Terapias alternativas: medicina dá o braço a torcer


Terapias como acumpuntura e meditação chegam a hospitais e centros de pésqisa pelo mundo. Veja o que a ciência já sabe sobre a eficácia de 10 dessas práticas.

Revista Galileu - Diogo Sponchiato

Não se surpreenda se, ao entrar no hospital, você deparar com uma plaquinha indicando um setor de acupuntura ou uma ala dedicada à prática de ioga ou hipnose. Chamadas antes de alternativas, as terapias complementares são temas de cada vez mais estudos e estão invadindo centros médicos no Brasil e no mundo - algumas delas já estão dis­poníveis inclusive em postos de saúde pelo Sistema Único de Saúde, o SUS. Agora em fevereiro, para confirmar essa tendência, começa o primeiro curso nacional de pós-graduação em medicina integrativa, ministrado pelo Hospital Israelita Albert Einstein, em São Paulo. Medicina Integrativa é a abordagem que procura casar tradicionais práticas baseadas em evidência com métodos que, em vez de focar num problema específico, buscam tratar o corpo como um todo.

Nos Estados Unidos, o próprio governo estimula a pesquisa e a adesão a essas práticas com o Centro Nacional para Medicina Com­plementar e Alternativa (NCCAM na sigla em inglês), cujo orçamento supera US$ 120 milhões. No levantamento mais recente sobre o tema, o Instituto Samueli mostrou que 42% dos hospitais nos EUA (de 714 pesquisados) ofereciam terapias complementares em 2010 - em 2007, o número era 37%. Isso inclui centros prestigíados como MD Anderson e Memorial Sloan-Kettering Cancer Center e universidades como Harvard, que já dispõem de departamentos dedicados à pesquisa e aplicação de acupuntura, técnicas de relaxamento e afins. O número de estudos sobre o tema cresceu 330/0 em cinco anos, de acordo com o banco de dados de publicações médicas Pubmed. Só em 2011 foram 514 artigos divulgados.

A demanda também está em alta. Na última pesquisa do NCCAM sobre o uso dessas terapias, observou-se que, em 2008, quatro em cada dez americanos recorriam a elas. A partir deste ano, teremos uma noção desse cenário no Brasil. "Na Pesquisa Nacional de Saúde de 2013, incluiremos, pela primeira vez, perguntas ligadas à medicina integrativa, para saber o quanto o brasileiro a utiliza e quais as terapias mais empregadas", conta Patrícia Chueiri, coordenadora de Áreas Téc­nicas do Departamento de Atenção Básica do Ministério da Saúde.

Em São Paulo, hospitais de ponta, como o Eins­tein e o Sirío-Libanês já contam com serviços de abordagem integrativa. Mas a tendência não é exclusividade dos centros mais caros. O SUS oferece fitoterapia, homeopatia e práticas da me­dicina tradicional chinesa, como acupuntura. O impulso para essa oferta veio em 2006, quando se lançou a Política Nacional de Práticas Inte­grativas, Desde então, cada vez mais postos de saúde fornecem tais práticas. Segundo o Minis­tério da Saúde, em 2011 foram realizadas mais de 600 mil sessões de acupuntura em mais de 100 municípios; no ano passado, até setembro, foram contabilizados mais de 730 mil. Ainda em 2012, registraram-se cerca de 245 mil sessões de práticas de origem chinesa como tai chi chuan.

"O Brasil está na vanguarda nesse aspecto, uma vez que na maioria dos países ocidentais essas terapias estão mais concentradas no âmbito pri­vado", diz Patrícia. Na área da fitoterapia, já são 12 extratos de plantas com eficácia demonstrada que podem ser receitados pelos médicos nas uni­dades básicas de saúde. "A ideia é aumentar esse leque e, por isso, trabalhamos com a perspectiva de ampliar em 20% os recursos voltados a fito­terápicos", conta Carlos Gadelha, secretário de Ciência e Tecnologia do Ministério.

