Síndrome do pânico: a vida por um fio


Síndrome do pânico. A sensação de ter a vida por um fio.

Revista Scientific American - por Luciana Oliveira dos Santos*

Você já sofreu uma crise de pânico ou conhece alguém que tenha passado por isso? Provavelmente sim. O assunto está na ordem do dia. Essa forma inquietante e extremada de medo tem se tornado recorrente, sobretudo em moradores das metrópoles ocidentais. Tal descrição do pânico, desde 1980 reconhecido pela psiquiatria como transtorno, está em consonância com um fenômeno em pauta na atualidade: comportamentos, afetos e sofrimentos antes explicados com base na pluralidade de abordagens vêm sofrendo deslocamentos de sentidos. Isto é, se antes havia diferentes explicações psicológicas, pedagógicas ou provenientes de uma moral leiga sobre os sintomas que assolavam o indivíduo­, tais interpretações parecem ter sido substituídas pela redução à  dimensão biológica.

"Num final de tarde, poucos anos atrás, eu mergulhei na escuridão. Estava nos estúdios da emissora onde trabalho quando percebi a realidade se afastando de mim. Nada acontecia de especial naquele dia, nenhuma chateação além das habituais... Só que no momento de partir , eu não conseguia fazer os movimentos corriqueiros...colocar minhas roupas pessoais, pegar o carro e sair dali. (...) Fui mergulhando cada vez mais fundo nos abismos turbulentos de um universo que me engolfava rápida e violentamente. Em um soberan esfoço, me veio o número de uma amiga:" Estou caindo da vis, vem me salvar".(...) O que passou, compreendi depois, foi algo bastante comum que chamam de ataque de ansiedade. ou de pânico e foi um dos maiores medos da minha vida. (...) Jurei naquela noite que jamais me permitiria outro momento semelhante, e até hoje, benzadeus, não descumpri o combinado."

Maitê Proença, em Entre ossos e a escrita (Ediouro, 2004)

Conceitos-chave

- O fenômeno do pânico é visto por vários autores, em especial psicanalistas, com base não apenas no fenômeno em si, mas inserido na matriz social que o engendra e possibilita seu surgimento. Isso significa que ao discutir o assunto é preciso considerar configurações subjetivas da cultura contemporânea. As transformações sociais (e os sintomas decorrentes delas) revelam-se individualmente, mas fazem parte de um contexto. Profissionais observam uma mudança clínica no perfil dos analisandos: além do aumento dos casos de transtorno de pânico, têm surgido com mais frequência os quadros de toxicomania, anorexia, bulimia e outras condições psicopatológicas.

- A crise pode se manifestar sem que seja precedida de nenhum sinal, e atingir pessoas que, até aquele momento, se consideravam perfeitamente saudáveis. A forma como o indivíduo reage à situação pode transformar uma manifestação isolada em transtorno. Muitos pessoas sofrem um único ataque durante a vida; as situações em que a crise se repete, porém, podem desencadear uma espiral de ansiedade, potencializando sensações e comportamentos que agravam a situação, por exemplo, com que ela não ande mais de carro ou evite locais abertos ou lotados.

O transtorno de pânico perma­nece entre as questões mais preocu­pantes no que diz respeito à saúde mental e coletiva. Segundo dados fornecidos pelo psiquiatra Valentim Gentil Filho, diretor do Instituto de Psiquiatria do Hospital das Clínicas da Universidade de São Paulo (USP), 20% das consultas de saúde mental nos Estados Unidos se referem a esses ataques. No Brasil, o autor estima que 4% da população brasileira sofra do distúrbio. Quanto à prevalência do pânico no contexto de serviços primários de saúde pública, 1,4% dos pacientes atendidos foram diagnos­ticados com o transtorno, segundo critérios de classificação psiquiátrica do Manual de Diagnóstico e Estatís­tica dos Transtornos Mentais (DSM).

Estudos como esses revelam que no que concerne à epidemiologia, o pânico é bastante frequente. O mais preocupante é que o diagnóstico leva ao declínio do rendimento em atividades sociais e profissionais e, em muitos casos, desencadeia dependên­cia econômica do paciente. Estudos apontam que aproximadamente metade das pessoas não trabalhava no momento do diagnóstico e cerca de 40% estavam inaptas para exercer a atividade profissional por períodos que variavam de um mês a 25 anos. 

