Timidez, como usá-la a seu favor


Novas pesquisas mostram que os introvertidos podem ser mais concentrados, mais criativos - e mais bem-sucedidos.

Revista Época - por Natália Spinacé

Eles estão em todos os lugares, na vida real e na ficção, da literatura clássica à cultura pop. O introvertido número um da literatura talvez seja Julien Sorel, protagonista do romance O vermelho e o negro, do século XIX. Fã de filosofia e de leituras religiosas, o personagem criado pelo francês Henri-Marie Beyle, conhecido como Stendhal, leva centenas de páginas até conseguir se aproximar da amada. Madame de Rênal - uma paixão proibida, pois ela é casada com o prefeito da fictícia cidade de Verrières. Na cultura pop, esse papel é exercido por Clark Kent, habitante de outra cidade fictícia, Metrópolis. Ele ganha a vida como repórter do jornal Planeta Diário. Criação do gigante dos quadrinhos DC Comics, Kent treme quando se aproxima da colega Lois Lane, por quem é apaixonado. Só se desinibe quando veste a cueca por cima da calça e combate o crime com a capa de Super-Homem.

A ficção imita a realidade. Sorel, Kent e os introvertidos da vida real padecem do mesmo desajuste: viver numa sociedade que valoriza os populares, os esfuziantes, os palradores - e despreza os que coram, gaguejam, suam nas mãos. Aqueles que, em resumo, lamentam que a espécie humana seja gregária obrigando-os a interagir o tempo todo com seus semelhantes. E que veem uma profunda e incômoda realidade na máxima do filósofo francês Jean-Paul Sartre: "O inferno são os outros". Para os representantes dessa turma, o livro Quiet: the power of introverts in a world that can"t stop talking (algo como Quietos: o poder dos introvertidos em um mundo que não para de falar), da americana Susan Cain, é mensa­geiro de uma boa-nova. A obra, que chegará às livrarias brasileiras em maio pela Editora Agir, contraria um lugar-comum, segundo o qual tí­midos e introvertidos devem fazer um esforço para deixar de ser o que são, como se tivessem uma doença. Para Susan Cain, deve ocorrer exatamente o oposto. Os tímidos e os introver­tidos mais bem-sucedidos são justamente aque­les que transformam timidez e introversão em aliados ao longo da vida.

Timidez e introversão, embora tratadas corriquei­ramente como sinônimos, descrevem, segundo os psicólogos, características distintas. A timidez é o so­frimento pela exposição ao julgamento alheio. Acomete aqueles que temem passar vexame, cometer erros ou não encontrar as palavras adequadas. A introversão caracteriza aqueles que preferem ficar sozinhos e se sentem mais à vontade e produtivos no isolamento e no silêncio. Quase todo tímido desenvolve um comportamento introvertido. Mas o inverso não é verdadeiro. Alguns introvertidos podem ser até desinibidos, como o presidente americano, Barack Obama. Ele não treme diante do público. Apenas valoriza seus momentos de paz com a família - ou sozinho, lendo e escrevendo.

O que tímidos e introvertidos têm em comum, de acordo com Susan Cain, é uma certa circuns­pecção que, bem administrada, pode ser útil para o sucesso pessoal e profissional. Claro que Susan não se refere ao antissocial patológico, portador de níveis de ansiedade insuportáveis diante de si­tuações sociais corriqueiras, como frequentar um restaurante lotado. Nesses casos, o recomendável é um tratamento. Fora desse extremo, existem vários casos de sucesso entre tímidos e introver­tidos, do já citado Barack Obama ao compositor Chico Buarque (leia exemplos nos quadros ao final da reportagem).

Entre eles está a própria autora do livro. Quem lê o currículo de Susan Cain não suspeita que a advogada que se tornou consultora de liderança de grandes grupos - como o Merrill Lynch, banco de investimento depois adquirido pelo Bank of America na crise de 2008 - suou frio antes de dar palestras sobre estratégias de negociação. Susan é formada pelas prestigiadas universidades Prin­ceton e Harvard, defendeu por sete anos causas de empresas como o gigante General Electric e ganha dinheiro ensinando executivos de Wall Street a negociar. Ela garante que seu sucesso no mundo corporativo se deu graças a esses traços - e não apesar deles. As tendências solitárias dos introvertidos são, na verdade, os poderes que po­dem transformar Clark Kents em Super- Homens. "Aprendi que somos ótimos negociadores porque pensamos antes de falar, nos expressamos com calma e escutamos o que os outros falam", afirma Susan. Ela não advoga apenas em causa própria. De acordo com um levantamento do psicólogo americano Jonathan Cheek, professor da Univer­sidade Wellesley, para cada meia dúzia de pessoas, há dois ou três introvertidos.

