Resiliência: vencendo os obstáculos


Para alguns pesquisadores a resiliência, capacidade de reisitir aos traumas e situações de dificuldade, pode ser moldada com base numa mudança na educação formal e familiar possiblitando ao indivíduo transpor vivências estressantes sem afetar a asaúde psíquica.

Revista Scientific American - por Rabea rentscler

"Em meio às. dificuldades estão as possibilidades", teria declarado Albert Einstein. Muitos que já su­peraram uma crise partilham essa visão. E cada vez mais psicólogos, neurocientistas e sociólogós buscam compreender aspectos que podem fortalecer o psiquismo e ajudar as pessoas a vencer o sofrimento. É praticamente im­possível quebrar um mousepad. Nós podemos dobrá­-lo, amassá-Io e bater nele - mas logo em seguida o objeto retoma sua antiga forma. A psique de algumas pessoas parece se comportar de forma semelhante: nem circunstâncias diffceis da vida nem golpes do destino conseguem tirá-Ias dos eixos. Outros, po­rém, passam por situações igualmente difíceis; ou até bem menos difíceis, e se mostram frágeis, como se tivessem enorme dificuldade para se recuperar de qualquer dor ou frustração.

Nos anos 50, a reação flexível a situações desafia­doras e estressantes da vida já fascinava o psicólogo , americano Jack Block, da Universidade da Califórnia em Berkeley. Para descrever essa capacidade de recuperação psíquica, ou "fenô­meno joão-bobo", ele recorreu a um conceito da física: resiliência. A palavra tem origem no latim resilire e significa "saltar para trás" ou "ricochetear". Na ciência dos materiais, ela caracteriza aqueles que, apesar de terem su­portado uma carga extrema, sempre retornam ao seu estado original - como a espuma com a qual os mousepads são fabricados.

Outro pioneiro das pesquisas em resiliência foi o sociólogo americano de origem judaica. Aaron Antonovsky (1923-1994). Nos anos 60, na Universidade Hebraica de Jerusalém, ele
acompanhou mulheres que estiveram presas em campos de concentração durante a Segun­da Guerra. O resultado de suas observações foi surpreendente: aproximadamente um terço delas encontrava-se em bom estado psicológi­co - o extremo estresse da internação parecia não ter afetado sua estabilidade psíquica.

Antonovsky passou então a pesquisar o quê mantém as pessoas psiquicamente saudáveis - uma abordagem revolucionária em sua época, pois ele desviou o olhar das marcas características e desencadeadoras de patologias para focar a saúde. Em vez de partir de distinções entre "saudável" e "doente", Antonovsky embasou seu con­ceito de salutogênese na ideia de um continuum, segundo o qual todo ser humano se move em algum lugar entre os dois polos. Se ele tem, nes­se caminho, uma "coerência psíquica", desenvolve então estabilidade mental e emocio­nal - até mesmo em situações estressantes. O sociólogo define essa capacidade como "uma postura básica diante da vida que se expressa como um sentimento de confiança que permeia tudo; é uma sensação duradora e ao mesmo tempo dinâmica de que o mundo de experiências, tanto interno quanto externo, é previsível e existe uma grande possibilidade de que as situações se desenvolvam da melhor forma racionalmente provável".

Em seu livro Health, stress and coping, de 1979 (Estresse, saúde e enfrentamento, não publicado no Brasil), o sociólogo desenvolveu a tese de que o senso de coerência, que varia de uma pessoa para outra, é formado essencial­mente por três componentes: o sentimento de compreensão de determinada situação, o enten­dimento do que pode ser alterado naquele con­texto e a relevância. Para o pesquisador, quem pode recorrer a esses recursos mentais tende a permanecer saudável, apesar das frustrações inerentes à vida. Segundo ele, para pessoas com um forte senso de coerência o mundo parece menos hostil e assustador, pode ser assimilado, mesmo em ocasiões nas quais surgem proble­mas e tudo ao redor parece desorganizar-se (por exemplo, quando perdemos o emprego, nos vemos às voltas com uma doença grave ou nos desentendemos seriamente com um ente querido).

