Satisfação: a consciência da felicidade


Muitas vezes temos dificuldades de perceber o quanto estamos satisfeitos no momento em que temos essa vivência - só nos damos conta de que éramos felizes tempos depois.

Revista Scientific American - por Mauro Maldonato e Silvia Dell"Orco*

Nas últimas décadas as ciências cognitivas afinaram a própria sensibilidade com relação a âmbitos teó­ricos que, por tradição, pertencem à antropologia e à filosofia. Um desses campos refere-se à felicidade - uma categoria semanticamente indeterminada e com fortes implicações lógico-afetivas que, ao longo dos séculos, foi tema de numerosos estudos. Os pré-socráticos acreditavam que a felicidade (eudaimonia) fosse regida por um daimon benévolo, uma divindade, e estivesse apenas parcialmente subordinada à vi­cissitude humana. Embora distantes dos episódios do mundo dos homens, os deuses gregos conheciam os prazeres dos mortais e, em alguns casos, a felicidade. Com Platão e Aristóteles o cenário muda. O tema da felicidade é trazido do céu para o horizonte ter­reno. Apenas aqui se pode ter uma vida regida pelo controle racional das paixões, isto é, pela aspiração dos bens relacionais (e sociais), moralmente superiores aos prazeres efêrneros proporcionados por riqueza, sucesso e poder.

Na Antiguidade, os estoicos acreditavam que as pai­xões e as emoções criavam obstáculos à felicidade; já para os cristãos o ponto mais alto da existência mundana é a transcendência: beatitude (bem-aventurança) é a felicidade emancipada da deterioração causada por tendências hu­manas como o materialismo e o narcisismo. Para Santo Agostinho (354-430), é o desejo de experimentar prazeres do corpo que impõe limites à verdadeira felicidade.

Sob muitos aspectos, o século 17 é marcado pelas paixões frias. Se para Michel de Montaigne (1533-1592) a felicidade é um impulso liberador - exatamente o oposto do hedonismo e do narcisismo -, para o filósofo Baruch Spinoza (1632-1677) toda expressão de cupiditas (o amor no mundo, inserido na temporalidade, traduzido pelo anseio por possuir) é motivo de inquietude e infelicidade. Todavia, o Iluminismo, no século 18, marca a época áurea da busca da felicidade. Nos grandes projetos de emancipação das revoluções francesa e americana a felicidade descreverá, da mesma maneira" que a liberdade, um hori­zonte individual e comunitário, talvez a mais alta expressão da universalidade dos direitos: justamente o direito de ser feliz. Em sua dialética natural, Immanuel Kant (1724-1804) afirma que apenas a ação racional (e a aceitação do de­ver) emancipa o homem da transitoriedade dos prazeres. Segundo ele, é renegando o prazer (mas não o negando) que se afirma a própria liberdade.

Para Sigmund Freud, pai da psicanálise, a infelicidade humana nasce da negação sistemática do princípio de prazer. O homem constrói as convenções sociais - e, sobretudo, sua segurança e sua sobrevivência - no difícil equilíbrio entre as pulsões de vida (Eros) e de morte (Tha­natos). A civilização nada mais é que o instrumento de controle que substitui a agressividade pela cooperação e o desejo da sublimação. Mas há um preço a pagar: a renúncia à própria natureza. Para possibilitar o con­vívio, dispositivos jurídicos e de valor fazem com que os homens voltem a agressividade para si; instaura-se aí o sentimento de culpa, que o filósofo alemão Friedrich Nietzsche (1844-1900) chamou de "má consciência", Essa ordem, constituída sobre o equilíbrio repressivo, garante a convivência social por um lado, mas por outro alimenta a angústia existencial e a renúncia voluntária à felicidade. O custo da segurança da civilização, portanto, não é apenas a repressão das pulsões, mas a transformação da personalidade que, com a constituição do superego, torna a infelicidade a marca do indivíduo contemporâneo.

A metáfora da felicidade como um rio sub­terrâneo tem atravessado muitos âmbitos do conhecimento. Por volta da metade do século 18, ela ascende como figura central da nascen­te economia moderna - definida pelo filósofo italiano Antonio Genovesi (1713-1769) como a "ciência da felicidade pública" -, em que as relações interpessoais e as virtudes civis se tornam prioritárias para o crescimento de uma nação. Um século mais tarde, a felicidade passa para o âmbito da ciência econômica e é identificada na reflexão do economista e jurista inglês Jeremy Bentham com a utilidade, como signo invertido de "ciência triste". O Homo economicus - o indivíduo fragmentado, sepa­rado da dimensão social e relacional - encarna o hedonismo utilitarista. Segundo essa teoria, a vida se desdobra em uma escala de dor e prazer. Progressivamente, a economia neo­-clássica põe à margem o tema da felicidade, para se ocupar simplesmente da utilidade individual ou do bem-estar, entendido como resultado das preferências pessoais.