• Cada vez mais denominações

A característica sintomática principal para diferenciar a síndrome do pânico de outras é a ansiedade. O termo "pânico" foi escolhido em virtude do caráter súbito e inexplicável dos ataques. Até o lançamento do DSM III, na década de 80, o emprego da palavra em psicopato­logia era incomum e não sistemático. Depois da publi­cação, configurou-se como diagnóstico específico em psiquiatria. Na quarta versão do DSM foram incluídas entre os transtornos de ansiedade não só as descrições do ataque de pânico, mas também do transtorno de pânico e da agorafobia. Além desses, mencionam-se transtorno de pânico sem agorafobia, transtorno de pânico com agorafobia, agorafobia sem histórico de transtorno de pânico, fobia específica, fobia social, transtorno obssessivo-compulsivo, transtorno de stress pós-traumático, transtorno de stress agudo, transtorno de ansiedade generalizada, transtorno de ansiedade induzida por substância e transtorno de ansiedade sem outra especificação. Em relação ao DSM III, o número de classificações de transtornos de ansiedade aumentou, o que demonstra a tendência de esmiuçar cada vez mais a f fenomenologia clínica desses tipos de distúrbio, especificando-os de forma cada vez mais estreita.

• Matrizes sociais 

Ao realizar um levantamento bi­bliográfico das pesquisas sobre os transtornos de pânico, é possível constatar que tais estudos advêm, em sua maioria, do saber médico. Pensando na saúde coletiva, porém, a classificação psiquiátrica do transtor­ no não abrange sua complexidade. Considerando que diferentes olhares engendrem variadas maneiras de lidar com o problema, não podemos descrevê-lo de forma universal. Se adotarmos um discurso único, ad­mitindo a existência de uma doença orgânica, corremos o risco de recair no reducionismo.

Dessa maneira, descrevemos o pânico com base não apenas no fenô­meno em si, mas inserido na matriz social que possibilita seu surgimento, o que significa colocar em discussão formas de configurações subjetivas da sociedade contemporânea. Assim, o transtorno se inscreve entre os modelos patológicos subjetivos que surgem vinculados às formas identi­tárias ligadas a ideais que modulam a maneira de ser e de viver dos sujeitos contemporâneos. O psicanalista Juran­dir Freire Costa refere-se, por exemplo, a uma mudança clínica no perfil dos analisandos nos consultórios psica­nalíticos: além do aumento dos casos de transtorno de pânico, têm surgido
com mais frequência os quadros de toxicomania, anorexia, bulimia e outras condições psicopatológicas.

Há várias hipóteses que tentam explicar as causas dessa mudança. Como indagação inicial, vale a ques­tão: as formas de sofrimento psíquicas contemporâneas, como o pânico, sempre existiram? Alguns autores afirmam que sim. A especialista Jerilyn Ross, presidente da Anxiety Disorders Association of America, por exemplo, afirma que apenas o conhecimento sobre as patologias é recente, em decorrência de avanços científicos sobre predisposição genética, fatores emocionais e ambientais.

Nossa hipótese, entretanto, vai em direção contrária. Acreditamos que tais formas de sofrimento psíquico, e especificamente o transtorno do pânico, são construídas em deter­minado contexto sócio-histórico. O psicanalista e etnólogo húngaro Ceorges Devereux afirma que as sociedades fornecem matrizes de normalidade e desvio. O transtorno do pânico emerge como uma das for­mas desviantes de padrões de conduta prescritos e modulados pela cultura. Ou seja, existem parâmetros coletivos para considerar um fenômeno como saudável ou não.

Assim, temos em nossa sociedade mal-estares compatíveis com a forma como os sujeitos se organizam subje­tivamente, bem como a plasticidade dos sofrimentos psíquicos que acometem as pessoas na contemporaneida­de. Para discutir o assunto, portanto, é preciso considerar aspectos da esfera médica e da biológica, bem como questões ligadas à construção da subjetividade e da identidade. O psicanalista inglês Donald Winnicott não estudou o pânico propriamente dito. Porém, sua for­ma de conceber o amadurecimento psíquico pode ser muito útil para a compreensão dos transtornos de pânico. Ao abordar as defesas que remetem às angústias mais primitivas do desenvolvimento infantil, ressaltou o valor da confiança como caracte­rística central do cuidado materno suficientemente bom. Ele salienta a importância da previsibilidade do ambiente na experiência de continui­dade. Uma mãe de humor instável, por exemplo, fará com que o bebê nunca saiba o que esperar dela, o que provoca grande desconforto psíquico na criança. Para o autor, o trauma se constitui quando o ambiente falha, o que pode remeter às chamadas angústias impensáveis. Com base nesta compreensão teórica, o pânico é descrito por estudiosos de Winnicott, como a psicanalista EIsa Dias, como um colapso, um breakdow, que impede que o sujeito se desintegre: trata-se, segundo esse olhar, de uma defesa contra a ameaça de aniquilamento. Contra a memória da angústia impen­sável, a pessoa vivenciaria durante a crise de pânico a sensação de morte psíquica que experienciou na infân­cia, quando não tinha ainda o ego suficientemente estruturado para lidar com a situação.