Aos poucos, a medicina íntegrativa ganha evidências científicas e vence a resistência de profissionais mais ortodoxos. "Ela propõe um resgate das práticas mais antigas sem negar os avanços da medicina convencional", define o mé­dico Paulo de Tarso Lima, coordenador do Grupo de Medicina Integrativa do Hospital Israelita Albert Einstein. Esse modelo tem raízes na con­cepção milenar de saúde dos orientais. "Entende­mos que o processo de cura não depende de um procedimento, mas da reação do organismo. As terapias são ferramentas para que se restabeleça o equilíbrio e o paciente se recupere", explica Lima. Daí porque se prefere o termo "Integrati­vo" a "alternativo": a proposta não é trocar um tratamento por outro, mas analisar qual deles ou que combinação teria melhor resultado, sem perder de vista a necessidade de oferecer con­forto num momento penoso. "Se pensarmos em alguém com câncer, não podemos tratar apenas o tumor. É preciso considerar outras demandas desse paciente, como questões emocionais, espirituais e familiares. Nesse contexto, terapias complementares ajudam a minimizar a dor, a an­siedade ou depressão e até efeitos colaterais dos tratamentos convencionais", diz Plínio Cutait, responsável pelo serviço de cuidados íntegrativos do Hospital Sírio- Libanês, que lança mão de reiki, acupuntura, meditação e outras técnicas.

Sob investigação

O programa de pós-graduação do Einstein con­templa terapias de toque, técnicas que trabalham a conexão mente/corpo e as medicinas chinesa e indiana, mas deixa clara a preocupação de in­vestigar quando faz sentido aplicá-Ias. "Só com análise crítica podemos ver o que realmente fun­ciona e merece ser incorporado ao dia a dia", conta a enfermeira e pesquisadora Eliseth Leão, que comanda a iniciativa ao lado de Lima. Essa mes­ma visão norteia estudos nos EUA. O O Memorial Sloan-Kettering Cancer Center liderou uma das maiores revisões sobre acupuntura e dor crônica, concluindo que sua eficácia não se resume a efeito placebo. Em Harvard, uma das linhas de pesquisa analisa o papel da meditação para contrapor pro­blemas cognitivos. E no próprio Einstein exames de neuroímagern são usados para entender como meditar interfere no cérebro.

Às vezes surgem até conclusões conflitantes: trabalhos dizendo que ioga ajuda a acabar com dores crônicas e outros questionando isso, o que justifica a necessidade de realizar pesquisas bem construídas, com grande número de participantes. Há casos, como o dos florais de Bach, em que revisões indicam que seu efeito é semelhante ao placebo. O Ministério da Saúde também lançou editais de pesquisa para investigar o custo/efetivi­dade dessas terapias e seus benefícios nas doenças crônicas. Essas análises permitirão responder se as práticas integratívas ajudam a poupar os cofres públicos. "Num primeiro momento, sabemos que há um gasto para montar farmácias homeopáticas ou de fitoterápicos, bem como capacitar profissio­nais. Mas talvez se economize em longo prazo", diz Patrícia. Faz sentido se considerarmos que a medicina integrativa procura não só resolver um problema, mas reequilibrar o organismo para prevenir novas crises. É de esperar que, diante de indicações aprovadas pela ciência, quem saia lucrando é a saúde do brasileiro.

• Acumpuntura

A prática milenar de origem chinesa vira e mexe é colocada à prova pela ciência. Nos últimos anos. pesquisadores queriam saber se a ação das agulhadas em pontos específicos não era algo apenas deflagrado pela mente (o tal efeito placebo) e decifrar como ela interfere no organismo. No final de 2012, um dos maiores estudos na área, financiado pelo Centro Nacional de Medicina Complementar e Alternativa dos EUA, jogou evidências sobre a discussão: depois de revisar 29 pesquisas, totalizando quase 18 mil participantes, o trabalho mostra que a acupuntura tradicional ajuda a combater dores crônicas nas costas, na cabeça e ligadas à artrite. "Essa é a maior análise já feita para verificar se há diferenças entre a terapia de verdade e a baseada em pontos falsos, o placebo. Ela resolve a questão de que a acupuntura não se restringe a um mero efeito da mente", diz o epidemiologista Andrew Vickers, do Memorial Sloan-Kettering Cancer Center, líder da investigação. Estudos já identificaram áreas do cérebro acionadas pelas agulhas, entre elas nosso centro de controle da dor. "A acupuntura promove a liberação de substâncias analgésicas, as endorfinas, mas precisamos entender agora como se dá essa ação permanente na dor crônica". diz Vickers.

- Origem: China Antiga

- Principais indicações: dor nas costas, dor de cabeça, problemas nas articulações, pressão alta, sintomas indesejados da menopausa e da gravidez, ansiedade, depressão, insônia, efeitos adversos de tratamento contra o câncer, distúrbios cognitivos.

- Contraindicações: pessoas com alergia intensa ou lesões na pele, muita sensibilidade a agulhas, fobia de ser picada e imunidade baixa.

