Rejeição dói, literalmente


Pesquisadores descobrem que questões emocionais têm efeitos tão físicos quanto tomar um soco e, no longo prazo, podem até aumentar a chance de problemas de saúde.

Revista Galileu - por Lisa Raffensperger

Foi de repente. Primeiro, um aperto no peito. Depois, dores de cabeça e o cansaço crônico. O sentimento se arrastou por semanas. Antes de dormir, era quase sempre pior. Faz mais de uma década, mas ainda lembro bem, pois marcou mi­nha primeira experiência com um mal que seria inconfundível pelo resto da minha vida: o coração partido. Traições, rejeições e amores perdidos são fatos da vida, mas foi apenas nos últimos dez anos que começamos a descobrir as bases cerebrais desses sentimentos ruins. Os cientis­tas sabem agora que a dor da rejeição aciona os mesmos neurônios que uma queimadura ou um soco. Além de explicar por que algumas pessoas são mais resistentes que as outras, isso revela uma forte ligação entre vida social e saúde. Você pode mesmo morrer de solidão.

Nossa linguagem, no mundo todo, sempre emprestou termos físicos para descrever emoções ruins, como "ela partiu meu coração" ou "foi uma fa­cada nas costas". Pesquisas antigas já indicavam que as comparações não eram apenas metáforas. Estudos com animais na década de 1990, por exemplo, revelaram que além de aliviar a dor após um ferimento, a morfina também reduz a tristeza que filhotes de rato sentem quando são separados da mãe. Ainda assim, quando Naomi Eisenberger, Ph.D. em psicologia da Universidade da Califórnia (UCLA), começou a estudar os sentimentos de mágoa em seres humanos no começo da década de 2000, não sabia o que poderia encontrar. Ela estava intrigada com o modo como rejeições passadas continuam a nos afetar pelo resto da vida: todo mundo lembra da vez em que não foi escolhido no time de fute­bol, ou se sentiu excluído de um grupo de amigos. "Estava curiosa. Por que isso nos afeta tanto?", ela explica. Para descobrir o que o cérebro faz quando vivenciamos a rejeição social, Eisenberger pediu que voluntários par­ticipassem de um jogo de computador simples criado por psicólogos, chama­ do Cyberball, no qual três jogadores passam uma bola entre si. Os volun­tários achavam que estavam jogando com duas pessoas em outra sala, mas na verdade os outros dois jogadores eram controlados pelo computador. Quando os jogadores computadoriza­dos paravam de passar a bola para os voluntários, os participantes demons­travam reações fortes, se afundando no assento e fazendo gestos mal educados pra tela. Neste momento de rejeição, um aparelho de ressonância magnética funcional mostrava que havia um surto de atividade numa área cerebral cha­mada córtex cingulado anterior dorsal (dACC). A região é conhecida como parte da rede da dor no cérebro e determina o quanto um ferimento nos incomoda. A resposta pode variar com o contexto: bater a cabeça pode doer muito no escritório, mas em um jogo de futebol talvez você nem note.

O estudo, publicado na prestigiosa revista Science, mostrou que a respos­ ta foi semelhante à da dor tradicional. Quanto mais você sofre com um feri­mento comum, mais o dACC se ativa; e quanto mais os participantes infor­maram se sentir pior com a rejeição, maiores foram os índices de atividade nessa região. Outras pesquisas confir­maram a relação, revelando que rejei­ção social também provoca a ínsula anterior, outra parte da rede da dor que reage ao nosso sofrimento quando, por exemplo, cortamos um dedo ou quebramos um osso. Esses resultados sugerem que nossa angústia após um insulto é igual à resposta emocional após um ferimento, mas outros estu­dos foram além, mostrando respostas corporais tangíveis.

O Ph.D. em psicologia Ethan Kross, da Universidade de Michigan, resolveu deixar o Cyberball de lado para pes­quisar uma forma mais séria de rejei­ção: os corações partidos. Ele recrutou 40 pessoas que haviam sofrido sepa­rações nos últimos 6 meses e pediu a cada um que olhasse uma foto de seu ex enquanto deitava em um aparelho de ressonância. Ele instruiu os parti­cipantes a pensarem nos detalhes da separação. Após um intervalo, os vo­luntários receberam um jato de calor doloroso no antebraço, permitindo que Kross comparasse a atividade cerebral associada com as duas situações.

