Sem Idade para Sonhar


A idéia de que o sucesso está ligado à capacidade de se aposentar cedo só funciona para quem odeia o que faz.

Revista Você S.A. - por Laura Somoggi

Aos 43 anos, o consultor americano Mitch Anthony diz que não pretende se aposentar jamais. Anthony começou a pensar assim depois de entrevistar aposentados que reclamavam de tédio e de desencanto na vida depois dos 60. "Eles diziam que não conseguiam sentir-se úteis ou importantes", conta. "Ao ouvir aquilo, mudei de idéia sobre aposentadoria. Concluí que queria ser livre fiinanceiramente para fazer as coisas que gosto e que iria trabalhar enquanto houvesse gente disposta a ouvir minhas idéias. Muita gente ouve (o guru) Peter Drucker aos 91 anos, e isso me dá esperanças ... "

Além de prestar consultoria e presidir a Peer Power Communications, empresa de treinamento e comunicação, em Minnesota, nos Estados Unidos, Anthony escreve e dá palestras sobre planejamento financeiro e inteligência emocional ligada ao dinheiro. Ele também é autor do livro The New Retirementality - Planning Your Life and Living Your Dreams ... at Any Age You Want(algo como Uma nova mentalidade sobre aposentadoria - planeje sua vida e viva os seus sonhos na idade que você quiser), editora Dearborn Trade, ainda sem tradução para o português.

Para Anthony, que concedeu entrevista exclusiva a VOCÊ SA, as pessoas têm de parar de depositar todas as esperanças de felicidade num estágio mais avançado da vida. Muitos contam com esses anos - depois dos 60 - para ter lazer, relaxamento e equilíbrio. Imagine se, ao chegar a essa idade, você ficar doente e não puder fazer o que sempre sonhou? "Muita gente está deixando de viver o hoje para acumular dinheiro", afirma Anthony. "Essas pessoas sacrificam a fase mais produtiva da vida para ter tranqüilidade quando a energia de viver não estiver mais no auge." A seguir, Anthony explica como é possível reverter esse quadro e aproveitar melhor o hoje sem se descuidar do amanhã.

Esqueça o velho modelo

Um estudo realizado nos Estados Unidos desde 1996 pelo Instituto Gallup e pela empresa de investimentos Paine Webber mostra que 85% da população ativa do país pretende continuar a trabalhar depois da aposentadoria. Os motivos são muitos, segundo outra pesquisa feita em 1999 com aposentados americanos que continuam pegando no batente. A maioria deles, 62%, disse que permanece no mercado de trabalho, pois gosta do que faz e quer continuar envolvida na atividade. É um número significativo, mesmo considerando que 26% dos entrevistados tenham respondido que seguem trabalhando porque precisam do dinheiro.

A história mostra que muita gente começa a entrar em decadência física e mental se não tem o que fazer, ao menos em parte do seu tempo. É vital ter algo que nos desafie, que nos mostre que temos um propósito, um objetivo na vida. A ilusão de uma vida livre de qualquer atividade produtiva costuma diminuir à medida que a hora de parar se aproxima. E se evapora passados alguns meses de aposentadoria, fase que deve ser vista como uma transição. Em certos casos, tal transição pode envolver uma redução da carga horária no trabalho, pode representar uma aposta em outra carreira ou num negócio próprio.

O mercado precisa dos cinqüentões

Nos Estados Unidos, muitas empresas, das mais diversas áreas, estão contratando ou mantendo em seus quadros profissionais com 50, 60 anos ou mais. Um bom exemplo é a consultoria americana Deloitte Consulting. Nela um executivo próximo da aposentadoria que seja considerado vital para a firma é incentivado a ficar. Como? Graças à possibilidaade de redefinir a forma como vai colaborar com a empresa. Para alguns, isso quer dizer trabalhar em meio período. Para outros, é virar mentor do pessoal que acaba de entrar na casa. É um caminho semelhante ao trilhado hoje por outras grandes empresas, como Monsanto, Chevron e Prudential Securities. Nelas, começam a surgir contratos de trabalho com carga horária reduzida em um esquema que aproveita o conhecimento dessa fonte de talento da companhia.

Numa economia baseada em capital intelectual, você não pode substituir alguém com uma bagagem de 60 anos por alguém de 22 anos. Nem por três de 22 anos, se fosse o caso. Com isso, quem contrata será obrigado a reformular os conceitos de seleção e preservação de pessoal, a buscar novas formas de motivar e compensar quem está na casa e a equacionar o impacto da idade mais avançada de seus funcionários na inovação e produtividade. Toda empresa terá de fazer ajustes para preservar seus talentos.

