TDAH: desafio para pais e mestres


Pais e mestres devem estar atentos aos sinais que uma criança apresenta um quadro de TDAH, porque ela pode causar problemas no lar ou na escola.

Revista Escola Particular - por Paula hernandes

O Transtorno do Déficit de Atenção e Hiperatividade (TDAH) atinge cerca de 5% da população mundial, causando uma série de prejuízos a crianças, adoles­centes e adultos não só ao longo da vida acadêmica, mas também nas relações sociais. Para falar um pouco mais sobre o diagnóstico, a importân­cia de se trabalhar com uma equipe multidisciplinar e com a cooperação das famílias, Escola Particular con­versou com o médico psiquiatra da infância e da adolescência, Leandro Garcia Reveles, que ministrou palestra sobre o tema no SABER 2011, e com a psicóloga do Ambulatório de Ansie­dade da Infância e Adolescência da Faculdade de Medicina da USP, Mayra Gaiato, ambos integrantes da equipe multidisciplinar da clínica "Medicina do Comportamento" em São Paulo. medicinadocomportamento.com.br.

Escola Particular: Por que o TDAH é um desafio para pais e mestres?

Dr, Leandro: Geralmente, crianças com TDAH causam tanto problema em casa, quanto na escola. As reclamações de pais e professores são muito pareci­das, no que diz respeito à dificuldade de atenção, de concentração, a impulsividade e isso atrapalha a família e o trabalho do professor. É um tema que merece ser trabalhado de maneira a orientar tanto pais como educadores.

Escola Particular: Quais são os sintomas mais comuns doTDAH?

Dr. Leandro: O diagnóstico é feito com um conjunto de três sintomas simultâneos: a desatenção, ou seja, aquela criança que perde tudo, não consegue focar a atenção na aula, não consegue dar um recado, está sempre dispersa, no "mundo da lua".

O segundo conjunto de sintomas envolve a hiperatividade: são aquelas crianças que não conseguem ficar paradas num lugar e, mesmo na hora de comer, a mãe tem que ficar cor­rendo atrás para dar a comida, vivem escalando móveis, objetos, pulando de um lado para outro, podendo até se colocar em situações de risco por conta da agitação. No ambiente es­colar, essa criança não consegue ficar sentada e por isso levanta, pede para ir tomar água toda hora, vai pegar a borracha emprestada do coleguinha do outro lado da sala, fala o tempo todo e tumultua.

O terceiro conjunto de sintomas está relacionado à impulsividade, ou seja, aquela criança que não consegue esperar a sua vez, corta os outros o tem­po todo, explode com muita facilidade e é muito reativa às frustrações. Esses três sintomas são o que chamamos de sintomas cardinais, fundamentais para fechar o diagnóstico.

Além disso, a criança com TDAH tem prejuízo em duas outras áreas: na memória recente, ou seja, tem grande dificuldade de guardar aquilo que foi ensinado ou as tarefas que foram so­licitadas. Há também dificuldades em funções executivas, pois não consegue por suas ideias em prática. Numa pro­va, por exemplo, às vezes a criança até sabe sobre o tema, mas não consegue redigir. No caso do adulto, muitas vezes ele faz vários planos, mas não persiste para colocá-los em prática.

Dra. Mayra Gaiato: Há também a dificuldade de organização, seja da rotina de estudos, da rotina da casa e a terapia comportamental serve para orientar nesse sentido. Hoje, os consultórios dos neuropediatras estão cheios de encaminhamentos, que nem sempre são casos de hiperatividade. Âs vezes é falta de limites. A criança que fecha um diagnóstico de TDAH tem as áreas cognitivas com alteração. Por isso, é preciso, antes de tudo, descartar totalmente as possibilidades de falta de limites, de falta de pulso do professor, do pai e somente depois de toda essa triagem feita no consultório, deve-se começar a intervenção. O primeiro passo é fechar o diagnóstico com o médico.

Escola Particular: Por que atualmente se fala tanto em hiperatividade? Houve cresci­mento do número de casos, ou uma banalização do termo?

Dr. Leandro: É importante dizer que as doenças psiquiátricas entram e saem de moda. O TDAH, talvez até por uma culpa nossa, profissionais de saúde, está muito "na moda", assim como o transtorno afetivo bipolar e alguns outros problemas, que fre­quentemente estão mais evidentes na mídia e acabam virando clichê, com todo mundo falando que é TDAH, bipolar ou alguma outra coisa. O primeiro passo é fazer um bom diagnóstico, para saber se a criança tem todas as características do TDAH e se esse conjunto de características, de fato, causa prejuízos. Porque é possível termos uma criança um pouco mais desatenta, um pouco mais impulsiva, um pouco mais hiperativa, mas que
não tenha prejuízos nas várias áreas de sua vida. Quantas vezes a criança é mais hiperativa em casa e a gente vai ver como é esse ambiente familiar, até por que na escola ela não apresenta problemas? Para justificar o trata­mento medicamentoso, a criança tem que ter prejuízo em várias áreas de sua convivência: em casa, na escola, com os amigos, no parque, no clube, num momento lúdico de diversão.

Escola Particular: Como é feito o tratamento?

Dr. Leandro: O tratamento medi­camentoso é apenas uma parte do processo, dividido em três partes impo ortantes: o primeiro é a psicoedu­cação, quando se discute o caso com a família, com a escola e com a equipe multidiscilpinar. A segunda parte é a medicação, que em algumas crianças é necessária, porque às vezes seu com­portamento atrapalha tanto o ambi­ente escolar e causa tantos prejuízos de convivência, que não tem jeito. A terceira parte é a terapia cognitivo­ comportamental com a reabilitação neuropsicológica, que é justamente cuidar dos comportamentos dessa criança e reabilitar as funções cogniti­vas nas em que ela tem prejuízos.