Quanto mais percebemos a coerência a nossa -volta - apesar dos dissabores - mais somos capazes de recorrer a fontes de auxílio internas e externas e temos clareza do que podemos realmente fazer por nós mesmos e pelo outro (factibilidade). Por isso, para pessoas com senso de coerência mais aguçado, a vida não parece um fardo, mas um desafio - e não perde a relevância, apesar das dificuldades inevitáveis.

Atualmente, os estudos sobre resiliência ganham cada vez mais espaço entre pesquisa­dores do comportamento humano e profissio­nais da saúde. E tanto estudiosos do cérebro quanto psicólogos e psicobiólogos buscam compreender melhor os fatores que fortalecem a resistência psíquica. "Quem não consegue regular emoções se isola com frequência, não tolera frustração e se mostra arrogante, sem se preocupar com sentimentos alheios, pode estar em situação de risco. No entanto, estamos longe de poder oferecer modelos explicativos válidos para essas tendências comportarnentais tão complexas", diz o psicólogo do desenvolvi­mento, pedagogo e geneticista grego Wassilios Fthenakis, atualmente professor da Universida­ de Livre de Bozen, na Itália.

Ele ressalta que uma importante proteção emocional é fornecida por re elações empáticas, apreciativas e apoiadoras por parte de pais e professores. Ou seja: quem é tratado desde
cedo com respeito e carinho e recebe limites claros do que deve ou não fazer tem mais chan­ce de se tornar uma pessoa equilibrada. "Mas sem dúvida um elemento fundamental para o desenvolvimento psíquico saudável é a família: crianças que não puderam construir ligação se­ gura com os pais sofrem. Se elas experimentam pouco reconhecimento e valorização, isso reduz sua autoestima e as impede de assumir respon­sabilidades e superar conflitos." Na opinião do psicólogo, o conteúdo da educação também é importante: o conto de fadas A bela adormecida, por exemplo, é desaconselhável, pois favorece o comportamento antirresiliente. "A princesa não precisa fazer nada por si mesma - apenas espera dormindo que o príncipe a acorde com um beijo. Crianças precisam de histórias nas quais os problemas são enfrentados e superados. Assim, aprendem que vale a pena mobilizar as próprias forças e utilizar o apoio social em situações difíceis."

Estudos demonstraram que as meninas dispõem, de maneira geral, de melhores competências inguísticas que os meninos da mesma idade. Geralmente, elas têm amizades mais estáveis e aprendem mais cedo a expres­sar seus sentimentos e a perceber as emoções de outras pessoas. Inclusive ao lidar com conflitos, as meninas se mostram superiores aos meninos. No final das contas, elas apre­sentam melhores perspectivas para lidar de forma resiliente com as crises.

O melhor caminho para compensar os déficits na idade adulta é se conscientizar dos próprios pontos fortes e mobilizá-Ios. Nesse sen­tido, a psicoterapia costuma ser muito útil. Mas precisamos estar dispostos a aprender coisas novas, pois a capacidade de superar crises está associada à possibilidade de mudança. "Devería­mos aproveitar eventos estressantes no decorrer de nossa história como oportunidades de ama­durecimento emocional", acredita Fthenakis.

Para ele, a maioria dos sistemas de educação e de assistência aos adolescentes se orienta pelas fraquezas humanas e quer con­tribuir para sua superação. Essa perspectiva, porém, tem se mostrado pouco eficaz. "Talvez seja mais eficiente não atentar apenas aos déficits, mas primeiramente aos pontos fortes das crianças." Ele defende uma mudança de paradigma no sistema educativo: "O foco não deveria estar na aquisição de conhecimento e sim no fortalecimento das competências infantis. E isso não apenas nas instituições, mas também nas famílias".

Para saber mais

Resiliência, para além do trau­ma. Boris Cyrulnik, em Mente e Cérebro ri" 202, págs. 48-51, setembro de 2009.
Autobiografia de um espanta­lho - Histórias de resiliência: o retorno à vida. Boris Cyrulnik. Martins Fontes, 2008.

    Administração do Tempo

    Preencha aqui seus dados

© Copyright 2020 - Todos os direitos reservados à Methodus