Tempo: como controlar o seu


Tempo não é dinheiro: bem ou mal investido, ele sempre vai acabar. Aprenda a lidar com este bem perecível, intransferível e precioso. Para controlá-lo, é preciso entendê-lo.

Revista Superinteressante - por Emiliano Urbim

Natal já tá aí. o ano passou voando. É a vida, cada vez mais corrida. vinte e quatro horas é pouco - precisava um dia maior para pôr tudo em dia.

Contra esses lugares-comuns, boa parte dos manuais prescreve doses regulares de priorização, planejamento, multitasking, lembretes, listas e agendas, analógicas e digitais, mas a ciência tem uma receita diferente: você não vai aprender a controlar seu tempo encarando um calendário. Antes, é necessário olhar para outros lugares.

Sua compra do mercado, por exemplo: é para resolver uma refeição ou o resto da semana? Tem aqueles orgânicos que você prometeu consumir? Aliás, você trouxe uma lista? É no dia que se revela nossa habilidade de cumprir planos.

Não é algo que você nasce sabendo. A forma como você gasta e às vezes ganha tempo é influenciada por fatores culturais, geográficos e econômicos. Tudo isso resulta na sua orientação temporal, uma fórmula pessoal de encarar o passado, presente e futuro. Mas uma coisa vale para todos nós; o tempo passa. Melhor aprender a lidar com ele e acompanhar seu ritmo, antes que ele acabe ultrapassando você.

• Natural x artificial

Um segundo não é a 60ª parte de 1 minuto. Desde 1967 ele foi redefinido pelo Sistema Inter­nacional de Unidades como "a duração de 9 192 631 770 ciclos de radiação de uma transição eletrônica no átomo de cé­sio-133". Em 1997, um aden­do: "a -273,15 C". Usar um átomo para medir o tempo sugere que segundos, minutos e horas estavam aí, esperando ser descobertos. Mas o tempo do relógio é tão artificial quanto recente - ainda esta­mos nos adaptando a ele.

Basicamente, sua mente é uma máquina de 150 mil anos que se desdobrou para acom­panhar os últimos 150. Ela é do tempo dos índios pirarrãs, exemplo de pré- história em pleno século 21. Os pirarrãs, que vivem no Amazonas, não têm palavras para descrever passado e futuro, só o que aconteceu hoje. A refeição, a dança e o sono começam quando a natureza pedir. É as­sim que viviam os primeiros grupos humanos.

Enquanto nossos antepas­sados só se ocupavam de so­breviver, não havia muito es­tímulo para planos e memórias. Mas o domínio do ambiente permitiu que se chegasse aos sofisticados conceitos de "on­tem" e "amanhã". Os primei­ros astrônomos aprenderam a medir as fases da Lua e a pas­sagem dos anos. Relógios de sol mediam as divisões do dia, e relógios de água, ancestrais daqueles de shopping, a pas­sagem da noite. Outras coisas que fluíam ou se consumiam, como areia, velas e incensos, também eram usados, mas "amanhecer", "sol a pino" e "anoitecer" ainda eram horá­rios mais confiáveis,

Só na Idade Média surgiram os primei­ros relógios mecânicos. Mas não tinham ponteiros nem números; mais do que mostrar, eles "soavam" o tempo, tocan­do um sino na hora de rezar. Em 1656, um matemático holandês criou o primei­ro relógio de pêndulo, que na virada do século, com o avanço tecnológico, já marcava até minutos com precisão. Ago­ra era possível provar que alguém estava atrasado 15 minutos - ao menos dentro nos limites municipais.

Sim, cada cidade tinha seu horário, ca­librado pelo meio-dia local. Foi o trem, um meio de transporte com hora para sair e chegar, que forçou a padronização. Le­vou um tempo, claro. Alguns relógios in­gleses de meados do século 19 possuíam dois ponteiros de minutos; o do "horário local" e o "da ferrovia" - na verdade, o do meridiano de Greenwich, que se tornaria a hora oficial em 1880, abrindo caminho para a adoção dos-fusos horários.

Logo o "horário da ferrovia" era a hora certa. Para que o mundo todo se movesse como uma locomotiva, escola, trabalho, lazer e descanso ganharam hora para acontecer. Como reparou o historiador Helmut Kahlert, o relógio, antes tão útil quanto um chafariz, foi se aproximando dos seres humanos; da torre da igreja para a sala da casa, passando pelo bolso até chegar ao pulso - mesmo no celular, ele continua bem próximo.