- Onde fatam evidências; enxaqueca crônica, tratamento de alguns tipos de câncer, doenças cardíacas agudas.

- Agulhadas contra a dor

Como as pesquisas sugerem que a acupuntura funcione

AGULHOU

O acupunturista introduz as agulhas finíssimas e descartáveis em pontos predeterminados pela medicina tradicional chinesa - são mais de 300. Cada ponto tem uma ou mais funções, relacionadas, por exemplo, ao estado de alguns órgãos e ao controle das emoções. As agulhas passam por toda a pele e entram em contato com o músculo.

EFEITO NERVOSO

Nesse caminho a espetada aciona diversas terminações nervosas. Além de relaxar a musculatura local, esse estímulo é transmitido, por meio dos nervos, até a medula espinhal, fazendo com que ela libere substâncias que cortam a sensação de dor.

IMPACTO CEREBRAL

A história não termina aí: os impulsos nervosos são redirecionados à massa cinzenta. Ali são ativadas áreas do cérebro que administram a dor e liberados mensageiros químicos.
os neurotransmissores, com destaque para a serotonina, por trás da sensação de bem­ estar, e endorfina, nosso analgésico orgânico.

- Muito além das agulhas

Outros métodos que compartilham da mesma base terapêutica da acupuntura. Contudo, eles não foram avaliados na revisão sobre acupuntura e dor crônica.

1 - Acupressão

Em vez das agulhas, o terapeuta recorre às próprias mãos ou aos dedos para massagear e pressionar determinadas regiões do corpo. É recomendada para quem tem fobia de ser espetado.

2 - Localizada

Também conhecida como acupuntura por sistemas: as agulhas são focadas em áreas do corpo, como orelhas, cabeça e pés. Essas regiões apresentam um número expressivo de pontos que fazem conexão com o resto do organismo.

3 - Eletro aupuntura

É parecido com o método tradicional. A diferença é que as agulhas estão ligadas a um aparelho emissor de correntes elétricas. Esse estímulo mais intenso poderia agilizar a resposta à terapia .

4. Moxabustão

O especialista queima bastões feitos de ervas (eles lembram incenso) próximo aos locais onde ficam os pontos. O estímulo se dá, portanto, em função do calor, mas a pele não chega a ser tocada, nem queimada.

• Musicoterapia

Assim como um sambão instiga o corpo a se mexer e uma sonata nos deixa contemplativos, a capacidade que a música tem de alterar o ânimo é utilizada com fins terapêuticos. "As melodias interferem no sistema límbico, nosso centro das emoções, alteram o padrão de ondas cerebrais e propiciam a liberação de substâncias relaxantes e analgésicas", diz Eliseth Leão, cujo mestrado e doutorado tratam de musicoterapia. Um experimento da Universidade do Kentucky, nos EUA, mostrou que pessoas submetidas a cirurgia e expostas a uma seleção musical durante e após a operação se recuperaram mais rápido que aquelas que só ouviram os médicos te;mulo se dá, portanto, em função do calor, mas a pele não chega a ser tocada, nem queimada.

• Musicoterapia

Assim como um sambão instiga o corpo a se mexer e uma sonata nos deixa contemplativos, a capacidade que a música tem de alterar o ânimo é utilizada com fins terapêuticos. "As melodias interferem no sistema límbico, nosso centro das emoções, alteram o padrão de ondas cerebrais e propiciam a liberação de substâncias relaxantes e analgésicas", diz Eliseth Leão, cujo mestrado e doutorado tratam de musicoterapia. Um experimento da Universidade do Kentucky, nos EUA, mostrou que pessoas submetidas a cirurgia e expostas a uma seleção musical durante e após a operação se recuperaram mais rápido que aquelas que só ouviram os médicos conversando. A hipótese é que sons plácidos aliviem o estresse e tirem o foco da situação a ser enfrentada. As sessões de musicoterapia duram, em geral. 20 minutos e podem ser em grupo ou individuais. "A escolha do repertório respeita o objetivo do tratamento e o perfil do paciente", diz Eliseth. E a terapia continua até fora do consultório, já que é possível escutar um playlist em casa.

- Origem: embora o uso da música em ruituais terapêuticos remonte á Antiguidade, sua entrada para valer na medicina moderna se deu na década de 1960.

- Principais indicações: controle do estresse, dores agudas e crõnicas, ansieidade, depressão, distúrbios cognitivos, autismo, recuperação no câncer.

