Seu cérebro no trabalho


A neurocien­tista Suzana Herculano­ Houzel explica como o cére­bro funciona diante de situações do dia a dia. Controlar as emoções pode melhorar sua motiva­ção e seu desempenho.

Revista Você S/A - por Elisa Tozzi e Murilo Ohl

Complexo e repleto de ligações, o cé­rebro reage de maneiras diferen­tes a cada situação enfrentada no dia a dia do trabalho. A cobrança por um resultado rápido desencadeia uma poderosa onda de es­tresse. E aquele projeto complica­do faz com que a ansiedade mande constantes men­sagens de alerta. Na entrevista a seguir, a neurocien­tista Suzana Herculano-Houzel, de 37 anos, direto­ra do Laboratório de Neuroanatomia Comparada da Universidade Federal do Rio de Janeiro e autora de cinco livros, entre os quais Pílulas de Neurociência para uma Vida Melhor (Editora Sextante), explica como es­sas emoções podem ser benéficas ou perigosíssimas para o desempenho e para a motivação profissional.

Você S/A - O que ocorre com o corpo, do pon­to de vista da neurociência, quan­do um profissional passa por situa­ções estressantes no trabalho?

Suzana Herculano-Houzel - O estresse nada mais é do que uma for­ça que provoca transformações men­tais e físicas no corpo. O coração dis­para, a pressão arterial aumenta e o cérebro reage para que possa enfren­tar novos problemas. A princípio, o estresse é bom, porque faz com que os níveis de atenção cresçam. Isso só acontece quando o profissional sen­te que tem controle sobre a situação e que é capaz de encontrar soluções para o problema. O estresse se tor­na perigoso no momento em que a pessoa acha que não consegue dar conta do trabalho e entra num esta­do de paralisia. A situação fica drásti­ca quando alguém precisa fazer gran­des esforços para tentar driblar um desafio e não chega a lugar nenhum.

Você S/A - O que fazer para ter mais qualidade de vida?

Suzana Herculano-Houzel -Três fatores são importan­tes: lazer, sono e exercício. O primeiro passo é parar de pensar nos proble­mas assim que o expediente termi­nar. Um profissional não consegue re­laxar se for para casa e ficar remoendo as obrigações do dia seguinte. Des­ligar-se é vital. O lazer ajuda nessa tarefa, pois faz com que o cérebro se ocupe com atividades prazerosas e se sinta satisfeito e recompensado.

Você S/A - Como o sono e a atividade física ajudam?

Suzana Herculano-Houzel - O sono faz com que o cé­rebro registre as atividades desen­volvidas durante o dia e crie estraté­gias para resolver novos problemas. Uma boa noite de sono ajuda a rege­nerar os neurônios do hipocampo, parte do cérebro que cuida da memó­ria recente. Essas novas células am­pliam a capacidade de aprendizagem e auxiliam na administração do es­tresse. Os exercícios também man­têm o hipotálamo em bom funcio­namento. Mas tem que ser alguma atividade física que dê prazer. Caso contrário, o cérebro vai encontrar mais um motivo para se estressar.

Você S/A - Uma das queixas mais comuns en­tre os profissionais é a dificulda­de de planejar tarefas. Ê possível treinar o cérebro para ter uma or­ganização mental?

Suzana Herculano-Houzel - Sim. Nós temos uma agenda interna no hipocam­po que funciona como uma lista de tarefas, armazenando as informa­ções mais novas do dia. Para fun­cionar bem, o cérebro precisa prio­rizar essas atividades e diminuir a complexidade dos problemas. Esse é o segredo do bom planejamento mental. A satisfação aparece quan­do nós resolvemos aquilo que nos deixa angustiados. Por isso é im­portante dividir os grandes proble­mas em pequenos desafios, que po­dem ser resolvidos com mais facili­dade, e traçar uma estratégia sim­ples para solucioná-los.

Você S/A - A motivação é um dos pontos-cha­ve para que uma pessoa se sinta re­alizada com o trabalho. Como con­trolamos esse sentimento?

