Trabalhe seu bem-estar


Novas pesquisas mostram que a forma como trabalhamos está nos deixando mais doentes. Os sintomas são surtos de ansiedade, depressão e problemas cardíacos. Saiba como ter um estilo mais saudável e dar mais equilíbrio a sua vida.

Revista Você S/A - por Vanesa Vieira

No primeiro semestre de 2011, os executivos brasileiros consumiram mais remédios contra a depressão e a ansiedade do que medicamen­tos para o tratamento de doenças crônicas, como hipertensão, colesterol alto ou diabetes. Nesse período, um em cada cinco desses profissionais fez uso de algum remédio para o tratamento de problemas emocionais. Foi o que revelou um levantamento realiza­do pela ePharma, empresa especializada em planos far­macêuticos corporativos, pelos quais as companhias subsidiam parte dos custos dos medicamentos adquiri­dos por seus colaboradores.

Uma droga, em particular, conquistou o título de cam­peã de vendas para esse público, concentrado na faixa dos 30 aos 49 anos de idade. Foi o Rivotril, fabricado pela Roche, usado no tratamento de problemas como ansie­dade, dificuldade para dormir e até crises de pânico. "A literatura médica mostra que 80% dos pacientes que fazem uso continuado desse tipo de medicamento de­senvolvem dependência", diz Anthony Wong, diretor do Centro de Assistência Toxicológica do Hospital das Clí­nicas da Universidade de São Paulo. Sem o remédio, essas pessoas ficam sujeitas à síndrome de abstinência, com sintomas como queda de pressão, taquicardia, tre­mores, desmaios e até convulsões.

Esses números indicam que o estresse no trabalho pode estar comprometendo a saúde emocional dos bra­sileiros e lançam luz sobre um assunto ainda bastante sensível dentro das organizações. "A imagem do profis­sional de sucesso, confiante e autossuficiente muitas vezes se sustenta sobre o uso de álcool e comprimidos", diz o médico Alberto Ogata, presidente da Associação Brasileira de Qualidade de Vida. "À medida que o exe­cutivo sobe na hierarquia, a organização exige dele que assuma um estereótipo de fortaleza, independentemen­te do custo que isso tenha para a saúde física e emocio­nal, para os relacionamentos familiares e para a vida pessoal desse indivíduo. A demonstração de fragilidade não é bem-vista no ambiente corporativo", afirma o con­sultor de carreira José Valério Macucci.

Muitos executivos demoram a procurar ajuda quando começam a sentir os primeiros sintomas de estresse ou de depressão. "Eles não reconhecem que estão adoecendo. Muitos chegam até nós depois que dão entrada no hospital achando que estão enfartando", diz Mariana Gua­rize, psicóloga do Hospital do Coração de São Paulo (HCor). "Outros relatam dificuldade de desligar depois de mais um dia difícil no trabalho", afirma a psicóloga.

• Mude o estilo de vida

Não espere ficar doente para colocar uma atividade física noa sua rotina. Comece já.

Graças às novas tecnologias, ficamos acessíveis sete dias por semana. Já não basta res­ponder a um e-mail no mesmo dia, é preciso responder instantanea­mente pelo smartphone. O processo de tomada de decisão também ficou mais rápido. "É necessário decidir com agilidade e precisão. O proble­ma é que o senso de urgência não é
compatível com a necessidade de planejamento", diz José Valério Ma­cucci, consultor de carreira de São Paulo e ex-executivo do mercado financeiro. "Precisamos de um novo modelo de gestão. Enquanto ele não é criado, os profissionais vivem um processo de esgotamento", afirma. A saída é não se tornar refém do mo­delo vigente. Busque um estilo de vida que respeite sua agenda pessoal e evite a auto medicação para reme­diar o estresse e a ansieade - hábi­to comum entre os executivos.

Para o psiquiatra Rubens Pitliuk, do Hospital Albert Einstein, não há um excesso no consumo de medica­mentos para aliviar a pressão. "O que temos é um excesso de estresse", diz. Segundo o médico, o uso de re­médios é bem-vindo e pode evitar outras doenças decorrentes da an­siedade. "É melhor o indivíduo re­correr a um remédio do que desen­volver uma gastrite ou ter um infarto." Porém, alguns especialistas alertam que o uso de drogas pres­critas é apenas um paliativo. "Se não houver mudanças no estilo de vida, o problema vai continuar ali", diz Alberto Ogata, da Associação Bra­sileira de Qualidade de Vida. Para ele, se a origem do estresse não for tratada, abre-se espaço para outros problemas de saúde. "O que está por trás da insônia e da ansiedade não é uma mera agitação, mas a pressão mal administrada", diz Ogata.

• Poesia contra o excesso de trabalho

A publicitária Patrícia Tavares, sócia-proprietáriâ da do Brasil Projetos e Eventos, precisou recorrer a remédios por causa do estresse. Entre 2008 e 2010, a empresa praticamente dobrou de tamanho. "Eu trabalhava 14 horas por dia e, à noite, quando não estava acordada por causa de algum evento, tinha dificuldade para desligar. Às vezes, acordava às 5h da manhã cheia de ideias e levantava para anotar", Lembra. "Cheguei a um ponto em que me sentava na frente do computador para a ler e-mails e ficava tonta."

Achando que se tratasse de labirintite, Patrícia procurou ajuda médica e recebeu o diagnóstico de estresse em altíssimo nível. O psiquiatra receitou fluoxetina para controlar a ansiedade. Paralelamente, Patrícia começou a fazer psicanálise. "Foi então que me deu um estalo: se eu só tomar o remédio, mas não transformar minha rotina, os problemas vão continuar", conta. A publicitária começou a praticar ioga e descobriu dois hobbies: a fotografia e a poesia. Os novos interesses já renderam um livro editado por ela, chamado Viagens, Imagens e Poesias, com suas fotos e poemas.

• Natação anti-insônia 

O empresário mineiro Túlio Murta, diretor da QuickMedia, companhia especializada em mídia digital indoor, foi um dos que perceberam que seria preciso promover transformações no estilo de vida para administrar a ansiedade. Nos últimos anos, conforme a empresa crescia e o volume de negócios aumentava, o nível de estresse começou a sair do controle. "Eu não conseguia dormir, ficava irritado e não tinha paciência para nada", lembra. Por indicação médica, começou a usar Rivotril. Alguns sintomas melhoraram, mas ele sentiu que teria de realizar outras mudanças para resolver de verdade o problema. "Não queria que o meu bem-estar ficasse dependente de um remédio", afirma.

A solução foi encontrar outras formas de descarregar a tensão acumulada. Há um ano e meio, Túlio começou a nadar 2 000 metros três vezes por semana e, aos sábados e domingos, passou a fazer trilhas de quadriciclo na montanha. "Esse contato com a natureza me ajuda a recarregar as baterias", garante.

    Administração do Tempo

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