Como esperado, o dACC e a ínsu­Ia anterior se acenderam em ambos os casos. O mais surpreendente é que os centros sensórios do cérebro, que refletem o desconforto físico que acompanha um ferimento, também apresentaram níveis significativos de atividade. O estudo, de 2011, foi a primeira evidência de que a sensação de ter o coração partido pode, literal­mente, doer. 

 Remédio pra alma

O inverso também é verdade: aliviar a resposta corporal à dor pode atenuar o sofrimento emocional. O psicólogo Nathan DeWall, da Universidade de Kentucky, recrutou 62 alunos para tomarem dois comprimidos de paraceta­mol por dia durante três semanas ou um placebo. Todas as noites, os alunos completavam um questionário que mensurava seus sentimentos de rejeição durante o dia. Ao final de três semanas, o grupo que tomava paracetamol desenvolveu uma resistência maior a insultos e ofensas e seus membros informavam se sentirem menos magoados em suas interações cotidianas. Um jogo de Cyberball sub­sequente confirmou o efeito: os participantes que recebiam paracetamol demonstravam atividades significativamente reduzidas no dACC e ínsula anterior em comparação com aqueles que tomavam o placebo.

"A ideia de que você pode afetar a experiência social das pessoas com um remédio considerado leve e comum (o paracetamol) foi uma valida&c ccedil;ão muito importante", diz GeoffMacDonald, da Universidade de Toronto, no Canadá, um dos autores do estudo. "É exatamente o tipo de desco­berta que ajudaria a confirmar o conceito de dor social." É claro que, devido aos efeitos colaterais prejudiciais dos analgésicos, o leitor não deve fazer experimentos por conta própria. O trabalho pode explicar por que certas pessoas têm mais dificuldade para aguentar altos e baixos de suas vidas sociais do que as outras. Estudos indicam que os extrovertidos têm maior tolerância à dor que os introverti­dos, e, ao mesmo tempo, maior tolerância à rejeição social. Eísenberger também descobriu que os indivíduos que sen­tem mais dor quando um eletrodo quente encosta em seus braços também ficam mais magoados com o Cyberball. A genética pode explicar parte disso.

A equipe de Eisenberger descobriu que indivíduos com uma pequena mutação no gene OPRMl, que codifica os recep­tores de opioides do corpo, têm maior probabilidade de ficarem deprimidos após uma experiência de rejeição do que aqueles sem a mutação. A mesma diferença também torna as pessoas mais sensíveis à dor física, fazendo com que precisem de mais morfina após uma cirurgia. Em indivíduos com a mutação, essa parte do cérebro ligada à dor tende a reagir com mais força aos ataques emocionais. Mas não é só genética. Experiências vividas na infância também ajudam a determinar sua sensibilidade. Um estudo no Ameri­can Journal of Psychiatry, por exemplo, mostra que pessoas com certas formas de dor crônica têm maior probabilidade de terem sofrido experiências traumáti­cas, como abusos emocionais, durante a infância. É possível que a experiência deixe a rede da dor hiperativa, tornan­do essas pessoas mais sensíveis a qual­ quer forma de desconforto.

Sofrimento ancestral

Faz sentido que a nossa evolução tenha produzido uma sensibilidade tão forte à rejeição. Ser expulso da tribo, para nossos ancestrais, equivalia a uma sentença de morte, expondo nossos antepassados à fome e aos predadores. Precisávamos de um sistema de alerta que nos avisasse de conflitos poten­ciais, impedindo que piorássemos a situação. A rede da dor, que mexe co­nosco quando enfrentamos o perigo físico do fogo ou de uma arma, seria o mecanismo ideal para ajudar a con­trolar nosso comportamento social. Alguns pesquisadores dão um pas­so além nessa linha de pensamento, sugerindo que a evolução pode ser a chave para explicar alguns sintomas misteriosos da solidão. As pessoas so­litárias tendem a expressar com mais intensidade os genes da inflamação, especialmente nas células do sistema imunológico, e a expressarem menos os genes antivirais.