• Tempo para estudar

Em sua pesquisa, Susan revirou estudos cien­tíficos para entender como a circunspecção serve de base para o sucesso. Com isso, listou as ca­racterísticas da personalidade introvertida úteis para o dia a dia. A primeira é fácil de imaginar: os circunspectos gastam menos horas em con­versas e badalação. Logo, ganham em tempo para se informar e aprender. Num estudo realizado com 141 estudantes, os psicólogos Eric Rolfhus e Philip Ackerman, pesquisadores da Universidade de Minnesota, nos Estados Unidos, testaram o co­nhecimento dos alunos em 20 assuntos diferen­tes, da astronomia à estatística. O resultado mos­trou que os que se consideravam introvertidos sabiam mais que os extrovertidos em 19 assuntos. A atriz Bianca Salgueiro, de 18 anos, intérprete de Carolina na novela Fina estampa, atribui seu bom desempenho no vestibular às horas extras de estudo que ganhou, graças a seu pendor para a ficar sozinha. Foi a primeira colocada entre 45 mil can­didatos à Universidade do Estado do Rio de Janei­ro. De acordo com a classificação dos psicólogos, ela é uma típica introvertida. "Não tenho proble­mas para me colocar. Apenas prefiro ficar mais quieta", diz. Ela afirma que gosta de ter poucos - e bons - amigos e que estuda nos intervalos das gravações em vez de conversar. "Se fosse muito extrovertida, não prestaria tanta atenção na aula e também gastaria mais tempo fazendo social e menos tempo estudando", diz.

A segunda característica útil da personalidade introvertida é a insegurança com a própria timi­dez. Ela leva o introvertido a se esforçar de ma­neira redobrada para se sair bem em situações sociais. Essa ferramenta é especialmente útil no mundo do trabalho, como atesta o publicitário Felipe Santos, de 32 anos, diretor de mídia digi­tal da Africa, uma das maiores agências do país. Uma de suas principais atribuições é apresentar ideias a clientes - um problema para o rapaz de pele clara que fica vermelho com facilidade e treme para falar em público. Quando entrou na agência, Felipe viu-se obrigado a participar de reuniões com mais de 20 pessoas - para ele, uma multidão. Para isso, desenvolveu técnicas. Ele ensaia exaustivamente as apresentações. O pessoal da agência coopera, escalando Felipe para discursar sempre que possível. O objetivo é que treine cada vez mais. "Por ser introverti­do, me tornei um profissional mais dedicado", diz Felipe. "Sabia que tinha de me superar pela qualidade do trabalho, já que não tinha compe­tência em me vender."

Estratégia semelhante à de Felipe levou Mari­na Frederico ao sucesso. Aos 30 anos, ela virou sócia do grupo Digipronto, que cuida das redes sociais de empresas como Ambev e Sadia. For­mada em arquitetura, decidiu que trabalharia de casa, para não enfrentar entrevistas ou situações de exposição. Depois de meio ano assim, per­cebeu que não daria certo e se cadastrou numa agência de empregos. "Quando me chamaram para a entrevista na Digipronto, nem acreditei", diz. ""Achava que, para trabalhar numa empresa de comunicação, devia ser comunicativa. Minha sorte é que os donos da empresa conseguiram ver potencial para além do marketing pessoal, no meu caso inexistente." Num primeiro momento, ela teve problemas com as reuniões com clientes. A primeira foi um desastre. "Fui apresentar um plano de comunicação para a OX Cosméticos. Fiquei supernervosa, comecei a gaguejar e disse: "Vou passar a palavra a meu chefe". Fiquei arra­sada e pensei: "O.k., não sirvo para isso, vou vol­tar a ser designer"" Foi quando ela decidiu usar uma estratégia semelhante à de Felipe Santos: preparar as apresentações em detalhe. "Estudo a marca profundamente e até a personalidade do cliente para quem vou apresentar o proje­to", diz Marina. Um pouco antes da reunião, ela treina com algum colega de trabalho. Para Ma­rina, a vantagem de ser tímida é a observação. "Fico quieta e passo despercebida, mas estou sempre atenta. Também observo os colegas de trabalho, para saber lidar com cada um deles:"

