Solidão, Impossível


Graças às novas tecnologias, ninguém mais precisa ficar sozinho - o problema é conseguir ficar sozinho. Saiba como chegamos à overdose de comunicação e por que é preciso aprender a ser só.

Revista Super Interessante por Emiliano Urbim.

No começo de março, milhares de paulistanos se eriçaram com a chegada da portabilidade numérica ao seu DDD, 11. Entre eles estavam as amigas Priscila Krieger e Cláudia Marinho, 16 e 17 anos, que dedicaram um sábado inteiro a lojas de celular atrás do melhor negócio. Priscila queria mudar de operadora “para ter um plano mais vantoso e um aparelho mais bonito”. Já Cláudia tinha um objetivo específico: “Eu preciso trocar esse lixo (mostra um modelo antigo) para poder ver e-mail no ônibus”. A jovem da periferia que estuda no centro acredita que suas duas horas diárias no busão seriam bem melhores se pudessem ser online. “Meu sonho é um iPhone!”, diz ela, ciente da distância do sonho, mas disposta a comprometer “o que for preciso” da mesada para bancar algum modelo de smartphone.

Certa ou errada, a intenção de Cláudia representa uma tendência: estar disponível 24 horas, antes coisa de loja de conveniência, virou sonho. Para alguns especialistas, essa busca vai nos fazer perder a capacidade de ficar sozinhos. Bem, o que não falta é onde perdê-la.

Segundo o Instituto Nielsen, 70% dos internautas brasileiros participam de comunidades virtuais como o Orkut — no Brasil, 1º lugar, são 8O%. Mas scraps e pedidos de “me add”, junto com bate-papo no MSN, são apenas o kit básico.

Há quem visite álbuns virtuais como Flickr e Picasa para acompanhar outras vidas foto a foto. Leitores de RSS fazem delivery de qualquer atualização feita num blog, e o StumbleUpon mostra cada link que alguém achou legal. E agora vem crescendo o Twitter, cujo limite de 140 caracteres por post, longe de ser um empecilho, parece que estimula a escrever mais. A ferramenta de microblogging ainda nem consta no top 100 da internet no Brasil, mas a facilidade para publicar e seguir outros twitteiros pelo celular deve mudar isso logo — Cláudia, a moça do shopping, ficou bem interessada.

O auge dessa overdose de comunicação parece ser a ferramenta Google Latitude. Com ela, o dono de um celular com GPS permite que seus contatos saibam onde ele está (mais especificamente, onde está seu telefone). Pra quê? Bom, a ideia é que você olhe no mapa quem está perto de você e convide para um chope, peça uma carona, persiga até em casa, sei lá. O fabricante garante: só dá suas coordenadas quem quer. E muitos querem.

Claro, talvez o perfil mais comum seja o de quem entra no Orkut só de vez em quando para conferir aniversariantes e solteiros. Mas há quem seja usuário simultâneo e frequente de todos os serviços citados acima, o que leva sociólogos e psicólogos a se preocupar. Na verdade, fugir da solidão é natural: estamos apenas seguindo os nossos instintos.

• “Eu quero ter um milhão de amigos” - Roberto Carlos

Sempre que o rei Roberto Carlos canta a frase acima, ele fala por todos nós. Grandes predadores como ursos e tigres se isolam das suas espécies para evitar competição por comida e território. Lobos e leões caçam em grupo, mas se separam em tempos de presas magras. Já para animais sociais, como pinguins e humanos, quanto mais companhia, melhor.

Há milhões de anos, nos agregávamos para obter calor, comida, proteção na infância e amparo na velhice. Mais adiante, buscávamos cultura, dinheiro, poder, diversão — só em grupo eles fazem sentido. “Normalmente, as pessoas não buscam passar períodos sozinhas, da mesma maneira que não buscam períodos de fome, sede ou dor", diz o psicólogo da Universidade de Chicago John Cacioppo, coautor, com o jornalista William Patrick, do livro Loneliness (“Solidão”, sem edição brasileira), que mostra os prejuízos da vida solitária. “Solidão é um sentimento aversivo que motiva você a fazer algo que é crucial para a sobrevivência e o bem- estar — conectar-se com os outros.”

Ao longo da história, os eremitas foram sempre exceções à regra — e admirados como tal. Profetas bíblicos, brâmanes hindus, monges budistas, santos católicos — entre seus diferenciais estão a capacidade de ficar em silêncio, longe de todos. Já o resto de nós sempre encarou o isolamento como um incômodo gradativamente solucionado pelo progresso. Momentos de introspecção obrigatória (caçadas, longos deslocamentos) caíram ao mínimo (trânsito, banho). Nas grandes cidades, a não ser que você esteja dentro de um túnel (e já tem metrô com sinal de celular), cada segundo pode ser preenchido com a presença virtual do outro. Visto dessa forma, o Twitter e o Google Latitude são só parte do capítulo mais recente de uma história que começou lá atrás, com sinais de fumaça. A questão é se essas são boas ou más notícias.