Por que o corpo lida dessa maneira com o isolamento? Steve Cole, gene­ticista comportamental da Universi­dade da Califórnia, encontrou uma resposta para isso quando passou a analisar como diversas doenças afetam pessoas com vidas sociais diferentes. Os vírus se espalham rapidamente entre grandes grupos, enquanto infecções bacterianas letais em geral são causadas por ferimentos que nossos ancestrais teriam maior probabilidade de sofrer quando es­tavam sozinhos, sem a proteção do resto da tribo. Cole sugere que nos­so sistema imunológico pode estar "prestando atenção" aos sinais de status social do nosso cérebro. Se estamos vivenciando uma vida social animada em um grande grupo, nosso corpo se prepara para enfrentar os vírus; se nos sentimos solitários, o dACC e outras regiões fortalecem a inflamação, que nos ajuda a comba­ter infecções bacterianas. A ideia é reforçada por estudos que mostram que tarefas socialmente estressantes, como fazer um discurso improvisado, aumentam as atividades da rede de dor, provocando uma resposta imunológica inflamatória, como se o cérebro estivesse se pre­cavendo contra a ameaça de isolamento e ferimentos.

A resposta pode ter salvo nossos antepassados de infec­ções quando brigávamos literalmente com unhas e dentes. No mundo moderno, entretanto, a inflamação elevada é relacionada com uma série de problemas, incluindo doen­ças cardíacas, câncer e Alzheimer. E indivíduos solitários correm mais risco de sofrer todos eles. Em 2010, uma metanálise de 148 estudos mostrou que indivíduos com conexões sociais adequadas têm 1,5 vez mais chances de sobreviver até o final do período de estudo do que os so­litários, um efeito comparável a não fumar ou não beber em excesso. Outro estudo, publicado em 2012, observou a saúde de 2.000 americanos idosos e de meia-idade. Os participantes que informam maior solidão tinham o dobro de chance de morrer durante os 6 anos do estudo do que aqueles com os menores níveis desse sentimento.

 • Medidor de rejeição

Experimentos detectaram respostas físicas à exclusão social e que um analgésico pode combater esse tipo de frustação.

1- FICANDO DE FORA

Num game de PC, o voluntário recebe e passa a bola para outros jogadores - controlados pelo computador sem que ele saiba. Estes param de tocar a bola ao voluntário que têm seu cérebro monitorado e relata sentir-se rejeitado.

2-MAGOOU

A rejeição ativa uma área cerebral fortemente ligada a dores físicas e que determina o quanto um ferimento incomoda. A mesma região é ativada quando se pede a pessoas que acabaram de terminar o namoro para olhar fotos do(a) ex.

3-PÍLULA

Em participantes que tomaram paracetamol todos os dias por 3 semanas, a rejeição no game causou ativação menor dessa região do cérebro e os voluntários relataram menos incômodo com a exclusão que os outros participantes.

A evolução da dor

A resposta do corpo ao sentimento de rejeição pode ter ajudado nossos ancestrais a se protegerem quando eram abandonados.

Armas da solidão

Os solitários tendem a ativar no cor­po mais resposta inflamatória, o que prepara o organismo para combater infecções por ferimentos, mais prováveis em alguém desprotegido.
Ao mesmo tempo, o organismo também reduz a resposta aos vírus.

Terapia de grupo 

O organismo dos não solitários tende a combater melhor o vírus, o que ajuda a prevenir doenças pegas pelo contato social. Mas também &eacu os voluntários relataram menos incômodo com a exclusão que os outros participantes.

A evolução da dor

A resposta do corpo ao sentimento de rejeição pode ter ajudado nossos ancestrais a se protegerem quando eram abandonados.

Armas da solidão

Os solitários tendem a ativar no cor­po mais resposta inflamatória, o que prepara o organismo para combater infecções por ferimentos, mais prováveis em alguém desprotegido.
Ao mesmo tempo, o organismo também reduz a resposta aos vírus.

Terapia de grupo 

O organismo dos não solitários tende a combater melhor o vírus, o que ajuda a prevenir doenças pegas pelo contato social. Mas também é menos prepara­do para infecções bacterianas vindas de ferimentos e lutas, das quais estarí­amos mais protegidos dentro da tribo.

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