Em menos de um século, a Revolução Industrial transformou em planilha um mundo que ainda tinha muito de pírarrã, Não é à toa que nosso cérebro às vezes tem dificuldade de acompanhar o ritmo. Mas esse processo não chegou de maneira uniforme a todas as sociedades modernas - inclusive a uma sociedade­ que você conhece bem.

• Rápido X devagar

Ao chegar ao Brasil, em 1976, as primeiras palavras que o americano Robert Levine aprendeu não foram clássicos como "samba" ou "caipiri­nha", mas "calma" e "amanhã". Na Universidade Federal de Niterói, nenhum de seus alunos de psicologia social pa­recia se importar com horá­rios e datas. Com o tempo, ele se rendeu aos atrasados, até porque o exemplo vinha de cima: entre seus colegas, não havia compromisso capaz de abreviar um bom almoço. Após um ano de "desorientação, frustração, fascínio e ob­sessão" com o país em que ônibus paravam para o moto­rista passar na padaria, Levine decidiu que ia estudar os dife­rentes passos do mundo.

Em uma de suas pesquisas, o professor mediu os mesmos 3 índices em dezenas de paí­ses: velocidade de pedestres, duração de atendimento em bancos e a hora certa dos reló­gios. Para supresa de ninguém, o 10 lugar ficou com a Suíça, seguida de Alemanha e Japão. Já o Brasil só escapou da lan­terna graças à Indonésia e ao México. "Não se trata sim­plesmente de povos lerdos e povos apressados", esclarece Levine. A raiz da diferença é que, enquanto algumas socie­dades já estão totalmente no "tempo do relógio" trazido pela Revolução Industrial, ou­tras ainda curtem resquícios do "tempo do evento".

No tempo do relógio, é ele quem comanda o início e o fim das atividades. No tempo do evento, as atividades come­çam e terminam quando, por consenso, os envolvidos consideram que é a hora certa. Isso é muito claro em par­tes da África onde vale o "tempo africano" - basicamente, uma falta absoluta de sen­so de urgência. Não que todo mundo leve na boa: em 2007, a Costa do Marfim che­gou a fazer uma campanha chamada "O Tempo Africano Está Matando a África - Vamos Lutar contra Ele".

Comparando cidades, Levine concluiu que a rapidez parece ser fruto do capita­lismo: quanto maior a economia local, sua diversificação, a densidade popula­cional e a cultura individualista, mais rá­pido é o ritmo da vida. E uma cidade ace­lerada atrai gente acelerada e expulsa os lerdos, criando um ciclo de aumento da velocidade nas metrópoles. No Brasil, por exemplo, já é comum que paulistanos considerem o ritmo de outras regiões (es­pecialmente os serviços) muito lentos.

Claro que isso traz problemas: regiões apressadas apresentam um índice maior de obesidade, estresse e doenças do cora­ção. Por outro lado, o psicólogo Mihaly Csikszentmihalyi descobriu que os mais deprimidos são justamente aqueles que não têm pressão temporal nenhuma. Pe­las pesquisas do professor Levine, as pessoas que andam mais rápido se dizem mais satisfeitas com a vida de uma ma­neira geral e ganham mais dinheiro.

Vale lembrar que aquele levantamento em que o Brasil ficou em antepenúltimo foi feito no início dos anos 90. "Soube que houve muito progresso econômico nos últimos 20 anos. Portanto, se minhas teorias estão certas, o ritmo de vida ace­lerou e vocês já devem ter subido algumas posições", afirma Levine.

Mesmo que apressemos o passo, vamos continuar so­frendo de um mal que aflige de banqueiros suíços a tribos africanas: todo mundo deixa para depois. Quando se trata de gerenciar o próprio tempo, lerdos e apressados sofrem com a procrastinação.

• Agora x depois

Procrastinar é não fazer aquilo que você deveria estar fazen­do - mas sem curtir essa folga. Procrastinar é diferente de matar aula para ir ao cinema: ainda que envolva evitar tare­fas não prazerosas, não dá prazer. Ao contrário, é uma atividade angustiante. É esse contorcionismo mental que chama a atenção dos especia­listas: você precisa muito fazer isto, mas alguma coisa dentro de você acaba desviando a sua atenção para qualquer outra coisa. A internet, claro, dei­xou tudo mais complicado.

Um editorial do American Journal of Psychiatry compa­rou: "Decepcionar-se por não conseguir realizar uma tarefa longa conectado é como for­necer doses de ópio para ope­rários no meio do expediente, e se surpreender quando isso se torna um problema".