Dra. Mayra: A reabilitação cognitiva reúne uma série de técnicas e exercí­cios específicos voltados para as áreas da memória, da atenção, da lingua­ gem, das funções executivas, que vão ativar a circulação e gerar sinapses, fa­zendo com que as crianças melhorem, independente do remédio.

A medicação, quando ne­cessária, vai dar mais condições de a criança fazer os exercícios, até porque sem ela, essas crianças não conseguem nem parar para focar sua atenção para realizá-Ios. Os exercícios permitem uma intervenção mais profunda para que a gente consiga reabilitar, ficando cada vez menos dependente de medi­cação. Por isso é importante o trabalho da terapia cognitivo-comportamental.

Geralmente, os pais chegam ao consultório já esgotados e não têm mais a menor paciência com a criança. E a frase mais comum que a gente ouve é: "Já tentei de tudo, mas nada funciona". Então, a primeira parte da terapia é explicar que a criança não tem culpa de ser TDAH. Isso é uma característica neuropsicológica e genética. Também explicamos para os pais qual a melhor forma de entrar no universo dessa criança.

Dr. Leandro: O Transtorno de Déficit de Atenção é um problema de saúde que, se não for tratado, causa muitos prejuízos que podem se acumular pela vida inteira. São crianças que têm maior risco de uso de drogas na adolescência, maior dificuldade de socialização. Os adultos podem ter muitos problemas profissionais, de relacionamento, inclusive, o número de divórcios é maior.

O tratamento é multidisciplinar e envolve professor e família. Isso é muito importante, porque é muito co­mum a gente receber um adolescente que tem transtorno de déficit de aten­ção, mas tem uma família completa­mente desestruturada e quando o caso chega para nós, a queixa do transtorno de déficit de atenção é secundária aos problemas causados pelo ambiente familiar. E não é raro essas famílias chegarem ao consultório e delegar toda a responsabilidade para o profissional.

Escola Particular:Medicamentos como a Ritalina e outros estão sendo usados além do necessário?

Dr, Leandro: Acho que existe uma tendência de a psiquiatria ser cada vez mais medicamentosa. Alguns trabalhos publicados recentemente mostram que o erro no diagnóstico do TDAH tem sido realmente grande, ainda assim, eu não acho que há um exagero no uso da Ritalina, porque cerca de 5% da população tem trans­torno de déficit de atenção com todos os sintomas certinhos e o número de crianças tratadas ainda está abaixo do que deveria. Penso que o tema é muito exposto na mídia e talvez por isso as pessoas comecem a criar certos concei­tos de que todo mundo toma ritalina.

Por isso, é importante ver onde a criança tem prejuízos. Se só tem na escola, mas não tem na família e nas demais relações sociais, provavelmente não é TDAH, por isso que a gente verifica se esses prejuízos afetam todas as outras áreas, até para justificar o uso de remédios. Só é preciso muito cuidado para não começar a dar remédio para crianças cada vez mais novas. Se a criança tem seis, sete anos de idade e não tem prejuízos acadêmicos, até porque a fase de alfabetização mal começou, não tem agressividade, é uma criança possível de controlar com medidas comportamentais, não se justifica dar a medi­cação. Talvez essa seja a crítica mais importante a fazer.

Escola Particular: Nem todo TDAH precisa de medicação?

Dra. Mayra: Há casos, com crianças de seis ou sete anos, em que só a terapia cognitivo­-comportamental resolve. Mesmo aquela mais agitada que tem um prejuízo significativo, a medicação não é indicada.

Dr. Leandro: O importante é trabalhar caso a caso, porque se a criança começa a ficar agres­siva, então tem que medicar.

Escola Particular:Qual o perfil de paciente que vocês mais recebem?

Dr. Leandro: Na grande maioria são crianças e adolescentes, mas também recebemos na nossa equipe, adultos entre 40 e 60 anos que nunca foram tratados e que colecionaram uma série de prejuízos ao longo da vida. Às vezes chegam para nós num quadro de depressão ou de uma ansiedade grave ou num quadro de fobia.

Dra. Mayra: Tem os dois lados. Às vezes a criança ou o adolescente necessita da medica­ção e o pai se nega a aceitar.

Dr. Leandro: O que é até compreensível, porque é difícil para um pai levar o filho num psiquiatra. Uma criança que está brincando, pulando, se divertindo, mas tem que passar pelo psiquiatra, se submeter a uma série de exames e às vezes tomar medicação. Mas a gente tenta conversar sobre o trabalho conjunto para fechar o diagnóstico e a necessidade de compreensão dos pais, pois eles precisam dar o medicamento. Falamos sobre o quanto aquela criança tem de prejuízo naquele momento. Se for algo administrável, que a gente consegue trabalhar com terapia, ótimo, mas se o TDAH atrapalha a ponto de a criança não conseguir aproveitar nem a terapia, aí sim se justifica o uso da medicação.

a uma série de exames e às vezes tomar medicação. Mas a gente tenta conversar sobre o trabalho conjunto para fechar o diagnóstico e a necessidade de compreensão dos pais, pois eles precisam dar o medicamento. Falamos sobre o quanto aquela criança tem de prejuízo naquele momento. Se for algo administrável, que a gente consegue trabalhar com terapia, ótimo, mas se o TDAH atrapalha a ponto de a criança não conseguir aproveitar nem a terapia, aí sim se justifica o uso da medicação.

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