Resiliência: a coragem


Quando uma tragédia se manifesta, a maioria de nós se recompõe de forma surpreendentemente boa. De onde vem essa capacidade de recuperação, conhecida como resiliência?

Revista Scientific Arican - por Gary Stix

Em síntese

- A tradição sustenta quea resiliência psicológica aos estressores da vida é um evento ra­zoavelmente raro, produto de genes afortu­nados ou da boa criação.
- Pesquisas sobre perda e desastres naturais descobriram, há pouco tempo. que a qualidade da resiliência é, na verdade, relativamente um lugar-comum.
- As pessoas respondem com comporta­mentos diferentes ao pior que a vida pode oferecer, em outras ocasiões, alguns poderiam receber a classificação de narcisismo ou disfunção.
- Mas esses comportamentos ­ enfrentamento desadaptativo, como é cha­mado por um pesquisador - ajudam, no final das contas, na adaptação ao período de crise.
- A questão levantada é se as intervenções para o ensino da resiliência - programas já adotados nas escolas e no exército - são real­mente de alguma valia, já que as pessoas se receperam naturalmente por conta própria.

No outono de 2009, Jeannine Brown Miller voltava com seu marido para casa, após uma visita à sua mãe, em Niagara Falls, no estado de Nova York. Nas proximidades do campus da Niagara Univer­sity, ela se deparou com uma barreira policial; mais à frente, luzes de ambulância piscavam. Jeannine sabia que Jonathan, seu filho de 17 anos, havia saído com seu carro. Mesmo não tendo a noção exata do ocorrido, alguma coisa lhe disse para parar. Perguntou a um dos socorristas para verificar se no veículo havia a inscrição "J Mill". Minutos mais tarde, um policial e um capelão se aproximaram, e ela sabia, mesmo antes de eles chegarem, o que iria ouvir.

A perda do seu filho - resultado de um problema médico não diagnosticado, que provocou sua morte súbita antes mesmo de o carro chocar-se com uma árvore - foi devastadora. O tempo não passava, nos dias imediatamente seguintes ao falecimento de Jona­than. "A primeira semana parecia uma eternidade"; relata Jeanni­ne. ""Vivia minuto por minuto, nem mesmo hora por hora: simplesmente acordava e não pensava em nada além do ocorrido."

O apoio veio de vários lugares, incluindo suas decisões pessoais. Compareceram ao velório e funeral 500 colegas de Jonathan, alunos da Lewiston-Porter High School, uma demonstração de compaixão que a ajudou a amenizar a dor. Ela também encontrou conforto em sua devota fé católica. Em duas semanas retomou a sua função de consultora de recursos humanos. Dois meses após o acidente, con­seguiu visitar o restaurante em que jantou com o filho no dia de sua morte. Amparo da comunidade nunca faltou. No dia da formatura do colegial, houve uma cerimônia em homenagem a Jonathan; seu perfil no Facebook recebe atualizações regulares; e uma cafeteria local começou a servir o café "76"; em memória ao número - agora retirado - de sua camisa no time de futebol americano da escola. Mais de um ano se passou e ela ainda chora todos os dias, mas en­controu muitas maneiras de enfrentar o problema.

Quando o pior acontece - um falecimento na família, ataque ter­rorista, epidemia de doença virulenta, medo paralisante no campo de batalha -, experimentamos uma sensação de choque profundo e desorientação. Ainda assim, ao analisar as consequências desses eventos devastadores, neurocientistas e psicólogos aprenderam algo surpreendente: grande parte das vítimas de tragédias logo começa a se recuperar e, no final, sai até que emocionalmente intac­ta. A maioria de nós demonstra uma espantosa resiliência natural ao pior que a vida tem a oferecer.

O estudo da resiliência está começando a desvendar uma série de mecanismos subjacentes, por meio de imagens cerebrais e bancos de dados genéticos, além dos questionários de ciências so­ciais, tradicionais ferramentas dos psicólogos. Após a ocorrência de desastres, fatores bioquímicos, genéticos e comportarnentais atuam em conjunto, a fim de restaurar o equilíbrio emocional. As pesquisas procuram explicações nas raízes da força emocional ­ um conhecimento que, no futuro, pode nos ajudar no que fazer quando o processo de cura natural falhar.

