Stress: a vida além do limite


Uma pesquisa com 25.000 executivos brasileiros expõe, de forma alarmante, os efeitos devastadores do stress sobre a vida pessoal e o mundo dos negócios.

Revista Exame - por Consuelo Dieguez

Como quase todos os homens e mulheres de negócios bem-sucedidos, o executivo carioca Roberto Timótheo da Costa tem uma rotina marcada pela pressão constante, pela cobrança de resultados, pela falta de tempo, pelo excesso de informação. Diretor financeiro do BNDES, ele é responsável por negociações complicadíssimas, nas quais um erro pode resuItar em alguns milhões de dólares de prejuízo e manchas na reputação difíceis de ser removidas. Hoje, suportar essa enorme carga de tensão quase faz parte do perfil do executivo ideal. O problema é que o corpo - uma máquina limitada e falível - nem sempre responde da forma esperada. Foi o que aconteceu com Costa.

Em setembro do ano passado, ele esteve no comando do processo de reestruturação da dívida da AES, empresa americana de energia que controla a EIetropaulo. Foi uma negociação que levou meses, envolveu 1,2 bilhão de dólares e acabou por exaurir seu organismo. Num domingo daquele mesmo mês, em seu apartamento no Rio de Janeiro, Costa começou a sentir fortes dores no peito. Pressentindo o pior, tomou um comprimido de Isordil, medicamento indicado para dilatar os vasos coronarianos, e pediu a alguém para chamar uma ambulância. Foi levado para o hospital com um quadro típico de enfarte. A causa era a que se supõe - stress.

Trata-se de uma espécie de epidemia que tomou o ambiente de negócios e passou a fazer parte das preocupações cotidianas de executivos e empresários. Uma pesquisa feita pela Med-Rio, uma das maiores clínicas de check-up do país, mostra a dimensão do problema no Brasil. Nos últimos cinco anos, a Med-Rio examinou 25.000 executivos de todo o país, com idade entre 30 e 75 anos. Os resultados são alarmantes. Cerca de 70% deles sofrem de altos níveis de stress - um quadro agravado por problemas comportamentais. A pesquisa mostra que 80% dos profissionais avaliados têm alimentação desequilibrada, 65% são sedentários, 60% estão acima do peso ideal, 50% consomem bebidas alcoólicas regularmente e 40% fumam. É gente que vive no limite e pode cruzar a linha que separa a saúde da doença a qualquer momento.

O stress está para o executivo assim como a dor está para o atleta profissional. Dentro de certos parâmetros, a convivência com ele é quase obrigatória. O sinal vermelho se acende - de forma normalmente dramática - quando esses limites são ultrapassados. Os resultados se manifestam em níveis de gravidade variados. Podem ir de um patamar mais baixo, como obesidade e lesões de pele, a graus mais altos, como depressão, perda do desejo sexual, derrame e enfarte. Uma pesquisa recente feita pelo hospital Albert Einstein, de São Paulo, com 2.064 executivos revelou que 22% deles tinham risco vascular médio ou alto. Em outras palavras: se nada for feito, é enorme a probabilidade de esses profissionais sofrerem um derrame ou um enfarte nos próximos dez anos. Os casos críticos são mais comuns do que se imagina.

A elevação dos níveis de stress é diretamente proporcional ao grau de superação exigido pelo mundo dos negócios. Na luta pela sobrevivência, por resultados melhores, por mais participação no mercado, as empresas esperam contar com espécies de super-heróis. Não basta ser competente. É preciso ser o melhor. Não basta ser eficiente. É preciso ser criativo, antecipar mudanças, sugerir inovações, garantir que elas deem certo, bater um número maior de metas com recursos cada vez mais escassos. As viagens de negócios se multiplicam. As férias rareiam. A estabilidade - no trabalho, no mercado, no círculo do sucesso - transformou-se numa quimera.

O desenvolvimento tecnológico - celulares, internet, e-mail - faz com que fiquemos o tempo todo no ar e nos sintamos angustiados quando estamos, por algum motivo, desconectados do mundo lá fora. É necessário fazer várias coisas. Tudo ao mesmo tempo. Uma pesquisa da Organização Internacional do Trabalho (OIT) revela que um executivo é interrompido em sua tarefa, em média, a cada 7 minutos. Nesse ritmo, ao final do expediente, ele terá desviado sua atenção do centro de suas atividades mais de 50 vezes. As 24 horas de um dia passam a ser insuficientes para dar conta do recado. O cenário é angustiante. De um lado, há um mundo que muda numa velocidade sem precedentes. De outro, uma estrutura física que se mantém desde o tempo das cavernas. É como se instalássemos softwares cada vez mais poderosos numa máquina obsoleta.