Para David Meyer, neurolo­gista da Universidade de Mi­chigan, é um problema de saúde: se os viciados em inter­net pudessem ver sua mente, teriam surpresas desagradáveis, como fumantes que veem seus pulmões. Para o econo­mista Herbert Sirnon, trata-se de um problema de alocação de recursos. Informação con­some nossa atenção. Logo uma riqueza de informação causa escassez de atenção. Cabe a nós resistir ao instinto de ficar atento à distração.

Outro impulso a ser combatido é a gratificação imediata. Há um experimen­to clássico em que uma pessoa é solicitada a escolher se quer R$100 agora ou R$110 amanhã; a maioria quer R$100 agora. Em outro momento, a oferta é R$100 daqui a 30 dias ou R$ 110 daqui a 31 dias; aí, a maioria espera. Na essência, as duas ofertas são idênticas - você espera um dia a mais e ganha R$ 10 pela paciência. Na prática, fazemos escolhas melhores quando pensamos no futuro, mas não quando o dilema está na nossa cara. É por isso que a lista de filmes que você quer ver antes de morrer é repleta de clássicos, mas você sempre acaba assistindo à re­prise de Se Beber, Não Case ou Mamma Mia. Da mesma forma, você planeja uma tarde de trabalho e, quando vê, a tela do computador tem trocentas abas abertas e nelas há de tudo, menos trabalho.

Contra esse tipo de atraso, psicólogos, filósofos e até economistas paternalistas têm se rendido ao que eles chamam de "vontade estendida" - ferramentas ex­ternas que ajudam a nossa parte que quer trabalhar. Um estudo do M.I.T. mostra que esse controle não precisa vir neces­sariamente de cima para baixo. Confron­tados com as opções de entregar todos os trabalhos no fim do semestre ou acertar datas de entrega diferentes, a maioria preferiu a segunda alternativa. Moral da história: em vez de se expor à vagabun­dagem involuntária, eles preferiram um controle externo para fazer o que racio­nalmente queriam - estudar.

Outro exemplo de vontade estendida são os programas de computador que protegem você da sua própria procrastinação. Com nomes sugestivos como Freedom ("Liberdade") e Iso­lator ("Isolador"), eles podem bloquear o Facebook ou mes­mo cortar todo o acesso à in­ternet por horas. Para roubar no limite autoimposto, é pre­ciso desligar o computador ­ uma barreira que, dizem, ga­rante o foco da maioria. A má­quina baleada é mais útil do que 100% operacional.

Ou seja, é preciso observar seus hábitos e admitir seus desejos e falhas para conseguir fazer o que quer na hora em que quer. Sem esse exame, lis­tas e agendas são tão úteis quanto figas e trevos-de-qua­tro-folhas. Mas, antes de en­cerrar o assunto, é bom ficar atento para o fato de que atra­sar as coisas pode não ser cul­pa sua, mas das coisas. Vale parar pra pensar se você está procrastinando porque, lá no fund s como Freedom ("Liberdade") e Iso­lator ("Isolador"), eles podem bloquear o Facebook ou mes­mo cortar todo o acesso à in­ternet por horas. Para roubar no limite autoimposto, é pre­ciso desligar o computador ­ uma barreira que, dizem, ga­rante o foco da maioria. A má­quina baleada é mais útil do que 100% operacional.

Ou seja, é preciso observar seus hábitos e admitir seus desejos e falhas para conseguir fazer o que quer na hora em que quer. Sem esse exame, lis­tas e agendas são tão úteis quanto figas e trevos-de-qua­tro-folhas. Mas, antes de en­cerrar o assunto, é bom ficar atento para o fato de que atra­sar as coisas pode não ser cul­pa sua, mas das coisas. Vale parar pra pensar se você está procrastinando porque, lá no fundo, não vê sentido naquela tarefa. Se for o caso, é melhor deixar pra depois mesmo. Antes você precisa conhecer um negócio que se chama "pers­pectiva temporal" .

• Curtir x planejar

Quando você relembra o pas­sado, é com nostalgia ou re­morso? Quando, encara o pre­sente, é com prazer ou desgosto? E o futuro, traz medo ou esperança? A ma­neira como você responde es­sas perguntas se retlete nos seus pensamentos, sentimen­tos e comportamentos - ou seja, em tudo que você faz.

Essa atitude que cada um tem em relação ao tempo é chamada de perspectiva tem­poral. Quem criou o conceito foi PhiIip Zimbardo, papa da ciência do comportamento desde que, em 1971, sacudiu Stanford com um experirnen­to em que alunos comuns passaram a se comportar como guardas e prisioneiros. Para Zimbardo, apesar de geralmente inconsciente, a perspectiva temporal é de suma importância: "Por meio dela, nossas experiências são agru­padas em categorias que dão ordem, coerência e significado a nossa vida".