Enquanto isso, escolas, exército e o mundo corporativo não esperam por uma descrição completa dos genes, neurotransmis­sores e tudo o mais, e já desenvolvem programas capazes de am­pliar a resiliência. Na ausência de um guia definitivo sobre perse­verança, emerge um debate acalorado sobre se qualquer tentati­va de brincar com o que pode vir a ser uma qualidade inata não nos deixará ainda piores. Essa discussão passou a ter urgência es­pecial agora, já que o exército americano iniciou um gigantesco programa de treinamento para ampliar a resiliência, ou capaci­dade de recuperação, em mais de um milhão de soldados e suas famílias - talvez uma das maiores intervenções psicológicas já re­alizadas por uma única instituição.

• Mecanismos da resiliência

Em 1917, Simund Freud escreveu sobre a necessidade do "luto", em que recuperamos a energia emocional (ou, como ele a deno­minou, libido) investida no agora "objeto não existente" - ou seja, o morto. Na ausência de evidência contrária, essa visão centenária da psique como um sistema de encanamento que ca­naliza as forças subliminares da vida prevaleceu há até algumas décadas. Foi quando psicólogos e neurobiólogos começaram a procurar por explicações alternativas.

Um dos aspectos que mereceram a atenção in nícial desses profis­sionais foi a natureza da resiliência, a termo "resiliência" (do latim re, "para trás"; e salire, "voltar") passou para o léxico psicológico a partir das ciências físicas. No sentido psicológico, segundo Christo­pher M. Layne, pesquisador de resiliência da University of Califor­nia em Los Angeles, "basicamente significa que a pessoa volta a funcionar como antes dentro de um breve período"; em analogia a uma viga de aço, que se deforma sob estresse e, posteriormente, re­toma ao seu estado inicial. É óbvio que não há nenhuma tira de metal em nossa cabeça atuando como um termostato que se defor­ma quando as emoções fervilham, desencadeando uma cascata neuroquímica que nos faz retomar ao ponto de partida do equilí­brio emocional. as cientistas sabem que nossa biologia é mais com­plicada que a analogia sugere.

A resiliência inicia-se em um nível primário. Se alguém é ame­açado, o hipotálamo - uma torre de transmissão cerebral que co­necta os sistemas nervoso e endócrino - dispara um sinal de es­tresse na forma de hormônio liberador de corticotropina e pro­voca uma avalanche química que incita a pessoa a reagir ou fugir. Nosso cérebro pulsa como um pisca-pisca: luta ou fuga, luta ou fuga. Após um tempo, essa turbulência biológica se acalma. Se há um estímulo constante para a autodefesa, um conjunto de hor­mônios de estresse flui continuamente. Um deles, o cortisol, pro­duzido pelas adrenais próximas ao rim, pode na verdade danifi­car as células cerebrais localizadas no hipocampo e na amígdala, áreas envolvidas com a memória e emoção. Dessa forma, a pessoa torna-se uma ruína emocional e física. Felizmente, a maioria de nós tem a resiliência a favor.

Hormônios do estresse, auxiliados por certas substâncias bio­químicas protetoras, parecem dissipar mais prontamente em pes­soas resilientes. Há poucos anos, os cientistas descobriram várias marcas biológicas indicadoras da capacidade de fortalecimento de uma pessoa A lista é longa e envolve substâncias químicas como DHEA (desidroepiandrosterona), que ameniza os efeitos do corti­sol, e o neuropeptídeo Y, que entre outras coisas parece reduzir a ansiedade ao neutralizar os efeitos do hormônio liberador de corti­cotropina, produzido pelo hipotálamo. Em 2000, Dennis S. Char­ney e outros pesquisadores do Hospital de Veteranos de Guerra, ligado à Yale University, em West Haven, Connecticut, descobriram que, sob estresse intenso decorrente de interrogatórios simulados, soldados americanos.com nível sanguíneo mais alto de neuropeptí­deo Y obtiveram melhores resultados no exercício. Mais tarde, em 2006, os pesquisadores do Centro Médico do Bronx de Veteranos de Guerra descobriram que níveis elevados dessa substância em ex­-combatentes estavam associados a um menor risco de distúrbio de estresse pós-traumático.

Muitos atalhos biológicos - cadeias de proteínas interagen­tes - também contribuem com algo tão multifacetado como a resiliência. Até agora, porém, os cientistas conseguiram agru­par pouco mais que uma coleção confusa de pistas do perfil bio­lógico da natureza resistente. Em maio de 2010, Eric J. Nestler e seus colegas do Centro Médico Monte Sinai comunicaram, por exemplo, a existência de uma proteína, denominada Delta­ FosB, que parece proteger camundongos, e possivelmente humanos, de estresse proveniente da solidão/isolamento ou da ameaça de camundongos mais agressivos.

