Só bolsa família não resolve


Revista Veja - por Jadyr Pavão Júnior

O economista americano Ri­chard Murnane, professor de pós-graduação em educação da Universidade Harvard, é um dos grandes nomes da "educa­ção baseada em evidências", que formula suas recomendações a par­tir de pesquisas e resultados com­provados. Ele tem se dedicado a compreender as competências que o mercado de trabalho exige em tem­ pos de inovação tecnológica acele­rada. Segundo Mumane, mais do que passar ao aluno alguns conteú­dos básicos, a escola precisa ensiná-lo a aprender - pois essa será uma necessidade permanente em sua vi­da. Eis o desafio do Brasil. "Nos úl­timos quinze anos, a educação do país colheu os frutos que estavam ao alcance das mãos. Daqui em diante, avançar significa vencer di­ficuldades muito maiores", diz. "Um desses frutos foi a inclusão escolar ensejada pelo programa Bolsa Família. Mas esse tipo de mecanismo não proporciona aos estudantes conquistas mais eleva­das." Mumane será palestrante do seminário internacional Educacão Baseada em Evidências, que o ins­tituto Alfa e Beto realiza em São Paulo e Recife entre os dias 28 e 31. Na entrevista a seguir, ele aponta quais males o Brasil deve atacar e explica os limites de ações apresentadas como "mágicas".

Veja - O Brasil está entre as sete maiores econo­mias do mundo, mas nossos indicadores educacionais colocam o país nas últimas posições dos rankings internacionais. É possível crescer de forma sustentável com esse passivo?

Ri­chard Murnane - Pensando nos próximos cinquen­ta anos, o progresso econômico do país será cada vez mais dependente da sua capacidade de oferecer um ensino de qualidade às crianças. Nos últimos quin­ze anos, o Brasil obteve resultados ex­pressivos em educação. É o caso do au­mento da parcela de estudantes que con­cluem o ensino fundamental e o ciclo médio e também do desempenho do país em avaliações internacionais, que subiu. Contudo, outros desafios permanecem onde estavam. Nesses quinze anos, o Brasil colheu os frutos que estavam ao alcance da mão, ou seja, as políticas edu­cacionais propiciaram melhorias bási­cas. Daqui em diante, avançar significa vencer desafios diferentes, dificuldades muito maiores, como aprimorar o trabalho de professores. .

Veja - O senhor analisou os efeitos de programas similares ao Bolsa Família na vida escolar de crianças em outros países em desenvol­vimento, como México, Equador, Marrocos e Paquistão. Qual é sua conclusão?

Ri­chard Murnane - O Bolsa Família segue o modelo de pa­gamentos a famílias de baixa renda condicionados à permanência de seus filhos na escola. É uma ideia interessan­te. As evidências são claras: o mecanis­mo conduz à inclusão e permanência das crianças na escola, mas não a con­quistas mais elevadas por parte dos es­tudantes. A razão disso é conhecida: as escolas que essas crianças frequentam não são boas. O desafio, então, é apri­morar a escola e, assim, a educação.

Veja - Como aprimorar a educação?

Ri­chard Murnane - Há quatro passos. O primeiro passo foi dado no Brasil: levar as crianças para a sala de aula. O segundo é levar o professor re­gularmente à escola, evitar que ele falte e fazê-Io dar o melhor de si. O terceiro é melhorar a qualidade do ensino, o que significa investir no professor. O quarto é o passo mais difícil de atingir: estabe­lecer um modelo de escola em que os professores trabalhem juntos para acompanhar o desenvolvimento de cada criança e intervir rapidamente quan­do uma delas não adquire as competências fundamentais. Isso requer a garan­tia de que o trabalho de cada professor será observado por seus pares para a formação de uma fome pública de co­nhecimento. Isso significa enxergar a escola como uma organização social, na qual professores trabalham juntos para servir bem a todos o estudantes. Países que têm excelentes sistemas de ensino, como Finlândia e Singapura, fazem isso. Eles foram além do foco no professor e construíram o que chamo de comunidades de aprendizado.

Veja - Como isso acontece na prática?

Ri­chard Murnane - Pense em uma criança de uma família pobre cujos pais não receberam uma boa for­mação educacional e, por isso, não es­tão aptos a ajudar seu filho nas tarefas escolares. No 4° ano do ensino funda­mental, essa criança tem de aprender frações. Para ensinar essa matéria, seu professor desenvolveu uma estratégia mais ou menos bem-sucedida, e a crian­ça começa a aprender. No ano seguinte, porém, essa mesma criança retoma à
aula, mas tem um novo professor que apresenta uma estratégia diferente para tratar do mesmo conteúdo. Imagine quão confusa fica a criança, É por isso que nas escolas onde o ensino é real­mente efetivo os professores não traba­lham isoladamente: assim, docentes podem transmitir conhecimentos da mesma forma.

Veja - Oferecer inventivos a professores, incluin­do o financeiro, de fato funciona?