O custo do trabalho

Quanto o seu salário está lhe custando? A sua atividade acaba com sua saúde, provoca estresse ou atrapalha importantes re1acionamentos? Será que o seu salário vale a pena? Muitas outras coisas além da remuneração devem ser avaliadas quando pensamos se seremos felizes seguindo determinada carreira. É preciso levar em conta a satisfação que você tem com ela.

Mas para muita gente a escolha da atividade profissional tem a ver com a garantia da maior remuneração financeira possível em relação ao esforço empreendido. Em vez de seguir a verdadeira vocação na vida, há quem opte por uma alternativa muitas vezes insuportável para ganhar mais. A premissa é que temos de lutar constantemente para ter mais do que temos hoje. Mas quanto é o suficiente? Quem tem 5 milhões de dólares acredita que precisa ter 10 milhões. Onde isso termina? Parece que nunca tem fim.

É fundamental que cada um pare para avaliar o grau de satisfação com o trabalho. Qual é a sua vocação? Que atividade lhe dá prazer? Deixar de viver tal prazer no presente para acumular dinheiro e, no futuro, poder se dedicar a algo que satisfaça é uma proposta tola. A historinha a seguir, aparentemente inocente, mostra bem isso:

Um homem de negócios muito rico fica horrorizado ao ver um pescador sentado o ao lado de seu barco, brincando com uma criança. "Por que você não está pescando?", pergunta o homem.
"Porque eu já pesquei o suficiente para um dia", responde o pescador.
"Por que você não continua pescando um pouco mais?"
"Mas o que farei com mais peixes?"
"Você poderia fazer um dinheiro extra", disse o homem de negócios. ""Assim, com o dinheiro extra você poderia comprar um barco maior, ir para águas mais profundas e pescar mais peixes. Daí, você ganharia ainda mais dinheiro para comprar uma rede de náilon. Com a rede, você poderia pescar ainda mais e fazer mais dinheiro. Com esse dinheiro você poderia ter dois barcos, talvez três. Eventualmente você poderia ter uma frota de barcos e ser tão rico quanto eu."
"E aí o que eu faria?", perguntou o pescador.
"Então", disse o homem rico. "Você poderia realmente aproveitar a vida".
O pescador, surpreso, olhou o homem e perguntou: "O que você acha que eu estou fazendo agora?"

Mudar é difícil, mas não impossível

Amanda é uma consultora americana de 37 anos. Ao fazer uma visita a primos que viviam numa cidade próxima, o alarme soou. Os primos ganhavam praticamente a mesma coisa que ela e o marido, mas pareciam estar muito mais contentes e relaxados. Gostavam de seus empregos e conseguiam passar muito tempo com os filhos, algo que Amanda e o marido sempre quiseram. No caminho de volta, o casal começou a pensar em seus hábitos de consumo e em tudo o que tinha acumulado. Viram que tinham carros que valiam 100 000 dólares e que representavam gastos e seguros na faixa de 2 000 dólares por mês. Eles perceberam que poderiam cortar de 50% a 70% das despesas se vivessem numa área em que não fosse tão importannte ter carros de luxo. Decidiram vender a casa e se mudar para um bairro mais barato. Poderiam pagar a nova casa à vista e investir o resto do dinheiro. Junto com a poupança que tinham, eles conseguiriam o suficiente para se sustentar e - o que era mais importante - ter mais tempo para si e para os filhos. Trocaram quantidade por qualidade.

É difícil atingir o equilíbrio na vida, pois enquanto buscamos o que queremos somos constantemente levados a ir atrás do que precisamos. Você pode querer ser um artista, mas, se tem uma família para alimentar, talvez seja impossível largar seu emprego para começar a pintar quadros, por exemplo. A procura de equilíbrio é antes de tudo conseguir estabelecer suas prioridades, saber o que é mais importante em sua vida. Como fazê-lo?

1) É preciso avaliar se o que você está fazendo é o que realmente deseja.

2) Compare sua remuneração atual com a remuneração trazida pela atividade de seus sonhos.

3) Analise se você está disposto a mudar o estilo de vida, se for necessário, para poder fazer aquilo que você realmente quer ou para ter a vida que você deseja.

4) Por último, defina o que precisa ser feito do ponto de vista financeiro para que você fique livre para fazer o que quer e quanto tempo isso vai levar. Essa etapa é o "planejamento financeiro da vida".

Muitas pessoas não conseguem encarar o medo de ganhar menos dinheiro para fazer o que realmente gostam. E se a carreira que você ama - ou o esquema de trabalho que você aspira - pagar menos do que a sua carreira atual, pode abrir mão de certos ganhos materiais. Eles serão compensados com gratificação pesssoal. E eu acredito que quando você realmente gosta do que faz e se sente comprometido, as portas se abrem de maneiras estranhas e milagrosas.

    Administração do Tempo

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