Superqualificados e ignorados


As empresas ainda resistem em recrutar jovens que saem das universidades com título de mestre e doutor. Eles representam um exército de 50.000 profissionais capacitados.

Revista Você S/A - por Luiz de França

O Brasil sofreu, por muito tempo, de um fenô­meno que lá fora ficou conhecido como brain drain, ou fuga de cére­bros. Trata-se da evasão de profis­sionais altamente qualificados por falta de oportunidades de traba­lho. Até 2007, o país era responsá­vel por 5% do total de emigrantes com nível superior vivendo fora de sua pátria, segundo dados da Orga­nização para a Cooperação e Desen­volvimento Econômico (OCDE). O cenário hoje é absolutamente dife­rente. Isso porque as oportunida­des de emprego no país são muito maiores do que as dos países do Hemisfério Norte, principal destino da nossa mão de obra bem capacita­da. Como efeito, profissionais liberais e aqueles com formação acadê­mica especializada têm optado por fazer carreira por aqui. Porém, essas duas categorias de trabalhador têm empregabilidade diferenciada. Os jovens que optam por seguir estu­dando após a graduação, e vão atrás de títulos de mestrado e doutorado, têm menor chance de fazer carrei­ra em uma empresa em relação aos colegas que enviam seu currículo ao departamento de RH logo após a primeira graduação. Ironicamente, presidentes de empresas, executivos
de RH e headhunters reclamam da falta de mão de obra qualificada em todos os níveis hierárquicos, quan­do há 50.000 jovens com diploma de mestre e doutor, titulados apenas no ano passado.

Esse grupo representa uma reserva de gente qualificada. Porém, poucas empresas os enxergam como talen­tos em potencial. Parte da explicação se deve ao fato de que eles têm boa base acadêmica, mas pouca expe­riência prática. Em países como Esta­dos Unidos e Inglaterra, isso não é um problema. É comum encon­trar mestres e doutores atuando em consultoria, bancos de investimen­to, empresas de tecnologia e bens de consumo. "No Brasil, um núme­ro crescente de companhias tem se interessado por esses profissio­nais", diz Alexandra Klen, diretora de inovação e marketing da consulto­ria de gestão empresarial Axia Value Chain, de São Paulo.

"Essa discrepância de valores se explica pela cultura empresarial brasileira de valorizar a experiência em detrimento da formação acadê­mica", diz Marcelo Cuellar, gerente da divisão de RH da consultoria Michael Page, especializada no recru­tamento para a alta e média gerência. "Para a grande maioria dos recrutadores, o título não pesa na hora de abrir uma vaga, o que interessa é a geração de resultados para a empre­sa", completa Marcelo. E, para isso, os empregadores avaliam a experiência anterior do candidato.

Há ainda outra questão: o custo da mão de obra. Um profissional titulado costuma ser mais caro e, por isso, os empregadores tendem a preferir recém-formados. Os recru­tadores também argumentam que as universidades brasileiras formam um profissional despreparado para ingressar no mercado de trabalho. "Nós formamos profissionais que servem para a Embraer, Embrapa, Petrobras e Vale. Por que eles não servem para as outras companhias? Isso é uma desculpa para não contra­tar pesquisadores", diz Jorge Almeida Guimarães, presidente da Coordena­ção de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior.

Em empresas como a Monsanto, multinacional de tecnologia em agri­cultura que desenvolve pesquisas em biotecnologia, a especialização é uma das ferramentas que podem gerar soluções diferenciadas para o campo. "Em diversos segmentos, o desenvolvimento de tecnologias se baseia em pesquisas. É muito comum que os profissionais que trabalham com o tema desenvolvam seus estu­dos em universidades antes de iniciar os trabalhos em empresas privadas", diz Patrícia Prieto, gerente de capta­ção de talentos. Outra indústria que recruta muitos mestres e doutores é a farmacêutica. Um exemplo é a Genzyme do Brasil, que tem 60% de seus funcionários com título de mestre, doutor ou ambos.

Muitos dos profissionais com esse perfil escolhem seguir a carrei­ra acadêmica, até por uma questão de vocação. Armando Lins Netto, 42 anos, imaginava ser um deles, mas, ao final do curso de doutorado em engenharia mecânica pela Universi­dade de Berkeley, nos Estados Unidos, descobriu que a vida corporativa era mais atraente e resolveu fazer a tran­sição. "Nos Estados Unidos, é comum que as indústrias de alta perforrnan­ce busquem profissionais com Ph.D. nos centros de pesquisa", diz. Dez anos depois e hoje vice-presidente de terceirização de infraestrutura de tecnologia da informação na Tivit, Armando diz que parte do mercado está aprendendo a valorizar o méto­do analítico que a vida acadêmica proporciona. "É da natureza acadê­mica trazer contribuições inéditas, e essa dinâmica levada ao mundo corporativo é muito útil", diz.

Vale lembrar que, enquanto em países como Alemanha, Canadá, Japão, França, Inglaterra e Estados Unidos 97% das patentes produzi­das vêm das empresas e só 3% das universidades, no Brasil a estatísti­ca é inversa. A academia responde por 61% das patentes criadas. Quan­do escolas como a Universidade Esta­dual de Campinas, no interior de São Paulo, produzem mais paten­tes do que a Petrobras, está na hora de a indústria brasileira rever seus conceitos e costumes em relação à contratação de acadêmicos.

© Copyright 2020 - Todos os direitos reservados à Methodus