Solidão afeta equipes de trabalho


Conversas ruidosas e pausas para o café motivam profissionais e não devem irritar gestores.

Jornal Folha de São Paulo - por Luiz Roberto Gonçalves 

É solitário estar no topo, pelo menos é o que dizem. Na verdade, não importa onde uma pessoa está na hierar­quia: funcionários de todos os níveis se sentem solitários, mesmo quando há muitos trabalhadores ao redor.

Pesquisas sobre solidão ge­ralmente concentram-se na vida privada e em grupos que podem ter alguma tendência, como os idosos. Alguns pesquisadores, no entanto, fizeram estudos so­bre esse sentimento no local de trabalho e descobriram que "ele afeta não somente os indi­víduos mas também as orga­nizações como um todo. A solidão é uma percepção de isolamento ou estranhamento em relação aos outros, diz Sigal G. Barsade, profes­sora de administração na Es­cola Wharton da Universidade da Pensilvânia. Ela surge da "necessidade humana de fazer parte de algo".

Solidão não é a mesma coi­sa que estar só - condição que pode ser positiva e bem­-vinda. Também não é sinôni­mo de depressão, embora as duas possam estar correlacio­nadas, diz Sarah Wright, pa­lestrante sobre liderança or­ganizacional na Universida­de de Canterbury em Chris­tchurch, na Nova Zelândia. Com a solidão, há uma ne­cessidade de livrar -se da tris­teza, "integrando-se em no­vos relacionamentos", expli­ca. "Com a depressão, há um impulso de entregar-se a ela."

• Contagiosa

Como faz parte da condi­ção humana, a solidão mui­tas vezes é considerada pro­blema pessoal. Mas adminis­tradores talvez devessem vê­-Ia também como uma ques­tão organizacional, segundo pesquisa da professora Bar­sade e de Hakan Ozcelik, pro­fessor de economia na Uni­versidade Estadual da Califórnia em Sacramento. Em um estudo recente com mais de 650 trabalhadores, os dois pesquisadores descobri­ram que a solidão - relatada tanto pelo sofredor como por seus colegas de trabalho - reduz a produtividade. Isso se mostrou verdadeiro para tare­fas individuais ou coletivas.

Basta olhar para o que ela pode fazer com uma pessoa e você verá por quê. "A solidão tende a distor­cer a cognição social e in­fluencia o comportamento in­terpessoal de um indivíduo, resultando em maior hostili­dade, negatividade, humor depressivo, ansiedade, falta de controle e menor coopera­ção", lista Wright. Barsade está investigando se a solidão também pode ser "contagiosa". Ela já havia ve­rificado que emoções como raiva e felicidade no local de trabalho são transmissíveis.

• Depois da demissão

O que fazer? Primeiro, per­ceba que "a solidão é uma emoção e devemos escutá-Ia", afirma Ozcelik. Os que tentam combatê-Ia devem lembrar que, "na ver­dade, [esse sentimento] tem a ver com a qualidade dos relacionamentos, e não com a quantidade", diz Barsade. Um único relacionamento próximo com um colega po­de fazer grande diferença.

A recente crise econômica pode ter sido um fator que fez aumentar o sentimento de so­lidão no local de trabalho, diz Nancy S. Molitor, coordena­dora de educação pública para a Associação Americana de Psicologia e psicóloga em uma clínica particular. Mesmo entre pessoas que mantiveram seus empregos, afirma ela, as demissões podem significar a perda de con­tato com alguém "que não era apenas um colega de traba­lho, mas um amigo".

Para combater o isolamen­to, os empregadores não pre­cisam necessariamente orga­nizar mais festas, diz Ozcelik. "Ser solitário no meio de uma multidão pode ser exaustivo", afirma. "Criar mais distrações não ajudará essas pessoas."

• Conversa e café

Auxiliar um colega ou vo­cê mesmo a sair da solidão pode envolver medidas simples, como tirar um tempo para conversar, pedir ajuda em um projeto ou fazer um con­vite para o almoço.

Talvez os gestores não de­vam se sentir tão irritados por uma pausa ruidosa para o ca­fé de vez em quando ou por uma conversa mais longa so­bre o jogo ou o programa de TV da noite passada. Esses tipos de encontro po­dem promover ligações que fazem as pessoas trabalhar com mais ânimo.

Mas, às vezes, a solidão po­de estar embutida no tecido de uma organização. Uma atmosfera de desconfiança, suspeita e medo pode fazer com que os funcionários sintam-se estranhos entre si, descreve Wright.

Mesmo sem esses elemen­tos, o modo como o trabalho é estruturado pode inibir ou reforçar a sensação de comu­nidade, diz Barsade. "Os gerentes precisam ser atenciosos para garantir que as equipes e seus componen­tes estejam envolvidos uns com os outros e ligados entre si", explica ela. "Sabemos que é um mecanismo por
meio do qual se realiza um bom trabalho."

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