Delta-FosB atua como um interruptor molecular que ativa um conjunto inteiro de genes (induzindo a produção das proteí­nas por eles codificadas); é encontrado em grande quantidade em roedores resilientes, mas é deficiente no tecido cerebral post-mortem de pacientes deprimidos. Uma droga estimulado­ra de DeltaFosB pode proteger contra depressão e encorajar a resiliência de forma mais geral. Ainda assim, levará tempo até que apareça uma bebida energética suplementada com resiliência em pó. Uma pílula que aumente a produção cerebral de Delta-FosB pode se tomar realidade no futuro. Até lá, a pesqui­sa permanece restrita a camundongos, com os cientistas explo­rando as sutilezas de uma substância química que não apenas permite aos roedores resistir às tentativas dos pesquisadores de matá-Ios de susto como também influencia as sensações de re­compensa da dependência de drogas.

Pode haver uma contribuição de vários outros genes e proteínas, mas, assim como o DeltaFosB, os cientistas devem estudá-Ios com cuidado. O gene 5-HTT, antes considerado uma substância-chave para a resiliência, serve de alerta para armadilhas da abordagem puramente genética Quase uma década atrás, inúmeros estudos demonstraram que pessoas com a versão mais longa desse gene pa­reciam resistir melhor à depressão que aquelas com a forma mais curta - em outras palavras, eram mais resilientes.

O gene ganhou notoriedade em 2006, quando um artigo da New York Times Magazine anunciou a chegada de um teste co­mercial de 5-HTTpara avaliar a resiliência. Esse otimismo preco­ce rapidamente se transformou em confusão (padrão comum em trabalhos que pretendem ligar um comportamento complexo a um único gene). Duas recentes meta-análises de estudos desco­briram que não há evidências confirmando uma ligação entre a variação do gene 5-HTT e a depressão induzida por eventos es­tressantes de vida Outra, porém, encontrou uma conexão. Se o gene está relacionado à resiliência, essa relação é bem distante. No final, a psicobiologia da resiliência deve levar a novas drogas e a métodos mais precisos de avaliação de nossa adaptação a es­tresses da vida. Por enquanto, explicações imediatas para o self resiliente não virão de estudos sobre um único gene ou receptor celular, mas das velhas entrevistas presenciais com aqueles mer­gulhados em uma crise pessoal.

• Estimuladores de resiliência

Ajustando o Sistema de Alarme Cerebral

Diante de uma ameaça, o cérebro deflagra uma cascata química que induz o enfrentamento ou a fuga. Por sua vez, uma série de substâncias químicas cerebrais pode enfraquecer essa resposta, promovendo, assim, a resiliência ao estresse. Um ciclo químico determinante começa quando o hipotálamo expele o hormônio liberador de corticotropina (CRH), que provoca a secreção na corrente sanguínea a o self resiliente não virão de estudos sobre um único gene ou receptor celular, mas das velhas entrevistas presenciais com aqueles mer­gulhados em uma crise pessoal.

• Estimuladores de resiliência

Ajustando o Sistema de Alarme Cerebral

Diante de uma ameaça, o cérebro deflagra uma cascata química que induz o enfrentamento ou a fuga. Por sua vez, uma série de substâncias químicas cerebrais pode enfraquecer essa resposta, promovendo, assim, a resiliência ao estresse. Um ciclo químico determinante começa quando o hipotálamo expele o hormônio liberador de corticotropina (CRH), que provoca a secreção na corrente sanguínea do hormônio adrenocorticotrópico (ACTH) pela pituitária, fazendo com que as adre­nais (próximas ao rim) liberem o hormônio cortisol. Esse hormônio au­menta a habilidade de responder a situações desafiadoras, mas, em níveis muito elevados, pode com o tempo provocar danos permanen­ tes. Para ajudar a manter as coisas dentro dos parâmetros, uma série de substâncias químicas (duas delas mostradas abaixo) diminuem a resposta ao estresse. Medicamentos ou psicoterapia estimulam a pro­dução desses exterminadores de estresse.

• Enfrentamento desadaptativo

Os cientista comportamentais acumulam décadas de dados re­lacionados à exposição tanto de adultos quanto de crianças ao trauma. George A. Bonanno, do Teachers College da Columbia University, dedicou sua carreira de psicólogo a documentar as variações da experiência de resiliência, focando em nossas rea­ções à morte de um ente querido e aos acontecimentos em si­tuações de guerra, terrorismo e doenças. Descobriu que, em todos os casos, a maioria das pessoas se adapta de forma surpreendentemente bem a qualquer coisa que o mundo venha a oferecer; a vida retoma a certo nível de normalidade em ques­tão de meses. O tema de sua pesquisa está presente em todos os cantos de sua sala, em um antigo edifício na Columbia. Do lado interno da porta, ele colou um recorte retirado de um jornal alemão com a seguinte manchete: "Merda acontece".

