Sobre martelos e cérebros


O imageamento revolucionou as neurociências por permitir investigar neurônios vivos; resta saber até que ponto poderá explicar o funcionamento da mente.

Revista Scientific American - por Fernando Mazzilli Louzada

Ainda que tenha deixado importantes contribuições à psicologia e à psiquiatra, o médico alemão Franz Joseph Gall (1758-1828) é mais conhecido por uma doutrina extravagante e já totalmente superada: a frenologia. Com base na palpação do crânio de pacientes psiquiátricos, artistas e criminosos, Gall propôs que as funções mentais eram mediadas por órgãos ou centros cerebrais distintos. Assim ele concluiu, por exemplo, que a memória verbal estaria localizada no lobo frontal do cérebro, já que pessoas com olhos proeminentes demonstravam grande capacidade recordatória.

A frenologia já havia entrado em descrédito na segunda metade do século XIX, mas sua idéia central - a possibilidade de localização das funções cerebrais - ganhou força de lá para cá. Os neurocientistas passaram a ver o cérebro como um grande quebra-cabeça em que cada peça corresponde a uma função: leitura aqui, reconhecimento facial ali, memória de curta duração acolá, por exemplo. Nas últimas décadas, com o advento das técnicas de imageamento funcional, não é mais preciso esperar pela autópsia do cérebro do paciente para saber qual o local da lesão. Atualmente somos inundados por imagens e seus correlatos funcionais ou clínicos, mas à medida que se acumulam estudos nessa área, informações conflitantes também começam a aparecer.

  • Cartografia cerebralA nova geração de cartógrafos do cérebro percebeu que a paisagem era consideravelmente mais complexa do que o simples mapeamento pareado entre anatomia e fisiologia, dando origem a um caloroso debate entre críticos e defensores das técnicas de neuroimagem. Para alguns pesquisadores, o neuroimageamento funcional é o melhor caminho para a compreensão das funções cerebrais. Outros afirmam se tratar de uma nova "frenologia" que não permite nem mesmo entender o que está sendo medido.

    O método mais usado, a ressonância magnética funcional (RMf), baseia-se na detecção de alterações no fluxo sangüíneo cerebral associadas a mudanças na atividade neural da região estudada. Foi um grande avanço em relação a outras técnicas, como a tomografia, que exige o uso de radiação ionizante, potencialmente danosa às células. Segundo seus críticos, entretanto, a RMf fornece nada além de imagens bonitas e coloridas do cérebro. Para os defensores, tais críticas seriam válidas se a técnica oferecesse apenas informações a respeito de "onde" se dá a atividade neural. Segundo eles, o neuroimageamento tem o objetivo de responder também "o que" ela significa e "por que" ocorre. A neuroimagem, portanto, não serviria apenas para mapear, mas também para analisar o cérebro, com base em alguns paradigmas que permitem dissecar a atividade neural por meio do correlato comportamental. Entretanto, para que tudo isso seja feito, as resoluções temporais e espaciais dos equipamentos teriam de ser muito melhores do que são hoje.

    Não podemos negar, porém, que a localização foi um primeiro passo em direção à compreensão das funções cerebrais. No entanto, as metodologias para defini-las são limitadas e podem levar a uma visão mecanicista, segundo a qual seria possível posicioonar diretamente processos mentais em áreas circunscritas do cérebro. O neurologista Kenneth Kosik, professor da Universidade Harvard, fez uma interessante analogia para explicar essa limitação. Segundo ele, um marceneiro cuja única ferramenta é o martelo usa todos os objetos como se fossem pregos. Da mesma forma, neurocientistas, geneticistas e psicólogos exploram o cérebro, cada qual com seu martelo, construindo uma imagem não integrada do órgão.

  • A parte e o todoO biólogo alemão Emst Mayr (1904-2005), um dos maiores evolucionistas do século XX, também usava o martelo para falar das propriedades da matéria viva. Segundo ele, por mais que estudemos suas duas partes separadamente - o cabo e a cabeça -, jamais poderemos inferir sua função essencial, que emerge apenas quando estão juntas. Analisamos detalhadamente cabos e cabeças de cada vez, mas raramente conseguimos juntá-los. Na maioria das vezes, as descrições funcionais de genes, de neurônios e de regiões cerebrais falham ao tentar capturar sua natureza interativa, ainda que exista uma enorme tentação de ir além do que uma unidade biológica faz. Um gene mutante não causa uma doença, por exemplo; ele simplesmente codifica uma proteína alterada que deflagra uma cascata de eventos que leva à doença.

    As funções cerebrais são multidimensionais e podem ser abordadas de diferentes maneiras. Além do imageamento cerebral, outras abordagens têm fornecido informações importantes sobre o funcionamento do sistema nervoso, como o registro da atividade elétrica. O estudo da dinâmica dos neurotransmissores, por sua vez, permite o mapeamento de sua distribuição. Entretanto, antes que sejam tiradas conclusões sobre as funções cerebrais com base em um único aspecto desses diferentes recortes, é necessário primeiro conhecer a relação exata entre eles. Além disso, precisamos conseguir extrapolar o que sabemos em um nível de organização para outro.

    A imagem funcional mostra um sinal metabólico associado à atividade - que pode ser excitatória ou inibitória - de um grande número de células. A informação que esse sinal cerebral origina, no entanto, é limitado. A comparação de diversos s estudos na área de linguagem, por exemplo, mostra resultados consistentes no que diz respeito à participação de regiões do hemisfério esquerdo próximas à fissura lateral (que separa os lobos parietal do temporal); por outro lado, há grande discordância sobre quais áreas específicas estão relacionadas às tarefas investigadas. Discrepâncias semelhantes ocorrem em estudos de outras funções cognitivas. Apesar de ser possível correlacionar uma imagem cerebral a uma tarefa específica, associar regiões ativadas com uma função inferida com base nesta tarefa ainda é um salto muito arriscado.

    Segundo Kosik, o que os frenologistas fizeram de maneira marcante, porém ingênua, foi afirmar que haviam localizado estados mentais. Já os localizacionistas identificaram regiões cerebrais associadas a comportamentos. Com o advento da neuroimagem funcional algumas afirmações foram simplesmente reposicionadas dos mapas superficiais estampados nos crânios de Gall para o interior do cérebro. O tempo dirá, talvez em duas ou três décadas, se as imagens cerebrais possibilitarão um olhar além da frenologia.

    Fernando Mazzilli Louzada é doutor em neurociências e comportamento pela Universidade de São Paulo, professor da Universidade Federal do Paraná e co-autor de O sono na sala de aula - Tempo escolar e tempo biológico (Vieira&Lent 2007).

    • Leitura Dinâmica e Memorização

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