Saia justa no trabalho


Aprenda a driblar situ­ações embaraçosas que acontecem no dia a dia e podem preju­dicar sua imagem.

Revista Você S/A - por Andrea Giardino

No início deste ano, após atender por cinco anos uma firma de tecnologia, o en­genheiro Márcio, diretor de uma grande consultoria que pediu para não ter o sobre­ nome citado, passou a pres­tar serviços para outro cliente. O problema: o novo cliente compete com o anterior. Márcio está numa saia justa: o freguês atual desconfia que ele permaneça leal ao antigo, que acha que ele entrega segredos ao novo. Situações como essa são mais comuns do que se imagina. No caso de Márcio, a saída é buscar o respaldo do chefe, deixando tudo às claras, aconselha Julio Sergio Car­dozo, consultor de carreira de São Paulo e ex-presidente para a América do Sul da empresa de auditoria Ernst & Young Terco. No mundo corporativo, os conflitos de interes­se são frequentes e, muitas vezes, colocam o profissional diante de di­lemas éticos. Quando bem resolvi­dos, a pessoa preserva sua imagem e pode até ganhar pontos com a che­fia. No caso de mancada, porém, os danos podem ser grandes. O merca­do aquecido expõe o profissional a situações desse tipo. Com empresas fazendo loucuras para preencher vagas, os convites de emprego par­tem de fornecedores, de companhias rivais e até de vizinhos de escritório. É preciso ficar atento para não en­trar numa fria. Confira a seguir uma seleção de saias justas comuns e as dicas de especialistas para driblá-las.

• Mudar para o concorrente

Mudar para uma companhia con­corrente é algo comum, princi­ palmente em época de ofertas quentes. Se você for procurado por um rival, adote uma postura ética. Não revele informações estratégicas do atual empregador. "Mesmo que o entrevistador insista, jamais ceda", diz Daniela Ribeiro, headhunter da Robert Half, empresa de recrutamen­to de executivos. Se aceitar o convite, comunique o quanto antes a decisão à organização. "Não há nada demais em ir para o concorrente que, claro, vai valorizar seu passe pelo conhecimen­to naquela área", afirma Daniela. O grande problema, ressalta, é a forma como sair sem queimar o filme.

• Levar ex-clientes para a empresa atual

Publicitários, executivos de vendas e advogados muitas vezes levam clien­ tes consigo quando trocam de trabalho. São casos em que existe uma relação de confiança pessoal em jogo. O cliente quer a pessoa, e não a empresa. Isso ocorreu com o advogado Valdo Cestari de Rizzo, de 45 anos, que há cinco montou um escritório próprio com um sócio e levou 26 advoga­dos e 100 clientes do chefe antigo. "A coi­sa funcionou bem porque acertamos tudo com antecedência", diz Valdo.

• Ter vários chefes a quem se reportar

A gestão matricial, adotada pelas multi­nacionais e que tem ganhado força nas empresas brasileiras globalizadas, ti­ra o sono de muita gente. Nas estruturas de comandos múltiplos, são comuns as or­dens divergentes, que deixam o profissio­nal perdido. "O melhor caminho é alinhar os interesses de todos", ensina Jair Pianuc­ci, diretor de RH da multinacional america­ na MetLife Seguros, ele mesmo subordina­do a um chefe local e a outro no Chile. "Co­munique suas prioridades e sugira o direcionamento que deve ser tomado", diz.

• Aceitar proposta de emprego de um fornecedor

Esse movimento pode colocar em risco a relação entre as duas empresas e man­char a reputação do profissional. Re­centemente, um CEO aceitou um convite do principal fornecedor da companhia. Ao pe­dir demissão, o conselho pressionou o for­necedor, que recuou. "As organizações es­tão fazendo de tudo para reter executivos", diz Rafael Souto, sócio da Produtive, firma de recolocação de profissionais, que acom­panhou o caso. "0 presidente está no cargo, mas ninguém esquecerá o episódio", diz.

• Trabalhar com o cônjuge

Pesquisa realizada pelo professor Ailton Amélio, do Instituto de Psicologia da Universidade de São Paulo, revela que 37% dos relacionamentos se iniciam no es­critório. Isso é uma brecha para problemas éticos, como suspeitas de beneficiamento, por exemplo. "Se possível, um dos dois de­ve mudar de área para evitar suspeitas", diz Daniela, da Robert Half. Há também situa­ções em que os cônjuges trabalham em em­presas concorrentes. Nesses casos, assuma a relação. "Se a organização descobre, pode até dernitl-Io", diz o consultor Julio Sergio.

• Contrato confidencial

Várias empresas exi­gem que seus executi­vos assinem contratos de confidencialidade de informações e até mesmo a chamada cláusula de não con­corrência, que impede o ingresso em em­ presas concorrentes por um determinado período. Companhias de auditoria, aviação, consultoria, alta tecnologia, além das indústrias farmacêu­tica, automobilística e de bebidas, por exem­plo, costumam incluir essas cláusulas nos contratos de seus ges­tores. As cláusulas não têm validade jurídica no Brasil, pois ferem leis trabalhistas. Po­rém, acabam inibindo profissionais de mudar de emprego, receosos de entrar numa briga jurídica. Quando esse é o caminho, os casos envolvendo os con­tratos podem parar num tribunal, e ficam submetidos à análise dos juízes, que podem dar ganho de causa para ambos os lados. "Se o acordo existe, quebrá-lo representará um dano à imagem do profissional", diz o headunter Marcelo Cuellar, da consultoria Michael Pa age.

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