• Isolamento e criatividade

A terceira vantagem dos tímidos é que o iso­lamento, ao contrário do que diz o senso co­mum, estimula a criatividade. Embora a cultu­ra corporativa tenha inventado as reuniões de brainstorming e os escritórios com poucas divi­sórias para estimular o que, no jargão corpora­tivês, é chamado de "sinergia", é na solidão que germinam as ideias criativas, dizem estudiosos como o psicólogo alemão Hans Eysenck, morto em 1997. Sem distrações com estímulos sociais, há mais tempo para pensar e estabelecer ligações inusitadas entre assuntos diversos. O cérebro dos introvertidos está preparado para funcio­nar desse jeito, de acordo com pesquisadores da Universidade Stony Brook, nos Estados Unidos. Eles fizeram exames de ressonância magnética em pessoas com tendências à introversão e no­taram que, enquanto eles observavam imagens, as áreas cerebrais mais ativadas eram as encar­regadas de fazer associações com informações já armazenadas.

Na Universidade da Califórnia em Berkeley, os cientistas chegaram a conclusões parecidas. Eles analisaram o trabalho prático de arquitetos, engenheiros, escritores e cientistas que ganharam relevância em suas especialidades. Concluíram que a maioria tinha comportamento introverti­do. O escritor Enrique Vila-Matas, um dos mais importantes nomes da atual literatura espanhola, disse a ÉPOCA que seu gosto pela circunspecção é sua fonte de inspiração. "A timidez é uma fonte inesgotável de desgraças na vida prática, mas nos permite uma interessante vida interior", afirma: "Já fui muito mais arredio ao convívio social, mas agora finjo que continuo tímido, assim me deixam quieto para produzir."

Vila-Matas sugere que o isolamento é uma vantagem em profissões artísticas - e isso parece verdadeiro até em áreas onde a introversão seria naturalmente vista como um entrave, como no teatro. O paulista Lino Reis, de 31 anos, ator do grupo de teatro Os Satyros, sofreu com a timidez na infância. Na adolescência, apaixonou-se pelo teatro, mas o início não foi fácil. "Na primeira aula, fizemos um exercício em que eu era obri­gado a conversar com um colega e depois apre­sentá-lo aos demais. Meu rosto queimava. Pensei em desistir", afirma. O tempo mostrou que sua capacidade de concentração era uma vantagem para a carreira cênica. "Quando estou no palco, a preocupação que tenho com meu desempe­nho é tamanha - não posso errar o texto nem as marcações - que a timidez não tem espaço." Seu autocontrole é tão grande que ele não tem problemas nem quando precisa ficar nu em cena. A introspecção também o ajuda a buscar, nas próprias lembranças, experiências e sentimentos próximos aos dos tipos que interpreta. Quando encarnou o esquizofrênico JB, na peça Dostoiévski no armário, Lino resgatou traumas de infância para interpretar um personagem depressivo. "A profissão de ator parece ser voltada para quem é extrovertido. Mas ela também exige concentra&c ref="https://methodus.com.br/c/160/Concentracao-e-memorizacao.html">capacidade de concentração era uma vantagem para a carreira cênica. "Quando estou no palco, a preocupação que tenho com meu desempe­nho é tamanha - não posso errar o texto nem as marcações - que a timidez não tem espaço." Seu autocontrole é tão grande que ele não tem problemas nem quando precisa ficar nu em cena. A introspecção também o ajuda a buscar, nas próprias lembranças, experiências e sentimentos próximos aos dos tipos que interpreta. Quando encarnou o esquizofrênico JB, na peça Dostoiévski no armário, Lino resgatou traumas de infância para interpretar um personagem depressivo. "A profissão de ator parece ser voltada para quem é extrovertido. Mas ela também exige concentração e profundidade", diz.

Além de dedicados, criativos e concentrados, os introvertidos ainda têm um bônus: perdem menos dinheiro. A pesquisadora americana Camelia Kuhnen, da Escola de Administração Kellogg, da Universidade Northwestern, em Chicago, descobriu um gene associado a pessoas que buscam emoções fortes. Ele está presente também naqueles que se expõem mais na administração das finanças. Os que têm a variante genética mais ligada à introversão se arriscam 28% menos a perder dinheiro. Outros estudos mostram que os introvertidos tendem a ser apostadores mais bem-sucedidos porque medem melhor os riscos. Não por acaso, o investidor mais rico do mundo é o tímido Warren Buffett.

