Resiliência: uma questão de fibra


Uma pesquisa mostra que a resiliência é a principal competência da primeira metade do século 21. Conheça os caminhos para desenvolvê-Ia.

Revista Você S/A - por Amanda Kamanchek

Conceito emprestado pela fí­sica à psicologia do trabalho, a resiliência é a capacidade de resistir às adversidades e reagir diante de uma nova situação. Um profissional pode precisar dela tanto para encarar a pressão e a competição do mercado quanto para atravessar mo­mentos difíceis, como crises econô­micas e acidentes. "A resiliência é um fator crítico para enfrentar os desafios desta primeira metade do século", diz Paulo Yazigi Sabbag, professor da Escola de Administra­ção de Empresas da Fundação Ge­tulio Vargas de São Paulo (FGV) e idealizador da primeira escala na­cional para avaliar o nível de resi­liência de profissionais adultos.

Um estudo com 3 707 alunos do curso a distância de especialização em administração da FGV, realiza­do pelo professor Paulo, mediu o nível de resiliência de cada um deles utilizando a escala, que relacio­na nove fatores: autoeficácia, solu­ção de problemas, temperança, empatia, proatividade, competên­cia social, tenacidade, otimismo e flexibilidade mental. Cada um des­ses fatores ajuda de maneira dife­rente no enfrentamento de proble­mas e na tomada de decisões. No resultado final, 16% foram classi­ficados com baixa resiliência, 44% foram considerados com moderada resiliência e 40% enquadraram-se em um grau elevado.

A boa notícia é que se trata de uma competência que pode ser aprendida. "Muitos autores dizem que essa competência é assimilada no processo de educação familiar, mas eu acredito que pode ser desen­volvida em qualquer estágio da vida, principalmente quando a pessoa entra no mercado de trabalho", diz Paulo. Trocar de chefe, ter um pro­jeto rejeitado e sofrer uma injustiça do colega são situações que testam os limites do profissional.

Algumas atividades artísticas tam­bém podem desenvolver aspectos da resiliêncía, como a competência so­cial e a flexibilidade mental. A EDP, controladora de geradoras e distri­buidoras de energia elétrica em sete estados brasileiros, desenvolveu um programa que visa aumentar a ex­periência de vida dos funcionários. No curso, executivos e engenheiros do grupo podem escolher temas como fotografia, arquitetura e filo­sofia, por exemplo. A ampliação de repertório foi utilizada como estra­tégia para solucionar problemas de forma criativa e aproximar membros da equipe. "O repertório cultural faz com que os gestores cresçam e man­tenham a equipe caminhando e se desenvolvendo", diz Elaine Regina Ferreira, diretora de gestão do capi­tal humano da EDP, em São Paulo.

Como a cultura, a prática de es­portes ou de hobbies voltados para a ação e a aventura ajuda aqueles que precisam aprimorar a capacida­de de agir em situações difíceis. Maurício Catelli, de 44 anos, sócio­ diretor da CAS Tecnologia, empresa de desenvolvimento de soluções de engenharia de sistemas, automação e telemetria, pratica uma hora se­manal de voos de acrobacia e três vezes por semana usa um simulador de uma cabine do modelo Boeing 737. "O hobby traz muita autocon­fiança e poder de decisão", afirma Maurício. Ele conta que a simulação o ajudou a desenvolver a concentra­ção e a capacidade de planejar, o que o auxilia a tomar decisões pro­fissionais que exigem presteza.

Você não precisa ser bom em to­dos os aspectos da resilíência, mas certamente pode desenvolver alguns deles, de acordo com sua aptidão. Além de crescimento profissional, isso trará, de maneira geral, uma vida mais equilibrada.

• Resiliência em 9 passos

Conhecer os nove fatores da escala da FGV para avaliar o nível de resiliência dos profissionais.

1 - Autoeficácia

O que é: Crença na própria capa­cidade de organizar e executar ações requeridas para produzir resultados desejados. Associada à autoconflança, transforma-se em "combustível" para a proatividade e para a solução de problemas.