Suzana Herculano-Houzel - Quando tem uma decisão a tomar, o cérebro ativa o sistema de recompensa, lo­calizado no córtex cingulado, res­ponsável por avaliar as chances de sucesso e fracasso de uma emprei­tada. Se o cérebro determina que o fracasso é o resultado mais prová­vel, o corpo não sai do lugar. A mo­tivação só acontece quando a mente manda o sinal de que há pelo menos 50% de chance de uma atividade ser bem-sucedida. É a antecipação do sucesso e a sensação de uma recom­pensa futura que estimulam uma pessoa a se dedicar a uma tarefa, por mais desgastante que seja.

Você S/A - Com a redução das equipes, os pro fissionais têm mais objetivos para cumprir e menos tempo para entre­gar bons resultados. Qual e a rea­ção do cérebro nesses casos?

Suzana Herculano-Houzel - A manifestação mais comum é a an­siedade, quando o cérebro manda sinais de preocupação com proble­mas que ainda não existem, mas que aparecerão logo mais. A inquietação com o futuro é maravilhosa, porque é uma maneira de se preparar ante­cipadamente para o que está porvir. Por mais que os chefes insistam que é preciso estar atento e bem informado para as metas do próximo mês, a pres­são interna causada pela ansiedade é completamente pessoal e inevitável.

Voc& ê S/A - Em que medida a ansiedade, uma doença comum hoje em dia, pode ser prejudicial ao trabalho de uma pessoa?

Suzana Herculano-Houzel - A ansiedade fica perigosa quando a inquietação é tanta que o cérebro se convence de que não tem nenhum domínio sobre as situações futuras e começa a fazer avaliações exageradas sobre o tamanho do pro­blema a ser resolvido. Isso faz com que a mente fique incapacitada para agir. Se essa sensação persiste por um longo período, surge o estado ansio­so crônico, uma doença que precisa ser tratada com remédios e terapia.

Você S/A - É comum que subordinados imitem as atitudes de seus chefes, tanto as boas quanto as ruins. Por que isso ocorre?

Suzana Herculano-Houzel -Há um sistema no cére­bro que nos faz ser ca­paz de repetir mentalmente as ações das pes­soas com as quais con­vivemos, são os neurô­nios espelho (é por causa deles que bocejamos logo depois de alguém, por exemplo). Esse me­canismo nos faz imitar o outro e intuir quais são suas intenções. Mas, para isso, é pre­ciso ter identificação. Se o funcionário não se identificar com o líder, vai refutar suas ações.

Você S/A - Por que é importante estar disposto a en­frentar novos desa­fios?

Suzana Herculano-Houzel - Se um profissio­nal se mantém o tempo todo na zona de confor­to, sem pensar em nada de diferente, a mente fica entediada e não cria novas maneiras de re­solver problemas. E do que o cérebro mais gosta é ser desa­fiado, desde que se sinta apto para encontrar soluções. Esse é o ponto mais importante: a sensação de au­tonomia. As empresas têm que dar certa liberdade para seus funcio­nários poderem tocar novos proje­tos. Quem não tem um mínimo po­der dentro das corporações fica es­tressado, se sente incapaz e se torna uma bomba ambulante de estresse.

Você S/A - O jornalista Malcolm Gladwell, au­tor do livro Fora de Série, diz que para se destacar em determinada área é necessário repetir uma ativi­dade por 10.000 horas. Qual a impor­tância da prática para o desenvol­vimento cerebral?

Suzana Herculano-Houzel - Só o talento não transforma alguém num gênio. A prá­tica e a motivação são fundamentais para que o cérebro se acostume a uma tarefa e encontre as melhores manei­ras de realizá-Ia. Para conseguir dedi­car tempo a uma atividade, é neces­sário que uma pessoa encontre algo que adore fazer. Só conseguimos re­petir tantas vezes a mesma tarefa se o nosso cérebro se sentir recompensa­do e feliz com isso. Quem ainda não encontrou sua vocação precisa experimentar novas atividades. Sair da zona de conforto é o melhor remédio.

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