Esse quadro gera insegurança, o maior motor do stress. O resultado é que executivos e empresários têm frequentado cada vez mais clínicas especializadas. Segundo a psicóloga Marilda Lipp, presidente da Sociedade Brasileira de Stress e dona do Centro Psicológico do Controle do Stress, em Campinas, no interior de São Paulo, nos últimos 18 meses houve crescimento de 30% no número de executivos em busca de tratamento em sua clínica. "Com a redução dos quadros, os executivos passam a responder por áreas com as quais não estão familiarizados", diz Marilda. "O grande fator de angústia é que muitos não se sentem à altura dos novos desafios." Individualmente, profissionais de todas as áreas estão sujeitos ao stress, tudo depende da forma como o organismo de cada um reage às pressões. Mas há algumas indicações relacionando certas atividades ao esgotamento físico. Uma pesquisa da filial brasileira do International Stress Management Association (Isma), uma organização não-governamental, revela que, juntamente com médicos, enfermeiros e bancários, os executivos estão em terceiro lugar no ranking das profissões mais estressantes. Só perdem para policiais, seguranças e controladores de voo - trabalhadores que lidam com risco de vida, deles próprios ou de terceiros. Ou seja, os executivos são, especialmente atingidos pelo stress.

O que ocorre no Brasil apenas replica o que se constata no resto do mundo. Nos Estados Unidos, uma pesquisa recém-concluída pela Isma com 1.000 executivos revelou que 72% deles sofrem de altos níveis de stress. Uma parte desse total 20% - enquadra-se no patamar devastador do mal, aquele em que o indivíduo somente consegue se recuperar com ajuda médica. Segundo a psicóloga gaúcha Ana Maria Rossi, presidente da Isma no Brasil, casos desse tipo entre executivos aumentaram 39% na última década no país. Não se trata apenas de uma alteração na quantidade de pessoas que enfrentam o problema. Mas também do perfil do estressado. Ele está cada vez mais jovem. Há apenas uma década, de acordo com a Soma, empresa paulista que presta serviços de recursos humanos para companhias como Petrobras, HSBC, Schincariol e Adidas, os executivos começavam a dar os primeiros sinais de stress elevado por volta dos 50 anos. Hoje, esse processo começa muito mais cedo - aos 30.

O fenômeno é consequência, principahnente, de dois fatores. O primeiro é a ascensão de jovens talentos a posições de liderança, o que traz consigo uma enorne carga de responsabilidade. O segundo são os sucessivos enxugamentos de pessoal e a rigidez cada vez maior nas avaliações de desempenho. "O resultado é o aumento do volume de trabalho dos profissionais que continuam empregados", diz o consultor Luiz Affonso Romano da Fundação Getulio Vargas do Rio de Janeiro.

Uma pesquisa da Isma com executivos e gerentes de vários países mostra que a média semanal de horas trabalhadas no Brasil é superior a 49 - uma das mais altas do mundo. De acordo com as análises da organização, o executivo brasileiro trabalha cerca de 15% mais que o americano e 20% mais que o europeu, só perdendo para o asiático. No atual cenário dos negócios, trabalhar muito é necessário, mas não suficiente. É preciso dar resultados - e a cada ano que passa eles precisam ser melhores. "Uma das maneiras de aumentar o stress é multiplicar as avaliações de desempenho", diz o médico Gilbelto Ururahy. da Med-Rio. "Isso coloca os profissionais em evidência e faz a pressão subir." São dois os tipos de pressão que se elevam: a arterial e a do ambiente de trabalho. Um levantamento da OIT indica que, nos Estados Unidos, o problema acarreta perda anual para as companhias de 300 bilhões de dólares - contabilizados sob a forma de faltas frequentes, queda na produtividade, custos médicos e legais e pagamento de seguros.

Talvez a face mais cruel desse problema é que o stress normalmente tem um caráter contagioso e epidêmico. Executivos estressados tendem a criar um ambiente corporativo tenso. No livro Como Tornar-se um Bom Estressado (editora Salamandra), o psiquiatra e consultor de empresas fancês Eric Albert diz que a tarefa de procurar sinais de stress numa empresa começa pela observação atenta de seus funcionários. "Se o comportamento deles é marcado pela pressa, pela agressividade e/ou pela queda da produtividade, a empresa está estressada", diz ele. Albert considera que o primeiro fator de stress no mundo profissional está ligado às relações interpessoais. Estressado, o indivíduo sofre redução da capacidade de comunicação com os profissionais com os quais se relaciona. Essa alteração pode assumir formas diversas. Uma delas é o isolamento. No caso específico de empresas, é comum ouvir casos de líderes que se fecham em seu mundo, deixam de compartilhar problemas, delegam pouco e puxam para si toda a responsabilidade pelos resultados. Outra característica comum (e bem conhecida) do estressado é a agressividade. Ela ocorre naturalmente quando o indivíduo está submetido a grandes constrangimentos. Uma das qualidades do bom administrador é exatamente ser capaz de absorver o stress. Ele deve ser uma espécie de esponja. Mas, para isso, diz Albert, o executivo precisa ter o próprio stress sob controle.

