Terceirização de ideias


Em busca de soluções inovadoras, as empresas utilizam a internet para propor desafios de negócios aos jovens.

Revista Você S/A - por Nataly Pugliesi 

Na década de 1980, os executivos de grandes empresas enchiam o peito para dizer que suas companhias ti­nham programas de qualidade - na época, um diferencial competitivo. O desafio então era pa­dronizar os processos de produção e otimizar o tempo de desenvolvimen­to do produto. Esse período ficou pa­ra trás e o maior desafio das empre­sas na atualidade é inovar. Criar o no­vo já se tornou uma questão de sobre­vivência em um mercado de compe­tição global. Por isso, as corporações que querem ter um negócio susten­tável têm buscado - dentro e fora de casa - ferramentas que impulsionem o surgimento de projetos no mínimo inspiradores. "Raramente ideias ino­vadoras são encontradas dentro da or­ganização. O ambiente corporativo de­forma os funcionários e faz com que eles percam a criatividade", diz o ho­landês Hans van Hellemondt, espe­cialista em inovação.

O diretor de ambientes digitais e inovação da construtora Tecnisa, Romeo Bussarello, acredita que as pessoas estão executando muito e criando pouco, como se operassem no automático. "Trabalhamos de­mais, concentrados na rotina diá­ria, nos prazos, e não conseguimos ter novas ideias. As organizações nos deixam embrutecidos e temos que ter humildade de ir para o mercado buscar inspiração", diz o executivo.

Observando essa tendência no Bra­sil, Hans trouxe para cá uma ideia que surgiu na Holanda em 2005, o site Battle of Concepts (BOC). Aqui, ele se associou à empresa TerraFo­rum e traduziu o nome do site para Batalha de Conceitos, que estreou no final de 2009. Na página, as compa­nhias lançam desafios online, nor­malmente relacionados a problemas interno dos negócios, e estudantes universitários ou jovens profissio­nais, com idade entre 17 e 30 anos, postam suas soluções. "O funcionário é cobrado por resultados. Ele não pode desviar das metas e das tarefas do dia a dia, e por isso não consegue criar. Há pressão para ino­var, mas não há tempo para isso. Já nas universidades, os estudantes têm tempo e, por isso, os resulta­dos lá são melhores", diz o executi­vo-chefe da TerraForum, José Cláu­dio Terra. A vantagem desse modelo é que os profissionais estão expos­tos a outros ambientes que não o de uma corporação e, dessa forma, têm a cabeça aberta para experimentar.

O melhor é que esses estudantes estão criando projetos com quase o mesmo nível de profissionalismo en­contrado nas corporações, às vezes, em áreas que não são as deles. "O mo­delo permite reunir jovens talentos com competências técnicas, mas que não estão sob a pressão do cotidia­no das empresas", completa Mônica Reiter Bissi, gerente de RH da Vopak, empresa especializada em armazena­mento de gás liquefeito, óleos e pro­dutos petroquímicos. No site, as em­presas ficam com a propriedade inte­lectual dos projetos, podendo ou não colocá-los em prática. As dez melho­res soluções dividem cerca de 15 000 reais. Já participaram do BOC 7 000 estudantes, 180 universidades e 13 gran­des empresas, como Ambev e Natura.

• Vitrine de talentos

De quanto mais batalhas o jovem participa, maiores as chances de conquis­tar os Battle Points (pontos) e mais inovador será considerado. O site apre­senta um ranking dos alunos e das universidades mais bem colocadas. "De um lado, as empresas têm desafios e querem a ajuda de jovens para resolvê­-Ias. De outro, os estudantes têm necessidade de mostrar para o mundo seu talento", diz o holandês Hans van Hellemondt. Na Holanda, o site ficou tão famoso que jovens profissionais passaram a colocar os pontos no currículo. E tudo indica que aqui iremos pelo mesmo caminho. "Recebemos ligações de um banco pedindo os contatos dos 20 primeiros jovens do ranking porque eles querem contratá-los", diz José Cláudio Terra. E a ideia é essa mesmo. As empresas não necessariamente estão buscando soluções prontas. Elas que­rem insights e, principalmente, o contato com os bons talentos.

• Caos focado

Foi esse o nome que o grupo de três estudantes de engenharia meca­trônica da Poli-USP deram ao pro­cesso de brainstorm que criaram. Daniel Damas, de 25 anos, Miguel Chaves, de 25, e Diogo Dutra, de 24, têm em comum a vontade de tra­balhar com inovação. Miguel trou­xe de um curso no instituto de Tec­nologia de Massachusetts a ex­periência sobre processo de cria­tividade e Diogo trouxe de um in­tercâmbio na França teorias do curso de engenharia de design.

Juntos, transformaram a casa do amigo Daniel num laboratório on­de reúnem pessoas de diversas áreas em busoa da diversidade de pensamentos. "A mistura traz ideias criativas", diz Daniel. A cada encontro, depois de muitos post­-its, eles têm ceroa de 300 ideias.