- Contraindicações; vítimas recentes de derrame e portadores de epilepsia musicogênica (condição rara em que os estímulos sonoros provocam convulsões).

- Onde faltam evidências: doenças psiquiátricas que geram estados de excitação e alucinação.

- Música para o seu organismo

Como os sons interferem no corpo, segundo evidências científicas:

NO CÉREBRO

Estudos de neuroimagem indicam que as sessões de musicoterapia alteram o padrão de ondas cerebrais e ativam algumas áreas da massa cinzenta. É o caso do hipotálamo, região que controla o apetite e o estado de humor, o tálamo, que interpreta as sensações, e o hipocampo, que responde pela memória recente.

NOS PULMÕES E NOS VASOS

Melodias mais calmas também guiam o compasso da respiração: a tendência é inspirarmos e soltarmos o ar de maneira mais cadenciada, o que não só boicota o estresse, como também estimula o coração a bater menos acelerado e os vasos sanguíneos a relaxarem, baixando a pressão arterial.

NA MUSCULATURA

A música, quando bem selecionada, também estimula a liberação de neurotransmissores como a dopamina, ligada ao prazer, e a endorfina, que corta a sensação de dor. Isso repercute na nossa musculatura, minimizando o estado de tensão e contração.

• Homeopatia

Quem é que nunca fez (ou pelo menos já ouviu falar em alguém que fez) um tratamento com gotinhas ou comprimidos homeopáticos? Desde que a Associação Médica Brasileira a reconheceu como uma especialidade em 1980, a homeopatia se tornou bastante popular no país. Tal avanço não eliminou, contudo, a desconfiança de uma extensa parcela dos próprios médicos, que acreditam na falta de evidências capazes de legitimar seu uso. "A medicina hoje é muito atrelada ao mercado e a indústria farmacêutica teme a homeopatia pelo fato de que ela é simples, mais barata e contraria o filão dos laboratórios, que é a doença em si", opina o pediatra e homeopata Renan Marino, professor da Faculdade de Medicina de São José do Rio Preto. Marino desenvolveu uma experiência pioneira com um remédio homeopático frente à epidemia de dengue que assolava essa cidade no interior paulista. Cerca de 20 mil doses foram distribuídas entre a população e houve uma queda de 80% no número de casos da infecção registrados - e nenhuma pessoa evoluiu para a forma hemorrágica e mais grave da doença. Hoje, o especialista investiga o potencial da homeopatia em crianças com hiperatividade. "Em 80% dos casos, podemos tirar a droga normalmente receitada e só o homeopático já consegue equilibrar a agitação", conta. Apesar desses resultados, há pesquisadores que questionam sua eficácia e modo de ação. O médico alemão Edzard Ernst, da Universidade de Exeter, na Inglaterra, afirma, depois de inúmeras investigações no campo das terapias alternativas, que seu efeito não passa de placebo. "Um remédio homeopático costuma ser tão diluído que não chega a ter qualquer molécula ativa. Há quem defenda que algum tipo de energia é transferido ao produto no processo de diluição, mas essa hipótese é implausível", diz. Com base nisso, Ernst salienta que a homeopatia não deveria substituir intervenções convencionais diante de um problema de saúde mais grave.

- Origem: criada pelo alemão Samuel Hahnemann no século 19 com base em princípios descritos pelo grego Hipócrates no século 4 a.c.

- Indicações: pode ser usada sozinha ou junto a um tratamento convencional em diferentes problemas, como resfriados, bronquite e sinusite, doenças que geram dor crônica e queimaduras.

- Contralndlcações: não há, a menos que existam reações adversas a compostos específicos.

- Onde faltam evidências: Infecções severas, alergias e dermatites intensas, quadros que cobram internação.

• Fitoterápicos

Um dos hábitos mais antigos da humanidade é recorrer à natureza para abrandar males do corpo e da alma. E não é à toa que uma porção de remédios, hoje fabricados por farmacêuticas, tem seu princípio ativo baseado em substâncias encontradas originalmente em plantas. A fitoterapia se apoia justamente no princípio de usar o que o reino vegetal oferece para tratar doenças e isso pode ser feito por meio de extratos, infusões, cápsulas, pomadas ... Sua força no Brasil parece vir das nossas heranças históricas - basta pensar na cultura indígena - e da diversidade da nossa flora. Acontece que, a exemplo de outras práticas, o uso de plantas carece do carimbo cie

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