Nesse sentido, o pânico parece remeter às angústias mais primitivas do desenvolvimento infantil. Está mais em jogo a questão da segurança e da confiança do que a hipótese que privilegiaria uma causalidade sexual na etiologia do transtorno. Pode-se valer dessa visão winnicottiana para pensar a sociedade atual.

• Pela Cultura

O sociólogo polonês Zygmunt Bauman afirma que as certezas da modernidade sólida se foram, e, com isso, a utopia do controle sobre os diferentes níveis de nosso mundo - social, econômico e natural - desmoronou. Ele acredita que houve no cenário atual uma inversão de forças entre o desejo de liberdade e a necessidade de segurança. O homem moderno abriu mão de "um quinhão de suas possibilidades de felicidade" em prol da segurança. Derivou daí a noção freudiana de mal-estar na cultura. Esse fenômeno provinha de uma insatisfação em razão da renúncia ao livre curso das necessidades instintivas em prol da cultura, das instituições e das normas.

Na atualidade surgem outras fontes de inquietação. Se a sociedade antiga era mais rígida, em muitos aspectos a atual é, por vezes, desnorteante em sua fragmentação e aceleração do ritmo das mudanças; se aquela opunha ao avanço do indivíduo obstáculos sedi­mentados na tradição, a de hoje já não oferece valores nem rumos claramente identificáveis. Segundo o psicanalista Rossano Lima, "o mal-estar continua presente, mas hoje resulta da troca do opressivo compromisso com a segu­rança pelo volúvel e incerto fluxo da liberdade individual".

Alguns autores estudam esse conflito nomeando suas bases, ou seja, a noção de risco. Trata-se da sociedade pós-dis­ciplinar, em que prescrições e regras de vida oriundas da medicina não apenas estão atreladas ao bem-estar psíquico, mas parecem ser de fato responsáveis pela felicidade. A encarnação dos ideais e das prescrições médicas não oferece mais garantias, tendo em vista que a crise da instituição tem como modelo a famflia nuclear burguesa. Paralelamente, há o esvaziamento do Estado, cabendo então ao indivíduo a responsabilidade de gerenciar a própria vida, cuidar de si e de sua saúde, um processo que pode ser entendido como privatizaç&a nua presente, mas hoje resulta da troca do opressivo compromisso com a segu­rança pelo volúvel e incerto fluxo da liberdade individual".

Alguns autores estudam esse conflito nomeando suas bases, ou seja, a noção de risco. Trata-se da sociedade pós-dis­ciplinar, em que prescrições e regras de vida oriundas da medicina não apenas estão atreladas ao bem-estar psíquico, mas parecem ser de fato responsáveis pela felicidade. A encarnação dos ideais e das prescrições médicas não oferece mais garantias, tendo em vista que a crise da instituição tem como modelo a famflia nuclear burguesa. Paralelamente, há o esvaziamento do Estado, cabendo então ao indivíduo a responsabilidade de gerenciar a própria vida, cuidar de si e de sua saúde, um processo que pode ser entendido como privatização da saúde e da satisfação, ou seja, há todo um sistema de poder e dominação que se cria em tomo do risco. Esse fenômeno traz consigo a possibilidade de novos cenários sociais e subjetivos.

• Sexualidade e sintomas histéricos

Katharina (Aurélia Kronich) sen­tia a garganta apertada, como se sufocasse. Freud, que foi aborda­do por ela durante uma excursão às montanhas nos anos 1890, de imediato percebeu a angústia da moça, algo que, segundo ele, es­tava vinculado ao "horror de que mentes virginais são tomadas ao se defrontarem pela primeira vez com o mundo da sexualidade". Freud asseverou que seus sinto­mas estavam ligados a algo que ela viu ou ouviu, com o que ela prontamente concordou. A moça relatou fatos ocorridos dois anos antes, os quais relacionou, ajuda­ da por Freud, ao recentemente observado - um casal em ato sexual. "Seguiu-se, então, um curto período de elaboração, de "incubação", após o qual os sinto­mas de conversão se instalaram, com vômitos funcionando como um substituto para a repulsa moral e física". Katharina, que não chegou a se tornar paciente de Freud, "regurgitou" as lem­branças, relacionou-as e expul­sou-as, definindo os sintomas de angústia. (José Antonio Mariano, psicanalista e jornalista)

