Sobre a felicidade


No fim de ano muitos fazem balanço da vida, mas quem está realmente satisfeito não se preocupa com isso.

Revista Scienteific American - por Christian Ingo Lenz Dunker

Não questiono a natureza da felicidade ou o modo pelo qual nos sentimos relativamente felizes. Minha questão é por que e quando perguntar por ela se torna irnportante ou necessário. Clinicamente a insistência nesse ponto é sintomática. Geralmente levanta a suspeita em torno de uma existência desinteressante, pobre ou demasiado simplificada. Aquela dúvida típica que nos ronda em fins de ano, aniversários e datas comemorativas. Quem é realmente feliz não faz balanço de vida, nem anuncia o resultado no Facebook, mas prossegue em sua vivência suficiente e soberba. Jamais encontrei uma criança que se colocasse seriamente este problema, não porque creio no mito da infância feliz. Pelo contrário, parece-me esta uma época repleta de tormentas e agruras, sem falarem desamparo ou falta de autonomia. Adolescentes, ao contrário, são perguntadores renitentes, obstinados contabilistas da consistência, duração ou limite da felicidade. Críticos dos modelos em vigência, não aprendemos nesta idade nem a sermos felizes, nem a sermos particularmente infelizes, mas a perguntamos pela felicidade - às vezes fazemos poesia, às vezes a desafiamos ou a odiamos. Sucesso, saúde, riqueza ou segurança, paz ou aventura, liberdade ou justiça, amor, amizade ou prazer não são a felicidade. Felici­dade é felicidade e ponto. Não adianta trocá-Ia por outra coisa qualquer, seja isso a mistura de elementos em correta proporção ou a sucessão de eventos precários em singular combinatória. É parâmetro insubstituível pelo qual medimos todo o resto.

É preciso estar bem insatisfeito para se perguntar seria­mente pela felicidade. Na Antiguidade isso era tarefa para os melancólicos. Mas em algum momento da modernidade ser capaz de perguntar sobre o tema tornou-se um fator políti­co. Formou-se então uma espécie de "governo invisível" de nossa vida, do qual esperamos (porque ele começou a nos prometer) a felicidade. Passamos, desde então, a esperar que alguém se encarregue de forma profissional, regrada e sistemática por zelar por nossa felicidade. Curiosamente foi ai também que nasceu a indústria da insatisfação. Em algum momento entre o século XVI e o século XVIII, no Ocidente próspero, começamos a acreditar que o Estado precisa de nós, que somos, no fundo, o que falta a este Outro institucionalizado, para que ele se complete e, sendo ele feliz, nos faça felizes. Daí que a aptidão para se perguntar pela felicidade seja uma atividade política, pois envolve a interpretação simultânea da felicidade alheia e do lugar que ocupamos para o Outro.

Jean-Léon Beauvois conduziu uma série de pesquisas sobre a servidão liberal, o fundo ético do questionamento da felicidade. Ele nos ajuda a entender por que perguntar pela felicidade atrapalha o exercício de nossas próprias escolhas e, portanto, assumir o prazer que elas nos facultam. Tipicamente temos dois grupos diante de uma tarefa qualquer. Para o pri­meiro dizemos que lhe será exigido fazer algo que contraria sua moral, seus valores ou será bastante desagradável (como nas provas de reality shows). Ao segundo grupo nada é dito. Para o primeiro grupo, menciona-se uma cláusula de que a qualquer momento existe a liberdade de sair da situação, sem ônus. Espera-se que o grupo "esclarecido" tenha maior propensão a agir de acordo com o seu princípio de felicidade. Mas não é o que acontece. As pessoas continuam tomando parte no experimen­to, assim como prosseguem na vida, racionalizando e evitando alterar seus roteiros de ação. Isso acontece de três maneiras: (1) porque é isso que o outro espera de mim; (2) porque existe uma lei maior que me obriga a isso; (3) porque mesmo que ainda não saiba, vou acabar descobrindo que era isso mesmo que eu queria, ou seja, era feliz e não sabia. Moral da história: vale a pena parar para perguntar-se pela felicidade, desde que saibamos que não estamos realmente querendo encontrar respostas.

Christian Ingo Lenz Dunker - Psicanalista, professor livre-docente do Instituto de Psicologia da Universidade de São Paulo (USP).

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