo menos sete anos. Oito anos mais tarde o grupo redigiu o relatório final.

Em suma, os dados sugerem que as pessoas cometem erros notáveis quando consideram seus comportamentos e capacidades atuais e futuras. Psicólogos ainda têm muito a descobrir sobre a autoavaliação superotimista. Quando esse retrato estiver esboçado, talvez seja possível estudar os raros indivíduos que conseguem fazer uma ideia mais exata do próprio talento, capacidades e caráter — e aprender com eles.

Sensibilidade e proteção

Autoavaliações excessivamente otimistas podem ser perigosas. Adolescentes — e mesmo adultos — que se relacionam sexualmente sem preservativo acreditando que jamais serão infectados ou dirigem em alta velocidade supondo ser muito hábeis ao volante se expõem a riscos concretos. Decisões infelizes orientadas por teorias plausíveis, mas equivocadas, podem ter consequências graves. Quando a pessoa pensa ser muito resistente, não considera, por exemplo, a necessidade de prevenir doenças. Alguns pacientes com hipertensão têm convicção de que são capazes de saber quando a pressão está elevada e para só então tomar os medicamentos, embora os sintomas que indicam a variação nem sempre apareçam.

Alguns psicólogos propõem duas técnicas que permitem reduzir o otimismo excessivo: o retorno de informações personalizadas e o trabalho sobre as bases motivacionais do otimismo irrealista. Matthew Kreuter, da Universidade de St. Louis, e Victor Strecher, da Universidade de Michigan, solicitaram a seus pacientes que preenchessem questionário sobre os riscos percebidos de morrer de ataque cardíaco ou de derrame cerebral nos próximos dez anos.

Os pesquisadores pediram que os voluntários avaliassem seu nível de risco (classificando-o como mais elevado que o de outras pessoas, dentro da média ou menor que o da maioria). As condições reais foram consideradas conforme o cruzamento de variáveis como idade, altura, peso e pressão arterial. De duas a quatro semanas após o preenchimento do questionário, os participantes receberam pelo correio o retorno personalizado das informações sobre seu risco real, comparado ao de outras pessoas de mesma idade e sexo. Seis meses mais tarde, os resultados de novo questionário mostraram que os pacientes se tornaram mais realistas depois de tomar conhecimento dos dados sobre o perigo real que corriam.

A segunda técnica enfatiza as bases motivacionais do otimismo irrealista. As pessoas em geral não levam em conta informações sobre os riscos que correm. Porém, se antes de fornecer esses dados estimularmos sentimentos a respeito do próprio valor, elas serão mais inclinadas a modificar seu comportamento. Pedimos a alunos do segundo grau que redigissem um texto explicando um de seus principais valores pessoais (por exemplo, afeição pelos amigos e família); depois, projetamos um filme informativo sobre aids. Os voluntários que redigiram o texto ficaram mais sensibilizados com o filme que os que não haviam passado pela experiência. Em comparação com este último grupo de controle, eles se sentiram mais ameaçados por uma eventual contaminação e levaram maior número de preservativos.

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