Rumo a Uma Vida Sem Chefes


Revista Veja - por André Santoro

Quem conversa com um jovem sobre perspectivas de carreira costuma citar, como meta a ser perseguida, um bom emprego numa multinacional ou em um órgão governamental. Poucos se lembram de mencionar a possibilidade de ter um negócio como caminho para a realização e a estabilidade financeira. Talvez porque abrir uma empresa - e fazê-Ia sobreviver aos delicados primeiros anos nunca tenha sido tarefa facil no Brasil. A boa notícia é que as condições gerais estão ficando um pouco mais amigáveis. Nos últimos três anos, de acordo com pesquisa do Serviço Brasileiro de Apoio às Micro e Pequenas Empresas (Sebrae), o porcentual de empresas que conseguem completar dois anos aumentou de 51 % para 78%, resultado que pode ser atribuído ao ambiente econômico mais favorável com controle de inflação, maior disponibilidade de crédito, queda da taxa de juros e aumento de consumo - e à melhora no grau de preparo dos empreendedores. O porcentual de donos de novos negócios com nível superior, completo ou incompleto, já chega a 79%, e a proporção dos que têm experiência anterior em empresa privada subiu de 34% para 51% .

Conhecer o mercado em que se vai atuar é considerado o principal fator de sobrevivência das empresas recém-fundadas. Só asssim é possível identificar oportunidades de negócio e desenvolver uma boa estratégia de vendas. Os engenheiros Gustavo Vieira, de 27 anos, e Bernardo Castro e Adriano Naspolini, de 29, por exemplo, perceberam que o agronegócio no Brasil demandava tecnologia a baixo custo e abriram uma empresa que desenvolve, entre outros produtos, sistemas automáticos de adubação. Com cinco anos de existência e baseada em Florianópolís, a Arvus deve fechar o ano com um faturamemo de 1 milhão de reais. Do ponto de vista financeiro, a maior chance de sucesso está do lado de quem dispõe de recursos próprios para o investimennto inicial e o capital de giro - recorrer ao dinheiro caro dos bancos é o primeiro passo para abrir um rombo irrecuperável nas contas. O investimemo médio para abrir um pequeno negócio no Brasil é de aproximadamente 100.000 reais.

O retorno é demorado, mesmo porque é preciso reinvestir o lucro na própria empresa, especialmente nos primeiros anos.

Na fase inicial, não é fácil remunerar bem os colaboradores, o que contribui para a dificuldade de contar com boa mão de obra - entre os funcionários das novas empresas, 82% ganham até dois salários mínimos por mês. "Foi nesse ponto que eu mais penei. No começo, contratava por afinidade pessoal e por confiar demais no meu instinto, e várias vezes me dei mal", diz a paisagista paulistana Gica Mesiara, de 35 anos, dona da Quadro Vivo, especializada em paisagismo vertical.

Gica, que seis anos atrás trabalhava como gerente de banco, decidiu então repassar a urna empresa de recursos humanos a tarefa de selecionar profissionais com o perfil de que precisa. O consultor de empreendedorismo Luiz Fernando Garda diz que um dos erros mais comuns entre os donos de novos negócios é tentar "abraçar o mundo" e não dar conta satisfatoriamente de nenhuma das tarefas.

As características pessoais mais exigidas de um empreendedor, apontadas pela pesquisa do Sebrae, são a persistência. a criatividade e a disposição para correr riscos. Mas até que ponto o empreendedorismo pode ser considerado uma vocação ou, simplesmente, algo que se aprende? Resposta: é preciso mesclar as duas características. Algumas escolas já se deram conta disso e incluíram o empreendedorismo na grade curricular, preocupadas em apresentá-Ia aos estudantes como uma possibilidade concreta para o futuro. É o caso do tradicional Colégio Dante Alighieri, em São Paulo. Neste ano, após palestras e grupos de discussão para estudantes do 9º ano e do ensino médio, será aberta uma miniempresa gerida pelos alunos sob orientação de especialistas da Junior Achievement, fundação voltada à difusão de conceitos de economia e negócios nas escolas. Para o estudante Victor Marelli Thut, de 14 anos, um dos quarenta participanntes da primeira oficina, tornar-se empreendedor virou urna alternativa que até recentemente ele nem sequer cogitava. "Ter despertado cedo para o tema pode ser muito importante para o meu futuro", diz Victor.

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