Ri­chard Murnane - Em al­guns países pobres. é difícil fazer com que o professor compareça diariamente à aula. Várias pesquisas mostram que incentivos podem exercer um papel importante para que docentes realizem atividades básicas, como comparecer diariamente à escola e trabalhar duro. Co ontudo, o passo seguinte, o terceiro, é mais difícil: elevar a qualidade da edu­cação. Apenas oferecer incentivos aos professores não é produtivo. Se você der às pessoas um incentivo para que elas façam algo que não sabem fazer, não atingirá os resultados esperados. Você precisa ajudar o professores a aprimorar seus conhecimentos a ponto de que eles aprendam a ensinar melhor.

Veja - Várias iniciativas têm sido apresentadas como solução para todos os problemas da educação. É o caso do aumento de verbas pa­ra o setor, do uso de tablets e da amplia­ção da jornada esco­lar. Qual o potencial e quais os limites de tais ações?

Ri­chard Murnane - Se você quer oferecer educação de mais qualidade às crianças, precisa de intervenções que efe­tivamente provoquem mudanças na expe­riência diária delas. Então, antes de adotar qualquer medi­da, você deve perguntar: essa política vai resultar em mudanças fundamen­tais na rotina dos estudantes? A ques­tão específica de colocar mais recursos no setor, o ponto-chave é: não se deve começar uma política educacional pe­lo dinheiro. Se você quer aprimorar o ensino, o que precisa fazer é conceber uma experiência de aprendizagem mais efetiva, desenhada para ajudar as crian­ças a desenvolver habilidades críticas. Então, você investiga o que é necessá­rio para fazer isso acontecer, como pôr esse projeto de pé, quanto isso vai custar. O dinheiro deve vir depois do processo, e não antes dele. Mas a polí­tica não funciona assim na maior parte do tempo.

Veja -  O senhor faz a mesma avaliação de outras ações apresentadas como balas de prata da educação?

Ri­chard Murnane - Sim. Vamos analisar outra ideia amplamente difundida: a redução das turmas, ou seja, classes com menos alunos. É uma ideia de que pais e profes­sores gostam. Bem, ela cria oportunida­des para mudar a experiência de apren­dizado, mas isso normalmente não ocor­re. Se o professor continua ensinando da forma como sempre fez - que tanto no Brasil quanto nos Estados Unidos signi­fica falar enquanto a turma escuta -, não importa se há 32 ou dezoito alunos na classe: a experiência não vai resultar em mais aprendizado. Já nas poucas e excepcionais escolas em que se reconhe­cem oportunidades nas turmas com me­nos alunos, cria-se espaço para um tipo
diferente de pedagogia. Então, as crian­ças podem, por exemplo, trabalhar jun­tas para solucionar problemas, escrever muito mais e receber feedback diário dos professores.

Veja -  Em um estudo recente sobre o mercado americano, o senhor afirma que no futuro os profissionais que quiserem as melhores oportunidades deverão se concentrar em três tipos de trabalho. Quais serão eles?

Ri­chard Murnane - Se você quer saber em que áreas haverá emprego no futuro, precisa perguntar que tipos de tarefa dificilmente podem ser realizados por computador. O pri­meiro é resolver novos problemas. Os computadores têm de ser ensinados a realizar tarefas novas. O segundo é in­terpretar informações. Muitos proble­mas só podem ser resolvidos quando você reúne pessoas de várias áreas. Isso exige interação, comunicação, reflexão e tornada de decisão. E algo que pessoas que tiveram uma boa formação podem fazer melhor do que computadores. A terceira área refratária à substituição do homem pela máquina é uma parcela do setor de serviços que inclui, por exem­plo, cuidados com crianças e idosos, preparação de alimentos e atendimento ao público. Há uma diferença: as duas primeiras exigem mais competências e, por isso, pagam salários mais altos. A terceira, embora proporcione muitas
oportunidades em países em que a eco­nomia se expande, oferece remuneração mais modesta.

Veja -  Como preparar as crianças para o futuro que o senhor prevê?

Ri­chard Murnane - As habilidades tradi­cionais continuarão sendo relevantes, especialmente ler e escrever muito bem e dominar operações matemáticas. A diferença é que competências como ler e escrever bem e fazer cálculos correta­mente assumem agora um sentido dife­rente. Quando muitos empregos exi­giam apenas que seguíssemos instru­ções, tudo o que precisávamos fazer era seguir as regras. Hoje, o desafio é ler bem o bastante para continuar a apren­der de forma eficiente. Na velocidade em que a tecnologia avança, pouquíssi­mas pessoas terão urna vida segura fa­zendo pelos próximos trinta anos a ati­vidade que realizam hoje. Daí a impor­tância de aprender a aprender. Pense­mos num problema corriqueiro atual. Quando você usa a internet para fazer uma busca, parte do desafio é estar apto a discernir o pequeno grupo de respos­tas que de fato é útil para solucionar o problema que você tem. Portanto, o sen­tido do que é ser uma pessoa letrada mudou. O mesmo serve para a matemá­tica. Realizar cálculos não é mais um problema. A maneira como você formu­la o novo problema, como o expressa matematicamente, é o que importa.

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