Na segunda metade do século 20 a refle­xão sobre a felicidade nos impele em direção a territórios disciplinares distantes entre si. No âmbito da psicologia científica a pesquisa articula três momentos fundamentais: 1) a superação do dualismo corpo-mente (que destinava ao corpo os prazeres e ao espírito as virtudes intelectuais) restitui à felicidade plena legitimidade como tema de pesquisa científica; 2) o nascimento da psicologia positiva, voltada ao bem-estar, à realização de expectativas e ao aprimoramento dos recursos pessoais; seu objeto de estudo é a avaliaç&atil lde;o empírica das "melhores experiên­cias" e do bem-estar individual; essa área de conhecimento traz contribuição significativa para tratamentos de distúrbios psiquiátricos menores; 3) a descoberta do "paradoxo da felicidade", que coloca em evidência como a felicidade depende só em mínima parte da renda e da riqueza. As pesquisas do econo­mista americano Richard Easterlin tiveram consequências "muito significativas. Ele é considerado o "pai do paradoxo", segundo o qual pessoas ricas costumam ser mais felizes que as pobres, mas o mesmo não se aplica a
nações. E à medida que um país enriquece, seu povo não se torna mais feliz. O pensa­mento de Easterlin não somente. contribuiu para modificar a ideia de que a riqueza de um povo se mede pelos índices de crescimento macroeconômico, mas sobretudo instigou economistas e psicólogos a se interrogar mais a fundo sobre as próprias causas da felicidade.

Todavia temos de nos perguntar: o que pode determinar o bem-estar individual ou social? Segundo o psicólogo Daniel Kahne­man, Prêmio Nobel de Economia de 2002, a ideia de que o incremento da renda seja fonte de felicidade é uma perfeita ilusão. Toda vez que consideramos um aspecto de nossa vida - seja saúde, seja dinheiro, sucesso, amor etc. - manifestamos a tendência de lhe atribuir excessiva importância. É preciso considerar também que a avaliação da felicidade varia conforme o momento em que é realizada. Mui­tas pessoas acreditam que riqueza, sucesso no trabalho e harmonia conjugal nos tornam mais felizes. Na realidade, se medíssemos constantemente o bem-estar de uma pessoa, o peso desses fatores seria muito diferente a cada momento. Ou seja: mesmo que dese­jemos fortemente alguma coisa, algum tempo após obtê-Ia descobrimos que não somos nem minimamente mais felizes do que éramos antes de consegui-Ia.

Kahneman tentou explicar esse paradoxo recorrendo à metáfora da esteira rolante, se­gundo a qual o aumento da renda/riqueza faz com que permaneçamos imóveis - mesmo em movimento. Esse fenômeno se expressa por meio de três subfenômenos. O primeiro é o hedonic treadmill: o bem-estar conquistado com a posse de um novo bem de consumo é apenas temporário e o nível de satisfação regride à situação anterior à aquisição; o segundo é o satisfaction treadmill: para man­termos o mesmo nível de contentamento, são necessários contínuos e mais intensos prazeres. O terceiro subfenômeno, o positio­nal treadmill, mostra que o valor subjetivo de um bem de consumo é exaltado pela com­paração com aquilo que os outros possuem. Aliás, não é insignificante que o acúmulo de mais riquezas materiais corresponda, ao menos parcialmente, à perda da dimensão afetivo-relacionaI.

Não por acaso as dinâmicas da felicidade têm sido explicadas pela teoria dos bens relacionais, que identifica a relação entre felicida­de, capacidade de manter relações autênticas e reciprocidade empática. Aliás, a constatação de que a autorrealização deriva do desen­volvimento de atividades correspondentes à própria natureza não é apenas da psicologia cognitiva, mas também de algumas religiões orientais. É o desdobramento das próprias potencialidades que permite que o homem vivencie uma condição de felicidade.

