Síndrome do Domingo à Noite


Verão, férias ... Certas de que vão se divertir, inúmeras pessoas preparam-se para gozar o ócio. Mas, não é raro culparem-se pela "vagabundagem" e, tentando compensar, transformarem passeios e viagens em maratonas de afazeres.

Revista Viver - por Christian Ingo Lenz Dunker

"O agradável nada a fazer" (Iucundum ... nihil agere) é uma expressão latina empregada por Plínio e Sêneca e que está na origem do dito "Dolce far niente", o doce não fazer nada empregado pelos italianos. Originalmente, a expressão não possuía conotação negativa. Era um convite à contemplação da natureza e à valorização dessa atitude em face da vida ativa, ocupada pelo fazer cotidiano e pelo trabalho.

Vida ativa e vida contemplativa constituem uma oposição desde a Grécia clássica e não são poucos os textos que glorificam a contemplação, a suspensão do juízo e da ação como atitudes filosoficamente interessantes e como princípios éticos legítimos.

Mas que destino está reservado a essa suspensão do agir no mundo contemporâneo? Época de horror ao vazio, tempo em que a produção colonizou todas as esferas de nosso ser. Período paradoxal em que se contabiliza criteriosamente a relação entre prazer e trabalho; em que o precioso tempo precisa ser bem "investido" e a falta de ocupação é índice da presença do mal.

"Não passa de um bando de desocupados" - com essa expressão supostamente destitui-se a legitimidade de qualquer ação coletiva e desvaloriza-se qualquer engajamento individual. O desocupado é suspeito até que se prove o contrário.

"O desagradável não fazer nada" é a sina de nossos tempos. Uma de suas faces mostra-se no que podemos chamar de "síndrome de domingo à noite": momento de despedida do ócio, de cálculo dos afazeres e dívidas ocupacionais. Note-se o contraste com o afã da sexta-feira, em que a perspecctiva do "nada a fazer", o prazer virtual do tempo livre, é talvez mais importante que o usufruto de fato das horas vagas, gastas, aliás, em filas e congestionamentos próprios aos aparatos de diversão regulamentada.

Esse precioso capital de inutilidade obedece a estranhos desígnios: quando se tem o tempo livre é preciso desfazer-se dele urgentemente, na realização de algum projeto suspenso; na sua falta é preciso sonhar com ele, planejá-lo, administrá-lo em sua virtualidade; quando se é inesperadamente forçado a tê-lo, como no desemprego, na velhice ou na doença, é o pior dos males que nos toca.

  • Cotidiano circular

    Certa vez, ouvi de um professor o seguinte argumento: todos sabemos que o desemprego é uma perspectiva inevitável; estrutural nas contingências de nossa economia, logo, a única coisa que provavelmente sobrará nos próximos anos é o tempo. O grande problema será, então, o que fazer com esse tempo. Se tempo é dinheiro, que dinheiro é esse que desaparece quando não circula?

    A estrutura temporal do cotidiano é circular; semelhante à dos mitos: início, apogeu e fim, que por sua vez se liga a um novo início. Um ciclo como o das estações do ano e das antigas cosmologias. Isso vale para o dia, para a semana, para o mês. A percepção dessa circularidade se chooca com a estrutura não circular da existência: nascimento e morte, irreversíveis. Passado, presente e futuro em sucessão linear e não cíclica.

    Quando o futuro se sobrepõe ao passado e eterniza o presente, eis aí o cotidiano. Sem risco, sem compromisso, sem hesitação, o cotidiano é indissociável da idéia de repetição. Isso não parece depender do tipo de atividade exercida - mais agitada ou tranqüila, por exemplo - basta que a sobreposição temporal se realize para que o sujeito se apague.

    De modo inverso, é na ruptura da circularidade do tempo que o sujeito se transforma ao instituir um antes e um depois que não podem mais ser trocados ou sobrepostos. Isso significa que a proporção trabalho/prazer ou a estimativa útil/inútil se rompe nesse modo do tempo extracotidiano. São momentos individualizantes; fazem história, gestam projetos, realizam circunstâncias presentes mas aaagadas pela repetição.