O grupo se classificou em 1º lugar na Batalha da Tecnisa. Criaram o projeto de um condomínio de pré­dios que sequestra gás carbônico (CO2) e o vende no mercado de créditos. Dessa forma, os morado­res se apropriariam do dinheiro e não teriam de pagar as taxas de condôminio. "Quem economizar mais na emissão de CO2 vende cotas para os vizinhos", afirma Diogo. Eles ficaram em 6º lugar na Batalha da Vopak e em 3º na Inovatec, feira de inovação do governo de Minas Gerais. "V&aac cute;rias empresas nos con­vidaram para trabalhar, mas não aceitamos porque vamos montar a nossa própria companhia", diz Miguel. Na Batalha, a Tecnisa re­cebeu 52 soluções e montou uma equipe de avaliação. "Não quere­mos ideias prontas, mas, sim, a inspiração que mova nosso pes­soal", afirma Romeo Bussarello.

• Administração compartilhada

Na Holanda, até o setor público entrou na brincadeira. "Lá, o Minis­tério da Educação pediu ideias do que poderia ser feito para diminuir o índice de 30% de alunos que deixam a faculdade pública no primeiro ano. Com isso, o gover­no mostra que quer se aproximar dos líderes do futuro", diz o holan­dês Hans van Hellemondt.

Seguindo o exemplo, Minas Gerais lançou uma batalha na feira Inovatec. "O governo saiu da caixa e começou a trabalhar com a sociedade. O normal é o gover­no criar e levar para fora. Aqui, ele tenta compartilhar, para ser mais eficiente", diz Heber Pereira Ne­ves, coordenador da Inovatec.

A dupla vencedora foi a de estudantes de publicidade da ECA-USP, Eric Anacleto Ribeiro, de 21 anos, e Bárbara Doro Za­chi, de 22. Eles propuseram criar um portal com sistema de feed, desenvolver um aplicativo para smartphone, realizar pop up sto­res e uma disputa por empresas juniores. "A proposta foi uma das mais criativas. Reuniu processos que já existiam em um só", afir­ma Heber. A Secretaria de Esta­do de Ciência, Tecnologia e Ensi­no Superior de Minas Gerais de­ve unir várias ideias em um único projeto. "Participar de um desa­fio aberto de inovação valorizou o meu currículo e aumentou mi­nha confiança diante de desafios que posso encontrar no merca­do", diz Bárbara. Eric concorda: "Aprendi muito mais do que nas próprias aulas da faculdade, por­ que vivemos a teoria na prática".

• Experiência no currículo

Gabriel Estevam Domingues, de 22 anos, estudante do primeiro ano de en­genharia ambiental na Unimonte, em Santos, pegou o gosto pela pesquisa por causa do BOC. Ficou sabendo do site pelas redes sociais e resolveu aceitar o desafio proposto pela Vopak, empresa do setor químico.

Ele desenvolveu um processo de aquecimento por traços elétricos, que converte energia elétrica em térmica e somou a isso conceitos de isola­mento nos tanques e nas tubulações. Para convencer a empresa, apre­sentou um projeto abrangente. Fez cálculos de calorimetria, um memorial descritivo no qual explica os cabos que seriam utilizados e um pequeno estudo de viabilidade econômica. "O projeto do Gabriel foi o que apresen­tou mais elementos que poderiam ser colocados em pratica", diz Mônica Reiter Bissi, gerente de recursos humanos da Vopak com sede em San­tos, no estado de São Paulo. Para lançar a batalha, a companhia se utili­zou de um processo de inovação aberto internamente. "Pedimos a parti­cipação dos funcionários para que nos ajudassem a identificar quais se­riam os nossos desafios. Isso estimulou a reflexão", conta Mônica. Para a Vopak, alguns fatores são importantes: o estreitamento de laços com jo­vens talentos e o reforço da cultura de inovação entre os colaboradores. Gabriel participou de duas batalhas dessa companhia, ficou em 1º e 2º lu­gar e está em 3º lugar no ranking geral. "Antes, eu mandava meu currículo e não era aceito porque não tinha experiência. Agora, estou até recusan­do proposta de trabalho", diz o estudante.

• Um convite à inovação aberta

- Na mesma onda do Batalha de Conceitos, outros sites estão surgin­do. Já existe o Zooppa, no qual empresas lançam seus desafios voltados à publicidade, e artistas criam peças publicitárias e até campanhas em vídeo. Os prêmios são polpudos, aproximadamente 10 000 dólares para o escolhido. Grandes marcas têm passado por lá, como Riachuelo, Sprite, Axe, Greenpeace e Tecnisa.

- Inspirada pelo BOC e pelo Zooppa, a Tecnisa criou seu próprio site de inovação aberta, o Tecnisa Ideias. Em menos de 60 dias, foram enviadas 500 ideias. "Recebemos inspirações que nos levam a outras ideias", diz Romeo Bussarello.

- A Whirlpool também tem duas ferramentas de ino­vação aberta: o Freedom, um projeto da Brastemp que propõe o desenvol­vimento de eletrodomés­ticos conceito, processo de criação conjunta com consumidores para enten­der suas reais necessida­des e colher percepções. E o Prêmio Inova, que incentiva pesquisas em tecnologia, inovação e design entre estudantes e professores de graduação e pôs-graduação. "Nesse tipo de iniciativa, a expec­tativa é que uma resposta criativa se some às ações já desenvolvidas pela empresa. Afinal, promove o contato com um público que está exposto a outro tipo de ambiente, por isso, tem referências e pontos de vista diferentes, que só agregam ao processo", diz Mario Fioretti, gerente­ geral de design industrial e inovação da Whirlpool.

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