Psicólogos procuram há tempos uma de­finição compartilhada de bem-estar psíquico. Apesar da amplidão de seu campo semân­tico e do caráter problemático de algumas categorias que definem o bem-estar - valores, esperanças etc. -, muitos pesquisadores tentaram fazer medições. Estudos sob a óp­tica da psicologia positiva têm sido úteis no incremento da expressividade emocional, da criatividade, do reconhecimento de si e das próprias capacidades no trabalho, na arte e no esporte. Só para dar alguns exemplos, o musicista que compõe, o arquiteto que elabora um projeto, o escalador que conquista o cume, o bailarino que executa uma coreografia im­pecável, o atleta que melhora o próprio ren­dimento expressam experiências autotélicas (do grego, auto=si mesmo e telos=finalidade), relativas ao prazer intrínseco e automotivador - que supera os mecanismos da gratificação e da recompensa externa.

Objetivos estimulantes e realizáveis favorecem a autoestima e permitem uma vivência subjetiva que exclui interferências cognitivas ou preocupações não essenciais, determinando uma condição muito próxima da felicidade. A identificação de um pianista com a própria melodia depende do fato de que entram em jogo ações e gestos de uma arquitetura lógica não consciente, de um fluxo de consciência que anula as distinções artificiais entre o eu e o ambiente, entre es­tímulo e reação, entre mente e mundo. Por outro lado, parece que a felicidade depende do controle das próprias ações. Situações que restringem a autonomia como perda do trabalho e doença grave, por exemplo, costumam afetar de forma profunda o bem­-estar individual. Essa evidência fortalece a tese de que o dinheiro não é causa de felicidade. Inúmeros estudos mostram que os empresários são mais satisfeitos do que outros indivíduos com níveis de renda simi­lares. De fato, não é a riqueza o que os torna felizes, mas a liberdade de empreender novos desafios. Eis por que gratificações exteriores, como aquisição de bens ou posição social, por si sós, em vez de trazer realizações pes­soais podem causar prejuízos.

Segundo o psicólogo americano Martin Seligman, a tarefa da psicoterapia positiva não é apenas tratar do sintoma, mas ajudar os pacientes a reconhecer e a expressar suas potencialidades para se encaminhar para a rota da cura - e possivelmente da felicida­de. As emoções positivas, assim como as negativas, têm papel adaptativo importante: ampliam os recursos intelectuais, físicos e sociais que podemos utilizar em caso de uma ameaça ou de uma oportunidade. Além disso, os estados de ânimo positivos favorecem sentimentos de tolerância, empatia e al­truísmo - que são a base do reconhecimento recíproco de amizade e amor. Em contraste com as regressões autocêntricas e o egoísmo, promovem a autovalorização e geram efeitos positivos sobre a saúde e a longevidade.

Seligman resume esses conceitos numa surpreendente fórmula da felicidade: H = S + C + V, em que H significa happiness (nosso nível permanente de felicidade); S quer dizer set range (cota fixa de felicida cer e a expressar suas potencialidades para se encaminhar para a rota da cura - e possivelmente da felicida­de. As emoções positivas, assim como as negativas, têm papel adaptativo importante: ampliam os recursos intelectuais, físicos e sociais que podemos utilizar em caso de uma ameaça ou de uma oportunidade. Além disso, os estados de ânimo positivos favorecem sentimentos de tolerância, empatia e al­truísmo - que são a base do reconhecimento recíproco de amizade e amor. Em contraste com as regressões autocêntricas e o egoísmo, promovem a autovalorização e geram efeitos positivos sobre a saúde e a longevidade.

Seligman resume esses conceitos numa surpreendente fórmula da felicidade: H = S + C + V, em que H significa happiness (nosso nível permanente de felicidade); S quer dizer set range (cota fixa de felicidade); C indica as circunstâncias da vida que podem influenciar o nível de satisfação (renda, relações afetivas, vida social, idade, saúde, fé); por fim, V repre­senta algumas esferas de autonomia. Se os dois fatores iniciais, S e C, são impossíveis ou difíceis de ser modificados, as circunstâncias internas (V) podem ser planejadas e elabora­das para aumentar o resultado dessa fórmula.

Nessa esfera estão as emoções positivas concernentes ao passado, ao presente e ao fu­turo que, se desenvolvidas, podem, segundo a psicologia positiva, reelaborar a propensão ao pessimismo e as "representações de contraste" que hipotecam a felicidade do indivíduo. Segundo Seligman, a felicidade no presente diz respeito eminentemente aos "prazeres" e às "gratificações". Se os primeiros se referem a sensações agradáveis e transitórias (prazer, satisfação, alegria) que implicam atividade de pensamento mínima, os segundos são mais duradouros - derivam do desdobramento de potencial idades e virtudes que contrastam com as.incertezas e indecisões - e podem nos afetar mais profundamente.