Através da aplicação de um teste pa­dronizado ao longo de 20 anos, foi possí­vel ver que nossa perspectiva se divide em 5 orientações: passado negativo, passado positivo, presente fatalista, presente he­donista e a futurista.

Simplificando bastante, se todos com­parecessem a uma reunião de formatura, o passado positivo estaria morrendo de saudade de todos e o passado negativo só citaria memórias ruins da faculdade. O presente hedonista iria beber, comer e dançar bastante, enquanto o fatalista tal­vez nem viesse. Já o futurista, que se cui­da, iria parecer menos velho que os ou­tros e já começar a planejar a reunião seguinte; claro que ninguém é unidi­mensional como esses personagens. A sua perspectiva é uma mistura de todas, mas sempre tem uma que predomina so­bre as outras, como as características atribuídas a um signo do horóscopo.

O seu passado, por exemplo, é uma questão de atitude: valorizar memórias boas evita que você viva lamentando ou reconhecendo erros. Até porque você pode hackear suas memórias. Em um ex­perimento a psicóloga Elizabeth Loftus, da Universidade da Califórnia, mostrou seguidas vezes um vídeo de carros baten­do para dois grupos. O primeiro, ao ser perguntando como fora a "batidinha", não viu nada de mais. O segundo, inquirido sobre o "acidente", relatou sangue, vidro quebrado, destroços - e nada disso estava no vídeo. Esse é um exemplo de como a memória muda com informações do presente, Com certeza, lembranças arquivadas como "acidentes" podem ser vistas como "batidinhas".

As perspectivas do presente e do futuro são as mais comuns, e as que mais entram em conflito. Situações citadas ao longo do texto, como apego ao tempo natural, ritmo lento de vida e pro­crastinação, podem todas ser debitadas na conta do presente. No outro extremo, pontualidade, ritmo acelerado e apego ao planejamento são características da orientação para o futuro. Qual das duas você acha que todos querem ter?

• Velozes e ciosos

Não dá para negar: o mundo é de quem anda mais rápido e pen­sa mais longe. Estudar, poupar e planejar são todos pré-requi­sitos para a entrada na classe média. Com o progresso econô­mico pessoal e coletivo, o mundo se acelera. A não ser que você seja um pirarrã ou ligado a uma instituição parecida com a que Robert Levine encontrou em Niterói, não adianta tentar voltar o relógio. Fantasias urbanas à parte, seus estudos mostram que a vida lenta é o caminho mais curto para o tédio e a depressão. O jeito é relaxar e abraçar a velocidade. 

Para começar, não é impossível se concentrar em um mundo online. Como lembra Winifred Gallagher, autora de Rapt ("Fo­cado", sem versão em português), a tecnologia é neutra. "Se você para tudo que está fazendo cada vez que recebe uma men­sagem" a culpa não é da máquina, é sua."

Ao mesmo tempo, distração não é um mal em si. Nenhuma atividade criativa vai fazer juz ao nome sem um passeio mental, que permite associações inusitadas. Foco e distração são a sís­tole e a diástole da mesma consciência. Para quem teme que as crianças de hoje, nativas digitais, nunca aprendam a focar em uma tarefa por tempo suficiente, neurocientistas apostam que elas vão é se concentrar em tarefas simultâneas.

Mas, se o futuro é a orientação ideal, não deve ser a única. É preciso valorizar as tradições, que nos fizeram quem somos. Também cabe um hedonismo, ao lado do acelerador está o freio, para que o dia tenha duas dúzias de horas e o ano não passe em branco. Falar nisso, o Natal já tá aí - como vai ser o seu?

• Corro demais!

Dicas para acelerar sem perder o ritmo

- Observe: Procure andar mais com quem foca o futuro. Veja como é o mundo deles. É preciso ter um exemplo próximo de alguém que cumpre metas, para acreditar que é possível.
- Inverta: Reordene sua caixa de entrada de e-mails para que os mais antigos fiquem no alto da lista. Resolver o passado libera o futuro. Aliás, isso vale para muito mais coisas além de e-mail.
- Distraia-se: Não precisa se punir quando estiver com a cabeça em outra coisa: vagabundagem mental é essencial para o processo criativo. um minuto de distração pode inspirar horas de foco.
- Cronometre: Subestimamos o tempo das tarefas, seja por ignorar a duração delas no passado, seja por n&atil

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