Soltando as Amarras


Há diversas formas de aprendizado fora dos livros. Estimular o pensamento criativo nas crianças é muito mais simples e divertido do que se imagina.

Revista Scientific American - por Simone Welzien*

Qual a melhor forma de resolver um problema? Desde a pré-escola, a maioria das crianças aprende que para toda pergunta sempre existe mais de uma resposta. E que é preciso usar a lógica, avançar passo a passo, até alcançar o prêmio da solução. Em muitos casos essa tática funciona. Em outras situações, entretanto, os conceitos mais inovadores, as soluções mais criativas, os lampejos mais geniais surgem somente quando as pessoas abandonam os métodos conhecidos e as formas convencionais de pensar. Quando o projetista de carros aprende - pelo estudo das patas das rãs - como obter a melhor tração em pista molhada, ele descobre uma estratégia que a mera aplicação da lógica nunca lhe daria. Apesar de sabermos tudo isso, insistimos em não ensinar às crianças como resolver problemas de forma não-convencional.

É difícil aprender a pensar de um jeito menos bitolado quando já estamos adultos. Essa capacidade certamente nos foi atrofiada pela nossa educação e experiência profissional. Mas as crianças começam do zero, por isso professores e pais deveriam encarar o desafio de ajudá-las a descobrir os caminhos menos óbvios. Meninos e meninas que crescerem expostos a essa forma mais flexível de pensar terão acesso mais fácil aos conhecimentos, manterão sua criatividade e estarão mais aptos a dar os saltos intuitivos que conduzem às grandes idéias.

  • Mapas cognitivos

Durante o aprendizado, o cérebro processa informações armazenadas nos chamados mapas cognitivos. Essas associações entre neurônios são muito flexíveis, como já demonstrou há dez anos a psicóloga Marha Farah, da Universidade de Michigan, em Ann Arbor. Ela estudou como os trabalhadores dos correios do Canadá reconhecem algarismos e letras, os quais normalmente mobilizam diferentes regiões do córtex cerebral. Acontece que os códigos postais canadenses consistem em uma mistura desses símbolos, por exemplo, H3A 1Y2. É claro que os funcionários que, durante anos a fio, fizeram a triagem dessa correspondência processam letras e algarismos juntos em um mesmo mapa cognitivo.

A mesma plasticidade é usada pelo pensamento criativo. A informação aprendida sempre se associa a outra informação. Assim, uma estratégia é tirar as crianças da sala de aula e visitar, por exemplo, especialistas de diversas áreas. Uma vantagem adicional desse método é que ele torna o aprendizado mais divertido. Estudos demonstram que a compreensão melhora consideravelmente quando o processo envolve emoções positivas. Mais tarde as crianças vão se lembrar do que aprenderam porque o ambiente especial e/ou a pessoa interessante foram fixados na mente delas. Além disso, elas vão saber interagir de forma construtiva e reconhecer a alegria dos interlocutores ao compartilhar conhecimentos.

Uma oportunidade para os adultos influenciarem o pensamento criativo das crianças é aproveitar a curiosidade delas. Enquanto passeavam de carro, Rafael, 4 anos, perguntou à mãe, Ana: "Quem fica dentro do sinal de trânsito e o faz ficar vermelho?". Ela respondeu espontaneamente: "Não sei. Vamos olhar mais de perto". Então encostou o carro e fez o garoto abraçar o poste do semáforo, para que ele tivesse uma idéia do tamanho do objeto. "Não cabe ninguém aqui dentro", concluiu o garoto. "Como funciona, então?" Ana respondeu que eles tentariam descobrir quando voltassem para casa. Assim que chegaram, Ana pediu que ele pintasse uma faixa de pedestres como se fosse um pássaro vendo-a do alto. Enquanto isso procurou na internet dados sobre semáforos e mostrou ao menino algumas páginas sobre como esses equipamentos funcionam. No dia seguinte, ela telefonou para o departamento de trânsito da cidade, com o menino a seu lado. Queriam ver de perto como é feita a manutenção dos semáforos. Alguém especializado poderia acompanhá-los? A visita, alguns dias depois, foi curta, mas muito educativa.

Graças à iniciativa da mãe, Rafael aprendeu como é divertido descobrir coisas e que há adultos que gostam de compartilhar informações interessantes. Assim como o técnico de semáforos, há especialistas em toda parte: o mecânico que sabe tudo sobre motores ou o alfaiate que reforma roupas aplicando a geometria para cortar os tecidos.

  • Ginástica mental

Visitar especialistas ou convidá-los a ir à escola ajuda a mostrar às crianças que há outras maneiras de aprender além de consultar livros. Isso estimula o pensamento criativo.

Pais e professores podem enriquecer o dia da criança com idéias simples e originais que não exigem planos pedagógicos mirabolantes. É possível introduzir matemática nas aulas de educação física; práticas esportivas nas aulas de matemática; traduzir em francês as regras de comportamento na sala de aula ou em casa.

Para saber como funciona uma alavanca, alunos da pré-escola usam um cabo de vassoura debaixo do braço e aprendem por si mesmas como a força dos pesos em cada extremidade do cabo afeta o próprio corpo. A visita à academia para estudar os equipamentos de musculação esclarece os princípios dos contrapesos.

Outra idéia: deixar as crianças agir como se fossem máquinas. Usando exatamente o mesmo movimento, Giovana recolhe várias pedras, uma de cada vez, passando-as uma a uma a Marina, que as entrega a Paula, que as repassa a Milton e assim por diante até terminar em Gláucia, que e mergulha todas as pedras em um balde com água pela metade. Depois de 15 ou 20 pedras, a água do balde transborda.

O que se aprende com isso? Que uma máquina trabalha melhor em ritmo regular, que toda causa tem um efeito, e que a água cria um fino menisco no alto do balde porque as moléculas de água grudam-se umas às outras (aqui, a explicação do adulto talvez seja necessária).

E assim as crianças vão aprendendo engenharia, física, química e educação física. Se, mais tarde na vida, ouvirem falar de automação ou tensão de superfície, hão de se lembrar da deliciosa máquina humana que inventaram um dia.

*nutricionista, consultora de educação e fundadora do Clube Thinking out of the Box, em Nienhagen, Alemanha.

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