O paulista Manoel Horácio Francisco da Silva, presidente do banco de investimentos Fator, já foi - assumidamente - um chefe propagador do stress coletivo. Em 1973, aos 27 anos, ele foi indicado para presidir a Ficap, uma fabricante de cabos do Rio de Janeiro. "Queria tanto obter resultados rápidos que quase destruí a equipe", diz ele. "Houve uma queda tão grande na produtividade que foi necessária a contratação de um consultor para melhorar as relações na companhia." É inútil esperar que, de uma hora para outra, as pressões desapareçam e o ambiente de trabalho se transfome numa espécie de Disneylândia profissional. O mundo dos homens e mulheres de negócios é difícil - e deve continuar a sê-Io por um bom período. Até porque, segundo os especialistas, esse público forma um meio de cultura privilegiado para a disseminação do stress. Líderes empresariais são, por definição, pessoas competitivas e exigentes consigo mesmas. "O excesso de trabalho é encarado, erroneamente, como uma espécie de sinal exterior de produtividade", diz o consultor Romano. "Parte do desgaste poderia ser evitada se os profissionais definissem melhor suas prioridades."

No livro O Homem que Confundiu Sua Vida com o Trabalho, lançado recentemente no Brasil, o executivo americano Jonathon Lazear - um workahoolic em "processo de recuperação", como ele próprio se qualifica - afirma que muitos profissionais simplesmente não conseguem se desligar da empresa por estarem viciados em trabalho. "Homens que se sacrificam dessa forma são sempre louvados como superempreendedores. Quase sempre a verdade é que, apesar de parecer produtivos, muitos deles se sentem absolutamente infelizes", diz ele. Jonathon Lazear, dono de uma editora nos Estados Unidos, conta que ficara tão absorvido pelo trabalho que não via mais a mulher nem os filhos. Percebeu que havia chegado ao limite quando, um dia, ao sair de casa, perdeu a noção de para onde esta e poderia ser evitada se os profissionais definissem melhor suas prioridades."

No livro O Homem que Confundiu Sua Vida com o Trabalho, lançado recentemente no Brasil, o executivo americano Jonathon Lazear - um workahoolic em "processo de recuperação", como ele próprio se qualifica - afirma que muitos profissionais simplesmente não conseguem se desligar da empresa por estarem viciados em trabalho. "Homens que se sacrificam dessa forma são sempre louvados como superempreendedores. Quase sempre a verdade é que, apesar de parecer produtivos, muitos deles se sentem absolutamente infelizes", diz ele. Jonathon Lazear, dono de uma editora nos Estados Unidos, conta que ficara tão absorvido pelo trabalho que não via mais a mulher nem os filhos. Percebeu que havia chegado ao limite quando, um dia, ao sair de casa, perdeu a noção de para onde estava indo. O choque de ter a vida por um fio normalmente funciona como o maior estímulo às mudanças de comportamento. Para o carioca Guilherme Bettencourt, presidente da subsidiária brasileira da Xerox, o alerta surgiu na forma de um enfarte ocorrido em 1998. Desde então, Bettencourt passou a fazer esteira cinco dias por semana. Parou de levar trabalho para casa, passou a ficar mais tempo com a família e a se ocupar com outras atividades, como ir a óperas, concertos e livrarias.

As empresas já perceberam a importância de ajudar seus funcionários a combater o stress. Companhias como Embratel, Philips e Natura criaram programas para tentar melhorar a qualidade de vida dos empregados. Na Embratel, foram instaladas uma academia de ginástica e três salas para sessões de shiatsu. Com a medida, o percentual de sedentários caiu de 58% para 39% do quadro entre 1999 e 2003. A quantidade de funcionários que requisitaram auxílio-doença diminuiu 24% no mesmo período. Acontece que a prevenção e o combate ao stress excessivo estão muito mais nas mãos dos profissionais do que sob o controle das empresas. Não adianta culpá-Ias por isso. Perde tempo também quem tenta responsabilizar a chamada "vida moderna". A critica deixa no ar a hipótese absurda de que o homem talvez vivesse em melhor situação antes. Apenas para desencorajar os mais animados com a tese, vale lembrar que a expectativa de vida na Idade Média era de cerca de 29 anos. Na virada do século 20 saltou para 50 anos e hoje beira os 75 anos. Graças aos avanços da medicina e da ciência, ou seja, devido justamente à estressante vida moderna.

• Saúde abalada

Veja os resultados da análise de 25.000 exames de executivos srealizados no Brasil: 15% sofrem de fadiga; 16% têm gastrite ou úlcera; 19% sofrem de hipertensão arterial; 25% têm altos níveis de colesterol; 26% apresentam algum tipo de doença dermatológica; 40% são fumantes; 50% consomem álcool regularmente; 60% têm escesso de peso; 65% são sedentários; 70% apresentam níveis altos de stress; 80% têm alimentação desequilibrada.

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