    O modo temporal mais apropriado para entender isso que se opõe ao cotidiano foi isolado por Freud em relação ao fantasiar e co-extensivamente ao brincar. Segundo Freud, a fantasia depende de um movimento tríplice: uma impresssão atual é forte o suficiente para despertar recordações de experiências passadas e, a partir disso, criar uma situação referida ao futuro que se afigura como realização desse desejo. Asssim, o "agradável nada a fazer" pode ser considerado condição para o deixar-se impressionar. Aqueles que não sobrevivem ao "não ter nada para fazer" são também os que não brincam, não fantasiam, nem tiram férias.

    Um dos artigos mais importantes de Freud chama-se justamente Psicopatologia da Vida Cotidiana. Nele, uma série de acontecimentos, aparenntemente sem sentido, triviais mesmo, como os pequenos esquecimentos, escolhas irrefletidas do dia-a-dia e troca de palavras durante conversas casuais, são analisados como formações do inconsciente. Formações cuja principal caraccterística é que não as levamos a sério, esquecidas na falação cotidiana.

  • Filme de terror e poupança

    Outra característica desses acontecimentos é que eles não s&a atilde;o antecipáveis, isto é, não se pode saber quando acontecerá um vacilo da fala ou um engano. Também seu sentido não pode ser calculado de antemão. Conclusão: a psicopatologia da vida cotidiana desorganiza o cotidiano ao romper seu ciclo temporal constitutivo e apresentar um modo diferennte de inserção no tempo.

    Supostamente, o momento culminante em que o cotidiano é rompido são as férias. Ápice do consumo reprimido, decidir o que fazer nas férias tornou-se tarefa para especialistas: agências de turismo, roteiros, preparação da preparação para a surpresa. Surpresa administrada, gerenciada, tal como pânico em filme de terror.

    A psicopatologia das férias certamente deve reservar um capítulo à estranha inquietude que assombra a terceira semana de ócio, uma espécie de "síndrome de domingo" ampliada, mistura de saudades do cotidiano, desespero diante do que fazer e iminência ansiosa da retomada. É preciso reter o tempo: fotos, impressões, preciosas lembranças, ter o que apresentar ao final da gloriosa jornada. É preciso olhar para si mesmo com a sensação de dever cumprido, com a imagem acabada de uma boa aplicação da poupança de tempo-prazer. Mas, se tudo se pré-realiza antes do acontecimento e se pós-avalia depois do acontecido, o que haveria afinal para acontecer? Se todos os prazeres estão em seus lugares e se todos os lugares estão em seus prazeres, qual a diferença essencial disso para o próprio cotidiano?

    Lembro-me de certa vez contar uma viagem, para amigos. À medida que repetia a história para diferentes grupos, percebi que, de todo acontecido, um episódio costumava despertar sistematicamente maior atenção. Estávamos num enorme complexo de acesso rodoviário tentando achar a saída para o destino pretendido (e planejado), o mapa aberto meio sem jeito, estava meio escuro e as placas eram em alemão. De repente, o mapa voa pela janela do carrro ... E pode-se imaginar o resto.

    O interesse reside no fato de que esstar assim perdido não era parte dos planos mas transformou-se em lembrança transmissível, ao contrário de diversas belezas naturais e culturais sobre as quais se poderia dizer apenas coisas como: gostei, não gostei, ótimo, impressionante etc. Não que fossem experiências qualitativamente inferiores, ao contrário, são comumente experiências com forte apelo estético, cujo principal atributo é a dificuldade de transmissão e compartilhamento.

    A elaboração coletiva de acontecimentos disruptivos, como os que localizamos nas férias, é um dos aspecctos mais comprometidos pelo cálculo de satisfações próprio do cotidiano. Ao hiperplanejar as férias, nota-se uma corrupção da sua diferença esssencial com o cotidiano, o que explica a relativa decepção que acompanha muitos finais de férias.

    Filmes como O turista acidental, Meu tio Bob, Férias frustradas e Esqueceram de mim exploram o lado cômico dessa antecipação do aconteecer e da dificuldade subjetiva expresssa pela sintomatologia das férias. O trabalho invade as férias, os preparativos que se transformam nas próprias férias, a viagem sem transformação subjetiva, o esquecimento do mais importannte. As férias transformam-se, assim, na própria eternização do cotidiano.

    Sobre o autor

    Christian Ingo Lenz Dunker é psicanalista

    • Leitura Dinâmica e Memorização

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