A cultura da extroversão

Apesar das evidências em favor do com­portamento introvertido, existe uma cultura que valoriza a extroversão. Nas dinâmicas de grupo para conseguir emprego, os mais quie­tos se sentem em desvantagem em relação aos candidatos que roubam a cena. A impressão, infelizmente, é verdadeira. "Se alguém não se expõe, não consegue mostrar seu potencial", afirma a psicóloga Manoela Costa, gerente da Page Talent, consultoria que recruta estagiários. Nas escolas, os professores apostam nos trabalhos em grupo para treinar nas crianças as habilidades sociais. "Estimular a participação na sala de aula ajuda o aluno a desenvolver sua capacidade verbal e o motiva a interagir", diz Maria Márcia Malavazi, coordenadora do cur­so de pedagogia da Universidade Estadual de Campinas. Nas prateleiras virtuais da Amazon, a maior livraria on-line do mundo, estão à ven­da mais de 200 livros para tornar desenvoltos aqueles que são mais chegados à solidão.

A explicação mais famosa para o culto mo­derno à extroversão foi dada pelo historiador americano Warren Susman, que morreu em 1985. Para ele, a valorização da boa comunica­ção pessoal foi resultado da própria Revolução Industrial do século XVIII, quando as pessoas migraram do campo para a cidade na Europa. Num círculo maior de convívio, as características mais importantes para o sucesso passa­ram a ser as que transmitem uma boa imagem
pessoal. "Por causa dessa conspiração dos sociá­veis, os introvertidos se esforçam para se adequar e frustram seu potencial de desenvolvimento", diz a psicóloga americana Barbara Markway, au­tora do blog Shyness Is Nice (Timidez É Legal). Tal ideia moldou até a geografia dos ambientes de trabalho - e, como tudo o que se tornou cul­turalmente relevante no século XX, foi parar no cinema. No clássico Se meu apartamento falasse (1960), um tímido quase patológico interpreta­ do por Jack Lemmon trabalha numa repartição em que todos se amontoam em mesas sem baias. No mais recente Beleza americana (1999), outro introvertido, interpretado por Kevin Spacey, fica embaraçado ao constatar que todos ouvem suas conversas telefônicas.

A boa notícia é que as empresas acordaram para um fato: submetendo os tímidos e os in­trovertidos ao que para eles é constrangimento, podem perder alguns de seus profissionais mais talentosos. Um estudo feito pelos americanos Tom DeMarco e Timothy Lister ficou famoso ao sugerir que o desempenho de programadores de software estava mais ligado às condições de trabalho do que à remuneração e ao tempo de experiência na função. Foram entrevistados 600 programadores em 92 empresas. Mais de 60% en­tre os melhores disseram que tinham privacida­de no trabalho. Entre os com pior desempenho, 76% disseram ser constantemente interrompi­dos. Algumas empresas já perceberam o poder dos introvertidos e levam em consideração essa característica na hora de contratar e de planejar o esquema de trabalho desses funcionários. É o caso da rede Pizza Hut. "Os tímidos normalmente são concentrados e apresentam bons resultados", diz Daniella Cristina de Oliveira, gerente de recursos humanos do Pizza Hut. Há três anos, a empre­sa investiu num novo modelo de trabalho para privilegiar as necessidades dos introvertidos. Im­plantou, assim, um programa para quem quisesse trabalhar em casa. O gerente patrimonial Luiz Carlos dos Santos, de 43 anos, que tem suores e taquicardia quando se apresenta em público, foi um dos primeiros a aderir. "Quando trabalhava na sede da empresa, perdia tempo e energia para sociabilizar", diz. "Em casa, estou concentrado no trabalho." É possível que, com o alerta de pessoas como Susan, a introversão comece a ser valoriza­da. Quem sabe na ficção do futuro as Madames de Rênal sucumbam mais cedo ao charme dos Juliens Sorel. E os Clarks Kent não precisem usar sungas escarlates para ser notados.

• As vantagens no mundo do trabalho

Os introvertidos evitam conversas dispersivas. Para superar o desconforto preparam-se exaustivam-ente para reuniões e apresentações.

Felipe Santos

32 anos - Publicitário

Uma das principais atribuições de Felipe, diretor de mídia digital da Africa, uma das maiores agências do país, é apresentar ideias a clientes. Um problema para o rapaz de pele clara que fica vermelho e treme para falar em público. Santos é tímido e introvertido. Quando entrou na agência e foi obrigado a participar de reuniões com dezenas de pessoas, desenvolveu técnicas para superar o desafio. Ensaia as apresentações e discursa por qualquer motivo só para treinar. Ele se sai melhor do que muito extrovertido. "Sou mais dedicado", diz

Luíz Carlos dos Santos

43 anos - Administrador de empresas

Ele é daqueles que suam e tremem quando são o centro das atenções numa reunião. Mas a timidez não em

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