• Noção de risco

Retomando a análise de Bauman, se­gundo a qual o mal-estar atual se refere à escolha da liberdade em detrimento da segurança, podemos designar as consequências da chamada sociedade de risco - que para o autor se tornou um valor celebrado desde os primeiros passos do capitalismo moderno. Agora, porém, sua disseminação torna-se mais ampla e imperativa.

Essa característica da sociedade atual tem implicações diretas com a questão do pânico, da qual emerge o processo de ruptura das estratégias de segurança. Um argumento para legitimar a desconfiança é o crescimento do individualismo e a falência do social. Problemas como a crise da instituição familiar e a criminalidade, entre outros, são atribuídos à intensa sensação de in­dividualismo, que prevalece na maioria das comunidades.

O crescimento da individualização e o enfraquecimento da sociedade têm ajudado a criar a impressão de uma existência fragmentada, cuja principal demanda é a precaução. Essa crença tem propiciado a formação de uma nova moral idade, baseada na desconfiança e no constante exercício da cautela. O ambiente pós-moderno propi­ciou uma atmosfera que abalou as bases do sentimento de segurança, visto que as relações que mantinham as pessoas vinculadas perderam sua relevância. Ou seja, ao considerar quão importante é a confiança para o amadurecimento psíquico, pode-se entender que o cenário contemporâneo não seja sufi­cientemente bom e acolhedor. Há, no entanto, pessoas que não se enquadram exatamente nessa dimensão e, nesse caso, a sublimação seria o risco-aventura - e o seu avesso, o risco-pânico.

O discurso científico que embasa o novo sentido dado ao pânico rela­ciona-se amplamente às identificações com critérios somáticos. Para Rossano Lima, a genética é o campo em que se conjugam a identidade e a transmissão das características do ser humano.

Segundo essa ideia, no campo do sa­ber a verdade nada tem a ver com os valores, mas está contida nos genes, que são ao mesmo tempo matéria e aquilo que torna possíveis sua existên­cia e a perpetuação. Reforça-se assim a compreensão do homem pelos atributos genéticos: "Todo fenômeno humano passa a ser entendido como causado privilegiadamente pelo código genético, já que ele, a neuroquímica e a anatomia são percebidos como a razão de todas as doenças e comportamentos normais ou desviantes", escreve Rossano Lima.

Seguindo esse raciocínio, a nova genética representa a promessa de tor­nar-se, ao lado de outras biotecnolo­gias, uma rede autônoma de circulação de conceitos que inauguram uma nova autoprodução identitária, desembo­cando naquilo que o antropólogo Paul Rabinow denomina biossociabilidade. Irrompem assim novas práticas de
prevenção que, para o autor, são uma forma de mapeamento dos riscos. Ou seja, diferentemente de uma necessida­de de vigilância direta de indivíduos, a ciência teria estratégias para dar a medida da provável ocorrência de doenças ou anomalias, "projetando fatores de risco que aglutinam pes­soas sem nenhum outro vínculo ou afinidade. Desse modo, há o aparecimento de grupos de biossociabilidade organizados por critérios identitários biológicos, como uma determinada doença compartilhada".

Desse modo, as pessoas buscam realizar uma narrativa de si mesmas, tomando o corpo como âncora para suprir a crise de identidade, como exernplifica a fala de um paciente que sofreu de transtorno de pânico: "Paniquentos são pessoas muito cheias de manias, de neuroses ... Se têm qual­ quer dor de cabeça acham que é um AVC, se têm dor nas costas pensam que é pneumonia. Tem gente que diz que fica escaneando o corpo, procu­rando uma dor, prestando atenção, medindo a pulsação, os batimentos cardíacos, achando que sente ponta­ das na cabeça ( ... ) e já imagina que é doença grave".

A modalidade de identificação que, para os antigos, tinha um referencial divino, agora se inscreve no corpóreo, modificando a natureza da experiência emocional e psíquica. O medo já não é sacralizado, não tem relação com Deus, mas parece adquirir uma mo­dalidade "privatizada", com base nos discursos sobre riscos. Nesse con

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