• Más companhias

Se buscar amigos virtuais é um instinto natural, qual o problema? Bem, se alimentar também é, e vivemos uma epidemia de obesidade, O fato é que alguns progressos nos obrigam a ir contra a nossa intuição. “Somos programados para buscar convivência, tanto faz se real ou virtual — a princípio, nosso cérebro considera as duas a mesma coisa. Mas, se a socialização online substitui o contato humano verdadeiro, solidão e depressão podem surgir”, diz o professo or Cacioppo.

Para ver se as novas ferramentas de comunicação estão realmente mudando nossos relacionamentos, a pesquisadora Rhonda McEween, da Universidade de Toronto, acompanhou de perto o destino de telefonemas, torpedos, e-mails e todo tipo de socialização online de alguns estudantes de 1° ano da faculdade. Ética pedagógica à parte, o que o estudo dos calouros mostrou foi que os alunos deixam de criar laços na faculdade porque vivem online com os ex-colegas do ensino médio. Driblando momentos isolados na biblioteca e no refeitório graças a seus iPhones e Blackberrys, os alunos da senhora McEween não sabem ficar sozinhos. “Alguns estudantes não tem o conceito de uma vida off-line”, diz ela no relato do experimento.

A evaporante “Capacidade de Estar Só” é justamente o nome de um artigo muito influente que o psicólogo Donald Winnicot escreveu nos anos 50. O americano considerava a habilidade de lidar com a solidão um índice fundamental de desenvolvimento emocional, algo que se começa a adquirir na primeira infância, quando o bebê descobre que ele é um e a mãe é outra. Para o sociólogo Danton Conley, da Universidade de Nova York, essa capacidade vem sendo desencorajada pouco a pouco. “Podemos estar formando uma geração incapaz de ficar sozinha, refletir, que não desenvolveu a introspecção. É cada vez mais difícil desplugar e ter só uma fonte de informação na cabeça”, diz o autor de Elsewhere, USA (“Noutro Lugar, EUA”, sem edição brasileira), que analisa como a comunicação online está mudando a sociedade americana. “As pessoas ficam ansiosas, com medo de ficar de fora de algum assunto, e por isso estão sempre checando seus e-mails. Mas esse hábito traz mais ansiedade.”

Já que lá atrás falamos em obesidade, vale mencionar que a convivência virtual já ganhou o nome de social snacking, ou “fazer lanchinhos sociais”. Lanche não é refeição, e isso explica parte do problema. Por outro lado, um jejum de comunicação, como qualquer dieta, é só uma questão de força de vontade.

• Somente só

Cláudia, do inicio do texto, acredita que os rumores sobre sua falta de solidão foram altamente exagerados. Informada da opinião dos especialistas sobre seus hábitos, ela discorda. “Imagina... E bom poder falar com todo mundo.” Pausa. “E nem é com todo mundo, é com quem eu quero. Pra mim, não é prisão, é diversão.”

As pesquisas de Cameron Marlow, o sociólogo-residente do Facebook, maior rede social do mundo, corroboram o que Cláudia diz. Ainda que cada membro tenha uma média de 120 amigos — um indício que reforça a tese de mais-gente- menos-amizade —, o número de pessoas com quem eles interagem assiduamente (ou seja, um relacionamento mais parecido com amizade) fica próximo de 4 para homens e 6 para mulheres. As pessoas podem estar adquirindo mais conhecidos (é de graça, não é?), mas continuam mantendo pequenos círculos de amizade.

E quanto ao argumento de que desaprendemos a ficar sozinhos? Para Vaughan Bell, psicólogo e colaborador do premiado blog de neurociência Mind Hacks (mindhacks.com), há uma grande confusão. “Isso se baseia na ideia de que, antes da era da comunicação digital, as pessoas passavam seu tempo focadas em uma mesma tarefa por horas e raramente eram interrompidas”, diz Bell. Atualmente professor visitante em uma universidade na Colômbia, ele constatou nos bairros pobres de Medeilhn que a vida low-tech é pródiga em distrações: vizinhos trabalhando, visitas inesperadas, vendedores ambulantes, crianças à solta. “Na verdade, a internet permite que você esteja no controle: basta apertar um botão para ter acesso a todo mundo e basta apertar de novo para ficar totalmente isolado.”

Se essa overdose de comunicação vai trazer a alienação dos pessimistas ou a revolução dos otimistas, ainda não dá para dizer. Mas ninguém nega que a solidão, renegada por nossos genes, é cada vez mais valorizada por nós. Provavelmente, porque está ficando escassa.

    Administração do Tempo

    Preencha aqui seus dados

© Copyright 2020 - Todos os direitos reservados à Methodus