Apesar das diferenças entre a perspectiva hedonista (voltada para a satisfação pessoal) e a eudaimonista (que privilegia o discurso moral), os estudiosos consideram indubitável um conceito integrado e multidimensional do bem-estar que inclui aspectos das duas linhas de pensamento. O cientista Michael Argyle, pesquisador da Universidade de Oxford, obser­va que as categorias de bem-estar e êxtase - às quais, no passado, o termo felicidade remetia - pertencem não só a estados da mente muito diferentes entre si, mas também não definem um espaço unidimensional da felicidade.

Alguns preferem avaliar o componente emocional (por exemplo, alegria, diversão, pra­zer, bom humor); outros, o aspecto cognitivo e reflexivo (por exemplo, o grau de satisfação geral). Este último aspecto, entendido como um estado de bem-estar, deriva de uma ava­liação abrangente da qualidade de vida, sendo, portanto, diferente da felicidade entendida
como simples emoção positiva.

• Salário e criatividade

Segundo Argyle são três os pontos funda­mentais que contribuem para desenvolver um senso de satisfação: relações sociais (familia­res, profissionais e de amizade), diversão e trabalho. Em relação ao primeiro item o que realmente conta nem é tanto a quantidade, mas a qualidade: o grau de intimidade e a disponibilidade para a troca afetiva perten­cem ao campo do "apoio social". A diversão compreende as atividades que não oferecem ganho material mas são, por si mesmas, lúdicas e prazerosas; influem diretamente no bem-estar, o que indiretamente influencia diversos âmbitos da vida.

No que diz respeito ao trabalho, inúmeras evidências demonstraram que quem tem salário maior e cargo de mais prestígio, que lhe permitam ser criativo e tomar decisões, tende a se sentir mais feliz. Mas há outros componentes que influenciam a satisfação profissional, como a relação com os colegas, a possibilidade de realizar as próprias capaci­dades. Por outro lado, é preciso considerar que, muitas vezes, trabalhos de maior prestí­gio estão ligados a grande carga de estresse e a uma responsabilidade excessiva em detri­mento das relações pessoais.

Em linhas gerais, é possível afirmar que a felicidade não se resume a ter, nem a ser - está associada à experiência de sentir e vivenciar relacionamentos. Trata-se de uma busca constante, que se renova. E é justamente essa procura que nos enriquece. Nem mesmo em nosso imaginário podemos garantir que essa experiência seja absoluta e contínua. E retorna­mos à questão da essência que constitui todo sentimento humano: o tempo: A felicidade tem um período de duração? Ou seria efêmera? O que ela tem de singular e misterioso é que não se deixa enredar em definições estreitas. Fre­quentemente percebemos ter sido felizes quan­do já estamos distantes daquele momento. E nem sempre há coincidência entre ser feliz e perceber que o fomos. Assim, a felicidade pode ser somente uma promessa, uma esplêndida ilusão que se conjuga no futuro.

• Uma meta socioeconômica

Encravado na cordilheira do Himalaia, o Butão surpreendeu o mundo ao lançar um curioso e inovador indicador de desenvolvimento: Felicidade Interna Bruta (FIB). O modelo considera que o bem-estar psicológico da população é tão importante como o crescimento socioeconômico. O economista Dasho Ura, da Universidade de Oxford, usa a imagem de uma roda para explicar o cálculo do FIB (no centro dela está a meta final): a satisfação com a vida, a felicidade propriamente dita; os meios para chegar a ela são os raios do círculo, entre eles: uso equilibrado do tempo, vitalidade comunitária e sustentabilidade. O trabalho não remunerado, como cuidar de crianças e idosos - atividades desconsideradas na contagem de"produção de riqueza" do Produto Interno Bruto (PIB) -, por exemplo, é valorizado por essa medição.

No Brasil, a organização não governamental (ONG) Instituto Visão Futuro, coordenada pela antropóloga e psicóloga Susan Andrews, colocou em prática projetos-piloto do indicador FIB em algumas cidades do interior de São Paulo. Em 2008, em Itapetininga, aproximadamente 400 moradores do bairro Vila Belo Horizonte responderam a um questionário sobre as nove dimensões do FIB aplicado por jovens da própria comunidade capacitados pela instituição. Os dados do levantamento foram apresentados à população em uma reunião animada pelos pequenos "age

    Administração do Tempo

    Preencha aqui seus dados

© Copyright 2020 - Todos os direitos reservados à Methodus