No começo da década de 90, quando ainda estava na University of California em São Francisco, Bonanno começou a pesquisar corno respondemos emocionalmente à perda e a outros eventos traumáticos. Naquela época, a visão predominante sustentava que a perda de um parente ou amigo íntimo deixava cicatrizes emocionais profundas - e o luto freudiano ou um revigorante se­melhante era necessário para que o enlutado retornasse à rotina normal. Bonanno e seus colegas abordaram o assunto sem pre­conceitos. Mesmo assim, durante os experimentos, não encontra­ram qualquer evidência de ferimentos psíquicos, dando origem à perspectiva de que há urna prevalência da resiliência psicológica e que esta não é apenas urna ocorrência rara em indivíduos agra­ciados com genes propícios ou pais abençoados. Essas considera­ções também suscitaram urna conclusão perturbadora: as ver­sões modernas do luto podem, no final das contas, produzir mais prejuízos que benefícios.

Em um exemplo de seu trabalho, Bonanno e seu colega Dacher Keltner analisaram as expressões faciais de quem perdeu pessoas queridas recentemente. Os vídeos não forneceram pista alguma sobre qualquer mágoa permanente que devesse ser extirpada. Corno esperado, os vídeos revelaram tristeza, mas também raiva e felicidade. Repetidas vezes, a expressão das pessoas em luto mudava de melancolia para gargalhada e vice-versa, Os cientistas se pergun­tavam: essas gargalhadas eram verdadeiras? Eles colocaram as ima­gens em câmera lenta e procuraram por uma contração do múscu­lo orbicular ao redor dos olhos - movimentos conhecidos corno ex­pressões de Duchenne, o que confirmaria se as risadas eram o que pareciam ser, e não somente um produto artificial de uma reação educada, mas insincero. Descobriram que os enlutados exibiam ex­pressões verdadeiras. Outras pesquisas confirmaram essa mesma oscilação entre tristeza e alegria.

O que isso quer dizer? Bonanno supõe que a melancolia nos ajuda com o processo de cura após uma perda, mas o luto contínuo, da mesma forma que a depressão clínica, é um fardo muito pesado para ser carregado, massacrando o enlutado. Assim, o interruptor interior evita que a maioria de nós fique presa a um estado psicológico inconsolável. Se nossas emoções atingem níveis extremos, um tipo de sensor interno - vamos chamá-Io "termômetro de resiliên­cia" - nos faz voltar ao equílíbrio.

Bonanno expandiu seus estudos para além da perda. Na Ca­tholic University e depois em Columbia, ele entrevistou sobrevi­ventes de abuso sexual, nova-iorquinos que passaram pelos ata­ques de 11 de setembro e residentes de Hong Kong que escapa­ram da epidemia de SARS. Mas para onde quer que fosse, a histó­ria era a mesma: "Parece que a maior parte das pessoas está en­frentando muito bem o problema".

Emergiu, então, um padrão recorrente. No período imediata­mente posterior à morte, doença ou desastre, um a dois terços dos sobreviventes manifestaram poucos, ou nenhum, sinais que mere­cessem a classificação de trauma: dificuldades de sono, hipervigi­lância ou flashbacks, entre outros sintomas. Passados seis meses, a quantidade que permaneceu com esses sintomas geralmente caiu para menos de 10%.

Ainda assim, se a maioria dessas pessoas não carregava prejuí­zos duradouros. O que estavam sentindo? Elas escaparam sem cica­trizes? É difícil saber. Em 1980, a inserção do distúrbio de estresse pós-traumático no Diagnostic and Statistical Manual of Mental Di­sorders tendeu a restringir a visão dos psicólogos. O modelo estabelecido pelo manual diagnóstico fez com que os pesquisadores ten­dessem a estudar apenas grupos que satisfizessem a classificação habitual desse transtorno. A nova designação para trauma levou pacientes com sintomas de estresse a serem incluídos no mesmo diagnóstico, ainda que capazes de superar essa fase.

Bonanno começou a investigar os sentimentos daqueles que não procuraram por ajuda psicológica. Os sujeitos na pesquisa em ciências sociais notoriamente distorcem as lembranças

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