Como adquirir: São necessá­rios treinos específicos para per­ceber melhor as situações, tomar consciência de qual conceito faz de si mesmo e de qual é seu pa­drão habitual de atitudes. A psi­coterapia pode ajudar muito nes­se caso, assim como a realização de projetos de forma sistemática e planejada.

2 - Competência social

O que é: Capacidade de ir em bus­ca de apoio externo em momentos de estresse. Engloba tanto a aber­tura para receber apoio quanto a busca proativa de ajuda.

Como adiquirir: Todo treinamen­to oferecido para desenvolver li­derança, comportamento ético e melhoria de relações é válido. Pode-se praticar também a "escu­ta empática", que convida o outro a falar e oferecer maiores deta­lhes, adiando julgamentos críticos; e a "escuta ativa", um processo de indagação orientada. Envolver-se em projetos sociais ajuda a desen­volver a consciência moral.

3 - Empatia

O que é: Habilidade promotora tanto da competência social quan­to da solução de probl lemas. Sig­nifica colocar-se no lugar do outro, compreender a pessoa a partir do quadro de referência dela.

Como adquirir:  A leitura, so­bretudo de Livros de Literatura e biografias, ajuda a pessoa a se ima­ginar no lugar do outro. Nos filmes, observe a psicologia de persona­gens, a trama e o contexto. Traba­lhos sociais voluntários também desenvolvem esse aspecto.

4 - Flexibilidade mental

O que é:  Está relacionada à maior tolerância à ambiguidade e à maior criatividade. O pessimismo faz com que o indivíduo de baixa resiliência insista teimosamente em atitudes pouco efetivas. Já o resiliente, em oposição, é flexível. Pensa em op­ções, age e, se a ação não é efetiva, escolhe outra opção e persiste.

Como adquirir: Pense de ime­diato em aulas de ioga ou dança de salão, por exemplo. "A flexibi­lidade do corpo se associa à da mente", diz Paulo Sabbag, da FGV. No longo prazo, vá atrás de trei­namentos de desenvolvimento de criatividade, que desbloqueiam e permitem "pensar fora da caixa".

5 - Tenacidade

O que é: Trata-se da persistência e da capacidade de aguentar si­tuações incômodas ou adversas.

Como adquirir: Indivíduos com baixa tenacidade desistem facilmente. A prática esportiva ajuda, pois aprimora a disciplina e expõe os limites do corpo. É o indivíduo que regularmente faz uma hora de esteira porque sabe que é importante, e não porque gosta.

6 - Solução de problemas

O que é: Característica dos agen­tes de mudança, indivíduos prepa­rados para diagnosticar problemas, pLanejar soluções e agir, sem per­der o controle das emoções. Atitu­de que mobiliza para a ação.

Como adquirir: Um bom con­selho, para começar, é entreter-se com jogos de estratégia, aqueles que fazem pensar em soluções, como o xadrez. Mas, para desen­volver plenamente esse fator, a melhor solução é mesmo a dedicação para colocar projetos de pé - pessoais ou profissionais.

7 - Proatividade

O que é: Está associada a desafios, a conviver com incertezas e ambi­guidades. Refere-se à propensão a agir e à busca de soluções novas. Reativos tendem a esperar pelos impactos de adversidades; proati­vos tomam iniciativas.

Como adquirir: Uma solução é procurar um serviço de coaching, A orientação de profissionais mais experientes pode ensinar como ser ágil e dar respostas certas.

8 - Temperança

O que é: Está associada ao con­trole da impulsividade e da raiva. Significa maior capacidade de re­gular emoções, mantendo a sere­nidade em situações difíceis.

Como adquirir: Medidas palia­tivas, como ouvir uma música, se afastar um pouco e jogar água no rosto, são válidas. No longo pra­zo, meditação, condicionamento físico e psicoterapia para resolver problemas de autoestima.

9 - Otimismo

O que é: Na escala de resiliência, o otimismo é uma competência resultante da união de três outras: a competência social, a proativi­dade e a autoeflcácia.

Como adquirir: Todas as ativi­dades recomendadas para com­petência social, proatividade e autoeflcácia são úteis nesse caso. De resto, é ter uma atitude posi­tiva diante da vida.

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