Tem de ter atitude


Competência e conhecimento são bons. Mas o que as empresas querem mesmo dos recém-formados é "personalidade", diz uma pesquisa global.

Revista Época - por Marcos Coronato

Quem começou a trabalhar no sé­culo passado ouviu falar muito da necessidade de dominar um terceiro idioma, fazer pós-graduação ou comprovar experiência. Quem chega ao mercado de trabalho agora depara com exigências adicionais bem mais abstratas. Os jovens precisam ter a "atitude correta", seja lá o que signifique isso. Para compli­car, enfrentam uma impressão difundida pelo mercado de trabalho, justa ou injus­tamente, de que têm ambição demais e pa­ciência de menos. Uma pesquisa feita pela consultoria alemã Trendence em 20 países (publicada com exclusividade por ÉPOCA) oferece um panorama mais detalhado do que as companhias querem do jovem.

Na maioria dos países, o fator "perso­nalidade" é considerado mais importan­te que "competências" (saber prático) e "conhecimento" (teórico). O Brasil é o terceiro da lista que mais valoriza a per­sonalidade. Três economias gigantes e di­nâmicas, Estados Unidos, China e Índia, destoam das demais. Dão prioridade mes­mo é para a boa e velha competência.

As grandes empresas brasileiras, de acordo com o estudo, buscam jovens flexíveis (para assumir diferentes papéis numa organização, não necessariamente ao mesmo tempo), capazes de liderar e decidir (dentro de seu raio de atuação), com facilidade para atuar em equipe, há­beis em análise (para entender cenários amplos), empreendedores (para criar e abraçar projetos) e com "integridade pessoal e ética forte". Essas foram as mais mencionadas entre 19 características que poderiam contribuir para o sucesso de um recém-formado numa companhia.

O clamor por ética se destacou tam­bém entre companhias da África do Sul, do México e da Turquia, mas ela foi quase ignorada em nações com maior tradição de respeito à lei como Alemanha; Bélgica e Holanda. "Em alguns países, a ética é assu­mida como padrão, nem se precisa falar a respeito. Em outros, como o Brasil, existe
o medo da malandragem"", diz o consultor Carlos Eduardo Dias, diretor da Asap, especializada em organização de processos de estágio. Os recrutadores brasileiros consideraram menos relevantes entusias­mo, pensamento positivo, independência, bom-senso e atenção aos detalhes.

É fácil entender a busca das companhias por profissionais flexíveis. Elas enfrentam em sequência desafios pouco compreen­didos, como vender para o consumidor recém-elevado à classe C, construir uma imagem de respeitadora do meio ambien­te ou negociar com fornecedores chineses. "Nenhuma companhia, hoje, tem gente sobrando, esperando trabalho. Precisa­mos atender rapidamente às mudanças", afirma Maurício Rossi, diretor de recursos humanos da Rache Diagnósticos. Mos­trar versatilidade foi fundamental para que Silvia Hioka, estudante de engenharia na FEl, fosse contratada pela empresa. "Mostrei conhecimento de equipamen­tos, operações, tecnologia e também que gosto da área financeira", diz.

Parece muita coisa para uma jovem de 24 anos, mas Silvia provavelmente não te­ria sido selecionada se mostrasse só qua­lificação técnica. A pesquisa confirmou a preocupação das empresas de encontrar a tal "atitude correta", que envolveria uma combinação rara, principalmente entre jovens, de ambição e garra, mas também disposição para aprender e esperar. En­tre 20 características que eles precisariam melhorar, destacou-se "habilidade social" "Os graduandos têm habilidades sociais. A questão é se eles têm as habilidades so­ciais certas. Muitos recrutadores acham que não", diz Caroline Dépierre, diretora de pesquisa da Trendence.

• O que as comanhias procuram nos mais jovens

- Para ter sucesso na empresa, o essencial é

(Em % de menções por recrutadores de 20 países, entre 19 qualidades possíveis)

Mostrar flexibilidade

1º Brasil
2º Espanha
16 º EUA
19º Alemanha
20º Rússia

Ser capaz de atuar em equipe

1º China
2º Brasil
3º Índia
13º EUA
19º Japão  

- Entre 19 qualidades necessárias para o sucesso, os recrutadores brasileiros acham 

Muito importantes
. Liderança e habilidade para tomar decisões 
. Ética

Menos importantes
.
Entusiasmo e pensamento positivo
. Habilidade para trabalhar de forma independente

- Em que os jovens precisam melhorar

(Entre 20 possíveis pontos fracos dos jovens de todo o mundo)

Os mais apontados
1 - Falta de experiência profissional e conhecimento prático
2 - Baixa capacidade de adaptação ao ambiente de trabalho
3 - Habilidades sociais. atitude e etiqueta no trabalho

Os menos apontados
19 - Bom-senso 
20 - Compreensão do mundo real e experiência de vida
21 - Habilidade de realizar várias tarefas ao mesmo tempo

- Os jovens estão mais imaturos?

(Entre os 20 países pesquisados)

Iguais: Em quatro países, a opinião majoritária é que os jovens são tão imaturos hoje quanto os de gerações anteriores. A Itália está entre esses países.

Mais: Em dez países, os recrutadores acham que os recém-formados de hoje têm personalidade pior que os do passado. O Japão foi o país mais ranzinza a respeito.

Menos: Em seis países. incluindo o Brasil, os recrutadores dizem que os recém­-formados de hoje têm personalidade melhor. A índia é o país mais otimista nesse quesito.

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